Ameaça na cidade olímpica

Novamente ameaçam de demolição do Estádio Célio de Barros, no conjunto esportivo do Maracanã. Junto, dizem que vão derrubar o Parque Aquático Júlio Delamare. Infelizmente parece que a (má) notícia é oficial, pois teria partido do Governo fluminense.

Situação péssima para o esporte olímpico do País, logo no início do ciclo que levará aos Jogos 2016, que, por ironia, acontecerão na cidade do Rio de Janeiro.

Grupos de atletas, ex-atletas, treinadores e dirigentes fazem manifestações e iniciaram a coleta de assinaturas, para tentar barrar a destruição das duas praças esportivas. Prometem, os demolidores, que farão outros parques esportivos em substituição ao “Célio de Barros” e ao “Júlio Delamare”.

As perguntas são invitáveis: “Farão mesmo essas obras? Quando? Onde?

O que pedem os manifestantes: 1) que se encontre outra solução para as obras do Maracanã, que não implique na derrubada do estádio de atletismo e do parque aquático; ou 2) que, primeiro, se construam um novo estádio e outro parque nas imediações do Maracanã, e somente depois os atuais locais de treinos e competições de atletismo e natação seriam demolidos.

O desejo dos esportistas será capaz de, ao menos, frear o movimento de demolição? É difícil, mas é o que resta a fazer. É importante que toda a comunidade dos esportes olímpicos se manifeste a respeito. Se isto não acontecer, é provável que acabem com o estádio e o parque, sem que os novos equipamentos sejam erguidos. Ou, então, talvez isto só ocorra quando não haverá mais tempo para que as novas praças sejam úteis na preparação dos atletas para a Olimpíada de 2016.

Um craque imita um astro

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Um dos principais artilheiros do Campeonato Brasileiro, Luis Fabiano está agora nas capas dos sites e jornais, por não converter em gol um pênalti contra o Flamengo. As qualidades do futebol do atacante são evidentes e não é preciso se alongar nisso.

O que quero abordar é uma atitude do jogador são-paulino, que tem imitado o gesto de Usain Bolt: após marcar o gol, estende o corpo para trás e estica o braço direito e, em ângulo menor, o esquerdo.

Faço isso para comentar o carisma deste astro jamaicano, de visibilidade mundial, a ponto de ser copiado por um craque do futebol, que várias vezes jogou pela seleção nacional. O fato de Luis Fabiano ser brasileiro torna isso ainda mais interessante, pela paixão que temos pelo futebol.

O que me faz retornar um pouco (ou muito) no tempo, mais exatamente a 1999. A equipe brasileira estava em Sevilha, para o Mundial de Atletismo. Um dia, avisaram que Denilson, então jogador do Betis, faria uma visita à delegação.

Foi um alvoroço, campeões – como André Domingos, ganhador de medalha olímpica – não escondiam a condição fã do antigo jogador do São Paulo, aliás, como Luis Fabiano, que depois também jogou na mesma cidade espanhola, só que pelo Sevilha.

Como o futebol mantém-se o principal esporte no gosto do brasileiro e de muitos outros países, a explicação para o gesto de Luis Fabiano só pode estar no próprio Bolt, com fama e simpatia nas alturas e só alcançadas por alguns poucos esportistas – sem querer comparar, porque não há comparação possível –, como o rei Pelé, que hoje completa 72 anos, e em forma. Bolt está no Rio, para compromissos com patrocinadores, com vistas aos Jogos do Rio 2016.

Há 37 anos, o feito de João Carlos de Oliveira

Foto | Gazeta Press | O atleta João Carlos de Oliveira, o João do Pulo(D)

Faz exatos 37 anos que João Carlos de Oliveira encantou o mundo com um salto de 17,89 m. A prova fazia parte do programa do PAN 1975, na Cidade do México e a marca se constituía em recorde mundial do triplo. A marca anterior era 17,44 m e pertencia havia três anos ao tricampeão olímpico Viktor Saneyev, um soviético da Geórgia.

Brasileiro gosta de apelidar e logo João Carlos de Oliveira ficou conhecido como “João do Pulo”. Mas mundialmente foi sempre o “De Oliveira”. Pouco antes do Meeting de São Paulo, em 1987, numa entrevista, o búlgaro Christo Markov, que acabava de ser campeão mundial em Roma, respondeu a um jornalista brasileiro: “Minha referência no triplo é De Oliveira.”

Presente à coletiva, Saneyev não se conformou: “Não, o Markov é da nossa escola (soviética) de salto.” Markov não discutiu e logo pediu liberação, pois precisava treinar. No entanto, muita gente, no Brasil e no exterior, tinha a opinião de que João Carlos era um triplista especial. O grande treinador Dietrich Gerner, responsável pela carreira de Adhemar Ferreira da Silva, disse que João Carlos era “o maior talento já revelado no atletismo brasileiro”. Um dirigente da antiga Alemanha Oriental protestou contra a arbitragem que invalidou um salto de João Carlos, de 1981, na Tchecoslováquia, que “seria superior a 18 metros”.

Um acidente no final de 1981, na Via Anhanguera, levaria, um ano depois, à amputação da perna direita de João Carlos. Terminava, assim, a carreira do triplista que deu ao Brasil duas medalhas olímpicas, três títulos na Copa do Mundo e quatro medalhas de ouro no PAN.

