Gazeta Esportiva

Arquivos do mês: novembro 2011

A obesidade já é caracterizada por muitos como uma pandemia. As causas são as mais variadas possíveis passando pelas emocionais, sociais e biológicas. A questão é por que estamos engordando?

A literatura científica tem apontado para fatores ambientais, como sedentarismo e consumo de gordura na dieta, e não para uma tendência genética no crescimento da obesidade mundial. Diversos pesquisadores têm apresentado as possibilidades de fatores ambientais modificarem a expressão gênica, ativando proteínas capazes de modificar a manifestação dos genes contidos no DNA. Isto significa que não teríamos uma alteração na sequência dos genes, mas sim uma alteração em como estes genes estão sendo manifestados no organismo.

No esquema abaixo podemos visualizar estes fatores.

A tendência secular no aumento da obesidade parece ocorrer paralelamente à redução na prática de atividade física e aumento no sedentarismo. O hábito da prática de atividade física é influenciado na criança pelos pais, e quando desenvolvidos nesta fase, tendem a se manter do mesmo modo até a fase adulta. Além disso, uma redução natural no gasto energético é observada com a modernização, ocasionando estilo de vida mais sedentário com transporte motorizado, equipamentos mecanizados que diminuem o esforço físico de homens e mulheres tanto no trabalho como em casa. Já foi demonstrada uma redução de aproximadamente 600 kcal/dia nas crianças com a diminuição do tempo despendido com brincadeiras de rua e o aumento do tempo assistindo televisão. Para uma criança que tem como necessidade diária 1500 kcal, esta redução de 600 kcal é muito significativa. Do mesmo modo cortar grama com as mãos gastava aproximadamente 500 kcal/h, enquanto, com a utilização de cortadores elétricos de grama o gasto diminuiu para 180kcal/h, lavar as roupas no tanque consumia aproximadamente 1500kcal/dia enquanto usar a máquina de lavar requer apenas 270kcal/2h para a mesma quantidade de roupas. De fato poucas atividades hoje em dia são classificadas com muito ativas, enquanto há algumas décadas atrás várias atividades tinham esta característica.

Por outro lado a oferta, disponibilidade e o acesso aos alimentos aumentaram muito nas últimas décadas. As porções servidas em alguns restaurantes, lanchonetes são cada vez maiores e se não forem o cliente reclama que saiu com fome. O refrigerante pequeno em boa parte dos cinemas no Brasil tem meio litro. Tudo leva a um consumo cada vez maior. Com a globalização e a melhora da condição social um número muito maior de pessoas tem acesso a alimentos industrializados em detrimento do consumo de alimentos in natura, frescos. No caso do Brasil, as mudanças demográficas, socioeconômicas e epidemiológicas ao longo do tempo permitiram que ocorresse a denominada transição nos padrões nutricionais, com a diminuição progressiva da desnutrição e o aumento da obesidade. Estas mudanças encontradas no padrão alimentar da população brasileira com maior consumo de gordura saturada, maior ingestão de açúcar, redução do consumo de fibras, cereais (como arroz, feijão) é responsável, junto com a redução do gasto energético, pelo aumento da obesidade e sobrepeso, mas também pela dificuldade que indivíduos comuns têm em emagrecer.

Hoje a ida a academia por 1h ao dia é o mínimo que podemos fazer para compensar todo conforto da vida moderna. Hoje em dia, além deste conforto temos várias desculpas que acabam nos conduzindo a um comportamento mais sedentário, por exemplo, as pessoas não andam a pé porque se sentem inseguras, as crianças brincam mais no computador, dentro dos apartamentos porque é mais seguro. É claro que estes argumentos são válidos, mas não será que acabamos nos apoiando neles para mantermos uma atitude mais sedentária e confortável? Temos vários bairros em São Paulo, ou pequenas cidades nas quais as pessoas moram perto de shoppings, bancos, perto das escolas e mesmo assim acabam fazendo tudo de carro. Até que ponto falamos de insegurança e até que ponto preferimos o conforto? Se o problema é segurança por que então não usamos as escadas ao invés dos elevadores em shoppings, prédios? Por que preferimos chamar um colega de trabalho que está alguns metros de nós pelo telefone ao invés de caminharmos até ele? Sei que muitos dirão, para ganhar tempo…então direi, e perder saúde!

Podemos optar pelo conforto, mas temos que ter consciência do custo que isto representa por outro lado. Precisamos comer menos e melhor, gastar mais energia nas academias e clubes, onde nos sentimos mais seguros, pois do contrário o balanço energético só pode ser positivo: gastamos menos, consumimos mais = engordar.

