Gazeta Esportiva

 

A lesão muscular se constitui em uma das principais lesões dentro da medicina do esporte e acomete tanto praticantes de atividade física como atletas profissionais, podendo ser uma consequência importante do processo de fadiga muscular, sobretudo  em corredores de longa distância.

         De uma maneira geral as lesões resultantes de atividades esportivas podem ser classificadas em dois grupos básicos: 1

1. Lesões intrínsecas: causadas por fatores individuais e biológicos (fatores antropométricos, história pregressa do atleta, nível de condicionamento).

2. Lesões extrínsecas: causadas por fatores externos e do meio ambiente (piso de corrida, equipamento esportivo, condições climáticas).

As corridas de longa distância, esporte considerado sem contato físico, normalmente geram lesões intrínsecas1.  As mais comuns incluem tendinopatias, bursites, fasciites, fraturas de stress e lesões musculares.  As lesões musculares afetam os corredores principalmente durante os treinos de velocidade, incluindo os tiros e os intervalados.  Os atletas de elite podem apresentar maior predisposição a este tipo de lesão pela alta intensidade de seus treinamentos.  A literatura atual classifica estas lesões em diretas ou indiretas (mecanismo de ação), parciais ou totais (resultado da lesão), e traumáticas ou atraumáticas (presença ou ausência de contato físico) 1 .   

O estiramento muscular é uma lesão indireta frequente entre os corredores.  É causado por um alongamento das fibras musculares além de sua capacidade normal de trabalho, decorrente de ciclos intensos de contração e relaxamento do músculo envolvido.  Ocorre geralmente na junção músculo-tendínea, área de menor resistência do músculo, ou também na inserção do tendão ao osso, em situações na qual o músculo não está adequadamente alongado, portanto despreparado para aquele esforço físico.  Durante treinamentos que envolvem velocidade, como os intervalados ou tiros, lesões musculares são frequentes. 

Os treinos intervalados predispõem a estes tipos de lesões, pois a musculatura exerce um esforço forte e contínuo durante os intervalos pré-determinados do treino, e os tiros são preocupantes pois entre um esforço físico e outro o músculo pode contrair excessivamente e perder parte de sua capacidade de se alongar, tornando o atleta predisposto a sofrer uma lesão no tiros seguintes ou ao final da sessão.   

Fatores como fadiga muscular e lesões prévias são importantes considerações a serem feitas na prevenção de estiramentos musculares.  A fadiga muscular, característica presente principalmente no final das sessões de treinos de velocidade, provoca uma alteração no automatismo do movimento de corrida do atleta e, portanto se torna um fator predisponente para a ocorrência de lesões.  As lesões prévias induzem à formação de fibrose (tecido cicatricial) nas áreas afetadas que não apresentarão a mesma capacidade de alongamento e força que tecidos não lesados, portanto constituindo um local propício para o surgimento de novas lesões.  A atividade adequada de toda a musculatura dos membros inferiores, seguida de exercícios de alongamento, são condições que auxiliam na preparação desta musculatura e consequentemente reduzem os riscos de estiramentos.  No caso de corredores, as regiões mais afetadas incluem a parte posterior (atrás) da coxa, especificamente os músculos ísquio-tibiais, e a panturrilha (batata da perna).       

O sintoma clínico característico referido pelo atleta é uma fisgada no músculo, seguida de dor e comprometimento da função muscular a ponto de interromper o treinamento ou a competição.  Parada a atividade física, deve-se aplicar gelo na região acometida em ciclos de 10 a 15 minutos, através de bolsa envolvida por tecido fino para a proteção da pele, e feita uma bandagem para a compressão do local.  O membro deve permanecer elevado e em repouso, porém a imobilização deve ser evitada ao máximo a fim de minimizar a perda de tônus muscular e propriocepção (sensibilidade do movimento).  Como medicamentos, podem ser utilizados os analgésicos, já que os antiinflamatórios podem comprometer o mecanismo de reparação tecidual em andamento.  Todas estas condutas, que objetivam a diminuição da dor e o controle do edema, podem ser seguidas pelas próximas 24-48 horas.  Após este período, são introduzidas as medidas fisioterápicas que incluem a utilização de ultra-som pulsado para o auxílio da regeneração dos tecidos.  Na terceira semana devem ser iniciados os exercícios para o ganho de força desta musculatura e amplitude de movimento das articulações envolvidas.  O objetivo do tratamento deve ser o retorno ao esporte em cinco semanas.  Persistindo a dor, é necessária uma consulta com um médico especialista em medicina esportiva para a correta reavaliação da lesão e condução do tratamento.  É importante salientar que a reabilitação adequada das lesões musculares depende de um diagnóstico médico preciso, tratamento fisioterápico completo e colaboração total do atleta.

Referência Bibliográfica:

     1. Cohen, M., Abdalla, R., Lesões nos Esportes – diagnóstico, prevenção, tratamento Revinter, 2003

Dr José Marques Neto

Médico formado pela Faculdade de Medicina USP – Pinheiros.  Especialista em Ortopedia e Medicina Esportiva pelo Hospital das Clínicas.  Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo ICB – USP.  Ortopedista e médico do esporte do Instituto VITA (São Paulo).

