Gazeta Esportiva

Assim como aumentou o número de mulheres praticantes de corrida, a incidência de lesões do quadril nas corredoras amadoras também cresceu.

Diferentemente dos homens, que apresentam como principais problemas as lesões na região do joelho, perna e pé, o quadril está especialmente em risco na corredora. Isto se deve provavelmente ao maior diâmetro da bacia da mulher e à proeminência maior da região do trocânter maior (a ponta de osso do quadril mais saliente, que forma a curva do quadril), além de peculiaridades na musculatura feminina e no seu metabolismo. Vale ir mais a fundo em alguns assuntos:

1 A tendinite da banda ílio-tibial é a inflamação de uma faixa fibrosa que se origina na crista da bacia, passa pelo trocânter maior (aquele osso mais proeminente da lateral do quadril) e que vai até a região de fora do joelho. A banda é esticada ao se pisar no chão e ao subir ladeiras e escadas. A tensão piora muito correndo em terrenos inclinados, como beiras de estrada e praias de tombo. O tratamento é eminentemente fisioterapêutico, com reforço e alongamento específico.

2 As fraturas de estresse do colo femoral ocorrem em corredoras com distúrbios menstruais, problemas alimentares e osteoporose (baixa do cálcio nos ossos). Esta é a tríade da mulher atleta, que deve ser prevenida com orientações nutricionais, psicológicas e ginecológicas. A dor na fratura de estresse é inconstante e difícil de localizar, profunda, mas acontece sempre ao final ou depois de correr. O repouso é essencial e o tempo de tratamento dura de dois a três meses.

3 A pubialgia é mais comum em homens, mas as mulheres, especialmente as com gravidez recente, podem ter uma sobrecarga nesta região. A dor é profunda à pelve, na frente da bacia. O tratamento é o reequilíbrio da musculatura da bacia e do tronco. Pilates e yoga ajudam muito a prevenção.

4 Já a tendinite dos ísquio-tibiais é característica das corredoras de longa distância e experientes. A dor é da região de trás da coxa, principalmente ao sentar ou alongar a musculatura posterior (que dobra o joelho). A reabilitação e reforço muscular melhoram a maioria dos casos.

5 As lesões labiais (do lábio ou labrum do quadril) são cada vez mais comuns e associadas a erros de treinamento, como excesso de flexão (dobrar) do quadril em exercícios de leg press, a fundo, cadeira abdutora-adutora ou educativos. A orientação correta destes exercícios, e o reforço muscular adequado dos músculos glúteos e do core ajuda prevenir estas lesões.

6 Por fim, a artrose ou desgaste do quadril tem alguns predisponentes. Mulheres com alterações anatômicas identificáveis em radiografias simples como a displasia (quadril raso) ou o impacto fêmoro-acetabular (excesso de osso no fêmur ou bacia) devem consultar um especialista em medicina esportiva ou ortopedista para impedir a sobrecarga da articulação e prevenir o desgaste. A corrida não desencadeia a artrose, mas, uma vez instalada, ela pode piorar a situação.

Prevenir é sempre melhor. A progressão adequada do treinamento, o uso de calçados específicos à sua pisada, a corrida em terrenos sem inclinações laterais, o reforço da musculatura do core e a consulta precoce, em caso de sintomas, a um médico especialista são as recomendações.

Dr. Henrique Berwanger Cabrita

Doutor em Ortopedia e Traumatologia pela USP.

Médico Ortopedista do Instituto Vita,  Especialista em Cirurgia do Quadril e Medicina Esportiva.

Desde muito criança, e já temos alguns anos de vida, ouvíamos o dito “é de pequenino que se torce o pepino” que determinava a atitude que os adultos deveriam tomar com relação a comportamentos das crianças.

O mesmo raciocínio tem sido utilizado para justificar ou aconselhar a prática esportiva em tenra idade por parte das crianças. Tal premissa foi, também, utilizada pelo Paladino da Educação Física Brasileira, Rui Barboza, em um de seus célebres discursos.

Vivemos, alguns anos atrás, um evento chamado “IRON KIDS”, que envolvia crianças de 4 a 9 anos em provas baseadas no IRON MAN, uma modalidade esportiva “adulta”.

Noutro caminho, este com olhares apurados de profissionais da área, foram criadas práticas voltadas para as crianças, o “mini esporte” com algumas adaptações dos equipamentos e, minimamente, dos espaços específicos.

