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Futebol vira assunto de polícia e passa por tragédia em 2007

Por Luiz Ricardo Fini
Foto Tulio Vidal/Gazeta Press
Foto Djalma Vassão / Gazeta Press

Em uma das batidas policiais no Parque São Jorge, torcida depreda entrada do clube. Dualib e Nesi podem ser presos.

O jogador de futebol já não possui mais a exclusividade das atenções com suas jogadas no mundo da bola. Em 2007, além de gols e dribles, o esporte também foi obrigado a abrir espaço para assuntos que estão distante da alegria da torcida: casos de polícia, debates no tribunal, depoimentos, mortes... O Corinthians, com o conturbado fim da gestão Alberto Dualib e a enxurrada de denúncias à MSI, virou tema corriqueiro nas páginas policiais. Porém, os bastidores e os tribunais também marcaram o ano de outras equipes, como Palmeiras, Vasco e Bahia.

No Corinthians, o ano já começou com uma polêmica que se arrastava desde meados de 2006. Em janeiro, o Timão sofreu sua primeira grande derrota na disputa jurídica com o Lyon referente à transferência do atacante Nilmar ao Parque São Jorge. A MSI pagou apenas a primeira parcela da negociação com os franceses, de 2 milhões de euros, mas não quitou o restante da dívida (8 milhões de euros) e o clube europeu recorreu à Fifa. No primeiro mês deste ano, a entidade máxima do futebol mundial deu ganho de causa ao Lyon e exigiu o pagamento do Corinthians, que já não contava mais com a ajuda do fundo de investimentos, pois Kia Joorabchian sumiu do clube depois de brigar com Alberto Dualib.

O Corinthians ainda tentou recorrer na Corte de Arbitragem do Esporte, na Suíça, mas a entidade também apontou para derrota alvinegra. Pouco depois da segunda e decisiva derrota, o advogado contratado pelo Timão para o caso, Paulo Rogério Amoretty, morreu no trágico acidente aéreo com um avião no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Nesta mesma época, Nilmar foi à Justiça trabalhista para pedir sua liberação do Corinthians e, enquanto se recuperava da segunda grave contusão, conseguiu escapar do vínculo com o time de Parque São Jorge. Mesmo sem o jogador, o Timão foi obrigado a pagar os franceses e acabou com a novela neste mês de dezembro. Aliás, esta foi só mais uma das dívidas do clube, que também tem pendência com o ex-técnico Daniel Passarella. O rombo nos cofres do Alvinegro é de R$ 95 milhões.

Mas as derrotas jurídicas para o Lyon foram apenas os primeiros capítulos de um ano recheado de polêmica para um dos clubes mais tradicionais do Brasil. A derrocada de Alberto Dualib começou a ser desenhada com mais clareza no dia 12 de julho, quando os procuradores Sílvio Luís Martins de Oliveira e Rodrigo de Grandis, do Ministério Público Federal, revelaram que a investigação do órgão levou à conclusão de que o russo Boris Berezovski é o dono da MSI. Além disso, segundo os procuradores, o magnata utilizou o Timão para lavar dinheiro. Resultado: o então presidente Alberto Dualib e seu vice Nesi Curi receberam uma série de acusações.

Além dos dois cartolas corintianos, também foram denunciados o ex-diretor da MSI Paulo Angioni, o advogado da empresa, Alexandre Verri, e o empresário Renato Duprat. À Interpol, foram pedidas as prisões de Berezovski, Kia Joorabchian e Nojan Bedroud, diretor financeiro da MSI, mas os três seguem fora do país. A investigação contou com o suporte de escutas telefônicas realizadas pela Polícia Federal desde setembro de 2005.

O processo ainda está em curso, e outras acusações recaem sobre a dupla Dualib/Nesi. O ex-mandatário sofreu também a denúncia de que utilizava notas fiscais frias no clube, e o caso está sendo averiguado pelo Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic). As denúncias fizeram a pressão em Dualib ficar insustentável. Ao lado de Nesi Curi, o cartola ainda tentou se esquivar da oposição com um pedido de afastamento temporário. Porém, a pressão só aumentou e, à beira de um impeachment, o cartola renunciou e deu adeus a 14 anos de poder. Depois de um período de governo interino de Clodomil Orsi, Andrés Sanchez venceu a eleição para presidente do clube.

No entanto, poucas semanas depois do triunfo no pleito, o ex-vice-presidente de futebol da gestão Dualib ainda foi a julgamento no STJD por conta da parceria com a MSI. Sanchez foi absolvido, enquanto Nesi e Dualib foram condenados e excluídos do futebol por três anos. Torcedores chegaram a fazer protestos em frente ao Parque São Jorge pedindo a prisão de Dualib e jogando sabão em pó para “limpar o clube” na época em que ele ainda era presidente.