A associação entre medicina e hospital é muito comum. A maior parte dos médicos vive essa rotina de consultório e jaleco branco, no entanto, existem aqueles que trocam tais lugares por gramados e quadras. É nesse contexto que vive o médico do esporte.

            A profissionalização de atletas e a organização de clubes esportivos permitiu a criação de comissões técnicas cada vez mais especializadas. Hoje, fazem parte dessa comissão: técnico, auxiliar técnico, preparador físico, fisiologista, fisioterapeuta e médico, entre outros. A participação de cada um desses profissionais tem se tornado cada vez mais importante a medida que crescem as exigências físicas dos atletas.

            Dentre as funções do médico estão: avaliações periódicas de atletas, diagnóstico e tratamento das lesões e doenças mais comuns entre os atletas, prevenção de lesões, atendimento de emergência e primeiros socorros, reabilitação, acompanhar e criar programas de retorno progressivo ao esporte, orientar outros membros da comissão técnica e atletas. Sendo assim, deve ter conhecimentos em cardiologia, traumatologia, fisiologia do exercício, biomecânica, nutrição, atendimento de emergência.

            Para exercer todas essas funções com maestria é necessário investimento em estrutura e em profissionais de diversas disciplinas. Em um departamento médico, assim como nos esportes coletivos ninguém faz nada sozinho, é preciso trabalhar em equipe. O treinamento dos profissionais envolvidos é fundamental, ter conhecimento do esporte, conhecer o padrão de movimento do gesto esportivo e relacionar com lesões específicas. Restrição de sono, hábitos alimentares, uso de álcool, cigarro e drogas também podem implicar em queda de rendimento e doenças.

            A preparação do médico pode ser realizada através de cursos de atualização como é o caso do curso “Team Physician” de órgãos como American College of Sports Medicine (ACSM) e International Federation of Sports Medicine (FIMS), existem também cursos de pós graduação na área, muitos médicos vem de outras especialidades como é o caso da Ortopedia e da Cardiologia, atualmente, já existe há 5 anos residência de Medicina do Esporte e do Exercício.

            Fica a cargo do departamento médico a compra de medicamentos, equipamentos de resgate, mala de campo, organização de enfermaria e ambulatório. Outro problema muito comum é atuar em outras localidades, como obter o material ou exame necessário em outras cidades, estados ou países. Problemas relacionados as leis que regem os esportes como é o caso da lista de medicamentos que não podem ser utilizados por atletas, também, devem ser de conhecimento de toda comissão técnica.

Leonardo Kenji Hirao

Medicina do Esporte e do Exercício

Grupo de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas – FMUSP

A obesidade já é caracterizada por muitos como uma pandemia. As causas são as mais variadas possíveis passando pelas emocionais, sociais e biológicas. A questão é por que estamos engordando?

A literatura científica tem apontado para fatores ambientais, como sedentarismo e consumo de gordura na dieta, e não para uma tendência genética no crescimento da obesidade mundial. Diversos pesquisadores têm apresentado as possibilidades de fatores ambientais modificarem a expressão gênica, ativando proteínas capazes de modificar a manifestação dos genes contidos no DNA. Isto significa que não teríamos uma alteração na sequência dos genes, mas sim uma alteração em como estes genes estão sendo manifestados no organismo.

No esquema abaixo podemos visualizar estes fatores.

A tendência secular no aumento da obesidade parece ocorrer paralelamente à redução na prática de atividade física e aumento no sedentarismo. O hábito da prática de atividade física é influenciado na criança pelos pais, e quando desenvolvidos nesta fase, tendem a se manter do mesmo modo até a fase adulta. Além disso, uma redução natural no gasto energético é observada com a modernização, ocasionando estilo de vida mais sedentário com transporte motorizado, equipamentos mecanizados que diminuem o esforço físico de homens e mulheres tanto no trabalho como em casa. Já foi demonstrada uma redução de aproximadamente 600 kcal/dia nas crianças com a diminuição do tempo despendido com brincadeiras de rua e o aumento do tempo assistindo televisão. Para uma criança que tem como necessidade diária 1500 kcal, esta redução de 600 kcal é muito significativa. Do mesmo modo cortar grama com as mãos gastava aproximadamente 500 kcal/h, enquanto, com a utilização de cortadores elétricos de grama o gasto diminuiu para 180kcal/h, lavar as roupas no tanque consumia aproximadamente 1500kcal/dia enquanto usar a máquina de lavar requer apenas 270kcal/2h para a mesma quantidade de roupas. De fato poucas atividades hoje em dia são classificadas com muito ativas, enquanto há algumas décadas atrás várias atividades tinham esta característica.

