O Brasil é
pan-americano
Por Marta Teixeira
| Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta
Press |
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| Primeira medalha de ouro do Brasil no Pan, taekwondista Diogo Silva aproveitou para fazer novo protesto contra falta de apoio |
Durante 17 dias, o Rio de Janeiro foi um dos locais
mais tranqüilos do Brasil. Sede dos Jogos Pan-americanos
de 2007, a capital fluminense driblou os problemas de
segurança para se tornar a casa do esporte continental.
Nas quadras, campos, piscinas, pistas, ginásios e arenas,
os atletas brasileiros se esforçaram para atingir uma
meta audaciosa: assumir o terceiro lugar no quadro geral
de medalhas e credenciar-se como referência esportiva
na América do Sul.
Ao final da campanha, objetivo conquistado. O Brasil
ficou atrás apenas dos Estados Unidos (237) e de Cuba
(135), totalizando 161 medalhas: 54 de ouro. Três anos
antes, a delegação nacional havia retornado da República
Dominicana em quarto com 123 pódios.
Entretanto, esse número ainda deve ser revisto pela Odepa devido ao doping de Rebeca Gusmão. Alguns personagens específicos foram fundamentais
nesta evolução e a tradicional disputa entre atletismo
e natação para ver quem medalhava mais teve mais um
capítulo. Desta vez, quem competiu na água levou a melhor.
Capitaneada por Thiago Pereira, a natação deu show,
abocanhando 27 medalhas: 10 ouros, seis pratas e 11
bronzes.
Mas Thiago não brilhou sozinho. César Cielo,
Kaio Márcio e a natação feminina garantiram recordes
individuais e algumas medalhas inéditas. Entre elas,
duas de ouro de Rebeca Gusmão, que meses depois seria
envolvida em uma escândalo de doping e perderia todas as suas conquistas. Positiva para uso de testosterona,
a nadadora tenta provar sua inocência, mas pode perder
suas medalhas e ainda ser banida do esporte.
“Foi uma participação excepcional”, festejou o presidente
da Confederação de Desportos Aquáticos (CBDA), Coaracy
Nunes, que exagerou vislumbrando no torneio o sucesso
esperado nas Olimpíadas de Pequim. “O Pan é mais importante
para o Brasil, muito mais que as Olimpíadas, pelos frutos
que vai trazer”.
O atletismo não ficou muito distante. Fez 23 pódios,
nove de ouro, cinco de prata e nove de bronze, um recorde
desde as 16 medalhas obtidas em Winnipeg-99 e com significativa
evolução qualitativa em relação a Santo Domingo, quando
foram cinco ouros em 16 medalhas.
Mais que o quadro de medalhas, a comissão técnica
ficou atenta às evoluções e regressões nos desempenhos
nacionais. Os aspectos positivos destacados pelo chefe
da equipe, Carlos Alberto Lancetta, foram as evoluções
nas provas de meio-fundo e de salto. Fábio Silva venceu
no salto com vara, Juliana Santos foi campeã nos 1.500m
e Sabine Heitling, nos 3.000m obstáculos.
| Foto: Fernando Soutello/AGIF/Gazeta
Press |
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| Depois de um dia de queda e desespero, Jade quebrou jejum de 16 anos sem ouro com vitória no salto. |
No extremo oposto da cidade, outro grupo obteve resultados
marcantes. Cotada entre as principais esperanças de
medalha para o país, a ginástica artística subiu 11
vezes ao pódio. Até aí, nada muito inesperado. As surpresas
ficaram por conta dos personagens. Se as veteranas Daiane
Santos e Daniele Hypólito desembarcaram como os destaques
do grupo, foi a novata Jade Barbosa quem roubou a cena.
Quebrou um jejum de 16 anos sem ouro no feminino ao
vencer no salto. Como conseqüência de seu desempenho nos Jogos, Mundial e Copa do Mundo, ele fechou o ano com o prêmio Brasil Olímpico concedido pelo COB.
Outra surpresa foi o ouro de Mosiah
Rodrigues na barra fixa. Mas, mais uma vez, Diego Hypólito
fez das suas, conquistando a primeira medalha de ouro
da história da ginástica masculina no solo. Antes do
final do torneio, ele também venceu no salto. As equipes
não ficaram atrás. O bronze de Santo Domingo virou prata
nas mãos das meninas, enquanto o masculino repetiu a
segunda colocação.
A torcida confirmou o favoritismo nacional em modalidades
como vôlei de praia, vôlei masculino, futsal (que pode
ter sido incluído no programa pela primeira e última
vez), basquete masculino e futebol... feminino.
