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Ouro em Atlanta:
o início de tudo
Por Claudia Andrade
É verdade que quando o jovem Robert Scheidt, então
com 23 anos, foi em busca do ouro olímpico em Atlanta/96
ele já era dono de dois títulos mundiais na
classe Laser. Mas foi vitória nas Olimpíadas
que definitivamente abriu portas para o iatista permitindo
que ele arquivasse seu diploma de Administração
de Empresas. Aliás, quando subiu ao lugar mais alto
do pódio, nos Estados Unidos, ele ainda não
tinha o diploma. Precisou passar por um período de
estágio antes de recebê-lo.
Com certeza, as funções administrativas foram
desempenhadas com mais tranqüilidade, já que o
futuro parecia bem mais favorável para o campeão
olímpico seguir o seu caminho no esporte. A partir
de Atenas, os patrocínios, quase inexistentes, aumentaram
e melhoraram, e hoje permitem que ele se dedique exclusivamente
à busca de títulos para o Brasil.
A vitória de Scheidt fez o país quebrar o recorde
de medalhas olímpicas, chegando a nove, contra oito
conquistadas nos Jogos de Los Angeles/84. Também coroou
uma bela campanha do iatismo nacional, que dois dias antes
havia conquistado seu primeiro ouro, com Torben Grael e Marcelo
Ferreira, na classe Star, e na véspera garantira o
bronze na Tornado, com Lars Grael e Kiko Pellicano.
"Ainda sou um iatista amador", lembrou Scheidt
após a conquista, para completar. "Estou longe
de ser perfeito. Ainda preciso melhorar na largada e evoluir
minha velocidade em ventos fracos."
Sete anos depois, hexacampeão mundial e perto de chegar
ao seu centésimo título na classe Laser, que
pode vir nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, o paulista
vem experimentando novas experiências, na vela oceânica,
e na classe Star. Nesta, formou uma parceria promissora com
Bruno Prada, que deve assegurar seu futuro na vela olímpica.
Mas até o ano que vem, quando tentará o bicampeonato
nos Jogos de de Atenas/04, a perfeição irá
persegui-lo e é bem provável que ele ainda se
cobre da mesma maneira (ou ainda mais) que fazia em sua primeira
Olimpíada.
O duelo - Se os veleiros tivessem motores, seria possível
ver Scheidt e o inglês Ben Ainslie acelerando na largada
da 11ª e última regata de Laser disputada em Savannah,
a 400km de Atlanta, no dia 31 de julho de 96. No iatismo,
a disputa é todos contra todos, mas os dois candidatos
ao ouro faziam uma perseguição barco a barco,
à espera do início da prova.
Com dois pontos de vantagem, o brasileiro tinha três
chances de vencer: chegar na frente do rival, chegar uma posição
atrás, ou atrapalhar o inglês e fazê-lo
chegar depois da sétima posição, neste
caso, não precisando nem concluir a regata.
Com mais experiência que o inglês, então
com apenas 19 anos e sem tantas competições
internacionais no currículo, Scheidt se concentrou
naquele rapaz tímido e nervoso perto dele, o único
que poderia lhe tirar o título. Na primeira tentativa
de largada, vários barcos escaparam e por isso ela
foi anulada. Na segunda, Ainslie saiu na frente de Scheidt,
mas problemas também levaram a arbitragem a anular
a tentativa. A cada retorno, os dois favoritos ziguezagueavam
um na frente do outro ou velejavam em círculos, mantendo
a marcação.
Na terceira largada, o brasileiro escapou e puxou o adversário
junto com ele. Faltando apenas quatro segundos para o sinal
de largada, não havia mais tempo para retornar, e a
proa branca do barco de Ainslie já havia passado da
linha imaginária. O barco do júri mostrou a
bandeira preta. Os dois mais alguns outros que também
se afobaram estavam desclassificados. O ouro estava
garantido. Scheidt podia comemorar, enquanto o inglês
baixava a cabeça, o boné encobria o seu rosto,
e ele rumava sozinho para a marina.
"Ninguém podia perder a largada, por isso arrisquei.
Quando ele viu que eu estava na frente, se apavorou e foi
atrás de mim. Mas juro que não foi de propósito",
explicou o brasileiro, para acrescentar que a perseguição
não permitiu que ele velejasse do jeito que gosta.
"Prefiro correr solto, pensando só na minha regata.
Mas desta vez tive de ser mais cauteloso."
Comemoração ao cubo - Na euforia do
êxito, Scheidt planejava uma bebedeira no Spanky, animado
bar dos iatistas em Savannah. "Não pude comemorar
o ouro do Torben (Grael) e do Marcelo (Ferreira), porque tinha
regata no dia seguinte. O mesmo aconteceu com o Lars (Grael)
e o Kiko (Pelicano). Por isso, vou beber mais do que o normal",
disse, prevendo que sete cervejas seriam consumidas.
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As campanhas douradas da vela nos Jogos de Atlanta/96 foram
bem semelhantes. Na regata decisiva, Torben e Marcelo, com
pelo menos a prata já assegurada, só podiam
ser superados pelos australianos Colin Beashel e David Giles.
Três resultados diferentes dariam o ouro aos brasileiros,
que poderiam chegar na frente dos rivais, terminar uma posição
atrás ou atrapalhar a dupla da Austrália para
fazê-la chegar depois da sétima posição.
A única diferença em relação à
disputa na Laser foi que na Star, os brasileiros não
precisaram queimar a largada. Já na primeira bóia,
os adversários cometeram uma irregularidade e foram
desclassificados. Torben e Marcelo ainda concluíram
a prova, em terceiro lugar.
Para Torben, não faltava mais nada. "É
difícil descrever o que estou sentindo. Na primeira
olimpíada da minha vida (Los Angeles/84) fui prata,
na segunda poderia Ter sido ouro, mas com a quebra do mastro
na última regata acabei em terceiro. Em Barcelona não
foi possível fazer uma preparação legal.
Ganhar prata e bronze já foi muito bom mas, no final
das contas, o que o pessoal lembra sempre é da medalha
de ouro", afirmou o iatista, um dos mais respeitados
do mundo atualmente.
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