Gazeta Esportiva

Arquivos do mês: julho 2011

             A participação de mulheres em competições esportivas e programas de atividade física adquiriu importância crescente nas últimas décadas.  O número de mulheres atletas e praticantes de atividade física tem aumentado consideravelmente, e há trabalhos que indicam um crescimento de 600% na participação feminina em esportes, perfazendo um total de mais de 1,9 milhão de mulheres ativas fisicamente.  Por estas razões, abordaremos a chamada Tríade da Mulher Atleta (TMA), síndrome (conjunto de sinais e sintomas clínicos) que afeta tanto atletas de elite quanto praticantes “não profissionais” de atividade física, caracterizada por desordem alimentar (baixa ingesta calórica), amenorréia (ciclos menstruais irregulares ou ausentes), e osteoporose (redução de massa óssea corpórea). O termo “Tríade da Mulher Atleta” foi oficializado em 1992, quando o Colégio Americano de  Medicina Esportiva reuniu diversos especialistas da área e publicou os resultados daquela conferência. 

              Ainda pouco esclarecida, a desordem alimentar encontrada nesta síndrome se refere a um espectro de padrões alterados de alimentação, desde uma simples restrição calórica até formas graves de anorexia nervosa e  bulimia.  A anorexia nervosa é caracterizada por extrema restrição alimentar, distorção da própria imagem corporal, indução de vômitos, intensa preocupação com a obesidade e amenorréia (ciclos menstruais ausentes ou com intervalos superiores a 90 dias). 

              A população de atletas mais propensa a desenvolver essa síndrome inclui o grupo de bailarinas e de corredoras de longa distância, geralmente obsecadas por magreza e cobradas por parte de treinadores, patrocinadores e mídia especializada. Segundo alguns autores, aproximadamente 25% das mulheres anoréxicas são atletas de elite.

             No passado, a disfunção menstrual observada em atletas de alta performance foi associada ao alto nível de atividade física que caracterizava seus treinamentos diários.  Durante muito tempo isto não despertou o interesse dos pesquisadores, pois acreditava-se que com a diminuição da intensidade dos treinamentos, o período menstrual voltaria ao normal sem detrimento da saúde da atleta.  Porém, alguns autores observaram que a densidade mineral óssea em atletas amenorréicas era significativamente menor quando comparada a atletas eumenorréicas (ciclos menstruais regulares).  Após estes estudos, o conceito de fenômeno benigno da amenorréia em atletas de ponta foi revisto e esta condição passou a ser encarada como uma causa prematura e importante de perda óssea.

             A amenorréia da mulher atleta é consensualmente reconhecida na literatura científica atual como um fenômeno de causa hormonal. A secreção pulsátil do hormônio hipotalâmico (secretado pelo hipotálamo, glândula presente em nosso cérebro que regula diversas funções hormonais) que promove a liberação dos hormônios estimuladores dos ovários está alterada, o que resulta na produção diminuída dos esteróides ovarianos estrógeno e progesterona, hormônios responsáveis pela regulação e modulação dos ciclos menstruais femininos.  A redução na secreção de estrógeno ocasionada pela amenorréia hipotalâmica desta síndrome é responsável pelo desenvolvimento de osteoporose prematura com consequências a curto e longo prazos.  A curto prazo, estas atletas têm apresentado um alto índice de lesões, em decorrência tanto do comprometimento estrutural da microarquitetura do osso como da redução de massa óssea corporal, particularmente fraturas de stress, e a longo prazo aquelas que se tornam portadoras de osteoporose desenvolvem um risco aumentado de fraturas com consequências potencialmente graves, embora ainda jovens.

          O principal objetivo no tratamento de atletas portadoras de alterações alimentares e amenorréia é restaurar seu equilíbrio hormonal.  Com orientação profissional, a atividade física deve ser prontamente reduzida em 10 a 20% do volume/intensidade/frequência prévios, e o ganho de peso deve ser adquirido com dietas que ofereçam acima de 2500 calorias, medidas que geralmente resultam no retorno espontâneo de menstruação. Nos casos em que isso não ocorre, a reposição hormonal passa a ser preconizada para evitar a perda óssea precoce, através de reposição estrogênica da mesma forma que é realizada em mulheres menopausadas, ou quando necessário, da administração de anticoncepcionais orais com altas taxas de estrógeno para aumentar de forma significativa a massa óssea destas atletas.  A suplementação com cálcio deve ser preconizada para as portadoras desta síndrome, utilizando 1500 mg diários divididos em duas doses.

