Gazeta Esportiva

Arquivos do mês: agosto 2011

A torção do tornozelo é uma das queixas mais frequentes entre os esportistas recreacionais. Diariamente no consultório atendemos pacientes que sofreram entorses do tornozelo. Eles se queixam de dor e inchaço local, mas estão realmente assustados com o laudo da ressonância magnética: rotura completa dos ligamentos do tornozelo!

Quase 90% das torções do tornozelo acabam causando algum grau de lesão dos ligamentos, especialmente dos situados na face externa.

Quando realizamos a ressonância magnética, um número significativo dessas lesões é descrito como “rotura completa do ligamento talo-fibular anterior e do ligamento calcâneo-fibular”, o que provoca preocupação entre os pacientes, temerosos quanto à necessidade de realizar uma cirurgia.

Apesar das lesões ligamentares, e do laudo assustador da ressonância magnética, cerca de 80% dos pacientes com lesões parciais ou roturas desses ligamentos evoluem muito bem sem cirurgia, o que significa dizer que o tornozelo permanece estável e sem dor, e que os pacientes retornam às atividades diárias e à prática esportiva normalmente.

Para aumentarmos as possibilidades de uma evolução favorável, em certos casos, indicamos o uso de imobilizações (botas ou tornozeleiras), por um período mínimo para que a cicatrização inicial aconteça. Há uma clara tendência de evitarmos o uso de imobilizações em esportistas, mas frequentemente podermos agilizar sua recuperação se as utilizarmos adequadamente.

A fisioterapia é parte importante da reabilitação. De forma simplificada, diria que algumas sessões de fisioterapia permitem a regressão precoce do inchaço e da dor. Com a melhora do processo inflamatório é possível realizarmos treinos de equilíbrio, de força e gestos esportivos, ativando os reflexos musculares que fazem a estabilização funcional e dinâmica do tornozelo.  

Então, por que fazer a ressonância magnética? 

Para diagnosticarmos outras lesões que podem estar associadas às ligamentares, como as lesões de cartilagem, dos tendões, pequenas fraturas e contusões ósseas. Além disso, temos uma melhor compreensão do grau de energia envolvida e do mecanismo da torção.

O tratamento cirúrgico das lesões ligamentares do tornozelo me parece restrito aos pacientes com histórico de vários episódios de entorse, àqueles com lesões associadas, para algumas lesões em atletas de alto nível ou em casos excepcionais de instabilidade muito grave.

Dr. Márcio de Faria Freitas

Médico Ortopedista do Instituto Vita

Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo e em Medicina Esportiva

Todos que em algum momento da vida sentiram-se insatisfeitos com seu corpo buscaram realizar algum tipo de dieta. Entre tantas, porém qual a melhor? De uma forma bastante simples podemos afirmar: nenhuma. Essa visão pode parecer radical para alguns, no entanto, ela se baseia no simples fato de que, a pessoa que esteve ou está acima do peso ou obeso já se entregou a uma dieta na vida, e então, se estas funcionassem, seria de se esperar que não houvesse mais pessoas acima do peso ou obesas.

Para a análise mais apurada destas questões devemos considerar que a nossa alimentação é resultado da interferência de inúmeros fatores tais como aspectos culturais, sociais, emocionais e biológicos. Assim, ao impormos exclusivamente a restrição de determinados alimentos ou grupos de alimentos, estamos desprezando esse conjunto de fatores. Cada pessoa que engorda apresenta fatores pessoais determinantes para esse ganho de peso.

Pelas consequências não só do importante agravo à saúde decorrente da obesidade, mas também da urgência que as pessoas têm de emagrecer, diversas soluções imediatistas são adotadas. Os apelos são sempre os mesmos: “perca X quilos em X dias”. De fato a perda de peso pode ser um alento a quem está com sobrepeso, porém pode não significar perda de gordura na mesma proporção da perda de peso.

Dietas que promovem rápida redução de peso corporal, normalmente são muito restritivas, difíceis de serem mantidas por longo prazo. Muitas vezes não atacam a causa do problema que levou ao ganho de peso, apenas geram uma grande restrição calórica que vai levar à redução de peso, mas também à manifestação do sentimento: “não vejo à hora de acabar esta dieta e chegar ao peso ideal”. O grande problema é que ao “acabar” a dieta e retomar os padrões alimentares a recuperação do peso é inevitável. Considerando que as causas para o ganho de peso são variadas as soluções também devem ser.

Ingerimos alimentos por diversas razões: recompensa, ansiedade, tristeza, celebração, fome entre outros. Adotar uma dieta que eleja determinado grupo de alimentos como responsáveis pelo ganho de peso é sem dúvida uma abordagem por demais reducionista e não enxerga a complexidade do ser humano.

Quem não se lembra de algum dia em que chegou em casa e teve o seguinte pensamento ao comer ou beber algo: “hoje eu mereço, tive um dia cheio, estou exausto (a)”. Este pensamento é muito comum, a comida tem um papel recompensador importante em nossas vidas, desde quando somos crianças. E aqui cabe uma advertência aos pais: evitem usar alimentos como recompensa, como: “se você for bem na prova ganha um sorvete”, ou “se comer tudo ganha sobremesa”.

Parecem inofensivas, mas frases e atitudes como estas vão fazendo com que a criança associe conquistas com o prazer de comer, o alimento vira uma recompensa e este sentimento vai acompanhá-la pelo resto da vida. Momentos de frustração serão superados com consumo de doces, ou outros alimentos que possam ser prazerosos.

