|
Rogério
Sampaio: um ouro olímpico com a bênção
do irmão
| Foto: Gazeta Press |
 |
Por Adriana Reis
Poucos atletas viveram um drama em família tão
grande antes de uma grande conquista como o judoca Rogério
Sampaio. Há exatos onze anos, no dia 1º de agosto
de 1992, Rogério subiria ao mais alto degrau do pódio,
na categoria meio-leve, nos Jogos Olímpicos de Barcelona.
Entre uma lágrima e outra, o eterno agradecimento ao
irmão Ricardo, morto apenas um ano antes.
Representar o Brasil numa competição internacional
como uma Olimpíada é o sonho de todo atleta,
mas, para Rogério Sampaio, tinha um gosto de missão.
Ele queria, com sua participação, e possível
vitória, homenagear o irmão, que, assim como
ele, começou no judô cedo, mas acabou interrompendo
os treinos preparativos para os Jogos. Uma decepção
amorosa levou o jovem atleta ao suicídio, marcando
para sempre a vida de Rogério e de sua família.
No dia 3 de agosto de 92, o jornal A Gazeta Esportiva
comemorava a vitória de Rogério e estampava
a manchete "Com a bênção de Ricardo",
em lembrança ao episódio.
Rogério chegou aos Jogos de Barcelona com uma grande
responsabilidade nas costas. Apenas quatro anos antes, nos
Jogos de Seul, em 1988, o Brasil finalmente chegava à
primeira medalha de ouro olímpica, com o judoca Aurélio
Miguel. Uma certa euforia acompanhou a delegação
na viagem à Espanha. Grandes estrelas do esporte viajaram
para defender o Brasil, entre eles Hortência e Paula,
do basquete feminino, os irmãos Torben e Lars Grael,
do iatismo, e o próprio amigo Aurélio Miguel.
E os atletas não podiam decepcionar.
Além da dor pela perda recente do irmão, Rogério
Sampaio ainda teve de conviver com uma rígida dieta
para manter-se no peso exigido em sua categoria. Treinava
12 horas por dia, sempre com muita disciplina. E bem longe
dos desejados patrocinadores, que, mesmo depois de uma medalha
de ouro no esporte, negavam investimentos.
Todo o treino e a vontade deram resultado. Rogério
venceu quatro de suas cinco lutas por ippon, o golpe máximo
do judô. Começou superando o português
Augusto Almeida. Em seguida, venceu Sang-Moon Kim, da Coréia
do Sul, Francisco Morales Vivas, da Argentina, Udo Quellmalz,
da Alemanha (o único adversário que não
superou por ippon) e, na final, derrotou o húngaro
Jozsef Csak.
Era a consagração de um jovem atleta que, para
chegar ao topo do pódio, teve de abrir mão das
faculdades de Economia e de Educação Física
e que começou no esporte aos 4 anos, porque sua mãe
o considerava uma criança muito arredia e queria que
o garoto fosse mais disciplinado.
"O que realmente mudou na minha vida depois da conquista
da medalha de ouro na Olimpíada de Barcelona foi o
reconhecimento das pessoas. Mas, com isso, veio também
uma cobrança cada vez maior. Quando sabem do que você
é capaz, te cobram muito mais", ensina o atleta.
Assim como Aurélio Miguel, Rogério Sampaio
também não ficou quieto diante da frustração
com a administração da família Mamede
na Confederação Brasileira de Judô. Em
solidariedade ao seu colega campeão, Rogério
ficou dois anos e meio (entre 1989 e 1991) sem lutar em competições
oficiais. "A saída da família Mamede foi
essencial. Muita coisa já mudou. Sinto que os atletas
agora estão mais profissionais", diz. "No
meu tempo não existia preparação. A gente
se reunia às vésperas da competição
e ia lutar na raça", relembra.
Foram, certamente, anos difíceis, mas que deram ao
atleta uma vontade ainda maior de vencer e, com isso, efetivar
o Brasil como um dos países de maior destaque da modalidade.
|