Palmeiras em estado de coma

Foto: Adalberto Marques / Agif/Gazeta Press

Foto: Adalberto Marques / Agif/Gazeta Press

A rodada do de final de semana do Campeonato Brasileiro mostrou que a briga pelo título segue aberta, apesar do grande favoritismo do Cruzeiro. O tropeço diante o rival Atlético manteve vivo o sonho de Inter, do São Paulo, do Corinthians… A propósito, vale destacar o espírito corintiano na virada contra o Tricolor. Embora discutível o primeiro pênalti marcado para o time da casa, o Corinthians jogou melhor e fez por merecer.

Do lado debaixo da tabela, lá está o Palmeiras segurando a lanterna. Contra o Goiás, o time sofreu mais uma humilhante goleada por seis a zero. É a terceira vez em três anos que o Palestra toma meia dúzia de gols numa partida. Obviamente não é obra do acaso. Gestões incompetentes apequenaram o clube nos últimos anos e o resultado é o que vemos hoje. Um arremedo de time tentando compensar a falta de qualidade com vontade. E nem sempre isso é possível. As feridas estão abertas. A goleada de ontem é reflexo de equívocos no planejamento, na construção da equipe e na escolha de seus comandantes – alguém tinha alguma dúvida de que trocar Gareca por Dorival não ia mudar coisa alguma? Incertezas que podem levar o clube de volta à segunda divisão justamente no ano do centenário. Um vexame sem tamanho!

Sem Kaká, São Paulo patina

Rubens Chiri/SPFC

Rubens Chiri/SPFC

O jogo em Curitiba esteve longe de ser empolgante na primeira etapa. Pouco ou quase nada foi criado. Sem Kaká, o São Paulo perdeu muito na criação. Ganso e Pato, em alta desde que o meio-campista voltou ao clube, se apresentaram com menos brilho sem a referência do experiente jogador no gramado do Couto Pereira. Mesmo assim, saiu dos pés de Pato a assistência para que Michel Bastos, o substituto de Kaká, fizesse o gol são-paulino no final do primeiro tempo. Era apenas a segunda finalização do time no jogo, mas um tiro certeiro pra abrir vantagem no duelo.

Aí, veio o segundo tempo. Mais assertivo, o Coritiba foi encurralando o São Paulo e em dois minutos conseguiu a virada. Helder aos 15 e Joel aos 17 colocaram o time paranaense na frente, em jogo de até então seis finalizações. Denis ainda faria uma defesa milagrosa num cabeceio de Alex aos 37 minutos, porém não conseguiu evitar outro gol do camaronês Joel aos 40. Derrota que deixa o São Paulo novamente sete pontos atrás do líder Cruzeiro e aumenta a obrigação por uma vitória no final de semana sobre o Corinthians. Derrota que mostra quão importante é a presença de Kaká para o sucesso tricolor. Sem ele, o São Paulo é apenas um time comum.

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Palmeiras na zona de rebaixamento

O começo foi catastrófico. O Flamengo abriu dois a zero e parecia empurrar o Palmeiras ladeira abaixo, em pleno Pacaembu. Mesmo que pesem os eventuais erros de arbitragem – pênalti não marcado para o Palmeiras, por exemplo, o drama estava escrito. No segundo tempo, entretanto, na base da raça, o time palmeirense chegou ao empate com Diogo e Victor Luis. Não fosse o destempero de Valdívia, expulso depois de ficar pouco mais de meia hora em campo, o Verdão poderia sonhar com a vitória. Ficou no empate. Diminuiu o prejuízo, mas não evitou a queda para a zona do rebaixamento por  conta das vitórias de Bahia e do Coritiba. O Palmeiras agora é décimo oitavo e segue flertando com a segunda divisão no ano de seu centenário.  

De Mal a Pior

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Imaginava-se que com o choque de realidade após o atropelamento alemão sobre o Brasil na Copa do Mundo o futebol brasileiro fosse repaginado. Ledo engano. Passados menos de dois meses, o futebol nacional segue como sempre foi. Gestões equivocadas, planos táticos ultrapassados, e total falta de planejamento.

O Palmeiras, por exemplo, que acenava como “o diferente”, trouxe um técnico e jogadores estrangeiros, bancou o treinador mesmo quando o time estava na última colocação e parecia estar disposto a respaldar um projeto de longo prazo. Paulo Nobre, entretanto, mostrou que de diferente tem quase nada. De olho na “governabilidade” e nas próximas eleições se rendeu às pressões e abortou um projeto que apesar do começo ruim, poderia dar certo. Traz Dorival Junior que aparentemente não tem nada de muito diferente pra oferecer.

