Para não esquecer

O cineasta Danny Boyle dirigiu um espetáculo emocionante na noite desta sexta-feira 27, em Londres. Na terceira vez em que a capital britânica é sede da Olimpíada, a Cerimônia de Abertura foi diferente das anteriores e dificilmente será repetida no futuro. Boyle uniu pontos da história do país, com forte dosagem musical, e momentos de inconfundível humor, com Mr. Bean interagindo com a Orquestra Sinfônica. Um dos momentos mais emocionantes foi o acendimento da pira olímpica. Em vez de uma personalidade do esporte nacional (pensava-se em Rogger Bannister), sete jovens atletas, indicados nomes consagrados, levaram as tochas. Um espetáculo para não esquecer.

Quem acende a pira?

Uma das surpresas que os organizadores das aberturas dos Jogos Olímpicos mais guardam é sobre quem acenderá a pira olímpica. Em Londres 2012 não é diferente. As famosas casas de apostas da capital britânica, porém, aponta para um favorito: Rogger Bannister.

Este senhor, hoje com 83 anos, é um dos grandes nomes da história do Atletismo da Grã-Bretanha. Seu feito maior foi ter corrido a milha (prova de 1.609 m) em 3:59.4, em 6 de maio de 1954. Bannister tornou-se, assim, o primeiro atleta do mundo a fazer a distância em menos de quatro minutos.

Caso se confirme Bannister com a tocha olímpica acendendo a pira na festa de abertura desta sexta-feira 27 (a partir das 17 horas, de Brasília), no Estádio Olímpico de Londres, será um momento especial. Tão especial quanto em 1996, com Mohammed Ali acendendo a pira na abertura dos Jogos de Atlanta.

E por que não um nome do Atletismo?

Principal praça esportiva da Olimpíada do Rio 2016, o Engenhão será o palco do torneio de Atletismo daqueles Jogos. Construído para o torneio atlético do PAN 2007, foi considerado “o principal legado” do evento pelo COB. Pois entre o PAN 2007 e a Olimpíada 2016, a Prefeitura do Rio cedeu o Estádio Olímpico para o Botafogo carioca mandar ali seus jogos de futebol. Desde então, o máximo que se viu foi um evento de Atletismo por ano no Estádio.

Na época de sua inauguração foi escolhido o nome de João Havelange, ex-presidente da FIFA e antigo nadador para o Estádio. Foi difícil entender, porque, se nos grandes eventos do palco – um já realizado (PAN) e outro programado (Olimpíada) – a disputa foi do Atletismo, porque o Estádio levou o nome de uma personalidade ligada a dois outros esportes. A posterior concessão a um clube de futebol, o Botafogo, porém, se já era intenção da Prefeitura do Rio, talvez possa explicar isso.

O Parque Aquático do PAN levou, com justiça, o nome de Maria Lenk, primeiro grande nome da natação do País. Então, porque o Estádio Olímpico, palco do torneio de Atletismo, não levou o nome de Adhemar Ferreira da Silva? No meio dos esportes olímpicos há uma opinião que, se não é unânime, tem a adesão da grande maioria: bicampeão do triplo em Helsinque 1952 e Melbourne 1956, e cinco vezes recordista mundial da prova, Adhemar é considerado “o maior atleta da história olímpica do País”. Um dos que já declararam isso publicamente é Lars Grael, irmão de Torben, o velejador ganhador de cinco medalhas nos Jogos.

Agora falam em mudar o nome do Engenhão. Não vou entrar no mérito dessa discussão, já há muita gente tratando do assunto, alguns, inclusive, com conhecimento de causa. Mas parece estranho que comentaristas ignorem por completo o nome de Adhemar e de José Telles da Conceição – o elegante negro e primeiro brasileiro medalhista nos Jogos Olímpicos (bronze no salto em altura em 1952), dias antes de seu colega triplista ganhar o ouro.

Não sei se o nome do Estádio será mudado. João Saldanha, Newton Santos, Estádio Glorioso são algumas das sugestões dos jornalistas do futebol. Saldanha e Newton Santos merecem todas as honrarias, sem dúvida. Mas porque o Estádio que abrigou o Atletismo no PAN 2007 e será palco do torneio olímpico em 2016 não pode levar o nome de um astro do esporte mais tradicional da história?

Ouro de Thiago em Montjuic faz Petrov exorcizar eliminação de Bubka

A cena é de Barcelona, outubro de 1989. O Estádio de Montjuic é reinaugurado, com a disputa da 5ª Copa do Mundo de Atletismo, competição disputada por seleções continentais. Na equipe das Américas dois brasileiros ganham a medalha de ouro: Robson Caetano nos 200 m e Sergio Matias, no 4×400 m. O evento era um ensaio para a Olimpíada que a capital catalã realizaria três anos depois, com absoluto sucesso.

Nos Jogos de 1992, uma grande novidade era a presença, pela primeira vez, dos então imbatíveis homens da NBA. Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Pat Ewing mostraram um basquete de primeira e levaram o título. No Atletismo, sempre com grandes herois, tinha como estrela máxima Carl Lewis e Sergei Bubka. Enquanto o norte-americano conquistou o tri no salto em distância, o ucraniano, então competindo pela Comunidade de Estados Independentes, protagonizou a maior zebra daquela edição olímpica: simplesmente zerou, isto é, errou as três tentativas iniciais e deixou os Jogos.

Acho que os dados acima, por tratarem de grandes personagens olímpicos, são importantes. E aí o Brasil entra na história. Na época, o técnico de Sergey Bubka, ainda hoje recordista mundial do salto com vara, era o ucraniano Vitaly Petrov, atualmente contratado pela Confederação Brasileira de Atletismo como consultor para a prova de salto com vara.

E nesta quinta-feira 12, Petrov pôde comemorar a conquista da medalha de ouro pelo brasileiro Thiago Braz, campeão do salto com vara no Mundial de Juvenis, que está sendo disputado exatamente no Estádio Olímpico de Montjuic. Em entrevista para o site da IAAF, Vitaly disse que estava exorcizando o fantasma de 1992. Na verdade, Vitaly tem uma carreira vitoriosa. Foi também técnico de Elena Isinbayeva, recordista mundial da prova no feminino.

Ele já apoiava, há vários anos, Fabiana Murer – assim como Thiago, treinada por Élson Miranda –, que conquistou a medalha de prata na Copa do Mundo de Atenas em 2006. Em 2010, Fabiana chegou ao auge, com a conquista do Mundial Indoor em Doha e no ano seguinte venceu o Mundial de Atletismo em Daegu, superando, entre outras, nas duas competições, a própria Isinbayeva, que então já voltara para seu primeiro treinador.

Quanto a Thiago, mostrou maturidade poucas vezes vista num atleta de apenas 18 anos. Ele chegou a Barcelona como recordista brasileiro juvenil, com 5,35 m. Vários de seus adversários já haviam saltado 5,55 m. Thiago se qualificou para a final com 5,05 m, mas passou sucessivamente por todas as marcas, até os 5,55 m e levou a medalha de ouro. Tudo muito bom, para o jovem atleta que há dois anos ganhara a medalha de prata na Olimpíada da Juventude em Cingapura, e que no ano passado levara o 1º lugar no PAN Juvenil, em Miramar, nos Estados Unidos.