Ainda hoje vivemos esta lógica da iniciação em tenra idade como garantia da adesão destes seres humanos às práticas da cultura corporal de movimento durante sua existência, quer em busca da saúde, quer envolvido em projetos de formação de talentos esportivos para a nação brasileira.

Pois bem, os dados presentes na literatura brasileira demonstram que tanto jovens quanto adultos e idosos ainda se encontram distantes das práticas corporais e que, embora tenham iniciado suas práticas na infância, as abandonam por inúmeros motivos quando na idade adulta ou mesmo na adolescência.

Muito recentemente é que a sociedade como um todo passou a considerar a criança e respeitar suas características de crescimento e desenvolvimento. Basta recordar: em nosso país a idade registrada para o ECA – Estatuto da Criança e da Adolescência e há quantos anos a medicina passou a desenvolver medicamentos específicos para a infância em substituição ao fracionamento dos medicamentos administrados para adultos.

Em vários estudos e recomendações de especialistas encontramos a indicação da competição esportiva apenas após os 14 anos de idade, ainda que as práticas tenham início mais cedo.

Parece-nos, portanto, que é coerente recomendar a prática esportiva ou das atividades físicas desde a mais tenra idade e com a indispensável adequação de conteúdos, estratégias e ambiente ao mundo infantil e não a reprodução da realidade do mundo adulto. Aliás, é importante lembrar que os esportes não foram criados para ou pelas crianças, são construções do mundo adulto que tenta se reproduzir para estes seres em desenvolvimento.

Acreditamos que devemos nos empenhar em desenvolver esportes para as crianças e não crianças para o esporte. Esta frase pode parecer um simples jogo de palavras, mas estas palavras vão para muito além do jogo que se tenta reproduzir com o envolvimento precoce de crianças com o que está em jogo no jogo que o adulto joga.

Daniel Carreira Filho

Professor – Vita Care

             As doenças cardiovasculares, respiratórias e metabólicas estão entre as principais causas de morbidade e de mortalidade em todo o mundo. Estima-se que hoje no Brasil existam mais de 17 milhões de hipertensos (35% da população acima de 40 anos) e cerca de 1 milhão de diabéticos, sendo as doenças cardiovasculares a principal causa de morte em nosso país (Figura 1), com cerca de 1,2 milhão de mortes por ano, 300 mil por infarto agudo do miocárdio. Apesar da imensa evolução da farmacologia, que possibilitou uma drástica mudança na evolução destas doenças, a reabilitação permanece como um dos pilares essenciais no manejo destes pacientes, determinando impacto decisivo tanto na qualidade e como na quantidade de vida. Soma-se a isso o grande número de trabalhos científicos desenvolvidos a cada ano, investigando diferentes metodologias de treinamento, possibilitando a elaboração de programas de exercícios cada vez mais eficientes e seguros. Neste contexto, destaca-se a necessidade da prescrição de exercício físico adaptado às características individuais de cada paciente, que em determinadas situações deve ocorrer sob supervisão especializada.

 

            Por outro lado, na abordagem de indivíduos saudáveis, a busca pela evolução do desempenho em exercício também necessita do estabelecimento de padrões individualizados de prescrição de treinamento, buscando estimular ao máximo os potenciais de cada organismo mantendo níveis de segurança clínica e cardiovascular. A cada dia encontramos mais indivíduos orientados e motivados, treinando segundo as recomendações científicas mais modernas, utilizando sistemas de monitorização e evoluindo em saúde e performance.

            Dentro dessa realidade, dispomos hoje de uma ferramenta capaz de avaliar o corpo de uma pessoa em detalhes, analisando o coração, a respiração e o metabolismo durante todos os níveis de esforço, desde o repouso até a máxima exaustão. Trata-se do teste ergoespirométrico (figura 2), também conhecido como teste cardiopulmonar, um exame que avalia o coração e o pulmão, além de analisar uma série de respostas hemodinâmicas e metabólicas. Durante a realização de esforço são monitorizadas simultaneamente dezenas de variáveis através do eletrocardiograma, da medida da pressão arterial e de uma máscara facial que analisa os gases respirados, durante o exercício progressivo. Estas medidas nos permitem analisar o desempenho máximo de uma pessoa, medido através do consumo máximo de oxigênio (VO2max), além de identificar pontos específicos do esforço onde ocorre um processo de transição metabólica, conhecidos como limiares ventilatórios, que orientam as zonas individuais de treinamento que uma pessoa deve seguir, utilizando a frequência cardíaca como parâmetro ideal de monitorização. Assim, a realização de um teste ergoespirométrico nos permite analisar o risco para realização de esforço (análise do eletrocardiograma, medida da pressão arterial e respostas clínicas) e definir as intensidades ideais de exercício (limiares ventilatórios), elaborando um programa de treinamento individualizado, seguro e eficaz, independente de o indivíduo apresentar uma doença cardiovascular e objetivar apenas melhora de sua condição clínica, ou de ser um atleta em busca de seu máximo desempenho.

