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 Futebol feminino
Resultados consagram meninas e "curvam" CBF

Por Eduardo Carneiro, especial para GE.Net

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
Foto: Divulgação

Seleção comemora o ouro no Pan do Rio após uma goleada de 5 a 0 sobre os EUA no Maracanã lotado

O ano de 2007 ficará marcado pela confirmação do Brasil como potência mundial no futebol feminino. Mesmo com apoio e notoriedade inexistentes se comparado com o masculino, a categoria finalmente ganhou destaque nacional com a brilhante campanha na Copa do Mundo da China, disputada em setembro, pouco mais de um ano após o fracasso dos homens no Mundial da Alemanha.

Sob o comando da craque Marta, o time canarinho trouxe a alegria de volta ao país do futebol, chegando ao inédito vice-campeonato no torneio mais importante da modalidade, perdendo apenas a final por 2 a 0 para a Alemanha, que ficou com o bi mundial. Meses antes, a seleção conquistou o ouro dos Jogos Pan-americanos e os resultados forçaram a CBF a organizar uma competição oficial após seis anos. Para encerrar o ano dos sonhos, Marta ainda foi eleita pelo segundo ano seguido como a melhor do mundo e o país ainda teve Cristiane em terceiro.

Sinais de que 2007 seria um ano marcante para o futebol feminino já apareceram em julho, nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. Favorito por atuar em casa e pelo fato de o principal rival do continente, os Estados Unidos, ter trazido ao país um time formado apenas por universitárias, o time brasileiro levou o bicampeonato do torneio com certa facilidade, depois de se preparar para a disputa desde abril.

Enquanto a seleção masculina mais uma vez decepcionou, sendo eliminada logo na primeira fase do Pan, as meninas do Brasil massacravam cada adversário que passava pelo caminho: na primeira fase, goleadas sobre Uruguai (4 a 0), Jamaica (5 a 0), Equador (10 a 0) e Canadá (7 a 0). Mas o pouco valor dado a categoria no país era evidenciado nas arquibancadas. A estréia contra as uruguaias, por exemplo, foi acompanhada por apenas 4.522 pagantes no então recém-inaugurado Engenhão, ou seja, 10% da capacidade total do estádio.

Diante de mais um fracasso masculino e das quatro goleadas na primeira fase, porém, o público compareceu em bom número ao Maracanã para empurrar as meninas na semifinal, contra o México, vencida pelas brasileiras por 2 a 0. No mesmo estádio, no dia 26 de julho, a apoteose: diante dos olhares de quase 80 mil torcedores, a seleção bateu os Estados Unidos por 5 a 0, e ficou com o ouro no Pan com uma campanha irrepreensível: seis triunfos em seis jogos, com nenhum gol sofrido e 33 marcados – só Marta, que não jogou a primeira partida, balançou as redes por 12 vezes, terminando como artilheira da competição.

Logo após a confirmação da conquista, as brasileiras, muito emocionadas com a presença maciça da torcida na final, dividiam-se entre a festa do título e a cobrança por maior apoio ao futebol feminino do país, agora bicampeão pan-americano e medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004. Pedidos como maior atenção por parte da imprensa e de torcedores e maior investimento financeiro no esporte predominavam no discurso das vitoriosas meninas do Brasil.

Pouco depois da conquista do Pan na histórica final no Maracanã, porém, as jogadoras da seleção partiriam para um desafio muito maior. Dali a um mês e meio, em 10 de setembro, começaria a Copa do Mundo de futebol feminino, na China, mais importante competição da categoria. Apesar das recentes conquistas, as meninas iriam para a nação asiática pressionadas pela responsabilidade de se destacar no torneio. O melhor resultado do Brasil até então era apenas um terceiro lugar no Mundial dos EUA, em 1999.

Depois do Pan, a equipe comandada pelo técnico Jorge Barcellos fez a preparação para a Copa na Suécia, disputando jogos-treino contra times locais, e seguiu para a China em 2 de setembro, depois de perder seu último amistoso internacional antes do Mundial para o Japão, em Chiba. A atual campeã Alemanha, os Estados Unidos, bicampeões do mundo e medalha de ouro em Atenas, além de Noruega, campeã da Copa de 1995, e Suécia, eram as seleções mais cotadas para ficar com o título do Mundial.

O Brasil, por sua vez, era considerado, ao menos, favorito a avançar à fase final. A equipe verde-amarela caiu em um grupo fácil, ao lado de Nova Zelândia, China e Dinamarca. Na estréia, contra a neozelandesas, goleada por 7 a 0 e indício de que a campanha no Mundial poderia ser surpreendente. Contra a dona da casa China, a confirmação: 4 a 0 sobre a equipe anfitriã, ignorando a força de uma das potências do esporte. No último jogo da primeira fase, por fim, vitória por 1 a 0 sobre as dinamarquesas.

Com isso, o time canarinho chegou às quartas-de-final da Copa do Mundo com status de favorito por ser o único time com 100% de aproveitamento nas três partidas da fase inicial. Porém, nas quartas-de-final, contra a Austrália, a equipe verde e amarela não repetiu as boas atuações e se classificou com uma vitória dramática, por 3 a 2.