Por outro lado a oferta, disponibilidade e o acesso aos alimentos aumentaram muito nas últimas décadas. As porções servidas em alguns restaurantes, lanchonetes são cada vez maiores e se não forem o cliente reclama que saiu com fome. O refrigerante pequeno em boa parte dos cinemas no Brasil tem meio litro. Tudo leva a um consumo cada vez maior. Com a globalização e a melhora da condição social um número muito maior de pessoas tem acesso a alimentos industrializados em detrimento do consumo de alimentos in natura, frescos. No caso do Brasil, as mudanças demográficas, socioeconômicas e epidemiológicas ao longo do tempo permitiram que ocorresse a denominada transição nos padrões nutricionais, com a diminuição progressiva da desnutrição e o aumento da obesidade. Estas mudanças encontradas no padrão alimentar da população brasileira com maior consumo de gordura saturada, maior ingestão de açúcar, redução do consumo de fibras, cereais (como arroz, feijão) é responsável, junto com a redução do gasto energético, pelo aumento da obesidade e sobrepeso, mas também pela dificuldade que indivíduos comuns têm em emagrecer.

Hoje a ida a academia por 1h ao dia é o mínimo que podemos fazer para compensar todo conforto da vida moderna. Hoje em dia, além deste conforto temos várias desculpas que acabam nos conduzindo a um comportamento mais sedentário, por exemplo, as pessoas não andam a pé porque se sentem inseguras, as crianças brincam mais no computador, dentro dos apartamentos porque é mais seguro. É claro que estes argumentos são válidos, mas não será que acabamos nos apoiando neles para mantermos uma atitude mais sedentária e confortável? Temos vários bairros em São Paulo, ou pequenas cidades nas quais as pessoas moram perto de shoppings, bancos, perto das escolas e mesmo assim acabam fazendo tudo de carro. Até que ponto falamos de insegurança e até que ponto preferimos o conforto? Se o problema é segurança por que então não usamos as escadas ao invés dos elevadores em shoppings, prédios? Por que preferimos chamar um colega de trabalho que está alguns metros de nós pelo telefone ao invés de caminharmos até ele? Sei que muitos dirão, para ganhar tempo…então direi, e perder saúde!

Podemos optar pelo conforto, mas temos que ter consciência do custo que isto representa por outro lado. Precisamos comer menos e melhor, gastar mais energia nas academias e clubes, onde nos sentimos mais seguros, pois do contrário o balanço energético só pode ser positivo: gastamos menos, consumimos mais = engordar.

Algumas dicas práticas:

1) Tente fazer seu dia mais ativo, sempre que possível use escadas, caminhe mais

2) Faça exercícios regularmente, isto tem que ser uma prioridade, é questão de saúde

3) Consuma alimentos mais integrais e frescos, evite alimentos industrializados

4) Coma menos, uma dica: NUNCA repita. Sirva-se uma vez, acabou, acabou!

Luciana Lancha

Nutricionista e Bacharel em Esporte

A exigência de avaliação médica antes de se iniciar a atividade física em academias, parques e clubes tem sido cada vez mais freqüentes. Esse processo é comumente denominado de avaliação pré-participação.

Tal prática é utilizada há alguns anos em países europeus e norte americanos, e tem como objetivo principal rastrear doenças e identificar fatores de risco cardiovasculares que possam ser lesivos para a saúde. Entre os atletas de alta performance é fácil entender o porquê das avaliações periódicas, basta lembrarmos de algumas tragédias como a dos jogadores de futebol Serginho, Miklos Feher e Marc-Vivien Foe.

A Itália foi o primeiro país a tornar obrigatória a avaliação pré-participação entre atletas que entrassem em qualquer competição oficial, construíram centros de formação e treinamento de profissionais altamente capacitados e centros de avaliação de atletas e investigação de patologias. A partir disso, protocolos de avaliação inicial que incluem história pessoal e familiar, exame físico e eletrocardiograma foram desenvolvidos e aplicados com os rigores necessários. Passados quase 30 anos, podemos verificar uma diminuição importante no número de atletas que apresentaram morte súbita em solo italiano.

Apesar de ser discutível o uso de exames como eletrocardiograma, teste de esforço e ecocardiograma, não se discute a importância da avaliação periódica de atletas. No entanto, quando falamos em esportistas amadores, praticantes de atividade física e pessoas que desejam iniciar atividade física não existem estudos científicos que sustentem tal prática ou mesmo recomendações precisas sobre quais são as doenças a serem rastreadas.

Pensando nisso, deixo duas perguntas a serem respondidas: será que todas as pessoas se beneficiam de realizar tal avaliação pré-participação? É necessário realizar um exame médico para fazer exercícios?

A avaliação dos riscos cardiovasculares, por outro lado tem grande valia, pois, praticar atividade física com maior segurança é sempre importante, principalmente, para aqueles que visam saúde. Além disso, o exame médico pode trazer outros benefícios como prevenção de lesões, otimizar e procurar o melhor tipo de treinamento para tratar os problemas detectados, orientação alimentar e de descanso. A diversidade marca esse grupo de pessoas praticantes de atividade física, mas, que não são atletas profissionais. Portanto, suprir as necessidades de cada praticante é fundamental.

Prática de atividade física regular é o fator mais importante para a longevidade e melhora da qualidade de vida, sendo, recomendada para todas as pessoas. Progressão correta da atividade física, especialmente em indivíduos que apresentam fatores de risco para doença cardiovascular, iniciando com exercício leve a moderado e evoluindo sem excessos. Respeitar as limitações como no caso de lesões prévias, indicar o melhor tipo de exercício ou esporte, respeitar idade e sexo, orientando o exercício de forma individualizada. Nesse caso, o ideal seria realizar não só a avaliação inicial, mas, acompanhar a evolução do paciente até ingressar em programa de exercícios mais intensos.