        A                                                                             B     

 

Figura 2. Teste ergoespirométrico em esteira (A) e em bicicleta (B).

            Por algum tempo este teste permaneceu longe do alcance da maioria das pessoas, limitado a clubes esportivos e alguns hospitais, mas hoje podemos encontrar exames de ergoespirometria disponíveis em diversas clínicas e laboratórios, muitas vezes cobertos pelos próprios planos de saúde ou até mesmo pelo sistema público de saúde, especialmente em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis. Assim, é preciso divulgar a importância deste exame e estimular que um número crescente de pessoas busque informações para conhecer seu próprio corpo, treinando da maneira adequada, através do controle da FC e da identificação dos limiares pelo teste ergoespirométrico.

            Dessa forma, dentro da programação de treinamento físico aeróbio individualizado, as principais funções do teste ergoespirométrico são a caracterização do VO2 máximo e a identificação dos limiares de treinamento, capazes de orientar a prescrição individualizada de exercícios, específica para as características de cada organismo. A importância desses limiares reside no fato de serem eles os pontos de transição metabólica em esforço, ou seja, intensidades específicas capazes de provocar adaptações fisiológicas no sentido de ampliar o equilíbrio do organismo e aumentar a sua resistência à sobrecarga, o que caracteriza a evolução física e a resposta adaptativa ao exercício. Já a caracterização do VO2 max nos permite qualificar a capacidade aeróbia máxima de uma pessoa, o que pode orientar as modalidades de exercícios mais indicadas e a maneira mais adequada de estimular este potencial.

            O primeiro limiar (L1) é definido como o ponto onde se iniciam os processos anaeróbios de obtenção de energia para a contração muscular, com produção de ácidos que promovem aumento da formação de CO2 em função do tamponamento pelo bicarbonato, o que provoca aumento significativo da ventilação. Esta hiperventilação é responsável pelas modificações nas curvas de VE, RER, VE/VO2 e PetO2 que caracterizam o L1.

            Assim, o L1 marca a intensidade mínima ideal de treinamento, partir da qual devem ser prescritos os exercícios aeróbios. Acima do L1 provocamos sobrecarga fisiológica capaz de desencadear os mecanismos adaptativos responsáveis pela resposta de evolução do condicionamento físico. Deve ser ressaltado que a prescrição de treinamento para pessoas portadoras de doenças cardiovasculares, especialmente doença coronariana e insuficiência cardíaca, deve utilizar o L1 não mais como limite mínimo, mas como uma intensidade ideal de treinamento, avançando pouco além deste ponto quando as avaliações cardíacas e pulmonares evidenciarem ausência de risco de eventos agudos, procurando evitar ir além do segundo limiar, em função do risco de alterações clínicas em níveis muito elevados de anaerobiose e acidose.

            O segundo limiar (L2) é definido como o ponto onde existe exaustão do sistema tampão fisiológico, com incapacidade de se equilibrar a acidose produzida pelo metabolismo anaeróbio. Dessa forma, intensidades acima do L2 são conhecidas como supra-limiares, caracterizadas por anaerobiose descompensada e elevada acidose metabólica, o que provoca aumenta ainda mais intenso da ventilação pulmonar, principalmente por elevação da frequência respiratória, buscando compensação da acidose através da criação de alcalose respiratória. Esta hiperventilação é responsável pelas modificações nas curvas de VE, FR, VE/VCO2 e PetCO2 que caracterizam o L2.

            Exercícios realizados acima desta intensidade não podem ser sustentados por muito tempo, pois a acidose elevada provoca alterações na condução neuromuscular e nas propriedades contráteis dos músculos, com incoordenação e câimbras, além de alterações hemodinâmicas com sensação de tontura e náuseas, que levam à interrupção do esforço. Assim, o L2 marca o ponto máximo de treinamento aeróbio, onde a acidose apresenta-se ainda compensada e a partir do qual o esforço só pode ser sustentado por um curto período de tempo. Exercícios supra-limiares podem ser utilizados para composição de treinamento intervalado e para treinamento de sprint e de resistência anaeróbia, porém com o cuidado de não submeter o aluno a um tempo muito prolongado nessas intensidades elevadas o que poderia induzir a um quadro de overtraining.

