Doping: Rebeca, Jones,
Hingis, Jaqueline e até Romário...Os exemplos
negativos de 2007.
Por Felipe Held, especial para
a GE.Net
| Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta
Press |
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| Alegando não ter vaidade normal às atletas, Rebeca garantiu que sua dedicação à musculação lhe rendeu um corpo masculinizado e não uso de substâncias proibidas |
Em 14 edições dos Jogos Pan-americanos, o Brasil
jamais havia conquistado uma medalha de ouro na natação
feminina. Na 15ª, realizada em julho deste ano no Rio
de Janeiro, o tabu foi superado graças a Rebeca Gusmão,
que entrou para a história ao vencer as provas de 100m
e 200m livre. Entretanto, o feito não demoraria muito
tempo para ser derrubado.
Logo após aparecer como um dos grandes nomes do evento,
mais precisamente no dia 11 de setembro, a nadadora
tomou conta do noticiário como uma acusação de doping.
No dia, o jornal O Globo anunciou que ela estava
sendo investigada pela Federação Internacional de Natação
(Fina) por um exame coletado em 2006 ter indicado níveis
anormais de testosterona, tanto na prova como na contraprova.
O caso levantou ainda mais suspeita por causa de um
acontecimento no Troféu José Finkel, em 5 de setembro,
quando Rebeca venceu os 50m da prova, mas teve um mal
súbito logo após sair da piscina, indo ao chão e tendo
espasmos. Em contato com a GE.Net, o pai da nadadora,
Aljamar Gusmão, comentou que não se surpreendeu com
o acontecimento. “Não é a primeira vez que isso acontece.
Além de ser muito competitiva e ficar estressada antes
de nadar, ela é asmática e tem hipoglicemia reativa”,
minimizou. No mesmo dia, no entanto, a atleta culpou
um sanduíche estragado pelo ataque.
Ao longo dos últimos meses, a defesa de Rebeca mudou
bastante de opinião. Inicialmente, a acusada sugeriu
a possibilidade de as amostras terem sido contaminadas,
mas logo em seguida comentou que a testosterona poderia
ter sido fabricada por seu organismo, o que não caracterizaria
doping. O médico Eduardo de Rose, médico responsável
pelo controle antidoping do Comitê Olímpico Brasileiro
(COB), admitiu essa possibilidade.
O que era apenas um suspeita se concretizou meses
depois como uma acusação formal de doping, quando a
Fina confirmaria que um teste realizado em 13 de julho
de 2007 (data da abertura do Pan) indicava a presença
de testosterona e descartava a produção espontânea pelo
organismo da atleta. Como seria reincidente no caso,
levando-se em conta o outro teste realizado em 2006,
a atleta passou a correr o risco de ser banida do esporte.
Rebeca acabou sendo suspensa preventivamente das piscinas
em 5 de novembro, tendo que aguardar a data de seu julgamento
na Corte Arbitral do Esporte (TAS) para poder voltar
a competir.
Entretanto, a situação de Rebeca ficaria ainda mais
grave quando apareceria a resposta para uma pergunta:
se pelo corpo dela é tão claro o doping, por que ela
nunca foi pega? No dia 7 de novembro apareceria o suposto
motivo. Primeiro, um teste de DNA feito a pedido de
De Rose nos testes de urina de Rebeca apontaram a presença
de dois doadores diferentes. Mais tarde, a médica Renata
Castro, diretora médica da Confederação Brasileira de
Desportos Aquáticos (CBDA), pediu afastamento da entidade
por motivos pessoais. As diferenças de DNA até mesmo
renderam a abertura de uma investigação na Delegacia
de Repressão aos Crimes contra Saúde Pública. Depoimentos
polêmicos acabaram não trazendo uma conclusão ao caso.
Enquanto ainda alegava inocência, a medalhista de
ouro no Rio-2007 ainda viu, em 11 de novembro, um novo
capítulo de seu caso ganhar forma. A voluntária do Pan
Adriana Salazar, encarregada de acompanhar os atletas
ao local da coleta da amostra de urina, apimentou o
caso ao revelar, em entrevista à TV Globo, que
não pôde realizar seu trabalho normalmente.
“Eu fui convocada para fazer a escolta de quem fosse
o primeiro lugar desta prova, no caso, a Rebeca. Notifiquei
que ela tinha que fazer o exame e acompanhei. A Rebeca
estava relaxada, deu entrevistas, mas na hora de entrar
com ela na ante-sala em que se faz o exame, eu fui impedida,
sob a alegação de que tinha muitos atletas lá dentro
e já havia duas pessoas lá para fazer a escolta, um
homem e uma mulher. E eu não vi a coleta do exame dela”,
comentou Adriana.