Em atletas profissionais que apresentam alto estresse fisiológico, levando o corpo ao limite, é prudente que se faça os exames para rastrear e descartar possíveis doenças graves, como a doenças cardíacas congênitas. Em contrapartida, a população comum pode se beneficiar muito de uma avaliação que vise a promoção de saúde e melhora da qualidade de vida.

Leonardo Kenji Hirao

Medicina do Esporte e do Exercício

Grupo de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas – FMUSP

Com a realização do Parapan, na cidade do México, nos veio a ideia de vasculhar o acervo pessoal do professor Antonio Boaventura da Silva, falecido em 2005, que temos a honra de guardar. Tínhamos algumas informações sobre a experiência do professor Boaventura nos Estados Unidos da América do Norte nos anos de 1940, quando de seu estágio na Michigan University.

Quando no Brasil, já na segunda década do século XXI, ainda vivemos o distanciamento das pessoas das práticas da cultura corporal de movimento; a valorização unilateral dos mais hábeis e; a precoce seleção de talentos, nos deparamos com fotos que retratam, e muito fielmente, quanto atrasados estamos quanto à inserção de deficientes nos esportes em nossa sociedade. Não vamos nos alongar em texto, anexamos, apenas, algumas fotos que provocarão, certamente, as pessoas envolvidas com o Esporte cidadão em nosso país.

As anotações do rodapé das fotos são originais.

A primeira foto é do Capitão WLFORD HOLSBERG, amputação dupla das pernas, que demonstra suas habilidades como o Golfe.

Senhor Walter Bura, também com amputação na perna esquerda, praticando salto ornamental.

Por fim, um grupo de amputados praticando esporte

Prof. Dr. Daniel Carreira Filho

Professor de Educação Física

Gestor da OSCIP Vita Care

O desejo do ser humano de se superar continuamente, tentando ser mais forte, vitorioso, sem respeitar limites éticos, pode ser observado em todas as etapas da história da humanidade – não podendo ser diferente no esporte.

Qual o preço de uma vitória?

Se resgatarmos na História do Esporte, em meio à segunda Guerra Mundial, a vitória representava superioridade étnica. Nas décadas de 80 e 90, no auge da Guerra Fria, supremacia política. Já em tempos atuais, em meio à globalização, a vitória representa dinheiro -muito dinheiro através de publicidade.

Na raiz de sua definição, Esporte é uma atividade física e intelectual de natureza competitiva governada por regras institucionalizadas.

Oportunamente, diante este conceito, pergunta-se: O que é o Doping?

Doping nada mais é que a violação de uma das regras do esporte competitivo. Regra esta, que independente da modalidade esportiva ou dos interesses sociais, políticos e financeiros envolvidos na modalidade, determina que: é eminentemente proibido o uso de determinadas substâncias ou métodos que possam beneficiar o rendimento físico, fazendo o atleta obter vantagem sobre seu adversário.

Assim, à exceção dos valores morais que atribuímos, doping pode ser definido como o uso, por atletas federados, de substâncias ou métodos proibidos presentes na publicação anual da Agência Mundial Anti-Doping (WADA) – que desde 2004 controla esta regra dentre todos as instituições desportivas do planeta.

Atualmente, o controle de dopagem se limita a análise química – através da cromatografia a gás ou espectrometria de massa – de amostras biológicas provindas do atleta: urina ou sangue. Esses métodos de análises são extremamente apurados, capazes de identificar doses ínfimas das substâncias proibidas no organismo do atleta. Tudo isso, com o único intuito de dar uma resposta: sim = amostra com presença de substância proibida ou não = amostra livre de substâncias proibidas.

E, justamente, por emitir apenas um laudo técnico qualitativo, o doping acarreta tanta discussão perante a imprensa e a opinião pública. Teste anti-doping positivo não atesta intenção do atleta e sim o contato do organismo do atleta com a substância proibida.

Resumidamente, existem duas formas de um atleta transcender a regra do doping:

-       tendo contato intencional com a substância.

-       sendo negligente diante seus atos e, mesmo sem intenção, resultando em um teste adverso.

Para identificar e coibir a utilização intencional de substâncias proibidas pelos atletas, os órgãos responsáveis aumentaram consideravelmente o numero de controles anti-dopings. Por sua vez, o aumento do numero de controles, acarretou em uma elevação exponencial dos casos decorrentes de desatenção, falta de informação ou mesmo exposição ocasional.

Diferente da justiça forense, no esporte todo atleta é culpado até prova em contrário. Por assim entender, todo atleta que apresenta resultado adverso em controle anti-doping terá o direito de um julgamento que seguirá uma seqüência hierárquica institucional, culminando na decisão final do  órgão máximo do esporte: a Corte Arbitral do Esporte (CAS – sigla em inglês).

A ciência do doping, se assim podemos mencionar, esta totalmente focada em desenvolver substâncias e métodos capazes de não serem identificados nos modelos atuais de análise química. Em 2009, a ex-corredora americana Marion Jones declarou publicamente o uso do anabolizante sintético THG (que na época não era passível de detecção nos controles anti-dopings) e acabou perdendo suas medalhas. Quantas destas outras substâncias não estão sendo desenvolvidas? As hipóteses atuais é que além dessas substâncias sintéticas, a manipulação genética, através da modificação de genes, é capaz de transformar corpos humanos em verdadeiras máquinas de competição.

