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Aurélio
Miguel, Seul-88: o ouro que parecia impossível
| Foto Divulgação |
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Há 16 anos, o Brasil conhecia mais uma face de Aurélio
Miguel a de campeão olímpico. Novamente,
o judoca faria jus ao apelido de "fúria espanhola"
e não daria chances ao alemão Marc Meiling,
a quem venceu na final dos meio-pesados dos Jogos Olímpicos
de Seul.
Hoje, ele continua ligado ao esporte e pretende fazer dele
sua porta de entrada para a política. Candidato a vereador
paulistano, pelo PL, ele tem como sua plataforma a luta pelo
fortalecimento do esporte na cidade, em todos os níveis.
Mas, em 30 de setembro de 1988, seu pensamento estava voltado
para outra coisa. Ele deixaria o tatame consagrado, confirmando
tudo o que se esperava dele. Melhor ainda: o hino nacional
brasileiro tocaria pela primeira vez na Coréia do Sul.
Do alto do pódio, o Aurélio dava ao Brasil sua
sétima medalha de ouro em 68 anos de participações
nacionais nas Olimpíadas. Na época, o judoca
tinha apenas 24 anos.
Ainda hoje, Aurélio Miguel se emociona com a lembrança
da conquista. 'A cena que vem a minha cabeça é
aquela minha ajoelhado, com os braços levantados. Depois
vem a fantasia, o não acreditar que aquilo aconteceu.
E finalmente o Hino Brasileiro, com a bandeira tremulando.
Foi a realização de um sonho'.
Por muito pouco, o Brasil poderia ter visto o primeiro lugar
do pódio daquela final empunhar uma bandeira da Espanha.
Filho de imigrantes catalães, Aurélio Fernandez
Miguel recebeu uma proposta da Federação de
judô daquele país para que se naturalizasse espanhol
logo após a conquista da medalha de bronze no Mundial
da Alemanha, realizado um ano antes. O judoca refutou a proposta.
"Sou um patriota", disse, muito antes de saber que
estaria com um ouro brasileiro no peito.
Orgulhoso de seu país, Aurélio Miguel teve
desgostos suficientes para pensar em desistir de lutar pelo
Brasil. Seu histórico de brigas contra a Confederação
Brasileira de Judô são episódios à
parte em sua carreira. O enfrentamento diante do clã
dos Mamede, que dominava a direção da CBJ, por
muitos anos deu motivação para que Aurélio
disputasse os melhores resultados.
Nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, o judoca foi
cortado da equipe pelo então presidente da CBJ Joaquim
Mamede. Seu substituto, Douglas Vieira, ganhou a medalha de
prata.
Aurélio não tem dúvidas que a modalidade
vive atualmente em outra realidade, mais favorável
às conquistas. 'Hoje o judô tem uma boa estrutura.
Não quero apontar nomes, mas há grandes atletas
e outros tantos vindos da categoria júnior, que podem
ser medalhistas olímpicos também.' Ainda atuante
no meio, o ex-judoca diz que tem feito sua parte, mas é
preciso que outros também participem para que a situação
continue a melhorar.
Mas foi preciso a medalha, na opinião de Aurélio,
para que houvesse uma mudança de postura na modalidade.
'O judô no Brasil sempre teve um nível alto.
Mas acho que meu ouro mudou a mentalidade. Mostrei que era
possível ganhar. Antigamente, pensávamos que
era impossível derrotar um oriental, um judoca do leste
europeu. Tanto que veio outro ouro em 1992, com o Rogério,
e mais medalhas nas olimpíadas seguintes', lembra.
'Eu fiz a minha parte. Fiz tudo. Esse é o meu papel:
divulgar e popularizar o esporte. Agora os outros é
que têm de fazer o deles. Os campeões de hoje
precisam ter consciência da importância de atingir
a notoriedade. A partir daí, eles passam a representar
o judô e não a si próprios. E precisam
se doar'.
| Foto Divulgação |
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Campanha vitoriosa Em Seul, o grande receio
de Aurélio era enfrentar o belga Robert van der Walle,
a quem nunca tinha conseguido vencer. Mas na composição
das chaves, o então campeão mundial ficou fora
do caminho do brasileiro. Ainda assim, as coisas não
seriam fáceis.
No judô, todas as lutas são disputadas em um
único dia. Não bastava a Aurélio assumir
a postura de fúria necessário era manter
a concentração. E estar muito inspirado.
O primeiro rival foi o inglês Dennis Stewart. Aurélio
passou com tranqüilidade. Nas oitavas, luta contra o
islandês Bjarni Fridrikssi. Outra vitória. O
italiano Juri Fazzi foi derrotado em seguida. O brasileiro
chegava às semifinais.
Outro receio de Aurélio era que o japonês Hitoshi
Saito, ex-campeão mundial, cruzasse seu caminho. A
sorte dos campeões se manifestou e Saito havia sido
eliminado na fase anterior. Coube ao brasileiro lutar
e vencer - o tcheco Jiri Sosma. A prata já estava assegurada.
Além do patriotismo, da briga com os Mamede e da própria
medalha de ouro, estava em jogo naquela final a determinação
de um judoca. O técnico da equipe, Geraldo Bernardes,
resumiu a sensação antes da luta. "Foi
uma manhã apreensiva".
Aurélio Miguel entrou no tatame para confrontar Marc
Meiling, da antiga Alemanha Ocidental. Foram 4min32 de disputa.
Uma luta truncada, apesar do adversário ser muito bem
conhecido por Aurélio: em quatro combates, o brasileiro
já havia vencido o alemão por três vezes.
Um chui (falta) deu o título para Aurélio Miguel.
O judoca foi o único medalhista de ouro do Brasil e
da América Latina em Seul. Junto do título,
Aurélio ganhou ainda mais moral para continuar combatendo
os oponentes dentro e fora do tatame.
Apesar da conquista marcante, Aurélio Miguel sente
que algo ficou faltando em sua carreira. 'Eu queria o bicampeonato
olímpico. E estava muito próximo da vaga na
final em 1996. Havia muita pressão. Arrisquei um golpe
e acabei ficando com o bronze. Também queria o título
mundial. É o único título que não
tenho. Ganhei um bronze e duas pratas em mundiais e participei
de quatro campeonatos mundiais na minha vida, sendo que nem
considero que fui ao de 1999, pois estava com problemas pessoais
e ainda briguei com a então direção da
Confederação Brasileira de Judô', lembra.
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