José Marques Neto

Ortopedista e Médico do Esporte do Instituto Vita.

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP.

Especialista em Ortopedia e Medicina Esportiva pelo Hospital das Clínicas.

Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo ICB – USP.  

O número de indivíduos que praticam a corrida como parte exclusiva e/ou fundamental de um programa de atividade física vem crescendo ano após ano. Isto se deve a alguns fatores principais como:

  • Baixo custo necessário para sua prática (necessidade de poucos equipamentos especiais);
  • Caráter universal, podendo ser praticada por praticamente qualquer indivíduo;
  • Facilidade de locais e horários para seu treinamento;
  • Possibilidade de ser realizada individual ou coletivamente.

Como decorrência deste aumento no número de praticantes observamos, nos últimos anos, um crescimento relativo no número de indivíduos que procuram auxílio nas clínicas especializadas em Medicina do Esporte, seja para o tratamento de alguma lesão ou mesmo para algum tipo de orientação preventiva que possibilite a prática mais segura da corrida.

A corrida, sabidamente, é uma atividade esportiva que, quando praticada corretamente, apresenta baixa incidência de lesões no sistema musculoesquelético quando comparada a outros esportes.

As lesões que mais frequentemente acometem o corredor são as chamadas lesões por “overuse” ou por microtraumas de repetição. As articulações dos quadris, joelhos e tornozelos são frequentemente acometidas nesses atletas. Neste grupo, destacam-se as lesões que acometem a articulação do joelho, tanto por sua frequência como pelo efeito que podem ter sobre o desempenho do corredor.

Durante a corrida, um indivíduo pode realizar (dependendo da intensidade) 500 a 1.600 contatos do pé com o solo a cada quilômetro percorrido. O peso corporal absorvido pelo membro inferior a cada toque do pé no solo é de 1,5 a 6 vezes o peso corpóreo, sendo a articulação do joelho a principal responsável por absorver e dissipar esta energia.

A articulação do joelho é formada pelas articulações tíbio-femoral e femoropatelar. A patela funciona como uma polia que transmite a força gerada pelo quadríceps ao tendão patelar (Figura 1).

Figura 1: A patela funcionando como uma polia transmitindo a força gerada pelo quadríceps ao tendão patelar e a pressão resultante agindo sobre a articulação femoropatelar.

 

A produção e dissipação da energia ao redor do joelho são realizadas por músculos, tendões, cartilagem, meniscos e ligamentos. Como consequência dos microtraumas de repetição, uma das queixas mais frequentes dos corredores é a dor na região anterior do joelho, acometendo o tendão patelar, o tendão quadricipital, ou mesmo a cartilagem que reveste a patela (condromalácia patelar), o que denominamos de maneira geral como sobrecarga do mecanismo extensor (Figura 1).

Sabe-se hoje que dentre diversos fatores predisponentes ao aparecimento de dor na região anterior do joelho, o encurtamento das cadeias musculares ao redor desta articulação desempenha papel importante.

Assim como força e resistência muscular, a flexibilidade é uma qualidade física que pode e deve ser treinada. A flexibilidade é influenciada por diversos fatores, entre eles o gênero, com as mulheres apresentando melhor flexibilidade que os homens e a idade, com a flexibilidade diminuindo com o envelhecimento. A temperatura é outro fator que influencia a flexibilidade, aumentando com o calor e diminuindo com o frio, assim como as características genéticas, já que existe uma variabilidade individual em relação a esta qualidade física.

Muitas vezes a prática de exercícios específicos para a melhora da flexibilidade (alongamentos) é negligenciada dentro de um programa de treinamento, sendo realizada brevemente antes do início da corrida, fazendo parte de um “aquecimento”. Os exercícios de alongamento, com o objetivo de melhorar a flexibilidade, devem ser preferencialmente realizados em uma sessão exclusiva de treinamento para melhora da flexibilidade ou alternativamente após a corrida.

A literatura médica sugere que a realização de alongamentos após a atividade física pode ter um papel na prevenção de lesões e na diminuição da dor muscular causada pelo esforço físico.

A patela é circundada por um envelope de partes moles formado pelo tendão patelar e quadricipital, e retináculos patelares medial e lateral, este último apresentando íntima relação com o tracto iliotibial (Figura 3). O retesamento destas partes moles ao redor do joelho associado ao treinamento intensivo podem propiciar a ocorrência de lesões nos tendões (tendinopatias) e o aparecimento de processos inflamatórios no tracto iliotibial, a chamada síndrome do tracto iliotibial mais conhecida como “joelho do corredor”.

