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O Brasil é pan-americano Pan vira trunfo para 2016
O Brasil é pan-americano

Por Marta Teixeira

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Foto: Divulgação

Primeira medalha de ouro do Brasil no Pan, taekwondista Diogo Silva aproveitou para fazer novo protesto contra falta de apoio

Durante 17 dias, o Rio de Janeiro foi um dos locais mais tranqüilos do Brasil. Sede dos Jogos Pan-americanos de 2007, a capital fluminense driblou os problemas de segurança para se tornar a casa do esporte continental. Nas quadras, campos, piscinas, pistas, ginásios e arenas, os atletas brasileiros se esforçaram para atingir uma meta audaciosa: assumir o terceiro lugar no quadro geral de medalhas e credenciar-se como referência esportiva na América do Sul.

Ao final da campanha, objetivo conquistado. O Brasil ficou atrás apenas dos Estados Unidos (237) e de Cuba (135), totalizando 161 medalhas: 54 de ouro. Três anos antes, a delegação nacional havia retornado da República Dominicana em quarto com 123 pódios. Entretanto, esse número ainda deve ser revisto pela Odepa devido ao doping de Rebeca Gusmão.

Alguns personagens específicos foram fundamentais nesta evolução e a tradicional disputa entre atletismo e natação para ver quem medalhava mais teve mais um capítulo. Desta vez, quem competiu na água levou a melhor. Capitaneada por Thiago Pereira, a natação deu show, abocanhando 27 medalhas: 10 ouros, seis pratas e 11 bronzes.

Mas Thiago não brilhou sozinho. César Cielo, Kaio Márcio e a natação feminina garantiram recordes individuais e algumas medalhas inéditas. Entre elas, duas de ouro de Rebeca Gusmão, que meses depois seria envolvida em uma escândalo de doping e perderia todas as suas conquistas. Positiva para uso de testosterona, a nadadora tenta provar sua inocência, mas pode perder suas medalhas e ainda ser banida do esporte.

“Foi uma participação excepcional”, festejou o presidente da Confederação de Desportos Aquáticos (CBDA), Coaracy Nunes, que exagerou vislumbrando no torneio o sucesso esperado nas Olimpíadas de Pequim. “O Pan é mais importante para o Brasil, muito mais que as Olimpíadas, pelos frutos que vai trazer”.

O atletismo não ficou muito distante. Fez 23 pódios, nove de ouro, cinco de prata e nove de bronze, um recorde desde as 16 medalhas obtidas em Winnipeg-99 e com significativa evolução qualitativa em relação a Santo Domingo, quando foram cinco ouros em 16 medalhas.

Mais que o quadro de medalhas, a comissão técnica ficou atenta às evoluções e regressões nos desempenhos nacionais. Os aspectos positivos destacados pelo chefe da equipe, Carlos Alberto Lancetta, foram as evoluções nas provas de meio-fundo e de salto. Fábio Silva venceu no salto com vara, Juliana Santos foi campeã nos 1.500m e Sabine Heitling, nos 3.000m obstáculos.
Foto: Fernando Soutello/AGIF/Gazeta Press

Depois de um dia de queda e desespero, Jade quebrou jejum de 16 anos sem ouro com vitória no salto.

No extremo oposto da cidade, outro grupo obteve resultados marcantes. Cotada entre as principais esperanças de medalha para o país, a ginástica artística subiu 11 vezes ao pódio. Até aí, nada muito inesperado. As surpresas ficaram por conta dos personagens. Se as veteranas Daiane Santos e Daniele Hypólito desembarcaram como os destaques do grupo, foi a novata Jade Barbosa quem roubou a cena. Quebrou um jejum de 16 anos sem ouro no feminino ao vencer no salto. Como conseqüência de seu desempenho nos Jogos, Mundial e Copa do Mundo, ele fechou o ano com o prêmio Brasil Olímpico concedido pelo COB.

Outra surpresa foi o ouro de Mosiah Rodrigues na barra fixa. Mas, mais uma vez, Diego Hypólito fez das suas, conquistando a primeira medalha de ouro da história da ginástica masculina no solo. Antes do final do torneio, ele também venceu no salto. As equipes não ficaram atrás. O bronze de Santo Domingo virou prata nas mãos das meninas, enquanto o masculino repetiu a segunda colocação.

A torcida confirmou o favoritismo nacional em modalidades como vôlei de praia, vôlei masculino, futsal (que pode ter sido incluído no programa pela primeira e última vez), basquete masculino e futebol... feminino.