            Após definir os momentos em que ocorrem os limiares ventilatórios podemos identificar a FC relacionada a cada um desses pontos e utilizá-la como parâmetro de monitorização da intensidade ideal de treinamento. Com a utilização de monitores de FC podemos acompanhar as respostas do organismo durante o desenvolvimento de esforço e garantir o melhor controle do esforço.

            O VO2 máximo é definido como a máxima capacidade de um organismo em captar o ar atmosférico através das vias respiratórias, extrair o oxigênio do ar e fixá-lo nas hemáceas através da membrana alvéolo-capilar (processo conhecido por hematose), transportá-lo aos tecidos através do sistema cardiovascular e utilizá-lo em nível celular para obtenção de energia, produzindo movimento a partir da contração das células musculares. Dessa forma, percebemos que o conceito de VO2max envolve o funcionamento adequado e harmônico de 3 diferentes sistemas: respiratório, cardiovascular e músculo-esquelético, produzindo movimento. É lógico que também tomam parte aqui o sistema neurológico, que programa e coordena a execução das reações necessárias e o sistema endócrino, que permite os ajustes para adequação das respostas. Assim, quando definimos o VO2max de uma pessoa estamos analisando a integridade fisiológica de um organismo e a capacidade de cada sistema de suportar sobrecarga física, de maneira coordenada e eficiente, sendo que quanto mais treinado for cada sistema e todos eles em conjunto, melhores serão as respostas diante de um esforço.

 

Tabela 1. esquema representativo das fases do esforço progressivo, demonstrando as respostas metabólicas encontradas e os fatores a elas relacionadas.

             O treinamento físico progressivo com cargas crescentes, diversificado, adaptado às características de cada organismo é a melhor forma de estimular estas adaptações e promover evolução do desempenho físico. Apenas com o conhecimento dos limiares ventilatórios e do VO2max podemos elaborar um plano de exercícios de maneira realmente eficaz e segura. Todavia, é importante ressaltar que a realização deste exame não diminui a importância da equipe multidisciplinar que deve acompanhar uma pessoa em programa de treinamento. Muito pelo contrário, este exame oferece uma gama imensa de informações que deverão ser interpretadas pelos diversos profissionais responsáveis pela orientação de um indivíduo, como médico, professor de educação física, nutricionista e fisioterapeuta, direcionando as recomendações destes profissionais para que cada pessoa possa atingir o seu melhor desempenho, com saúde e com muito prazer.

Luiz Augusto Riani Costa

Médico pela Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

Residência em Medicina Interna e Clínica Médica pela UNICAMP

Pós graduação em Medicina Esportiva e Fisiologia do Exercício pela Faculdade de Medicina da USP

Profissional do Instituto Vita

A torção do tornozelo é uma das queixas mais frequentes entre os esportistas recreacionais. Diariamente no consultório atendemos pacientes que sofreram entorses do tornozelo. Eles se queixam de dor e inchaço local, mas estão realmente assustados com o laudo da ressonância magnética: rotura completa dos ligamentos do tornozelo!

Quase 90% das torções do tornozelo acabam causando algum grau de lesão dos ligamentos, especialmente dos situados na face externa.

Quando realizamos a ressonância magnética, um número significativo dessas lesões é descrito como “rotura completa do ligamento talo-fibular anterior e do ligamento calcâneo-fibular”, o que provoca preocupação entre os pacientes, temerosos quanto à necessidade de realizar uma cirurgia.

Apesar das lesões ligamentares, e do laudo assustador da ressonância magnética, cerca de 80% dos pacientes com lesões parciais ou roturas desses ligamentos evoluem muito bem sem cirurgia, o que significa dizer que o tornozelo permanece estável e sem dor, e que os pacientes retornam às atividades diárias e à prática esportiva normalmente.

Para aumentarmos as possibilidades de uma evolução favorável, em certos casos, indicamos o uso de imobilizações (botas ou tornozeleiras), por um período mínimo para que a cicatrização inicial aconteça. Há uma clara tendência de evitarmos o uso de imobilizações em esportistas, mas frequentemente podermos agilizar sua recuperação se as utilizarmos adequadamente.

A fisioterapia é parte importante da reabilitação. De forma simplificada, diria que algumas sessões de fisioterapia permitem a regressão precoce do inchaço e da dor. Com a melhora do processo inflamatório é possível realizarmos treinos de equilíbrio, de força e gestos esportivos, ativando os reflexos musculares que fazem a estabilização funcional e dinâmica do tornozelo.  