Figura 2: Envelope muscular ao redor do joelho.

 

Da mesma forma o encurtamento excessivo do quadríceps e da musculatura flexora do joelho, podem gerar durante a corrida um aumento da pressão exercida sobre a cartilagem patelar e favorecer com isso o aparecimento de lesões da cartilagem de revestimento da patela e/ou tróclea (nome dado à superfície do fêmur com a qual a patela mantém contato). As lesões de cartilagem da patela são conhecidas como “condromalácia patelar”, sendo classificadas frequentemente de grau I a IV de acordo com sua gravidade.

A inclusão de alongamentos ao término das sessões de treinamento podem auxiliar no equilíbrio deste sistema tão elaborado que é nosso mecanismo extensor, e com isso prevenir o aparecimento e a recidiva de quadros dolorosos envolvendo a patela (dor anterior no joelho).

A realização dos exercícios abaixo pode auxiliar na prevenção de lesões na articulação do joelho.

Treinamento de flexibilidade para o joelho:

  • Realizar ao final da sessão de treinamento.
  • 4 séries de 30 segundos em cada posição.

 

1. Alongamento para o Tracto íliotibial.

2. Alongamento para o quadríceps.

3. Alongamento para a musculatura flexora do joelho.

*Agradecimentos à colaboração da fisioterapeuta Renata Ortiz.

Dr. Caio Oliveira D’Elia

Ortopedista do Instituto Vita

Mestre em Ciências pela USP 

Especialista em Cirurgia do Joelho e em Medicina do Esporte

As nossas mãos sãos as mais incríveis ferramentas já desenvolvidas. Elas nos permitem trabalhar, criar, cuidar de nós mesmos e de quem amamos, praticar diferentes esportes em que são exigidas com intensidade e, até, defender-nos. Cada uma delas é um conjunto de ossos, ligamentos, tendões, nervos e artérias que, agindo em conjunto, podem assumir a forma de uma pinça, um martelo, uma concha ou qualquer outro utensílio ou gesto que precisamos para executar com precisão uma determinada tarefa.

            Essas maravilhosas estruturas também estão expostas às lesões. A nossa vida moderna nos leva a assumir posturas e a realizar gestos que ultrapassam a capacidade de adaptação e cicatrização dos tecidos, causando as lesões degenerativas como as tendinites e as tenossinovites muito comuns tanto no trabalho quanto na prática esportiva.

            Tendinite é a inflamação dos tendões que realizam o movimento do punho e dos dedos. Esses verdadeiros cabos de aço passam, cada um, por um trajeto estreito no punho, o que lhes confere precisão nos movimentos. Esses trajetos são chamados de túneis sendo preenchidos por uma camada fina de lubrificante, o líquido sinovial, responsável pelo deslizamento dos tendões. Quando existe inflamação nos túneis temos as tenossinovites. Essas inflamações podem manifestar-se de diversas maneiras, desde uma simples dor no trajeto dos tendões até o aumento de volume das tenossinovites e os cistos sinoviais, bolhas de líquido sinovial que surgem no trajeto dos tendões e sobre as articulações, causando dor e deformidade local.

            As tendinites e tenossinovites podem ser causadas por um traumatismo importante ou pelos microtraumatismos repetitivos do excesso de movimentos. No tratamento faz-se necessário um repouso temporário da área lesada, muitas vezes com imobilização. Os anti-inflamatórios aliviam a dor nos primeiros dias e a reabilitação com meios físicos e exercícios, supervisionados pelo terapeuta da mão, têm papel fundamental para uma boa recuperação. Os casos refratários podem ser tratados com infiltração e até com a remoção da parte inflamada pela cirurgia aberta ou pela artroscopia. Outro aspecto que deve ser lembrado é a correção da forma de trabalho para não haver recidiva da lesão. A má postura é um fator causal frequente nesse tipo de lesão e, no esporte, a adequação de equipamentos para a prática como, por exemplo, a da empunhadura da raquete do tenista às características pessoais (tamanho do equipamento e empunhadura do atleta) se faz muito importante.

            Portanto, cuide bem das suas mãos, pois existem inúmeras lesões do punho e da mão que exigem atenção preventiva e tratamentos totalmente diferentes para elas. Lembre-se que, por trás de um simples pulso aberto, existem lesões que, quando não diagnosticadas a tempo, podem comprometer a sua carreira.