Algumas dicas práticas:

1) Tente fazer seu dia mais ativo, sempre que possível use escadas, caminhe mais

2) Faça exercícios regularmente, isto tem que ser uma prioridade, é questão de saúde

3) Consuma alimentos mais integrais e frescos, evite alimentos industrializados

4) Coma menos, uma dica: NUNCA repita. Sirva-se uma vez, acabou, acabou!

Luciana Lancha

Nutricionista e Bacharel em Esporte

A exigência de avaliação médica antes de se iniciar a atividade física em academias, parques e clubes tem sido cada vez mais freqüentes. Esse processo é comumente denominado de avaliação pré-participação.

Tal prática é utilizada há alguns anos em países europeus e norte americanos, e tem como objetivo principal rastrear doenças e identificar fatores de risco cardiovasculares que possam ser lesivos para a saúde. Entre os atletas de alta performance é fácil entender o porquê das avaliações periódicas, basta lembrarmos de algumas tragédias como a dos jogadores de futebol Serginho, Miklos Feher e Marc-Vivien Foe.

A Itália foi o primeiro país a tornar obrigatória a avaliação pré-participação entre atletas que entrassem em qualquer competição oficial, construíram centros de formação e treinamento de profissionais altamente capacitados e centros de avaliação de atletas e investigação de patologias. A partir disso, protocolos de avaliação inicial que incluem história pessoal e familiar, exame físico e eletrocardiograma foram desenvolvidos e aplicados com os rigores necessários. Passados quase 30 anos, podemos verificar uma diminuição importante no número de atletas que apresentaram morte súbita em solo italiano.

Apesar de ser discutível o uso de exames como eletrocardiograma, teste de esforço e ecocardiograma, não se discute a importância da avaliação periódica de atletas. No entanto, quando falamos em esportistas amadores, praticantes de atividade física e pessoas que desejam iniciar atividade física não existem estudos científicos que sustentem tal prática ou mesmo recomendações precisas sobre quais são as doenças a serem rastreadas.

Pensando nisso, deixo duas perguntas a serem respondidas: será que todas as pessoas se beneficiam de realizar tal avaliação pré-participação? É necessário realizar um exame médico para fazer exercícios?

A avaliação dos riscos cardiovasculares, por outro lado tem grande valia, pois, praticar atividade física com maior segurança é sempre importante, principalmente, para aqueles que visam saúde. Além disso, o exame médico pode trazer outros benefícios como prevenção de lesões, otimizar e procurar o melhor tipo de treinamento para tratar os problemas detectados, orientação alimentar e de descanso. A diversidade marca esse grupo de pessoas praticantes de atividade física, mas, que não são atletas profissionais. Portanto, suprir as necessidades de cada praticante é fundamental.

Prática de atividade física regular é o fator mais importante para a longevidade e melhora da qualidade de vida, sendo, recomendada para todas as pessoas. Progressão correta da atividade física, especialmente em indivíduos que apresentam fatores de risco para doença cardiovascular, iniciando com exercício leve a moderado e evoluindo sem excessos. Respeitar as limitações como no caso de lesões prévias, indicar o melhor tipo de exercício ou esporte, respeitar idade e sexo, orientando o exercício de forma individualizada. Nesse caso, o ideal seria realizar não só a avaliação inicial, mas, acompanhar a evolução do paciente até ingressar em programa de exercícios mais intensos.

Em atletas profissionais que apresentam alto estresse fisiológico, levando o corpo ao limite, é prudente que se faça os exames para rastrear e descartar possíveis doenças graves, como a doenças cardíacas congênitas. Em contrapartida, a população comum pode se beneficiar muito de uma avaliação que vise a promoção de saúde e melhora da qualidade de vida.

Leonardo Kenji Hirao

Medicina do Esporte e do Exercício

Grupo de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas – FMUSP

Com a realização do Parapan, na cidade do México, nos veio a ideia de vasculhar o acervo pessoal do professor Antonio Boaventura da Silva, falecido em 2005, que temos a honra de guardar. Tínhamos algumas informações sobre a experiência do professor Boaventura nos Estados Unidos da América do Norte nos anos de 1940, quando de seu estágio na Michigan University.

Quando no Brasil, já na segunda década do século XXI, ainda vivemos o distanciamento das pessoas das práticas da cultura corporal de movimento; a valorização unilateral dos mais hábeis e; a precoce seleção de talentos, nos deparamos com fotos que retratam, e muito fielmente, quanto atrasados estamos quanto à inserção de deficientes nos esportes em nossa sociedade. Não vamos nos alongar em texto, anexamos, apenas, algumas fotos que provocarão, certamente, as pessoas envolvidas com o Esporte cidadão em nosso país.

As anotações do rodapé das fotos são originais.

A primeira foto é do Capitão WLFORD HOLSBERG, amputação dupla das pernas, que demonstra suas habilidades como o Golfe.