Então, por que fazer a ressonância magnética? 

Para diagnosticarmos outras lesões que podem estar associadas às ligamentares, como as lesões de cartilagem, dos tendões, pequenas fraturas e contusões ósseas. Além disso, temos uma melhor compreensão do grau de energia envolvida e do mecanismo da torção.

O tratamento cirúrgico das lesões ligamentares do tornozelo me parece restrito aos pacientes com histórico de vários episódios de entorse, àqueles com lesões associadas, para algumas lesões em atletas de alto nível ou em casos excepcionais de instabilidade muito grave.

Dr. Márcio de Faria Freitas

Médico Ortopedista do Instituto Vita

Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo e em Medicina Esportiva

Todos que em algum momento da vida sentiram-se insatisfeitos com seu corpo buscaram realizar algum tipo de dieta. Entre tantas, porém qual a melhor? De uma forma bastante simples podemos afirmar: nenhuma. Essa visão pode parecer radical para alguns, no entanto, ela se baseia no simples fato de que, a pessoa que esteve ou está acima do peso ou obeso já se entregou a uma dieta na vida, e então, se estas funcionassem, seria de se esperar que não houvesse mais pessoas acima do peso ou obesas.

Para a análise mais apurada destas questões devemos considerar que a nossa alimentação é resultado da interferência de inúmeros fatores tais como aspectos culturais, sociais, emocionais e biológicos. Assim, ao impormos exclusivamente a restrição de determinados alimentos ou grupos de alimentos, estamos desprezando esse conjunto de fatores. Cada pessoa que engorda apresenta fatores pessoais determinantes para esse ganho de peso.

Pelas consequências não só do importante agravo à saúde decorrente da obesidade, mas também da urgência que as pessoas têm de emagrecer, diversas soluções imediatistas são adotadas. Os apelos são sempre os mesmos: “perca X quilos em X dias”. De fato a perda de peso pode ser um alento a quem está com sobrepeso, porém pode não significar perda de gordura na mesma proporção da perda de peso.

Dietas que promovem rápida redução de peso corporal, normalmente são muito restritivas, difíceis de serem mantidas por longo prazo. Muitas vezes não atacam a causa do problema que levou ao ganho de peso, apenas geram uma grande restrição calórica que vai levar à redução de peso, mas também à manifestação do sentimento: “não vejo à hora de acabar esta dieta e chegar ao peso ideal”. O grande problema é que ao “acabar” a dieta e retomar os padrões alimentares a recuperação do peso é inevitável. Considerando que as causas para o ganho de peso são variadas as soluções também devem ser.

Ingerimos alimentos por diversas razões: recompensa, ansiedade, tristeza, celebração, fome entre outros. Adotar uma dieta que eleja determinado grupo de alimentos como responsáveis pelo ganho de peso é sem dúvida uma abordagem por demais reducionista e não enxerga a complexidade do ser humano.

Quem não se lembra de algum dia em que chegou em casa e teve o seguinte pensamento ao comer ou beber algo: “hoje eu mereço, tive um dia cheio, estou exausto (a)”. Este pensamento é muito comum, a comida tem um papel recompensador importante em nossas vidas, desde quando somos crianças. E aqui cabe uma advertência aos pais: evitem usar alimentos como recompensa, como: “se você for bem na prova ganha um sorvete”, ou “se comer tudo ganha sobremesa”.

Parecem inofensivas, mas frases e atitudes como estas vão fazendo com que a criança associe conquistas com o prazer de comer, o alimento vira uma recompensa e este sentimento vai acompanhá-la pelo resto da vida. Momentos de frustração serão superados com consumo de doces, ou outros alimentos que possam ser prazerosos.

Temos o hábito de COMEmorar nossas conquistas, em restaurantes, sempre a volta de uma mesa. Lembram-se daquela frase da avó: “até parece que não gostou, não comeu nada”. Estes são alguns exemplos de como nossa relação com alimento é muito mais complexa e vai além de ter ou não disciplina, controlar ou não o que se come.

Por esta razão a única maneira de emagrecer e se manter saudável é adotar hábitos saudáveis, passar por um processo de reeducação nutricional que não vai acabar como acontece com uma dieta. Aprendendo a comer podemos nos alimentar bem em qualquer lugar, em qualquer restaurante, viajando, em hotel. Desta forma ninguém precisa se privar de sair para jantar, negar um happy hour porque está de dieta. É possível manter uma vida normal quando se sabe como comer, sempre podemos fazer opções mais saudáveis e adequadas, basta saber COMO.