Rivalidade à flor da pele - No sempre bem cotado judô, as mulheres surpreenderam
com dois ouros, quatro pratas e um bronze, mais medalhas
que o masculino. Os rapazes ficaram com dois ouros,
duas pratas e dois bronzes. Surpresas boas ruins se
misturaram na campanha dos judocas. Entre o que deu
muito certo, destaque para o ouro de Tiago Camilo, que
substituiu Carlos Honorato na categoria médio. A médio
Mayra Araújo, de apenas 15 anos, surpreendeu conquistando
a prata em apresentações com muita confiança.
Mas nem
tudo ocorreu como o esperado. O primeiro susto veio
com a contusão no cotovelo do meio-médio Flávio Canto,
quinto colocado, que precisou ficar dois meses afastado
se recuperando. O outro, com o leve Leandro Guilheiro,
que machucou as costas, mas mesmo assim conseguiu a
prata.
| Foto: Henrique Esteves/AGIF/Gazeta
Pres |
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Decisão dos juízes na luta de Érika Miranda provocou até briga entre delegação brasileira e cubana no judô |
Outro fato marcante do judô foi a grande rivalidade com Cuba, acirrada em algumas ocasiões por atuações duvidosas dos juízes que provocaram revolta na torcida e na própria delegação brasileira. No caso mais grave, após a derrota de Érika Miranda para Sheila Espinosa por um koka de punição no golden score na decisão do ouro, um tumulto tomou conta das arquibancadas e envolveu até mesmo os ex-atletas Regla Torres e Aurélio Miguel. Diante da confusão, a competição ficou paralisada por quase uma hora. Dias antes, outra decisão polêmica da arbitragem Oscar Prayson garantiu o ouro em combate contra João Gabriel Schlitter.
Questionamento da arbitragem também no taekwondo. Na final entre a brasileira Natália Falavigna e a mexicana Rosario Espinoza, a luta acabou decidida apenas no golden point, depois de empate em 1 a 1 nos três rounds anteriores. No lance que definiu o combate, Falavigna tentou um golpe e sofreu o contra-ataque. Os árbitros deram o ponto para mexicana. A Confederação Brasileira de Taekwondo ainda buscou um recurso do resultado final, mas não obteve sucesso.
Também diante de Cuba o Brasil sofreu sua grande decepção nos Jogos Pan-americanos: a derrota do vôlei feminino. Depois de uma partida equilibrada, as brasileiras sofreram a derrota no tie-break. Depois de alternâncias no placar, a força fez a diferença e as visitantes fecharam em 17 a 15 em uma bola duvidosa, que gerou reclamação da comissão técnica brasileira.
Fiasco também do futebol masculino,
vaiado e eliminado ainda na primeira fase. Já o basquete feminino Embora não aparecesse como favorito na decisão diante dos Estados Unidos, a prata teve um gosto amargo para o basquete feminino.
Na água, os brasileiros fizeram bonito de maneira
geral. Com sete medalhas na vela, seis na canoagem (inclusive
um ouro inédito) e três no remo. As frustrações marítimas
ficaram por conta da prata de Robert Scheidt na Laser
(ele passou toda a temporada competindo na Star) e da
queda em 50% no aproveitamento do remo.
Nanicos, mas ousados - Mas nem só de favoritos viveram as conquistas brasileiras.
Comendo pelas beiradas esportes ‘nanicos’ fizeram sua
parte. No caratê, Lucélia chegou ao tricampeonato (feito
inédito entre as brasileiras), fechando campanha com
sete pódios. Há 32 anos sem medalhar na competição,
a esgrima conquistou três bronzes. Maior ainda foi a
espera do boxe, com 44 anos de fila. Mas valeu a pena.
A modalidade ficou com o ouro na categoria meio-médio
com Pedro Lima e esteve em oito dos 11 pódios possíveis.
Outros feitos históricos foram obtidos no badminton
com bronze para a dupla nacional, nas lutas com uma
prata e dois bronzes, no levantamento de peso também
com bronze (entretanto, retirado posteriormente devido ao doping de Fabrício Mafra), com o ouro no esqui aquático e a prata por
equipe no boliche.
O tênis de mesa também fez bonito com a medalha de
ouro por equipes sendo o principal destaque. A modalidade também assistiu ao adeus de Hugo Hoyama de Jogos Pan-americanos. O atleta se despediu com o rótulo de maior vencedor brasileiro em Pan, com nove medalhas de ouro, além de uma prata e quatro bronzes. Ignorada
durante praticamente todo o ano, a patinação artística
rendeu ao país o bicampeonato na série livre masculina
e o bronze no feminino de mesmo estilo.