Temos o hábito de COMEmorar nossas conquistas, em restaurantes, sempre a volta de uma mesa. Lembram-se daquela frase da avó: “até parece que não gostou, não comeu nada”. Estes são alguns exemplos de como nossa relação com alimento é muito mais complexa e vai além de ter ou não disciplina, controlar ou não o que se come.

Por esta razão a única maneira de emagrecer e se manter saudável é adotar hábitos saudáveis, passar por um processo de reeducação nutricional que não vai acabar como acontece com uma dieta. Aprendendo a comer podemos nos alimentar bem em qualquer lugar, em qualquer restaurante, viajando, em hotel. Desta forma ninguém precisa se privar de sair para jantar, negar um happy hour porque está de dieta. É possível manter uma vida normal quando se sabe como comer, sempre podemos fazer opções mais saudáveis e adequadas, basta saber COMO.

Algumas dicas práticas:

1)     Desenvolver cardápios mais saudáveis em casa, nas escolas, empresas, fazendo com que a rotina alimentar mais saudável seja adotada logo nos primeiros anos de vida e passe a ser uma segunda natureza.

2)     Orientar o consumo alimentar familiar, sendo a refeição um fim em si mesma e não em agentes acessórios como TV, computador etc.

3)     Quando não for possível controlar a ingestão de alimentos de forma racional procurar uma equipe multidisciplinar com apoio psicológico. Evitar que o alimento assuma outro papel que não relacionado a se alimentar e o prazer que existe nesta ação por si só.

4)     Não procurar formas mágicas para emagrecer, elas funcionam por muito pouco tempo e o ganho de peso depois é normalmente maior do que o foi perdido.

5)     Não tenha pressa para emagrecer, às vezes, levamos 10 anos para ganhar 10kg, cerca de 1kg por ano e quando decidimos emagrecer queremos perder 10kg em 1 mês. Esta pressa nos leva a buscar soluções mágicas e pouco definitivas

 

Luciana Lancha

Nutricionista e Bacharel em Esporte

Os órgãos de saúde pública recomendam a atividade física regular como excelente alternativa para melhorar a saúde cardiovascular e combater doenças crônicas tais como a hipertensão arterial, a obesidade e a diabetes mellitus. Contudo, o aumento da prática esportiva, tanto no âmbito profissional quanto recreacional, também contribui para a incidência e a severidade das lesões musculoesqueléticas.

Estudos provenientes da Escandinávia relatam que cerca de 10-19% das lesões traumáticas registradas nos departamentos de emergência são oriundas da prática esportiva. A severidade deste tipo de lesão, frequentemente pode levar a necessidade de uma intervenção cirúrgica com um longo período de reabilitação e consequências incapacitantes a médio e longo prazo. Sem falar nos custos de um tratamento que são em geral bastante elevados.

Os valores gastos com estas intervenções tem como exemplo dados dos Estados Unidos da América (EUA), a média de cirurgias para reconstrução do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) chega a 250 mil por ano, com um custo estimado de 17 mil dólares por tratamento. Cabe destacar que apesar da técnica cirúrgica e da reabilitação avançada, uma lesão de LCA aumenta em até 105 vezes a chance de o indivíduo desenvolver doenças degenerativas no longo prazo.

 Em 2003, a “US Consumers Products Safety Comission” estimou que os custos com o tratamento de entorses de tornozelo em praticantes de basquete e futebol entre 15 e 18 anos, foram de 70 milhões de dólares, e os custos indiretos de 1,1 bilhões de dólares. Estudos epidemiológicos como trazem um diagnóstico do problema: ao acompanhar prospectivamente 46.472 jovens finlandeses durante nove anos, o autor registrou 265 lesões ligamentares nos joelhos (60.9 para cada 100.000 pessoas por ano), observando que a incidência foi mais importante nos indivíduos envolvidos em um volume maior de prática esportiva, sugerindo que o risco aumenta cerca de 8.5 vezes para mulheres e 4.0 para homens com este perfil.

Outro estudo realizado nos EUA estimou que 1.7 milhões de atletas do ensino médio sejam praticantes de futebol e basquete, e que 15% destes atletas sofrem pelo menos um entorse de tornozelo por temporada. Este quadro tem sido motivo de grande preocupação para os órgãos de saúde, levando a algumas tentativas para um melhor entendimento sobre a extensão do problema. Em 2004, foi criado na Noruega um sistema nacional de registros das lesões de LCA. Em 18 meses foram registradas 2793 cirurgias de reconstrução do LCA, o que corresponde a uma média anual de 34 casos para cada 100.000 habitantes, se considerarmos apenas os indivíduos com idade entre 16 e 39 anos (fase de maior participação em atividades esportivas competitivas), a média sobe para 85 casos para cada 100.000.

Este quadro sugere que profissionais como professores de educação física, fisioterapeutas e médicos trabalhem juntos criando campanhas de atividade física que possam elevar os níveis de saúde da população sem, no entanto, elevar as taxas de lesões inerentes ao aumento da adesão às práticas esportivas.

A ideia, com este texto, é a de iniciar a discussão sobre a questão da prática esportiva  x  prevenção de lesões trazendo a necessidade para que esta questão seja tratada em um contexto multidisciplinar e que juntos possamos fomentar um pensamento que traga à população um maior esclarecimento no que diz respeito à prática da atividade física segura.

Professor Lucio Mauro da Silva Martins

Professor de Educação Física do Instituto Vita