Algumas dicas práticas:

1)     Desenvolver cardápios mais saudáveis em casa, nas escolas, empresas, fazendo com que a rotina alimentar mais saudável seja adotada logo nos primeiros anos de vida e passe a ser uma segunda natureza.

2)     Orientar o consumo alimentar familiar, sendo a refeição um fim em si mesma e não em agentes acessórios como TV, computador etc.

3)     Quando não for possível controlar a ingestão de alimentos de forma racional procurar uma equipe multidisciplinar com apoio psicológico. Evitar que o alimento assuma outro papel que não relacionado a se alimentar e o prazer que existe nesta ação por si só.

4)     Não procurar formas mágicas para emagrecer, elas funcionam por muito pouco tempo e o ganho de peso depois é normalmente maior do que o foi perdido.

5)     Não tenha pressa para emagrecer, às vezes, levamos 10 anos para ganhar 10kg, cerca de 1kg por ano e quando decidimos emagrecer queremos perder 10kg em 1 mês. Esta pressa nos leva a buscar soluções mágicas e pouco definitivas

 

Luciana Lancha

Nutricionista e Bacharel em Esporte

Os órgãos de saúde pública recomendam a atividade física regular como excelente alternativa para melhorar a saúde cardiovascular e combater doenças crônicas tais como a hipertensão arterial, a obesidade e a diabetes mellitus. Contudo, o aumento da prática esportiva, tanto no âmbito profissional quanto recreacional, também contribui para a incidência e a severidade das lesões musculoesqueléticas.

Estudos provenientes da Escandinávia relatam que cerca de 10-19% das lesões traumáticas registradas nos departamentos de emergência são oriundas da prática esportiva. A severidade deste tipo de lesão, frequentemente pode levar a necessidade de uma intervenção cirúrgica com um longo período de reabilitação e consequências incapacitantes a médio e longo prazo. Sem falar nos custos de um tratamento que são em geral bastante elevados.

Os valores gastos com estas intervenções tem como exemplo dados dos Estados Unidos da América (EUA), a média de cirurgias para reconstrução do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) chega a 250 mil por ano, com um custo estimado de 17 mil dólares por tratamento. Cabe destacar que apesar da técnica cirúrgica e da reabilitação avançada, uma lesão de LCA aumenta em até 105 vezes a chance de o indivíduo desenvolver doenças degenerativas no longo prazo.

 Em 2003, a “US Consumers Products Safety Comission” estimou que os custos com o tratamento de entorses de tornozelo em praticantes de basquete e futebol entre 15 e 18 anos, foram de 70 milhões de dólares, e os custos indiretos de 1,1 bilhões de dólares. Estudos epidemiológicos como trazem um diagnóstico do problema: ao acompanhar prospectivamente 46.472 jovens finlandeses durante nove anos, o autor registrou 265 lesões ligamentares nos joelhos (60.9 para cada 100.000 pessoas por ano), observando que a incidência foi mais importante nos indivíduos envolvidos em um volume maior de prática esportiva, sugerindo que o risco aumenta cerca de 8.5 vezes para mulheres e 4.0 para homens com este perfil.

Outro estudo realizado nos EUA estimou que 1.7 milhões de atletas do ensino médio sejam praticantes de futebol e basquete, e que 15% destes atletas sofrem pelo menos um entorse de tornozelo por temporada. Este quadro tem sido motivo de grande preocupação para os órgãos de saúde, levando a algumas tentativas para um melhor entendimento sobre a extensão do problema. Em 2004, foi criado na Noruega um sistema nacional de registros das lesões de LCA. Em 18 meses foram registradas 2793 cirurgias de reconstrução do LCA, o que corresponde a uma média anual de 34 casos para cada 100.000 habitantes, se considerarmos apenas os indivíduos com idade entre 16 e 39 anos (fase de maior participação em atividades esportivas competitivas), a média sobe para 85 casos para cada 100.000.

Este quadro sugere que profissionais como professores de educação física, fisioterapeutas e médicos trabalhem juntos criando campanhas de atividade física que possam elevar os níveis de saúde da população sem, no entanto, elevar as taxas de lesões inerentes ao aumento da adesão às práticas esportivas.

