Gazeta Esportiva

Arquivos do mês: outubro 2011

Os tendões do corpo humano são faixas de tecido conjuntivo compostas por colágeno em sua maior parte, com baixo suprimento sanguíneo e de difícil cicatrização, que fazem a conexão entre os músculos e os ossos, responsáveis pelo movimento de nossos membros.  O complexo músculo-tendão-osso recebe o nome de entésio, e as doenças que afetam esta região são denominadas de entesopatias.

O tendão é o componente principal deste conjunto anatômico, sendo um tecido frequentemente acometido por um grupo de sinais e sintomas, incluindo dor crônica (mais de três semanas) com piora progressiva, inchaço (edema), aumento de espessura, redução da mobilidade que melhora após o aquecimento, diminuição da força de impulso, presença de calcificações e eventualmente podendo levar à ruptura tendínea.  Esta síndrome é chamada de tendinopatia pela literatura médica atual, ao invés de “tendinite”, termo tradicionalmente utilizado de forma errônea na prática clínica para diagnosticar a dor crônica no tendão.  O termo “tendinite” implica na formação de um processo inflamatório responsável pelo surgimento da dor, porém as evidências do estudo microscópico e bioquímico do tendão apontam para a presença de uma lesão no corpo do tendão descrita como “tendinose”, caracterizando um processo degenerativo local.

Não podemos excluir a ocorrência da inflamação durante os estágios iniciais desta doença, porém a literatura atual reserva o termo “tendinite” para processos inflamatórios agudos envolvendo a bainha tendínea (membrana que envolve o tendão), enquanto que tendinopatia é o termo mais adequado para descrever quadros de dor crônica nos tendões, acompanhada dos sinais e sintomas já descritos anteriormente.

Todos os seres humanos começam a apresentar uma redução de elasticidade de seus tecidos a partir dos 25 anos de idade, porém esta perda começa a se acentuar durante a quarta década de vida (31 a 40 anos), portanto exercícios de alongamento realizados diariamente desde a infância auxiliam na manutenção da flexibilidade do sistema músculo-esquelético e na prevenção de tendinopatias. Diversos fatores são predisponentes a esta condição, incluindo os fatores intrínsecos (relacionados ao atleta) como peso, alterações biomecânicas (ex.: pés cavos ou planos), hipermobilidade articular, desalinhamento e/ou discrepância do comprimento de membros inferiores, e déficit de alongamento e/ou fortalecimento muscular. Os fatores extrínsecos (relacionados ao meio ambiente) envolvem erros de treinamento (aumento indevido de volume, frequência, intensidade), deficiências técnicas, uso de tênis inadequado e superfície desfavorável para a corrida.                    

O diagnóstico das tendinopatias é fundamentalmente clínico, pois os exames de imagem podem detectar alterações anatômicas proporcionais às suas condições técnicas, mas que muitas vezes apresentam apenas limitada correlação com o quadro clínico do paciente.  Seu tratamento envolve diversos aspectos e pode ser bastante trabalhoso e demorado: repouso relativo com ênfase em atividades aeróbicas alternativas à corrida, medicação analgésica e/ou antiinflamatória, medidas fisioterápicas para redução da dor e ganho de amplitude de movimento do local, exercícios de alongamento e programas de fortalecimento muscular normalmente são recomendados.

José Marques Neto

Ortopedista e Médico do Esporte do Instituto Vita.

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP.

Especialista em Ortopedia e Medicina Esportiva pelo Hospital das Clínicas.

Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo ICB – USP

Assim como aumentou o número de mulheres praticantes de corrida, a incidência de lesões do quadril nas corredoras amadoras também cresceu.

Diferentemente dos homens, que apresentam como principais problemas as lesões na região do joelho, perna e pé, o quadril está especialmente em risco na corredora. Isto se deve provavelmente ao maior diâmetro da bacia da mulher e à proeminência maior da região do trocânter maior (a ponta de osso do quadril mais saliente, que forma a curva do quadril), além de peculiaridades na musculatura feminina e no seu metabolismo. Vale ir mais a fundo em alguns assuntos:

1 A tendinite da banda ílio-tibial é a inflamação de uma faixa fibrosa que se origina na crista da bacia, passa pelo trocânter maior (aquele osso mais proeminente da lateral do quadril) e que vai até a região de fora do joelho. A banda é esticada ao se pisar no chão e ao subir ladeiras e escadas. A tensão piora muito correndo em terrenos inclinados, como beiras de estrada e praias de tombo. O tratamento é eminentemente fisioterapêutico, com reforço e alongamento específico.

2 As fraturas de estresse do colo femoral ocorrem em corredoras com distúrbios menstruais, problemas alimentares e osteoporose (baixa do cálcio nos ossos). Esta é a tríade da mulher atleta, que deve ser prevenida com orientações nutricionais, psicológicas e ginecológicas. A dor na fratura de estresse é inconstante e difícil de localizar, profunda, mas acontece sempre ao final ou depois de correr. O repouso é essencial e o tempo de tratamento dura de dois a três meses.

3 A pubialgia é mais comum em homens, mas as mulheres, especialmente as com gravidez recente, podem ter uma sobrecarga nesta região. A dor é profunda à pelve, na frente da bacia. O tratamento é o reequilíbrio da musculatura da bacia e do tronco. Pilates e yoga ajudam muito a prevenção.

4 Já a tendinite dos ísquio-tibiais é característica das corredoras de longa distância e experientes. A dor é da região de trás da coxa, principalmente ao sentar ou alongar a musculatura posterior (que dobra o joelho). A reabilitação e reforço muscular melhoram a maioria dos casos.

5 As lesões labiais (do lábio ou labrum do quadril) são cada vez mais comuns e associadas a erros de treinamento, como excesso de flexão (dobrar) do quadril em exercícios de leg press, a fundo, cadeira abdutora-adutora ou educativos. A orientação correta destes exercícios, e o reforço muscular adequado dos músculos glúteos e do core ajuda prevenir estas lesões.

6 Por fim, a artrose ou desgaste do quadril tem alguns predisponentes. Mulheres com alterações anatômicas identificáveis em radiografias simples como a displasia (quadril raso) ou o impacto fêmoro-acetabular (excesso de osso no fêmur ou bacia) devem consultar um especialista em medicina esportiva ou ortopedista para impedir a sobrecarga da articulação e prevenir o desgaste. A corrida não desencadeia a artrose, mas, uma vez instalada, ela pode piorar a situação.

Prevenir é sempre melhor. A progressão adequada do treinamento, o uso de calçados específicos à sua pisada, a corrida em terrenos sem inclinações laterais, o reforço da musculatura do core e a consulta precoce, em caso de sintomas, a um médico especialista são as recomendações.

Dr. Henrique Berwanger Cabrita

Doutor em Ortopedia e Traumatologia pela USP.

Médico Ortopedista do Instituto Vita,  Especialista em Cirurgia do Quadril e Medicina Esportiva.