Foto: AFP

Com sobras, Marta é eleita pelo segundo ano seguido a melhor do mundo entre as mulheres

No último jogo antes da inédita final de Mundial, o Brasil encarou o arqui-rival Estados Unidos, em duelo apimentado por provocações de ambos os lados. Além da tradição internacional no futebol feminino, as norte-americanas tinham a seu favor um retrospecto altamente favorável contra as rivais da semifinal: em 23 jogos, foram 18 vitórias dos EUA, três empates e apenas duas derrotas, contando-se a final do Pan de 2007, em que não atuaram com sua força máxima.

Dentro de campo, porém, mais uma vez prevaleceu o talento brasileiro. Com dois gols de Marta, a seleção bateu as norte-americanas por 4 a 0, encerrando uma série invicta de 51 partidas da tradicional algoz. De quebra, as meninas chegaram a tão sonhada final de Copa do Mundo e mais uma vez ganharam o apoio da torcida brasileira. A TV Bandeirantes, que transmitiu o Mundial da China, ficou em primeiro no ibope durante a exibição da semi.

No dia 30 de setembro, domingo, o Brasil acordou mais cedo para acompanhar as meninas no último desafio para a inédita conquista. Pela frente, a seleção tinha a Alemanha, que lutava pelo bi do torneio e que despachou a Noruega na semifinal. No entanto, jogando no estádio Hangkou, em Xangai, a equipe nacional teve seu talento neutralizado pelo pragmático, mas competente futebol das alemãs, e acabou ficando com o vice ao perder por 2 a 0.

Mesmo após a derrota, porém, a seleção tinha muitos motivos para comemorar, além do vice-campeonato histórico. A craque Marta, artilheira da Copa do Mundo, com sete gols, recebeu a Bola de Ouro da Fifa por ter sido eleita a melhor jogadora do torneio pela entidade. A atacante Cristiane, por sua vez, ficou com a Bola de Bronze (a de prata foi entregue à alemã Prinz, autora do primeiro gol da final). Principalmente pelo que fizeram no Mundial, aliás, estas três jogadoras foram as finalistas do prêmio de melhor do mundo da Fifa na temporada e a ordem de premiação acabou se repetindo.

Nas "coxas"

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Foto: Divulgação

Com pouco público e criado às pressas, Copa Brasil virou mais uma resposta da CBF aos críticos

Depois da campanha histórica na China, a exigência das atletas por maior apoio ao futebol feminino e pela criação de um torneio nacional (até a Fifa manifestou-se a favor de mais investimento à modalidade no país) foi ainda maior do que a vista após o triunfo no Pan. Pressionada, a CBF anunciou que pagaria uma premiação “de campeã do mundo” à equipe. Meses depois, porém, as jogadoras reclamaram que a promessa não foi cumprida pela entidade.

Além disso, a confederação também atendeu ao pedido da criação de uma competição nacional. Às pressas e com defeitos, a CBF divulgou no começo de outubro a tabela da Copa do Brasil para mulheres, com duração de apenas 41 dias e participação de 32 times distribuídos por todas as regiões do país.

A principal falha da competição foi a divisão dos jogos da primeira fase, disputados no formato de mata-mata, por regiões. Desta forma, times importantes no novo cenário nacional, como Santos e Botucatu, se enfrentaram para definir os oito classificados que avançariam para a fase final. Resultado: o Genus de Rondônia, por exemplo, conseguiu ficar entre os oito melhores do Brasil, mas amargou goleadas por 11 a 0 para o Mato Grosso do Sul/Saad e 12 a 0 para o Benfica/MG na fase octogonal.

Já na semifinal do torneio, o MS/Saad e o Botucatu/SP levaram a melhor contra São Francisco do Conde/BA e Benfica/MG, respectivamente, e fizeram a final. Na grande decisão, depois de um empate por 1 a 1 no tempo normal, o MS/Saad, que conta com estrelas da seleção brasileira como Daniela Alves e Formiga, confirmou seu favoritismo e venceu nos pênaltis por 5 a 4, ficando com o título da primeira edição da Copa do Brasil.

Antes criticada pela falta de agilidade na organização e por criar uma tabela utilizando critérios duvidosos, a CBF conseguiu, ao término do torneio, arrancar até elogios dos principais técnicos e dirigentes dos clubes protagonistas da Copa do Brasil. Mas a reclamação por conta de contas não pagas também vieram à tona e o campeão MS/Saad já anunciou que um desmanche será inevitável.

A segunda edição da competição no próximo ano também ainda não foi confirmada pela entidade, que não sabe quanto gastou para organizar o torneio, ignorado por grande parte da imprensa nacional e que não atraiu público – pouco mais de cem torcedores acompanharam as semifinais da competição, disputadas no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Desta forma, jogadoras e cartolas estão ainda preocupados com relação ao futuro do esporte no Brasil, mesmo após os expressivos resultados conquistados pela seleção neste ano. Com estas incertezas, as meninas do time canarinho partirão em busca da inédita medalha de ouro olímpica nos Jogos de Pequim em 2008.



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