A ideia, com este texto, é a de iniciar a discussão sobre a questão da prática esportiva  x  prevenção de lesões trazendo a necessidade para que esta questão seja tratada em um contexto multidisciplinar e que juntos possamos fomentar um pensamento que traga à população um maior esclarecimento no que diz respeito à prática da atividade física segura.

Professor Lucio Mauro da Silva Martins

Professor de Educação Física do Instituto Vita  

             A participação de mulheres em competições esportivas e programas de atividade física adquiriu importância crescente nas últimas décadas.  O número de mulheres atletas e praticantes de atividade física tem aumentado consideravelmente, e há trabalhos que indicam um crescimento de 600% na participação feminina em esportes, perfazendo um total de mais de 1,9 milhão de mulheres ativas fisicamente.  Por estas razões, abordaremos a chamada Tríade da Mulher Atleta (TMA), síndrome (conjunto de sinais e sintomas clínicos) que afeta tanto atletas de elite quanto praticantes “não profissionais” de atividade física, caracterizada por desordem alimentar (baixa ingesta calórica), amenorréia (ciclos menstruais irregulares ou ausentes), e osteoporose (redução de massa óssea corpórea). O termo “Tríade da Mulher Atleta” foi oficializado em 1992, quando o Colégio Americano de  Medicina Esportiva reuniu diversos especialistas da área e publicou os resultados daquela conferência. 

              Ainda pouco esclarecida, a desordem alimentar encontrada nesta síndrome se refere a um espectro de padrões alterados de alimentação, desde uma simples restrição calórica até formas graves de anorexia nervosa e  bulimia.  A anorexia nervosa é caracterizada por extrema restrição alimentar, distorção da própria imagem corporal, indução de vômitos, intensa preocupação com a obesidade e amenorréia (ciclos menstruais ausentes ou com intervalos superiores a 90 dias). 

              A população de atletas mais propensa a desenvolver essa síndrome inclui o grupo de bailarinas e de corredoras de longa distância, geralmente obsecadas por magreza e cobradas por parte de treinadores, patrocinadores e mídia especializada. Segundo alguns autores, aproximadamente 25% das mulheres anoréxicas são atletas de elite.

             No passado, a disfunção menstrual observada em atletas de alta performance foi associada ao alto nível de atividade física que caracterizava seus treinamentos diários.  Durante muito tempo isto não despertou o interesse dos pesquisadores, pois acreditava-se que com a diminuição da intensidade dos treinamentos, o período menstrual voltaria ao normal sem detrimento da saúde da atleta.  Porém, alguns autores observaram que a densidade mineral óssea em atletas amenorréicas era significativamente menor quando comparada a atletas eumenorréicas (ciclos menstruais regulares).  Após estes estudos, o conceito de fenômeno benigno da amenorréia em atletas de ponta foi revisto e esta condição passou a ser encarada como uma causa prematura e importante de perda óssea.

             A amenorréia da mulher atleta é consensualmente reconhecida na literatura científica atual como um fenômeno de causa hormonal. A secreção pulsátil do hormônio hipotalâmico (secretado pelo hipotálamo, glândula presente em nosso cérebro que regula diversas funções hormonais) que promove a liberação dos hormônios estimuladores dos ovários está alterada, o que resulta na produção diminuída dos esteróides ovarianos estrógeno e progesterona, hormônios responsáveis pela regulação e modulação dos ciclos menstruais femininos.  A redução na secreção de estrógeno ocasionada pela amenorréia hipotalâmica desta síndrome é responsável pelo desenvolvimento de osteoporose prematura com consequências a curto e longo prazos.  A curto prazo, estas atletas têm apresentado um alto índice de lesões, em decorrência tanto do comprometimento estrutural da microarquitetura do osso como da redução de massa óssea corporal, particularmente fraturas de stress, e a longo prazo aquelas que se tornam portadoras de osteoporose desenvolvem um risco aumentado de fraturas com consequências potencialmente graves, embora ainda jovens.

          O principal objetivo no tratamento de atletas portadoras de alterações alimentares e amenorréia é restaurar seu equilíbrio hormonal.  Com orientação profissional, a atividade física deve ser prontamente reduzida em 10 a 20% do volume/intensidade/frequência prévios, e o ganho de peso deve ser adquirido com dietas que ofereçam acima de 2500 calorias, medidas que geralmente resultam no retorno espontâneo de menstruação. Nos casos em que isso não ocorre, a reposição hormonal passa a ser preconizada para evitar a perda óssea precoce, através de reposição estrogênica da mesma forma que é realizada em mulheres menopausadas, ou quando necessário, da administração de anticoncepcionais orais com altas taxas de estrógeno para aumentar de forma significativa a massa óssea destas atletas.  A suplementação com cálcio deve ser preconizada para as portadoras desta síndrome, utilizando 1500 mg diários divididos em duas doses.