Rivalidade à flor da pele - No sempre bem cotado judô, as mulheres surpreenderam com dois ouros, quatro pratas e um bronze, mais medalhas que o masculino. Os rapazes ficaram com dois ouros, duas pratas e dois bronzes. Surpresas boas ruins se misturaram na campanha dos judocas. Entre o que deu muito certo, destaque para o ouro de Tiago Camilo, que substituiu Carlos Honorato na categoria médio. A médio Mayra Araújo, de apenas 15 anos, surpreendeu conquistando a prata em apresentações com muita confiança.

Mas nem tudo ocorreu como o esperado. O primeiro susto veio com a contusão no cotovelo do meio-médio Flávio Canto, quinto colocado, que precisou ficar dois meses afastado se recuperando. O outro, com o leve Leandro Guilheiro, que machucou as costas, mas mesmo assim conseguiu a prata.

Foto: Henrique Esteves/AGIF/Gazeta Pres
Foto: Henrique Esteves/AGIF/Gazeta Press

Decisão dos juízes na luta de Érika Miranda provocou até briga entre delegação brasileira e cubana no judô

Outro fato marcante do judô foi a grande rivalidade com Cuba, acirrada em algumas ocasiões por atuações duvidosas dos juízes que provocaram revolta na torcida e na própria delegação brasileira. No caso mais grave, após a derrota de Érika Miranda para Sheila Espinosa por um koka de punição no golden score na decisão do ouro, um tumulto tomou conta das arquibancadas e envolveu até mesmo os ex-atletas Regla Torres e Aurélio Miguel. Diante da confusão, a competição ficou paralisada por quase uma hora. Dias antes, outra decisão polêmica da arbitragem Oscar Prayson garantiu o ouro em combate contra João Gabriel Schlitter.

Questionamento da arbitragem também no taekwondo. Na final entre a brasileira Natália Falavigna e a mexicana Rosario Espinoza, a luta acabou decidida apenas no golden point, depois de empate em 1 a 1 nos três rounds anteriores. No lance que definiu o combate, Falavigna tentou um golpe e sofreu o contra-ataque. Os árbitros deram o ponto para mexicana. A Confederação Brasileira de Taekwondo ainda buscou um recurso do resultado final, mas não obteve sucesso.

Também diante de Cuba o Brasil sofreu sua grande decepção nos Jogos Pan-americanos: a derrota do vôlei feminino. Depois de uma partida equilibrada, as brasileiras sofreram a derrota no tie-break. Depois de alternâncias no placar, a força fez a diferença e as visitantes fecharam em 17 a 15 em uma bola duvidosa, que gerou reclamação da comissão técnica brasileira.

Fiasco também do futebol masculino, vaiado e eliminado ainda na primeira fase. Já o basquete feminino Embora não aparecesse como favorito na decisão diante dos Estados Unidos, a prata teve um gosto amargo para o basquete feminino.

Na água, os brasileiros fizeram bonito de maneira geral. Com sete medalhas na vela, seis na canoagem (inclusive um ouro inédito) e três no remo. As frustrações marítimas ficaram por conta da prata de Robert Scheidt na Laser (ele passou toda a temporada competindo na Star) e da queda em 50% no aproveitamento do remo.

Nanicos, mas ousados - Mas nem só de favoritos viveram as conquistas brasileiras. Comendo pelas beiradas esportes ‘nanicos’ fizeram sua parte. No caratê, Lucélia chegou ao tricampeonato (feito inédito entre as brasileiras), fechando campanha com sete pódios. Há 32 anos sem medalhar na competição, a esgrima conquistou três bronzes. Maior ainda foi a espera do boxe, com 44 anos de fila. Mas valeu a pena. A modalidade ficou com o ouro na categoria meio-médio com Pedro Lima e esteve em oito dos 11 pódios possíveis.

Outros feitos históricos foram obtidos no badminton com bronze para a dupla nacional, nas lutas com uma prata e dois bronzes, no levantamento de peso também com bronze (entretanto, retirado posteriormente devido ao doping de Fabrício Mafra), com o ouro no esqui aquático e a prata por equipe no boliche.

O tênis de mesa também fez bonito com a medalha de ouro por equipes sendo o principal destaque. A modalidade também assistiu ao adeus de Hugo Hoyama de Jogos Pan-americanos. O atleta se despediu com o rótulo de maior vencedor brasileiro em Pan, com nove medalhas de ouro, além de uma prata e quatro bronzes. Ignorada durante praticamente todo o ano, a patinação artística rendeu ao país o bicampeonato na série livre masculina e o bronze no feminino de mesmo estilo.