Pior fez o Santos ao demitir Oswaldo de Oliveira, sem que houvesse grandes pressões de torcida ou “corneteiros” de plantão. A campanha mediana no Brasileirão está longe de ser surpresa, considerando a jovialidade do elenco e a perda de um de seus pilares, o meia Cícero, jogador de destaque que marcava, armava e fazia gols. Oswaldo, bom técnico, ficou surpreso; enquanto nós, estupefatos.

Já são 18 técnicos demitidos em 18 rodadas. Números que mostram o amadorismo das gestões dos clubes. Sobra covardia e falta competência. Realmente desanimador!

Corinthians animador. Palmeiras desesperador!

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Pra muitos foi só mais um jogo, porém um jogo que vai ficar na história. Nem tanto pelo que se viu dentro de campo, mas pelo contexto. O melhor de tudo é que finalmente destaca-se o futebol do dérbi e não o tema que pautou os noticiários durante a semana – a possibilidade de confronto entre vândalos. Tirando uma dezena de cadeiras quebradas pela torcida palmeirense, a situação esteve sob controle. E no campo, o Corinthians fez por merecer vencer o maior rival no primeiro clássico realizado na nova arena.

O time de Mano Menezes tomou a iniciativa e teve a posse de bola, embora pouco tenha criado no primeiro tempo. Na segunda etapa, enfim conseguiu converter em gols a superioridade. Um com Guerrero e outro com Petrus que cada vez mais se mostra envolvido no espírito corintiano pela raça e disposição. Elias e Ralf também se destacaram pela capacidade de desarmar e ao mesmo tempo apoiar o ataque. Um time que vai ganhando uma cara e, por enquanto, parece ser o único capaz de alcançar o líder Cruzeiro que sobra neste Brasileirão.

Sobre o Palmeiras, embora Ricardo Gareca diga o contrário, a limitação do elenco é cada vez mais evidente. E a vida do argentino fica mais complicada com uma sequência de adversários tão duros. São três derrotas seguidas no torneio. E pela frente, excluindo o Bahia – teoricamente mais fraco – há o Atlético Mineiro, em Minas, e o São Paulo. Que a diretoria palmeirense dê o tempo que Gareca precisa pra acertar essa equipe que não vai brigar pelo título, mas pode ter um futuro digno na competição. Interromper o trabalho que está em andamento, só empurrará o Palmeiras ainda mais para o fundo do poço.

A quarta Era Dunga!

AFP

AFP

“Era Dunga” foi um rótulo com sentido pejorativo para uma geração que fracassou na Copa de 1990, na Itália, sob o comando de Sebastião Lazaroni. Dunga era o símbolo da vontade em detrimento da qualidade técnica. Em 1994, sob o comando de Carlos Alberto Parreira, ele deu a volta por cima e na condição de capitão levantou a taça de campeão do mundo.

Em 2006 recebeu o convite de Ricardo Teixeira pra renovar a seleção brasileira, apesar de nunca antes ter atuado como treinador. Truculento, brigou com a imprensa e com os críticos pra defender sua filosofia. O time era, de certa forma, espelho do que Dunga foi como jogador. Disciplinado taticamente, mas pouco técnico. Mesmo sem brilho, ganhou a Copa América e a Copa das Confederações, porém naufragou na África do Sul, naquele fatídico jogo contra a Holanda pelas quartas-de-final.

Agora, Dunga volta como comandante do projeto Rússia 2018. Tem nova chance de ressurgir campeão. E novamente cabe a ele renovar o futebol brasileiro. Na apresentação de hoje, reconheceu alguns erros do passado como a dificuldade em conviver bem com a imprensa, falou em futebol competitivo e em resultados positivos a partir da mescla de juventude com experiência. Nada muito animador. Nem tanto pela qualidade dos que hoje assumem a responsabilidade de ditar rumos da seleção, mas principalmente por aqueles que vemos dirigindo o futebol brasileiro. A CBF ganhou um escudo de respeito. Pelo menos até o próximo choque de realidade.

Só vontade não basta

Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Não foi daqueles jogos de encher os olhos, mas foi bem movimentado com as equipes tentando compensar a falta de qualidade técnica com vontade e disposição. O Cruzeiro, mais bem montado que o Palmeiras, tomou a iniciativa e definiu o jogo nos dez primeiros minutos com os gols de Ricardo Goulart e Manoel. Poderia até ter feito o terceiro com Éverton Ribeiro, mas parou nas mãos do goleiro Fábio. A diferença entre as duas equipes era tão grande que uma goleada parecia certa. A questão é que o ímpeto inicial cedeu espaço para a acomodação. O Cruzeiro se fechou na expectativa de armar o bote certeiro enquanto o time dirigido por Ricardo Gareca na base do abafa buscava uma jornada mais digna. Acertou a trave, perdeu uma oportunidade incrível com Henrique… Até que no segundo tempo chegou ao gol com o argentino Tobio. O Pacaembu viveu a expectativa do empate, mas faltou qualidade pra alcançar êxito na empreitada. Gareca vai ter trabalho pra acertar esse time. Vai precisar de tempo, reforços e respaldo da diretoria do clube. Quanto ao Cruzeiro, se por um lado está longe de ser brilhante, não ocupa a liderança por acaso. É competitivo e forte candidato ao título.