Passagem para Pequim-2008 - Na mesma proporção de importância, algumas modalidades
aproveitaram os Jogos do Rio para se garantir em Pequim
no próximo ano. Sempre forte nas Américas, o handebol
nacional carimbou os dois passaportes. No feminino,
superaram Cuba na decisão. Enquanto a tradicional Argentina
foi a vítima na final masculina.
No mundo hípico, 100% de aproveitamento. Mesmo competindo
com uma equipe com duas mudanças de última hora na convocação,
o adestramento obteve sua vaga para os Jogos chineses
graças a uma medalha de bronze.
| Foto:Fernando Soutello/AGIF/Gazeta
Press |
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| Depois de uma longa polêmica para definir equipe, saltos contam com medalhista olímpico Rodrigo Pessoa. |
A mesma posição no pódio rendeu igual conquista ao
grupo do Concurso Completo de Equitação (CCE). E mesmo
a equipe de salto, que enfrentou inúmeros contratempos
jurídicos para definir sua convocação, atingiu a meta.
Com o campeão olímpico Rodrigo Pessoa, Bernardo Alves,
César Almeida e Pedro Veniss, o grupo conquistou o ouro
e a classificação olímpica.
Durante a fase de ‘preparação’, liminares mudaram
a composição do grupo mais de duas vezes. Antes disso,
mudanças nas regras classificatórias haviam feito Rodrigo
desistir de defender o país no torneio. "Todo mundo
sofreu com esta polêmica. Esperamos que todos possam
aprender para não cometer os mesmos erros no ano que
vem, para que entendam que com uma equipe forte podemos
lutar contra os melhores do mundo", desabafou o campeão
olímpico após a disputa. “Espero que aqueles que provocaram
tudo isso tenham recebido uma lição bem recebida: que
as coisas se resolvem no picadeiro e não no tribunal”,
completou seu pai, Neco Pessoa, membro da comissão técnica
pan-americana.
Crises prévias de bastidores também atormentaram o
ciclismo, enquanto outras, como o taekwondo, tiveram
suas fragilidades expostas durante a competição. Apesar
dos percalços, a primeira competição internacional para
a qual o esporte brasileiro contou com um ciclo completo
de preparação apoiado por recursos da Lei Agnelo/Piva
atingiu sua meta, solidificando as ambições olímpicas,
cujo caixa terá o reforço da Lei de Incentivo ao Esporte.
| Na piscina, o destaque
pan-americano |
| Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta
Press |
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| Rio-2007 coroou Thiago Pereira como mister Pan. Nadador conquistou nada menos que seis ouros. |
Aos 21 anos, Thiago
Pereira foi o destaque nacional nos Jogos Pan-americanos
do Rio. Movido pelos gritos da mãe na arquibancada,
o nadador conquistou medalha em todas as provas
que disputou. Foram seis ouros, uma prata e um
bronze. A participação entrou para a história
não apenas do esporte nacional, mas do próprio
Pan-americano.
A performance tornou Thiago o novo recordista
em número de medalhas em uma mesma edição do evento.
Antes do brasileiro, o maior vitorioso era o também
nadador norte-americano Mark Spitz. Nos Jogos
Pan-americanos de Winnipeg-67, ele conquistou
cinco ouros.
Em casa, Thiago venceu os 200m peito, 400m medley,
200m medley, 200m costas, 4x200m livre e 4x100m
livre. A prata veio no revezamento 4x100m medley
e o bronze nos 100m costas.
Apesar de ter sido seu aproveitamento mais ‘fraco’
no Pan, o tempo dos 100m costas garantiu ao brasileiro
seu sexto índice olímpico. Antes dos Jogos no
Rio, ele já havia conquistado marcas para os 200m
e 400m medley, 200m livre, 200m costas e 200m
peito.
O desempenho Pan-americano marcou um ano que
terminou ainda com nove medalhas em etapas da
Copa do Mundo de piscina curta – oito de ouro
e uma de bronze -, incluindo o recorde mundial
(já superado) nos 200m medley na curta. Fora das
piscinas, ele conquistou o título de melhor nadador
do ano pela revista Swimming World, superando
o medalhista olímpico Michael Phelps na preferência
dos eleitores, e de melhor atleta do Brasil pelo
prêmio Brasil Olímpico, superando o judoca Tiago
Camilo e o ginasta Diego Hypólito.
Menos badalado, mas também com performance consistente,
César Cielo foi outro grande nome da natação brasileira
no Pan e na temporada. No Rio-2007, conseguiu
três medalhas de ouro, a última delas nos 50m
livre, com direito a recordes sul-americanos,
pan-americanos e ficando muito perto do recorde
mundial. Com o tempo de 21s84, o brasileiro ficou
a apenas dois décimos da marca mundial (21s64),
estabelecida pelo russo Alexander Popov, em junho
de 2000. |
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