Passagem para Pequim-2008 - Na mesma proporção de importância, algumas modalidades aproveitaram os Jogos do Rio para se garantir em Pequim no próximo ano. Sempre forte nas Américas, o handebol nacional carimbou os dois passaportes. No feminino, superaram Cuba na decisão. Enquanto a tradicional Argentina foi a vítima na final masculina.

No mundo hípico, 100% de aproveitamento. Mesmo competindo com uma equipe com duas mudanças de última hora na convocação, o adestramento obteve sua vaga para os Jogos chineses graças a uma medalha de bronze.
Foto:Fernando Soutello/AGIF/Gazeta Press
Foto:Fernando Soutello/AGIF/Gazeta Press

Depois de uma longa polêmica para definir equipe, saltos contam com medalhista olímpico Rodrigo Pessoa.

A mesma posição no pódio rendeu igual conquista ao grupo do Concurso Completo de Equitação (CCE). E mesmo a equipe de salto, que enfrentou inúmeros contratempos jurídicos para definir sua convocação, atingiu a meta. Com o campeão olímpico Rodrigo Pessoa, Bernardo Alves, César Almeida e Pedro Veniss, o grupo conquistou o ouro e a classificação olímpica.

Durante a fase de ‘preparação’, liminares mudaram a composição do grupo mais de duas vezes. Antes disso, mudanças nas regras classificatórias haviam feito Rodrigo desistir de defender o país no torneio. "Todo mundo sofreu com esta polêmica. Esperamos que todos possam aprender para não cometer os mesmos erros no ano que vem, para que entendam que com uma equipe forte podemos lutar contra os melhores do mundo", desabafou o campeão olímpico após a disputa. “Espero que aqueles que provocaram tudo isso tenham recebido uma lição bem recebida: que as coisas se resolvem no picadeiro e não no tribunal”, completou seu pai, Neco Pessoa, membro da comissão técnica pan-americana.

Crises prévias de bastidores também atormentaram o ciclismo, enquanto outras, como o taekwondo, tiveram suas fragilidades expostas durante a competição. Apesar dos percalços, a primeira competição internacional para a qual o esporte brasileiro contou com um ciclo completo de preparação apoiado por recursos da Lei Agnelo/Piva atingiu sua meta, solidificando as ambições olímpicas, cujo caixa terá o reforço da Lei de Incentivo ao Esporte.

Na piscina, o destaque pan-americano
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Foto: Divulgação

Rio-2007 coroou Thiago Pereira como mister Pan. Nadador conquistou nada menos que seis ouros.

Aos 21 anos, Thiago Pereira foi o destaque nacional nos Jogos Pan-americanos do Rio. Movido pelos gritos da mãe na arquibancada, o nadador conquistou medalha em todas as provas que disputou. Foram seis ouros, uma prata e um bronze. A participação entrou para a história não apenas do esporte nacional, mas do próprio Pan-americano.

A performance tornou Thiago o novo recordista em número de medalhas em uma mesma edição do evento. Antes do brasileiro, o maior vitorioso era o também nadador norte-americano Mark Spitz. Nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg-67, ele conquistou cinco ouros.

Em casa, Thiago venceu os 200m peito, 400m medley, 200m medley, 200m costas, 4x200m livre e 4x100m livre. A prata veio no revezamento 4x100m medley e o bronze nos 100m costas.

Apesar de ter sido seu aproveitamento mais ‘fraco’ no Pan, o tempo dos 100m costas garantiu ao brasileiro seu sexto índice olímpico. Antes dos Jogos no Rio, ele já havia conquistado marcas para os 200m e 400m medley, 200m livre, 200m costas e 200m peito.

O desempenho Pan-americano marcou um ano que terminou ainda com nove medalhas em etapas da Copa do Mundo de piscina curta – oito de ouro e uma de bronze -, incluindo o recorde mundial (já superado) nos 200m medley na curta. Fora das piscinas, ele conquistou o título de melhor nadador do ano pela revista Swimming World, superando o medalhista olímpico Michael Phelps na preferência dos eleitores, e de melhor atleta do Brasil pelo prêmio Brasil Olímpico, superando o judoca Tiago Camilo e o ginasta Diego Hypólito.

Menos badalado, mas também com performance consistente, César Cielo foi outro grande nome da natação brasileira no Pan e na temporada. No Rio-2007, conseguiu três medalhas de ouro, a última delas nos 50m livre, com direito a recordes sul-americanos, pan-americanos e ficando muito perto do recorde mundial. Com o tempo de 21s84, o brasileiro ficou a apenas dois décimos da marca mundial (21s64), estabelecida pelo russo Alexander Popov, em junho de 2000.


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