João Carlos faz parte de um grupo seleto de grandes triplistas brasileiros. Depois da Segunda Guerra Mundial, Geraldo de Oliveira e Hélio Coutinho da Silva foram finalistas nos Jogos de Londres, em 1948. Nos anos 1950, Adhemar Ferreira da Silva foi bicampeão olímpico em Helsinque e Melbourne. Em 1968 e 1972, Nelson Prudêncio ganhou prata e bronze nas Olimpíadas do México e de Munique. Tanto Adhemar (cinco vezes) como Nelson também foram recordistas mundiais.

Depois de João, Anísio Silva foi finalista no Mundial de 1993, em Stuttgart, e marcou 17,32 m, como recorde pessoal. Na primeira década do século 21, Jadel Gregório marcou 17,90 m e ganhou a medalha de prata no Mundial de Osaka em 2007, e também nos Mundiais Indoor de Budapeste em 2004 e de Moscou em 2006.

Notícia e ficção na TV e na mídia impressa

A repórter de um canal de TV brasileiro acompanhou, em Caracas, a eleição presidencial na Venezuela, no último domingo. Informa que o presidente Chávez foi reeleito (com 1,2 milhão de votos a mais que seu adversário). Na sequência, entrevista um opositor que afirma ter sido o presidente “castigado pelas urnas”. Dá para entender? Chávez ganhou a eleição e “foi castigado”. Os resultados, porém, apontam que sua administração foi aprovada pela maioria dos venezuelanos.

Pensei que talvez tivessem substituído o editor de texto pelo autor de certa novela, que compôs personagem capaz de ir ao banco, sacar R$ 1 milhão, sair a pé numa rua central do Rio de Janeiro para ser roubado em seguida. E que o novo editor havia confundido a ficção que faz como novelista com seu novo trabalho, de redator fiel aos fatos. Os créditos do telejornal, porém, avisa que o responsável por essa parte do trabalho não mudou. E que o novelista continua no seu devido lugar.

O objetivo aqui não é analisar a política internacional, muito menos fazer crítica de televisão. Uso apenas esses fatos para lembrar: ao ler um jornal, revista ou blog, ouvir rádio ou ver TV, é preciso usar o senso, de preferência o crítico. E tentar ver o que sobra, o que é realmente informação e o que alguns meios de comunicação vendem como verdade.

Essa situação, que muitas vezes se repete na mídia impressa, mostra que não é apenas a imprensa esportiva que é falha em nosso País. Outras áreas cometem enganos certamente bem mais danosos, no final das contas, para uma formação saudável da opinião pública.

Tinha que escrever estas poucas linhas, não para justificar atitudes muitas vezes equivocadas de jornalistas que cobrem os esportes no Brasil. Mas queria apenas alertar: o fato de que outras áreas são falhas não deve servir de consolo. Ao contrário, deve reforçar a decisão de fazer um trabalho sério, até para honrar o jornalismo esportivo.

A monocultura esportiva e suas consequências

A monocultura do futebol domina o trabalho da imprensa esportiva, no Brasil e em muitos outros países. Tanto que colegas meus da Argentina, Uruguai, Portugal, Espanha e Itália relatam situação semelhante. Acho, porém, que no Brasil a situação é mais dramática. Parte disso vem da grande popularidade do futebol, sem dúvida o mais fascinante jogo de bola do planeta.

No entanto, o jornalismo esportivo e seus profissionais devem saber que têm algumas obrigações com a comunidade que mantém, pratica ou apenas gosta de outros esportes. É verdade que a TV a cabo tem programado a transmissão de competições esportivas de variadas modalidades. Mas, o alcance dos canais pagos ainda está longe de atingir a audiência da TV aberta.

Certo que um evento esportivo é entretenimento. Assim, é razoável que as várias mídias atendam, preferencialmente, o gosto popular e dar generoso espaço para o futebol. Por um lado, essa dedicação ao futebol obrigou que os profissionais buscassem um melhor preparo para tratar de futebol. Por isso, hoje temos comentaristas que não passam vergonha numa discussão com treinadores.

Embora, aí, seja verdade o que escreveu Paulo César Caju. O antigo craque sugeriu menos arrogância, principalmente ao pessoal da televisão. Já a narração de futebol regrediu e é inferior ao que faziam Mário Moraes (na antiga TV Tupi, anos 1960), Walter Abrahão (TV Tupi, década de 1970), Orlando Duarte e Luiz Noriega (TV cultura, nessa mesma época).

De qualquer forma, no geral, houve inegável evolução na cobertura do futebol. O que não se dá com os esportes olímpicos, principalmente os básicos. Com exceções, quando tratam de atletismo, por exemplo, demonstram capacidade de discernimento similar ao de Tufão, Murici, Nina e Ivana, personagens da novela “Avenida Brasil”, capazes de saírem às ruas com um milhão de reais na bolsa.

Assim, não conseguem entender a prática atlética, o desenvolvimento dos praticantes, as peculiaridades deste e de outros esportes. É por isso que saem inúmeras matérias que desinformam o esportista. Fazem com que tenham uma ideia caricata da atividade. Um pouco de boa vontade e respeito profissional fariam diferença. Que tal um pouco de humildade, quem sabe frequentar os ambientes, os treinamentos, por exemplo? Não é pedir muito.