Senhor Walter Bura, também com amputação na perna esquerda, praticando salto ornamental.

Por fim, um grupo de amputados praticando esporte

Prof. Dr. Daniel Carreira Filho

Professor de Educação Física

Gestor da OSCIP Vita Care

O desejo do ser humano de se superar continuamente, tentando ser mais forte, vitorioso, sem respeitar limites éticos, pode ser observado em todas as etapas da história da humanidade – não podendo ser diferente no esporte.

Qual o preço de uma vitória?

Se resgatarmos na História do Esporte, em meio à segunda Guerra Mundial, a vitória representava superioridade étnica. Nas décadas de 80 e 90, no auge da Guerra Fria, supremacia política. Já em tempos atuais, em meio à globalização, a vitória representa dinheiro -muito dinheiro através de publicidade.

Na raiz de sua definição, Esporte é uma atividade física e intelectual de natureza competitiva governada por regras institucionalizadas.

Oportunamente, diante este conceito, pergunta-se: O que é o Doping?

Doping nada mais é que a violação de uma das regras do esporte competitivo. Regra esta, que independente da modalidade esportiva ou dos interesses sociais, políticos e financeiros envolvidos na modalidade, determina que: é eminentemente proibido o uso de determinadas substâncias ou métodos que possam beneficiar o rendimento físico, fazendo o atleta obter vantagem sobre seu adversário.

Assim, à exceção dos valores morais que atribuímos, doping pode ser definido como o uso, por atletas federados, de substâncias ou métodos proibidos presentes na publicação anual da Agência Mundial Anti-Doping (WADA) – que desde 2004 controla esta regra dentre todos as instituições desportivas do planeta.

Atualmente, o controle de dopagem se limita a análise química – através da cromatografia a gás ou espectrometria de massa – de amostras biológicas provindas do atleta: urina ou sangue. Esses métodos de análises são extremamente apurados, capazes de identificar doses ínfimas das substâncias proibidas no organismo do atleta. Tudo isso, com o único intuito de dar uma resposta: sim = amostra com presença de substância proibida ou não = amostra livre de substâncias proibidas.

E, justamente, por emitir apenas um laudo técnico qualitativo, o doping acarreta tanta discussão perante a imprensa e a opinião pública. Teste anti-doping positivo não atesta intenção do atleta e sim o contato do organismo do atleta com a substância proibida.

Resumidamente, existem duas formas de um atleta transcender a regra do doping:

-       tendo contato intencional com a substância.

-       sendo negligente diante seus atos e, mesmo sem intenção, resultando em um teste adverso.

Para identificar e coibir a utilização intencional de substâncias proibidas pelos atletas, os órgãos responsáveis aumentaram consideravelmente o numero de controles anti-dopings. Por sua vez, o aumento do numero de controles, acarretou em uma elevação exponencial dos casos decorrentes de desatenção, falta de informação ou mesmo exposição ocasional.

Diferente da justiça forense, no esporte todo atleta é culpado até prova em contrário. Por assim entender, todo atleta que apresenta resultado adverso em controle anti-doping terá o direito de um julgamento que seguirá uma seqüência hierárquica institucional, culminando na decisão final do  órgão máximo do esporte: a Corte Arbitral do Esporte (CAS – sigla em inglês).

A ciência do doping, se assim podemos mencionar, esta totalmente focada em desenvolver substâncias e métodos capazes de não serem identificados nos modelos atuais de análise química. Em 2009, a ex-corredora americana Marion Jones declarou publicamente o uso do anabolizante sintético THG (que na época não era passível de detecção nos controles anti-dopings) e acabou perdendo suas medalhas. Quantas destas outras substâncias não estão sendo desenvolvidas? As hipóteses atuais é que além dessas substâncias sintéticas, a manipulação genética, através da modificação de genes, é capaz de transformar corpos humanos em verdadeiras máquinas de competição.

Portanto, enquanto perdemos tempo discutindo culpabilidade de atletas já julgados por órgãos estritamente especializados, a indústria do doping cresce perigosamente. O foco não pode ser desviado, todos que trabalhamos e gostamos de esporte devemos ter responsabilidade de coibir o uso de qualquer forma de ganho artificial, defendendo a competição justa. Não nos cabe discutir penas e sim, brigar por controles eficazes. A política anti-doping se faz efetiva com muita educação. O atleta, desde cedo, deve ter acesso ao máximo de informação e estar sempre rodeado de profissionais muito bem orientados. As federações não podem se limitar a controles, devem oferecer estrutura, segurança, informação. Briguemos por justiça e paremos de expor nossos atletas.

 

Dr. Gustavo D. Magliocca

Médico do esporte

Instituto Vita