 Dr. Mateus Saito

Ortopedista e Cirurgião da Mão do Instituto Vita e do Hospital das Clínicas da FMUSP.

 

 Para aprender mais:

1 – Pardini. Cirurgia da Mão – Lesões Traumáticas. Ed Manole

2 – Pardini. Cirurgia da Mão – Lesões Não-Traumáticas. Ed Manole

3 – Sizínio e Herbert. Manual de Ortopedia e Traumatolofia. Ed Medsi

 •          Algumas expressões foram simplificadas para um melhor entendimento.

Quando uma pessoa decide começar a correr, ela procura ter certeza de que está tudo bem com seu sistema cardiovascular. Já é bem conhecido que o coração e o sistema que depende dele devem estar em boas condições para que o treino não tenha nenhuma restrição. Mas e o aparelho locomotor? As articulações e músculos do nosso corpo também precisam estar em ordem para o início dessa atividade. O bom funcionamento desse sistema garante o alinhamento adequado dos membros e o equilíbrio das forças que agem sobre eles, consequentemente evitando lesões. Isso ocorre porque algumas lesões estão intimamente ligadas à mecânica que foi usada para praticar essa atividade, o que chamamos de mecanismos de lesão, ou o movimento que favorece certa lesão.

O número de pessoas que praticam corrida hoje em dia é considerável. É muito fácil ter acesso a uma planilha de treino, não precisa ser profissional. As assessorias esportivas tem um número grande de alunos, pessoas que não vivem para a corrida, mas que treinam para um Iron Man por exemplo. Todas essas categorias de atletas estão sujeitas à lesão se não realizarem reforço muscular adequado e se não apresentarem mecânica de corrida correta. Um desalinhamento sobrecarrega o sistema, principalmente, quando ele é repetido muitas vezes durante vários quilômetros e ainda mais numa situação de fadiga.

Mas como podemos saber se o atleta apresenta ângulos adequados durante uma atividade? Temos um exemplo: a análise cinemática. Esta é uma ferramenta da biomecânica muito utilizada nos laboratórios de análise do movimento em universidades do mundo todo. Ela possibilita a análise quantitativa do movimento através da filmagem por câmeras de infravermelho. Colocam-se marcadores refletivos sobre o corpo da pessoa em posições estratégicas para que seja possível reconstruir o movimento do indivíduo dentro de um programa de computador.

Uma vez tendo essa ferramenta na mão, e estrutura para uma pesquisa de qualidade, você tende a produzir uma base de dados, quer dizer, você convida indivíduos saudáveis, sem qualquer tipo de lesão e analisa o movimento dessas pessoas. Obtém-se uma média que pode ser considerada “normal”, ou seja, de pessoas que não adaptam seu movimento a partir de um desconforto e que fazem atividade física com frequência. Após montar essa base de dados, é possível iniciar comparações como, por exemplo, a cinemática da marcha em indivíduos com alguma lesão no joelho comparado a indivíduos saudáveis, ou a diferença entre a cinemática da corrida outdoor e na esteira. É possível, então, saber se o atleta executa um movimento saudável ou não.

Mas, uma vez verificado um desalinhamento, podemos interferir para prevenir lesões vinculadas a essa mecânica não adequada?

Pensando, fisicamente, que um segmento executa um movimento em resposta a uma força que é aplicada a ele, esse desalinhamento do membro está sendo provocado por alguma força a mais de um lado ou fraqueza do outro. Algum lado está “puxando” mais do que deveria ou um músculo não está aplicando a resistência necessária a um movimento. Isso pode ser evitado com um fortalecimento bem direcionado, voltado para a necessidade de cada atleta.

Além da força, o músculo responsável por esse alinhamento deve ser capaz de controlar e manter o movimento alinhado para que haja resposta rápida aos imprevistos, o que também pode ser treinado por exercícios que estimulem o tempo de reação e por atividades proprioceptivas.

A ideia é prevenir para manter a regularidade da atividade, evitando desconfortos que tirem o atleta da sua rotina. É possível e devemos começar a nos acostumar a antecipar as possibilidades de lesões. É preciso valorizar esses desconfortos e procurar profissionais que orientem a prática consciente, mesmo em competições de alto nível.

Carla Arnoni

Pesquisadora e Membro da Equipe de Preparação Física do Instituto Vita

Especialista em Atividade Física Adaptada e Saúde