No entanto, as prisões ocorreram em outro local e por um escândalo diferente. A Federação Paranaense de Futebol roubou as atenções dos jogadores e teve em seu então presidente, Onaireves Moura, o protagonista do esporte do estado. O dirigente chegou a ser preso no começo do ano por supostos crimes cometidos quando era sócio de um bingo em Ponta Grossa. Depois da prisão, o cartola reassumiu a presidência da entidade, que comandava desde a década de 1980. Mas, em maio, Onaireves teve de se afastar do cargo, desta vez em meio a denúncias do Superior Tribunal de Justiça Desportiva.

O STJD apontou irregularidades na gestão do cartola. Poucas semanas depois de pedir afastamento, o dirigente foi suspenso por três anos pelo Tribunal. Mas o maior golpe sobre Onaireves foi dado pela Polícia Federal. No início de novembro, o ex-cartola foi novamente preso, desta vez sob a suspeita de que teria usado a Federação para cometer crimes de desvios de dinheiro, fraude processual, estelionato e apropriação indébita. Além do ex-presidente, outras oitos pessoas ligadas à sua antiga gestão na entidade também foram acusadas de crimes. A polícia até encontrou dinheiro enterrado (R$ 92 mil) na sede da Federação. Na cadeia, o ex-presidente enfrenta atualmente problemas de saúde.

Foto Luiz Costa/Hoje em Dia/Gazeta Press

Protestos de torcedores não faltaram em 2007. No Cruzeiro, atletas receberam pipocas. Mas também houve contestação no Botafogo, Palmeiras, Corinthians, Atlético-MG....

Enquanto as denúncias no Paraná resultaram em prisão, as investigações no Corinthians ainda invadirão 2008, com muito o que acontecer... Mas, se o Corinthians pelo menos tem definido o nome de seu presidente, outro grande clube brasileiro ainda vive momento de incerteza sobre o cargo máximo. As eleições presidenciais do Vasco, realizadas em novembro de 2006, ainda geram discórdia em São Januário. Eurico Miranda venceu o pleito contra Roberto Dinamite, mas o resultado foi impugnado pela Justiça após denúncias de irregularidades que partiram da oposição. Os opositores apontaram diferenças na lista de sócios apresentada pela diretoria e a de que votaram na primeira eleição.

No entanto, o episódio desencadeou uma batalha jurídica, e Eurico conseguiu cancelar a anulação das eleições. O ano de 2007, então, foi marcado por atritos entre o mandatário e o ex-jogador. Eurico, inclusive, ocupa o cargo máximo de São Januário de forma interina, enquanto o assunto não tem um desfecho. Em novembro passado, quando a polêmica eleição completou um ano, um grupo de vascaínos protestou contra Eurico no centro do Rio de Janeiro, mas a manifestação não abalou a permanência do folclórico cartola à frente do clube cruz-maltino. Assim como as polêmicas do Corinthians, a contestada eleição do Vasco também só deverá ser resolvida em 2008.

Já um clube que espera deixar os problemas no passado é o Palmeiras. Apesar de não ter enfrentado polêmicas policiais, o Verdão voltou a esbarrar em um problema recorrente de sua história recente: atrasos de salário. O ano de 2006 terminou com o clube tentando ajustar as contas, mas 2007 começou sem uma solução. Ainda em janeiro, o jovem Francis reclamou do atraso da remuneração e foi repreendido por membros da comissão técnica.

Depois da eleição presidencial de janeiro, que reelegeu Afonso Della Monica, o departamento de futebol foi reformulado, com novos dirigentes, mas isso não impediu a repetição do problema. A situação ficou insustentável para um dos mais experientes atletas do elenco. Em fevereiro, Paulo Baier se reuniu com a diretoria e acertou sua saída do clube, justamente por conta dos problemas de atraso salarial.

Apesar de ter conseguido se segurar na maioria dos meses, o Verdão não evitou escorregões em alguns momentos da temporada. A remuneração voltou a atrasar em junho, mas a diretoria tratou de assumir a responsabilidade e prometeu sanar o problema. Agora, prestes a formar parcerias para contratação de jogadores, o Palmeiras enfrenta o dilema de quem precisa contratar, mas não pode mais exagerar para evitar o rombo nas contas e, consequentemente, mais atraso de salário. A esperança dos jogadores é de que 2008 comece de forma diferente de 2007. Mas o atraso de salário não foi o principal fator que abalou o elenco palmeirense. Em julho, jogadores e torcida foram surpreendidos com a trágica notícia da morte do atacante Alemão, que se recuperava de contusão e foi vítima de um acidente automobilístico, em Nova Iguaçu.