No mesmo dia, a ex-nadadora Laura Azevedo, banida
do esporte em 2006, também veio a público. Pega em um
exame antidoping no Troféu Brasil de 2003 com testosterona,
ela viu um de seus exames apontarem a presença de outro
DNA na amostra. Por se recusar a realizar um teste em
outra competição, foi excluída do esporte. Um ano depois
de ser afastada, sintetizou: “Eles (CBDA) podem manipular
os resultados dos testes. O caso Rebeca comprova a minha
inocência”.
Em 12 de novembro, a CBDA anunciou De Rose para substituir
preventivamente Renata Castro. Responsável pelo antidoping
no Pan, o médico ganhou a companhia da triatleta Sandra
Soldan no cargo. Na mais nova tática da atleta, seu
técnico e Renata Castro, De Rose é apontado como articulador
de uma conspiração para incriminar a atleta. Entretanto,
apesar de jurar inocência, a situação da nadadora está
longe de ser confortável e o caso longe de ser resolvido.
Mesmo sem decisão definitiva, a Odepa já cassou suas duas medalhas de ouro e os resultados brasileiros nos revezamentos femininos.
Outro atleta brasileiro flagrado no antidoping por
testosterona nos Jogos Pan-americanos foi Fabrício Mafra,
mas que nem de perto teve a repercussão do caso Rebeca.
Primeiro atleta brasileiro do levantamento de peso a
faturar um prêmio desde 1995, o medalhista de bronze
na categoria até 105 kg, suspenso preventivamente, corre
o risco de ser destituído da recompensa bronzeada do
Pan caso seja considerado culpado.
Internacionalmente, uma confissão chacoalhou o mundo
do esporte e denegriu a imagem de uma das maiores atletas
olímpicas: a versátil Marion Jones, dona de três medalhas
de ouro em Sydney-2000 (100m, 200m e revezamento 4x400m
rasos) e mais dois bronzes (salto em distância e 4x100m).
Em 5 de outubro, em carta publicada no jornal Washington
Post, ela anunciou que fez uso de esteróides anabolizantes
durante sua preparação para as Olimpíadas realizadas
na Austrália e ainda anunciou sua aposentadoria.
Na carta, enviada a parentes e amigos e que acabou
sendo entregue ao jornal por uma fonte não identificada,
Jones confessava ter tomado durante dois anos o produto
The Clear (O Limpo), produzido pelos laboratórios Balco
– criador do esteróide THG (tetrahidrogestrinona). A
atleta, que planejava confessar a culpa, alegou que
foi seu ex-técnico quem lhe dava a substância sob a
desculpa de que eram ‘óleos de cereais’.
Primeira mulher da história a conquistar cinco medalhas
em uma edição dos Jogos Olímpicos, Marion Jones foi
obrigada a devolver os prêmios – medida oficializada
pelo COI em 12 de dezembro – dois meses depois de a
velocista já ter entregado os prêmios. Por conta das
investigações a outras participantes das provas de Sydney,
a entidade olímpica não decidiu o paradeiro das medalhas.
Entretanto, Jones não esteve sozinha. Ícone do tênis
feminino, Martina Hingis também deixou o esporte pela
porta dos fundos. No primeiro dia de novembro, a suíça
anunciou à imprensa que uma de suas amostras coletadas
em Wimbledon acusou a presença de cocaína e, de quebra,
aproveitou para assegurar que não é usuária da droga,
mas mesmo assim anunciou a aposentadoria – pela segunda
vez na carreira.
“Testei positivo, mas nunca usei drogas e me sinto
100% inocente”, garantiu a então 19ª colocada no ranking
de entradas da WTA, entidade que rege o tênis feminino.
“'Eu pessoalmente estaria horrorizada se fosse viciada.
Quando fui informada sobre o teste, fiquei chocada,
mas decidi falar em público sobre isso, mas não quero
confrontar as autoridades antidoping da modalidade.
Pela minha idade e também por conta das minhas contusões,
também decidi me retirar das quadras”, prosseguiu.
Hingis, assim, deixa o tênis quase que pela porta
dos fundos, dez anos depois de por pouco não faturar
os quatro torneios Grand Slams da temporada. Na época
com apenas 16 anos, a suíça meteórica venceu em 1997
os abertos de Austrália e Estados Unidos e o tradicional
Wimbledon. Ela só não conquistou a série das quatro
competições mais importantes do circuito porque foi
batida na final de Roland Garros pela croata Iva Majoli.
Além disso, a ex-número um ainda levantou mais dois
troféus no evento australiano, em 1998 e 1999.
O tênis brasileiro, embora não tenha mais o destaque
mundial durante a era Guga, também não escapou dos escândalos
de doping. Após chegar às semifinais de duplas em Roland
Garros e Wimbledon com o conterrâneo André Sá, o mineiro
Marcelo Melo fez uso de substância ilegal e foi obrigado
a se afastar do circuito profissional por dois meses
– tempo considerado curto, se comparado à média de um
ano aplicada pela Federação Internacional de Tênis.