Portanto, enquanto perdemos tempo discutindo culpabilidade de atletas já julgados por órgãos estritamente especializados, a indústria do doping cresce perigosamente. O foco não pode ser desviado, todos que trabalhamos e gostamos de esporte devemos ter responsabilidade de coibir o uso de qualquer forma de ganho artificial, defendendo a competição justa. Não nos cabe discutir penas e sim, brigar por controles eficazes. A política anti-doping se faz efetiva com muita educação. O atleta, desde cedo, deve ter acesso ao máximo de informação e estar sempre rodeado de profissionais muito bem orientados. As federações não podem se limitar a controles, devem oferecer estrutura, segurança, informação. Briguemos por justiça e paremos de expor nossos atletas.

 

Dr. Gustavo D. Magliocca

Médico do esporte

Instituto Vita

Os tendões do corpo humano são faixas de tecido conjuntivo compostas por colágeno em sua maior parte, com baixo suprimento sanguíneo e de difícil cicatrização, que fazem a conexão entre os músculos e os ossos, responsáveis pelo movimento de nossos membros.  O complexo músculo-tendão-osso recebe o nome de entésio, e as doenças que afetam esta região são denominadas de entesopatias.

O tendão é o componente principal deste conjunto anatômico, sendo um tecido frequentemente acometido por um grupo de sinais e sintomas, incluindo dor crônica (mais de três semanas) com piora progressiva, inchaço (edema), aumento de espessura, redução da mobilidade que melhora após o aquecimento, diminuição da força de impulso, presença de calcificações e eventualmente podendo levar à ruptura tendínea.  Esta síndrome é chamada de tendinopatia pela literatura médica atual, ao invés de “tendinite”, termo tradicionalmente utilizado de forma errônea na prática clínica para diagnosticar a dor crônica no tendão.  O termo “tendinite” implica na formação de um processo inflamatório responsável pelo surgimento da dor, porém as evidências do estudo microscópico e bioquímico do tendão apontam para a presença de uma lesão no corpo do tendão descrita como “tendinose”, caracterizando um processo degenerativo local.

Não podemos excluir a ocorrência da inflamação durante os estágios iniciais desta doença, porém a literatura atual reserva o termo “tendinite” para processos inflamatórios agudos envolvendo a bainha tendínea (membrana que envolve o tendão), enquanto que tendinopatia é o termo mais adequado para descrever quadros de dor crônica nos tendões, acompanhada dos sinais e sintomas já descritos anteriormente.

Todos os seres humanos começam a apresentar uma redução de elasticidade de seus tecidos a partir dos 25 anos de idade, porém esta perda começa a se acentuar durante a quarta década de vida (31 a 40 anos), portanto exercícios de alongamento realizados diariamente desde a infância auxiliam na manutenção da flexibilidade do sistema músculo-esquelético e na prevenção de tendinopatias. Diversos fatores são predisponentes a esta condição, incluindo os fatores intrínsecos (relacionados ao atleta) como peso, alterações biomecânicas (ex.: pés cavos ou planos), hipermobilidade articular, desalinhamento e/ou discrepância do comprimento de membros inferiores, e déficit de alongamento e/ou fortalecimento muscular. Os fatores extrínsecos (relacionados ao meio ambiente) envolvem erros de treinamento (aumento indevido de volume, frequência, intensidade), deficiências técnicas, uso de tênis inadequado e superfície desfavorável para a corrida.                    

O diagnóstico das tendinopatias é fundamentalmente clínico, pois os exames de imagem podem detectar alterações anatômicas proporcionais às suas condições técnicas, mas que muitas vezes apresentam apenas limitada correlação com o quadro clínico do paciente.  Seu tratamento envolve diversos aspectos e pode ser bastante trabalhoso e demorado: repouso relativo com ênfase em atividades aeróbicas alternativas à corrida, medicação analgésica e/ou antiinflamatória, medidas fisioterápicas para redução da dor e ganho de amplitude de movimento do local, exercícios de alongamento e programas de fortalecimento muscular normalmente são recomendados.

José Marques Neto

Ortopedista e Médico do Esporte do Instituto Vita.

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP.

Especialista em Ortopedia e Medicina Esportiva pelo Hospital das Clínicas.

Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo ICB – USP

Assim como aumentou o número de mulheres praticantes de corrida, a incidência de lesões do quadril nas corredoras amadoras também cresceu.

Diferentemente dos homens, que apresentam como principais problemas as lesões na região do joelho, perna e pé, o quadril está especialmente em risco na corredora. Isto se deve provavelmente ao maior diâmetro da bacia da mulher e à proeminência maior da região do trocânter maior (a ponta de osso do quadril mais saliente, que forma a curva do quadril), além de peculiaridades na musculatura feminina e no seu metabolismo. Vale ir mais a fundo em alguns assuntos:

1 A tendinite da banda ílio-tibial é a inflamação de uma faixa fibrosa que se origina na crista da bacia, passa pelo trocânter maior (aquele osso mais proeminente da lateral do quadril) e que vai até a região de fora do joelho. A banda é esticada ao se pisar no chão e ao subir ladeiras e escadas. A tensão piora muito correndo em terrenos inclinados, como beiras de estrada e praias de tombo. O tratamento é eminentemente fisioterapêutico, com reforço e alongamento específico.