Enquanto o Palmeiras tenta superar seus problemas de salário para reencontrar os títulos em 2008, quem também tem esperança de mudanças é a torcida do Botafogo. No ano em que o clube deu sinais de que relembraria os tempos de glória, uma sucessão de frustrações pôs fim ao sonho de títulos. Depois de ser superado nos pênaltis pelo rival Flamengo na final do Campeonato Carioca, o time comandado por Cuca também decepcionou na Copa do Brasil, mas contestou bastante o desempenho da assistente Ana Paulo Oliveira no jogo em que foi eliminado pelo Figueirense, na semifinal.

Porém, o segundo semestre guardou recordações ainda mais amargas ao clube carioca. Enquanto outras equipes menosprezaram a Copa Sul-americana, o Botafogo assumiu seu desejo de levantar a taça. Nas oitavas-de-final, o time venceu o jogo em casa diante do River Plate, mas levou uma virada incrível em Buenos Aires e deu adeus à vaga, o que incentivou o técnico Cuca a pedir demissão e a torcida a atirar calcinhas e pipoca no elenco na volta da Argentina. Poucas semanas depois, com um desempenho pífio do clube sob o comando de Mário Sérgio, Cuca retornou ao Fogão, mas o sonho do título brasileiro também ficou distante. Apesar de ter liderado o Nacional por 12 rodadas, o Botafogo sequer chegou entre os quatro primeiros ao término da competição.

Assim, 2008 é o ano em que grandes clubes pretendem voltar aos eixos. O Botafogo quer ganhar título, assim como o Palmeiras, e o Corinthians sonha com a conclusão das investigações policiais e o reencontro com a Série A, enquanto a torcida vascaína aguarda a decisão sobre a disputa política do clube...

Tragédia expõe precariedade de estádios
Foto Divulgação/Bahia

Além da tragédia na Fonte Nova, Bahia ainda viu a morte do meia Cléber, que não resistiu a três AVCs sofridos no fim do ano

Os problemas extra-campo foram muito além dos casos de polícia em 2007. Tragédias também mancharam o futebol nacional, principalmente no estado baiano. Em um dia que era para ser de festa, com o acesso do Bahia à segunda divisão no empate sem gols com o Vila Nova, uma parte da arquibancada do anel superior da Fonte Nova cedeu e ocasionou a morte de sete pessoas.

Além das vítimas fatais, muitos torcedores ficaram feridos no acidente. A tragédia também trouxe à tona a precariedade dos estádios brasileiros, justamente no ano em que o país foi confirmado como sede da Copa de 2014. Depois de uma breve indecisão das autoridades baianas, o governador Jaques Wagner anunciou a determinação de demolir o estádio. A tragédia manchou a campanha vitoriosa do Bahia na Série C do Brasileiro. O Tricolor baiano conquistou o direito de retornar à segunda divisão ao terminar a Terceirona como vice-líder, atrás do campeão Bragantino. Já os outros clubes que garantiram o acesso à Segundona foram Vila Nova-GO e ABC-RN.

Não por acaso, a Fonte Nova já estava na mira de engenheiros. Antes mesmo da tragédia e do anúncio do Brasil como palco do Mundial, o Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e da Engenharia) realizou uma avaliação em 29 estádios (em 17 capitais brasileiras e mais a cidade de Santos) durante três meses. A conclusão: nenhum estádio brasileiro está apto a receber jogo de Copa atendendo aos padrões da Fifa.

A Fonte Nova, inclusive, já havia sido apontada como o pior dentre os campos avaliados, tendo sido reprovada em diversos quesitos, apontando falta de segurança nas arquibancadas e de higiene para jogadores e torcedores. O estudo apontou o Maracanã como o estádio em melhores condições no país, mas, ainda assim, precisa de ajustes para receber o Mundial.

Poucos dias depois da tragédia no estádio baiano, a Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de Curitiba tornou pública a suspeita de superlotação no Couto Pereira na partida do Coritiba diante do Marília, na penúltima rodada da Série B. O estádio do Coxa recebeu cerca de oito mil pessoas a mais do que o recomendado pelas autoridades. A tragédia na Bahia e a denúncia no Paraná, somados à Copa do Mundo no Brasil, deverão desencadear a preocupação em modernizar os estádios brasileiros em 2008.


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