Melo testou positivo para isometepteno, encontrado
no medicamento Neosaldina, durante a disputa do qualifying
do Torneio de Queen’s – quando justamente enfrentou
e superou o parceiro Sá na segunda rodada. Mas foi antes
da partida contra o sueco Fredrik Nielsen, na terceira
etapa do quali, que o atleta foi flagrado. Além de ficar
de fora do circuito entre setembro e novembro, Melo
perdeu os pontos e os prêmios obtidos em Queen’s e também
no Aberto dos Estados Unidos, competição em que chegou
às quartas-de-final.
| Foto: Djalma Vassão/Gazeta
Press |
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| Primeira desculpa de Jaqueline foi a vaidade: teria usado um chá contra celulite que teria causado doping |
Outro caso que ganhou destaque foi o da atacante Jaqueline,
cortada da seleção brasileira feminina de vôlei às vésperas
do Pan. Em 12 de julho, um dia antes da abertura oficial
dos Jogos, a ponteira foi notificada de que o teste
feito em 10 de junho, na final do Campeonato Italiano,
acusou a presença de sibutramina, moderador de apetite
e estimulante.
Mesmo tendo alegado inicialmente que a contaminação
havia sido feita por meio da ingestão de um chá verde
para combater a celulite, Jaque foi cortada em cima
da hora pelo técnico José Roberto Guimarães e foi trocada
por Regiane, convocada em cima da hora para a competição.
Antes do julgamento, porém, a atacante mudou sua defesa,
deixando de lado a versão do chá verde e acusando as
cápsulas do remédio CLA (Ácido linoléico conjugado)
de estarem contaminadas com a sibutramina. Em seu primeiro
julgamento pelo Comitê Olímpico Nacional Italiano (Coni),
a jogadora foi suspensa por nove meses, mas teve a pena
reduzida em dois terços 15 dias depois e foi liberada
para defender o time verde e amarelo na Copa do Mundo,
em novembro.
Outro atleta que representaria o Brasil nos Jogos
Pan-americanos e acabou ficando de fora da competição
justamente pelo uso de sibutramina foi o ciclista Magno
Nazaret, campeão da Volta do Estado de São Paulo em
abril e que disputaria as prova de pista no Rio-2007.
O anúncio do doping de Nazaret foi feito em 21 de junho,
quase dois meses depois de o teste ser feito na Volta.
Por conta do uso da substância proibida, o ciclista
foi excluído da seleção brasileira para o Pan e teve
o título do evento paulista cassado. A vaga na equipe
nacional nos Jogos e o troféu da Volta do Estado de
São Paulo ficaram com Marcos Novello.
Conhecido também pelo alto número de casos de doping,
o ciclismo europeu mais uma vez teve a temporada marcada
sobretudo pela grande quantidade de atletas flagrados
nos exames. Mas o caso que ganhou mais destaque aconteceu
no ano passado e teve seu desfecho apenas em 2007, envolvendo
o norte-americano Floyd Landis, campeão da Volta da
França-2006 e positivo para testosterona durante a competição.
Landis, embora jure inocência e garanta que venceu o
Tour de France “sem trapaças”, foi considerado culpado
no caso, relacionado à Operação Porto e que tem como
principal envolvido o médico espanhol Eufemiano Fuentes.
Em 20 de setembro, o norte-americano recebeu uma suspensão
de dois anos de competições organizadas pela União Internacional
de Ciclismo (UCI) e viu o espanhol Oscar Pereiro receber
o título da Volta francesa.
Outro acusado de ligação com a Operação Porto em 2007
foi o espanhol Alejandro Valverde. Mesmo sendo considerado
culpado pela UCI, o ciclista conseguiu a liberação para
disputar o Mundial de Estrada, uma vez que o TAS considerou
não haver provas concretas contra o atleta. A mesma
sorte não teve foi o italiano Danilo di Luca, envolvido
no esquema Oil for drugs. Campeão da Volta da Itália,
o representante da Velha Bota foi suspenso por quatro
meses e acabou ficando de fora do Mundial de Estrada.
Alexander Vinokourov, por sua vez, caiu no exame durante
a maior competição de estrada do mundo e deixou dúvidas
se o esporte algum dia conseguirá se livrar desta mancha.
O ciclista do Uzbequistão foi expulso da Volta da França
após vencer a 13ª etapa, acusado de ter feito transfusões
ilegais de sangue – o que aumentaria o número de glóbulos
vermelhos no sangue e aumentariam seu rendimento. Suspenso
por um ano e demitido da equipe Astana, o europeu decidiu
abandonar a carreira.
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