Difícil falar sobre futebol, depois da tragédia de Santa Maria. Um incêndio, casa superlotada, uma única saída, nenhum alvará de funcionamento e 231 mortos. A dor da perda fruto do descaso das autoridades comove e revolta. No país da propina, do jeitinho, do lucro fácil e da impunidade, infelizmente a reflexão só acontece depois do desastre.
E são essas características de um Brasil promissor, mas contaminado com antigos hábitos, que tornam possível um paralelo com o futebol. Estamos às vésperas de uma Copa do Mundo. Dentro de poucos meses acontece a Copa das Confederações. A contrapartida da realização do mundial, o legado a ser herdado pela população como as obras de mobilidade urbana e a melhora da infraestrutura de serviços, ainda não recebeu a atenção devida. Nem 10% das obras da Matriz de Responsabilidade para a Copa do Mundo estão prontas. Por outro lado, notícias de superfaturamento e desvio de recursos emergem com o aproximar do evento.
Auditoria do Tribunal de Contas de Brasília, por exemplo, aponta desvio de mais R$ 100 milhões na construção do Mané Garrincha, na capital federal. Sem falar no aumento do orçamento inicial em quase 60%. A má gestão do dinheiro público, presente em praticamente todas as áreas, também pauta a organização da Copa do Mundo, seja por incompetência ou por interesses escusos. A tragédia, neste caso, está no bolso do cidadão que trabalha e vê o dinheiro pago em impostos gasto de maneira indevida. Não há dor, mas sobra revolta.
E é esse dinheiro tão cobiçado que, invariavelmente, lubrifica os esquemas de corrupção que trava e atrasa esse país. Não falta quem queira ganhá-lo com facilidade. Falta porém, a grande disposição da contrapartida.