2 As fraturas de estresse do colo femoral ocorrem em corredoras com distúrbios menstruais, problemas alimentares e osteoporose (baixa do cálcio nos ossos). Esta é a tríade da mulher atleta, que deve ser prevenida com orientações nutricionais, psicológicas e ginecológicas. A dor na fratura de estresse é inconstante e difícil de localizar, profunda, mas acontece sempre ao final ou depois de correr. O repouso é essencial e o tempo de tratamento dura de dois a três meses.

3 A pubialgia é mais comum em homens, mas as mulheres, especialmente as com gravidez recente, podem ter uma sobrecarga nesta região. A dor é profunda à pelve, na frente da bacia. O tratamento é o reequilíbrio da musculatura da bacia e do tronco. Pilates e yoga ajudam muito a prevenção.

4 Já a tendinite dos ísquio-tibiais é característica das corredoras de longa distância e experientes. A dor é da região de trás da coxa, principalmente ao sentar ou alongar a musculatura posterior (que dobra o joelho). A reabilitação e reforço muscular melhoram a maioria dos casos.

5 As lesões labiais (do lábio ou labrum do quadril) são cada vez mais comuns e associadas a erros de treinamento, como excesso de flexão (dobrar) do quadril em exercícios de leg press, a fundo, cadeira abdutora-adutora ou educativos. A orientação correta destes exercícios, e o reforço muscular adequado dos músculos glúteos e do core ajuda prevenir estas lesões.

6 Por fim, a artrose ou desgaste do quadril tem alguns predisponentes. Mulheres com alterações anatômicas identificáveis em radiografias simples como a displasia (quadril raso) ou o impacto fêmoro-acetabular (excesso de osso no fêmur ou bacia) devem consultar um especialista em medicina esportiva ou ortopedista para impedir a sobrecarga da articulação e prevenir o desgaste. A corrida não desencadeia a artrose, mas, uma vez instalada, ela pode piorar a situação.

Prevenir é sempre melhor. A progressão adequada do treinamento, o uso de calçados específicos à sua pisada, a corrida em terrenos sem inclinações laterais, o reforço da musculatura do core e a consulta precoce, em caso de sintomas, a um médico especialista são as recomendações.

Dr. Henrique Berwanger Cabrita

Doutor em Ortopedia e Traumatologia pela USP.

Médico Ortopedista do Instituto Vita,  Especialista em Cirurgia do Quadril e Medicina Esportiva.

Desde muito criança, e já temos alguns anos de vida, ouvíamos o dito “é de pequenino que se torce o pepino” que determinava a atitude que os adultos deveriam tomar com relação a comportamentos das crianças.

O mesmo raciocínio tem sido utilizado para justificar ou aconselhar a prática esportiva em tenra idade por parte das crianças. Tal premissa foi, também, utilizada pelo Paladino da Educação Física Brasileira, Rui Barboza, em um de seus célebres discursos.

Vivemos, alguns anos atrás, um evento chamado “IRON KIDS”, que envolvia crianças de 4 a 9 anos em provas baseadas no IRON MAN, uma modalidade esportiva “adulta”.

Noutro caminho, este com olhares apurados de profissionais da área, foram criadas práticas voltadas para as crianças, o “mini esporte” com algumas adaptações dos equipamentos e, minimamente, dos espaços específicos.

Ainda hoje vivemos esta lógica da iniciação em tenra idade como garantia da adesão destes seres humanos às práticas da cultura corporal de movimento durante sua existência, quer em busca da saúde, quer envolvido em projetos de formação de talentos esportivos para a nação brasileira.

Pois bem, os dados presentes na literatura brasileira demonstram que tanto jovens quanto adultos e idosos ainda se encontram distantes das práticas corporais e que, embora tenham iniciado suas práticas na infância, as abandonam por inúmeros motivos quando na idade adulta ou mesmo na adolescência.

Muito recentemente é que a sociedade como um todo passou a considerar a criança e respeitar suas características de crescimento e desenvolvimento. Basta recordar: em nosso país a idade registrada para o ECA – Estatuto da Criança e da Adolescência e há quantos anos a medicina passou a desenvolver medicamentos específicos para a infância em substituição ao fracionamento dos medicamentos administrados para adultos.

Em vários estudos e recomendações de especialistas encontramos a indicação da competição esportiva apenas após os 14 anos de idade, ainda que as práticas tenham início mais cedo.

Parece-nos, portanto, que é coerente recomendar a prática esportiva ou das atividades físicas desde a mais tenra idade e com a indispensável adequação de conteúdos, estratégias e ambiente ao mundo infantil e não a reprodução da realidade do mundo adulto. Aliás, é importante lembrar que os esportes não foram criados para ou pelas crianças, são construções do mundo adulto que tenta se reproduzir para estes seres em desenvolvimento.

