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31/07/1996 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ROBERT SCHEIDT
Foto Gazeta Press
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Ouro em Atlanta: o início de tudo

Por Claudia Andrade

É verdade que quando o jovem Robert Scheidt, então com 23 anos, foi em busca do ouro olímpico em Atlanta/96 ele já era dono de dois títulos mundiais na classe Laser. Mas foi vitória nas Olimpíadas que definitivamente abriu portas para o iatista permitindo que ele arquivasse seu diploma de Administração de Empresas. Aliás, quando subiu ao lugar mais alto do pódio, nos Estados Unidos, ele ainda não tinha o diploma. Precisou passar por um período de estágio antes de recebê-lo.

Com certeza, as funções administrativas foram desempenhadas com mais tranqüilidade, já que o futuro parecia bem mais favorável para o campeão olímpico seguir o seu caminho no esporte. A partir de Atenas, os patrocínios, quase inexistentes, aumentaram e melhoraram, e hoje permitem que ele se dedique exclusivamente à busca de títulos para o Brasil.

A vitória de Scheidt fez o país quebrar o recorde de medalhas olímpicas, chegando a nove, contra oito conquistadas nos Jogos de Los Angeles/84. Também coroou uma bela campanha do iatismo nacional, que dois dias antes havia conquistado seu primeiro ouro, com Torben Grael e Marcelo Ferreira, na classe Star, e na véspera garantira o bronze na Tornado, com Lars Grael e Kiko Pellicano.

"Ainda sou um iatista amador", lembrou Scheidt após a conquista, para completar. "Estou longe de ser perfeito. Ainda preciso melhorar na largada e evoluir minha velocidade em ventos fracos."

Sete anos depois, hexacampeão mundial e perto de chegar ao seu centésimo título na classe Laser, que pode vir nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, o paulista vem experimentando novas experiências, na vela oceânica, e na classe Star. Nesta, formou uma parceria promissora com Bruno Prada, que deve assegurar seu futuro na vela olímpica. Mas até o ano que vem, quando tentará o bicampeonato nos Jogos de de Atenas/04, a perfeição irá persegui-lo e é bem provável que ele ainda se cobre da mesma maneira (ou ainda mais) que fazia em sua primeira Olimpíada.

O duelo - Se os veleiros tivessem motores, seria possível ver Scheidt e o inglês Ben Ainslie acelerando na largada da 11ª e última regata de Laser disputada em Savannah, a 400km de Atlanta, no dia 31 de julho de 96. No iatismo, a disputa é todos contra todos, mas os dois candidatos ao ouro faziam uma perseguição barco a barco, à espera do início da prova.

Com dois pontos de vantagem, o brasileiro tinha três chances de vencer: chegar na frente do rival, chegar uma posição atrás, ou atrapalhar o inglês e fazê-lo chegar depois da sétima posição, neste caso, não precisando nem concluir a regata.

Com mais experiência que o inglês, então com apenas 19 anos e sem tantas competições internacionais no currículo, Scheidt se concentrou naquele rapaz tímido e nervoso perto dele, o único que poderia lhe tirar o título. Na primeira tentativa de largada, vários barcos escaparam e por isso ela foi anulada. Na segunda, Ainslie saiu na frente de Scheidt, mas problemas também levaram a arbitragem a anular a tentativa. A cada retorno, os dois favoritos ziguezagueavam um na frente do outro ou velejavam em círculos, mantendo a marcação.

Na terceira largada, o brasileiro escapou e puxou o adversário junto com ele. Faltando apenas quatro segundos para o sinal de largada, não havia mais tempo para retornar, e a proa branca do barco de Ainslie já havia passado da linha imaginária. O barco do júri mostrou a bandeira preta. Os dois – mais alguns outros que também se afobaram – estavam desclassificados. O ouro estava garantido. Scheidt podia comemorar, enquanto o inglês baixava a cabeça, o boné encobria o seu rosto, e ele rumava sozinho para a marina.

"Ninguém podia perder a largada, por isso arrisquei. Quando ele viu que eu estava na frente, se apavorou e foi atrás de mim. Mas juro que não foi de propósito", explicou o brasileiro, para acrescentar que a perseguição não permitiu que ele velejasse do jeito que gosta. "Prefiro correr solto, pensando só na minha regata. Mas desta vez tive de ser mais cauteloso."

Comemoração ao cubo - Na euforia do êxito, Scheidt planejava uma bebedeira no Spanky, animado bar dos iatistas em Savannah. "Não pude comemorar o ouro do Torben (Grael) e do Marcelo (Ferreira), porque tinha regata no dia seguinte. O mesmo aconteceu com o Lars (Grael) e o Kiko (Pelicano). Por isso, vou beber mais do que o normal", disse, prevendo que sete cervejas seriam consumidas.

Foto Gazeta Press
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As campanhas douradas da vela nos Jogos de Atlanta/96 foram bem semelhantes. Na regata decisiva, Torben e Marcelo, com pelo menos a prata já assegurada, só podiam ser superados pelos australianos Colin Beashel e David Giles. Três resultados diferentes dariam o ouro aos brasileiros, que poderiam chegar na frente dos rivais, terminar uma posição atrás ou atrapalhar a dupla da Austrália para fazê-la chegar depois da sétima posição. A única diferença em relação à disputa na Laser foi que na Star, os brasileiros não precisaram queimar a largada. Já na primeira bóia, os adversários cometeram uma irregularidade e foram desclassificados. Torben e Marcelo ainda concluíram a prova, em terceiro lugar.

Para Torben, não faltava mais nada. "É difícil descrever o que estou sentindo. Na primeira olimpíada da minha vida (Los Angeles/84) fui prata, na segunda poderia Ter sido ouro, mas com a quebra do mastro na última regata acabei em terceiro. Em Barcelona não foi possível fazer uma preparação legal. Ganhar prata e bronze já foi muito bom mas, no final das contas, o que o pessoal lembra sempre é da medalha de ouro", afirmou o iatista, um dos mais respeitados do mundo atualmente.

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