Uma vitória do futebol

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

A taça de campeão do mundo não poderia ter ficado em melhores mãos. A Alemanha mereceu a conquista em praticamente todos os aspectos. Por ter apresentado o melhor futebol do torneio, por ser o melhor time, por ter a melhor organização, além de ganhar mais uma estrela nos quesitos simpatia e generosidade.

Os alemães deixaram em  terras brasileiras exemplos marcantes, e no tocante ao futebol ministraram uma aula de como se faz, mesmo que se pese a jornada pouco brilhante diante dos aguerridos argentinos. Sim, faltou brilho na decisão, mas não eficiência. Ah, aquele gol do Goetze… Uma vitória do futebol organizado e alegre acima de tudo.

Todos os aplausos para os alemães. Eles levam a taça, porém deixam aberto um caminho para aqueles que sonham com o resgate do prestígio e da competitividade. A luz é o trabalho sério e organizado.

Que Dona Lúcia nos console

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

O jogo contra a Holanda acabou há cerca de cinco minutos e minha ansiedade é grande pra ouvir a comissão técnica da seleção brasileira. Será que seus integrantes vão dizer que houve um apagão de novo ou que houve evolução já que o time perdeu apenas de três e não de sete?

Mais que vergonhoso, é irritante ver o que fizeram da seleção brasileira. Que ela estava num patamar técnico inferior aos grandes rivais, há muito tempo isso já foi dito. A performance do time na Copa das confederações talvez tenha trazido grande dose de ilusão, mas o fiasco neste mundial foi de doer, com requintes de crueldade.

Se o jogo contra os holandeses era a chance de resgatar um pouco da autoestima perdida com a humilhante goleada sofrida diante dos alemães foi, na verdade, o tiro de misericórdia. Que dona Lúcia escreva agora pra todos nós. Estamos precisando de consolo.

Hora de mudar

Foto: Ricardo Stuckert/CBF

Foto: Ricardo Stuckert/CBF

Os problemas do futebol brasileiro têm sido discutidos à exaustão.  A falta de qualidade técnica, de estrutura, de organização…  O movimento Bom Senso F.C. que o diga! Não raramente fui questionado por leitores e telespectadores por conta das críticas. “Por que você não vai morar na Europa, Celso Cardoso, já que tudo lá é melhor?”.  Pois é!

A soberba do futebol brasileiro nada tem a ver com a realidade que vemos. Há muito o Brasil está longe de ser o melhor do mundo. Se antes tínhamos craques que compensavam com o talento individual a falta de organização e senso de conjunto, hoje nem isso existe mais. Alguém vai dizer: “Tem o Neymar”. Verdade! Um jovem de 22 anos, bom de bola, mas que ainda não ocupa um espaço entre os três melhores do mundo. A propósito, quando foi que um jogador brasileiro recebeu a Bola de Ouro como melhor do planeta? Kaká em 2007?  E lá sem vão sete anos.

O Brasil parou no tempo enquanto os rivais evoluíram, buscaram novas fórmulas, aliaram ofensividade à disciplina tática, se organizaram ainda mais. Os alemães, por exemplo, assim como os espanhóis – mas com eficiência ainda maior – olharam para a base, reformularam a estrutura do futebol do país, obrigando os clubes a terem gestão responsável e compromissada. Trabalharam em cima de uma filosofia, de planejamento.  Joachim Low, o técnico, foi mantido mesmo não chegando ao título da Copa de 2010 ou da Eurocopa em 2008 e 2012. Está lá há oito anos, sem contar o tempo como auxiliar de Klinsmann à frente da seleção na Copa de 2006 e hoje técnico da seleção norte-americana.

Voltando os olhos pra cá, inevitável pensar no futuro. E fica a pergunta: o que esperar? Considerando os homens que estão no poder do futebol brasileiro, sobra desalento. Basta ver o que Marco Polo Del Nero, presidente eleito da CBF, fez no Campeonato Paulista e na Copa São Paulo. Ele e José Maria Marín representam o que há de mais anacrônico no futebol, justamente quando o que mais precisamos é de um sopro de modernidade.

Se você ainda acredita que Deus é brasileiro talvez encontre fé. Mas talvez seja melhor admitir que há tempos não somos o país do futebol.  E neste caso, em vez de ajuda divina, o que vale é trabalho sério e comprometido. Tirar o olho do próprio umbigo e reconhecer que o outro é melhor.