Acreditamos que devemos nos empenhar em desenvolver esportes para as crianças e não crianças para o esporte. Esta frase pode parecer um simples jogo de palavras, mas estas palavras vão para muito além do jogo que se tenta reproduzir com o envolvimento precoce de crianças com o que está em jogo no jogo que o adulto joga.

Daniel Carreira Filho

Professor – Vita Care

             As doenças cardiovasculares, respiratórias e metabólicas estão entre as principais causas de morbidade e de mortalidade em todo o mundo. Estima-se que hoje no Brasil existam mais de 17 milhões de hipertensos (35% da população acima de 40 anos) e cerca de 1 milhão de diabéticos, sendo as doenças cardiovasculares a principal causa de morte em nosso país (Figura 1), com cerca de 1,2 milhão de mortes por ano, 300 mil por infarto agudo do miocárdio. Apesar da imensa evolução da farmacologia, que possibilitou uma drástica mudança na evolução destas doenças, a reabilitação permanece como um dos pilares essenciais no manejo destes pacientes, determinando impacto decisivo tanto na qualidade e como na quantidade de vida. Soma-se a isso o grande número de trabalhos científicos desenvolvidos a cada ano, investigando diferentes metodologias de treinamento, possibilitando a elaboração de programas de exercícios cada vez mais eficientes e seguros. Neste contexto, destaca-se a necessidade da prescrição de exercício físico adaptado às características individuais de cada paciente, que em determinadas situações deve ocorrer sob supervisão especializada.

 

            Por outro lado, na abordagem de indivíduos saudáveis, a busca pela evolução do desempenho em exercício também necessita do estabelecimento de padrões individualizados de prescrição de treinamento, buscando estimular ao máximo os potenciais de cada organismo mantendo níveis de segurança clínica e cardiovascular. A cada dia encontramos mais indivíduos orientados e motivados, treinando segundo as recomendações científicas mais modernas, utilizando sistemas de monitorização e evoluindo em saúde e performance.

            Dentro dessa realidade, dispomos hoje de uma ferramenta capaz de avaliar o corpo de uma pessoa em detalhes, analisando o coração, a respiração e o metabolismo durante todos os níveis de esforço, desde o repouso até a máxima exaustão. Trata-se do teste ergoespirométrico (figura 2), também conhecido como teste cardiopulmonar, um exame que avalia o coração e o pulmão, além de analisar uma série de respostas hemodinâmicas e metabólicas. Durante a realização de esforço são monitorizadas simultaneamente dezenas de variáveis através do eletrocardiograma, da medida da pressão arterial e de uma máscara facial que analisa os gases respirados, durante o exercício progressivo. Estas medidas nos permitem analisar o desempenho máximo de uma pessoa, medido através do consumo máximo de oxigênio (VO2max), além de identificar pontos específicos do esforço onde ocorre um processo de transição metabólica, conhecidos como limiares ventilatórios, que orientam as zonas individuais de treinamento que uma pessoa deve seguir, utilizando a frequência cardíaca como parâmetro ideal de monitorização. Assim, a realização de um teste ergoespirométrico nos permite analisar o risco para realização de esforço (análise do eletrocardiograma, medida da pressão arterial e respostas clínicas) e definir as intensidades ideais de exercício (limiares ventilatórios), elaborando um programa de treinamento individualizado, seguro e eficaz, independente de o indivíduo apresentar uma doença cardiovascular e objetivar apenas melhora de sua condição clínica, ou de ser um atleta em busca de seu máximo desempenho.

        A                                                                             B     

 

Figura 2. Teste ergoespirométrico em esteira (A) e em bicicleta (B).

            Por algum tempo este teste permaneceu longe do alcance da maioria das pessoas, limitado a clubes esportivos e alguns hospitais, mas hoje podemos encontrar exames de ergoespirometria disponíveis em diversas clínicas e laboratórios, muitas vezes cobertos pelos próprios planos de saúde ou até mesmo pelo sistema público de saúde, especialmente em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis. Assim, é preciso divulgar a importância deste exame e estimular que um número crescente de pessoas busque informações para conhecer seu próprio corpo, treinando da maneira adequada, através do controle da FC e da identificação dos limiares pelo teste ergoespirométrico.

            Dessa forma, dentro da programação de treinamento físico aeróbio individualizado, as principais funções do teste ergoespirométrico são a caracterização do VO2 máximo e a identificação dos limiares de treinamento, capazes de orientar a prescrição individualizada de exercícios, específica para as características de cada organismo. A importância desses limiares reside no fato de serem eles os pontos de transição metabólica em esforço, ou seja, intensidades específicas capazes de provocar adaptações fisiológicas no sentido de ampliar o equilíbrio do organismo e aumentar a sua resistência à sobrecarga, o que caracteriza a evolução física e a resposta adaptativa ao exercício. Já a caracterização do VO2 max nos permite qualificar a capacidade aeróbia máxima de uma pessoa, o que pode orientar as modalidades de exercícios mais indicadas e a maneira mais adequada de estimular este potencial.

            O primeiro limiar (L1) é definido como o ponto onde se iniciam os processos anaeróbios de obtenção de energia para a contração muscular, com produção de ácidos que promovem aumento da formação de CO2 em função do tamponamento pelo bicarbonato, o que provoca aumento significativo da ventilação. Esta hiperventilação é responsável pelas modificações nas curvas de VE, RER, VE/VO2 e PetO2 que caracterizam o L1.

            Assim, o L1 marca a intensidade mínima ideal de treinamento, partir da qual devem ser prescritos os exercícios aeróbios. Acima do L1 provocamos sobrecarga fisiológica capaz de desencadear os mecanismos adaptativos responsáveis pela resposta de evolução do condicionamento físico. Deve ser ressaltado que a prescrição de treinamento para pessoas portadoras de doenças cardiovasculares, especialmente doença coronariana e insuficiência cardíaca, deve utilizar o L1 não mais como limite mínimo, mas como uma intensidade ideal de treinamento, avançando pouco além deste ponto quando as avaliações cardíacas e pulmonares evidenciarem ausência de risco de eventos agudos, procurando evitar ir além do segundo limiar, em função do risco de alterações clínicas em níveis muito elevados de anaerobiose e acidose.

            O segundo limiar (L2) é definido como o ponto onde existe exaustão do sistema tampão fisiológico, com incapacidade de se equilibrar a acidose produzida pelo metabolismo anaeróbio. Dessa forma, intensidades acima do L2 são conhecidas como supra-limiares, caracterizadas por anaerobiose descompensada e elevada acidose metabólica, o que provoca aumenta ainda mais intenso da ventilação pulmonar, principalmente por elevação da frequência respiratória, buscando compensação da acidose através da criação de alcalose respiratória. Esta hiperventilação é responsável pelas modificações nas curvas de VE, FR, VE/VCO2 e PetCO2 que caracterizam o L2.

            Exercícios realizados acima desta intensidade não podem ser sustentados por muito tempo, pois a acidose elevada provoca alterações na condução neuromuscular e nas propriedades contráteis dos músculos, com incoordenação e câimbras, além de alterações hemodinâmicas com sensação de tontura e náuseas, que levam à interrupção do esforço. Assim, o L2 marca o ponto máximo de treinamento aeróbio, onde a acidose apresenta-se ainda compensada e a partir do qual o esforço só pode ser sustentado por um curto período de tempo. Exercícios supra-limiares podem ser utilizados para composição de treinamento intervalado e para treinamento de sprint e de resistência anaeróbia, porém com o cuidado de não submeter o aluno a um tempo muito prolongado nessas intensidades elevadas o que poderia induzir a um quadro de overtraining.

            Após definir os momentos em que ocorrem os limiares ventilatórios podemos identificar a FC relacionada a cada um desses pontos e utilizá-la como parâmetro de monitorização da intensidade ideal de treinamento. Com a utilização de monitores de FC podemos acompanhar as respostas do organismo durante o desenvolvimento de esforço e garantir o melhor controle do esforço.

            O VO2 máximo é definido como a máxima capacidade de um organismo em captar o ar atmosférico através das vias respiratórias, extrair o oxigênio do ar e fixá-lo nas hemáceas através da membrana alvéolo-capilar (processo conhecido por hematose), transportá-lo aos tecidos através do sistema cardiovascular e utilizá-lo em nível celular para obtenção de energia, produzindo movimento a partir da contração das células musculares. Dessa forma, percebemos que o conceito de VO2max envolve o funcionamento adequado e harmônico de 3 diferentes sistemas: respiratório, cardiovascular e músculo-esquelético, produzindo movimento. É lógico que também tomam parte aqui o sistema neurológico, que programa e coordena a execução das reações necessárias e o sistema endócrino, que permite os ajustes para adequação das respostas. Assim, quando definimos o VO2max de uma pessoa estamos analisando a integridade fisiológica de um organismo e a capacidade de cada sistema de suportar sobrecarga física, de maneira coordenada e eficiente, sendo que quanto mais treinado for cada sistema e todos eles em conjunto, melhores serão as respostas diante de um esforço.

 

Tabela 1. esquema representativo das fases do esforço progressivo, demonstrando as respostas metabólicas encontradas e os fatores a elas relacionadas.

             O treinamento físico progressivo com cargas crescentes, diversificado, adaptado às características de cada organismo é a melhor forma de estimular estas adaptações e promover evolução do desempenho físico. Apenas com o conhecimento dos limiares ventilatórios e do VO2max podemos elaborar um plano de exercícios de maneira realmente eficaz e segura. Todavia, é importante ressaltar que a realização deste exame não diminui a importância da equipe multidisciplinar que deve acompanhar uma pessoa em programa de treinamento. Muito pelo contrário, este exame oferece uma gama imensa de informações que deverão ser interpretadas pelos diversos profissionais responsáveis pela orientação de um indivíduo, como médico, professor de educação física, nutricionista e fisioterapeuta, direcionando as recomendações destes profissionais para que cada pessoa possa atingir o seu melhor desempenho, com saúde e com muito prazer.

Luiz Augusto Riani Costa

Médico pela Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

Residência em Medicina Interna e Clínica Médica pela UNICAMP

Pós graduação em Medicina Esportiva e Fisiologia do Exercício pela Faculdade de Medicina da USP

Profissional do Instituto Vita