José Marques Neto

Ortopedista e Médico do Esporte do Instituto Vita.

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP.

Especialista em Ortopedia e Medicina Esportiva pelo Hospital das Clínicas.

Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo ICB – USP.  

O número de indivíduos que praticam a corrida como parte exclusiva e/ou fundamental de um programa de atividade física vem crescendo ano após ano. Isto se deve a alguns fatores principais como:

  • Baixo custo necessário para sua prática (necessidade de poucos equipamentos especiais);
  • Caráter universal, podendo ser praticada por praticamente qualquer indivíduo;
  • Facilidade de locais e horários para seu treinamento;
  • Possibilidade de ser realizada individual ou coletivamente.

Como decorrência deste aumento no número de praticantes observamos, nos últimos anos, um crescimento relativo no número de indivíduos que procuram auxílio nas clínicas especializadas em Medicina do Esporte, seja para o tratamento de alguma lesão ou mesmo para algum tipo de orientação preventiva que possibilite a prática mais segura da corrida.

A corrida, sabidamente, é uma atividade esportiva que, quando praticada corretamente, apresenta baixa incidência de lesões no sistema musculoesquelético quando comparada a outros esportes.

As lesões que mais frequentemente acometem o corredor são as chamadas lesões por “overuse” ou por microtraumas de repetição. As articulações dos quadris, joelhos e tornozelos são frequentemente acometidas nesses atletas. Neste grupo, destacam-se as lesões que acometem a articulação do joelho, tanto por sua frequência como pelo efeito que podem ter sobre o desempenho do corredor.

Durante a corrida, um indivíduo pode realizar (dependendo da intensidade) 500 a 1.600 contatos do pé com o solo a cada quilômetro percorrido. O peso corporal absorvido pelo membro inferior a cada toque do pé no solo é de 1,5 a 6 vezes o peso corpóreo, sendo a articulação do joelho a principal responsável por absorver e dissipar esta energia.

A articulação do joelho é formada pelas articulações tíbio-femoral e femoropatelar. A patela funciona como uma polia que transmite a força gerada pelo quadríceps ao tendão patelar (Figura 1).

Figura 1: A patela funcionando como uma polia transmitindo a força gerada pelo quadríceps ao tendão patelar e a pressão resultante agindo sobre a articulação femoropatelar.

 

A produção e dissipação da energia ao redor do joelho são realizadas por músculos, tendões, cartilagem, meniscos e ligamentos. Como consequência dos microtraumas de repetição, uma das queixas mais frequentes dos corredores é a dor na região anterior do joelho, acometendo o tendão patelar, o tendão quadricipital, ou mesmo a cartilagem que reveste a patela (condromalácia patelar), o que denominamos de maneira geral como sobrecarga do mecanismo extensor (Figura 1).

Sabe-se hoje que dentre diversos fatores predisponentes ao aparecimento de dor na região anterior do joelho, o encurtamento das cadeias musculares ao redor desta articulação desempenha papel importante.

Assim como força e resistência muscular, a flexibilidade é uma qualidade física que pode e deve ser treinada. A flexibilidade é influenciada por diversos fatores, entre eles o gênero, com as mulheres apresentando melhor flexibilidade que os homens e a idade, com a flexibilidade diminuindo com o envelhecimento. A temperatura é outro fator que influencia a flexibilidade, aumentando com o calor e diminuindo com o frio, assim como as características genéticas, já que existe uma variabilidade individual em relação a esta qualidade física.

Muitas vezes a prática de exercícios específicos para a melhora da flexibilidade (alongamentos) é negligenciada dentro de um programa de treinamento, sendo realizada brevemente antes do início da corrida, fazendo parte de um “aquecimento”. Os exercícios de alongamento, com o objetivo de melhorar a flexibilidade, devem ser preferencialmente realizados em uma sessão exclusiva de treinamento para melhora da flexibilidade ou alternativamente após a corrida.

A literatura médica sugere que a realização de alongamentos após a atividade física pode ter um papel na prevenção de lesões e na diminuição da dor muscular causada pelo esforço físico.

A patela é circundada por um envelope de partes moles formado pelo tendão patelar e quadricipital, e retináculos patelares medial e lateral, este último apresentando íntima relação com o tracto iliotibial (Figura 3). O retesamento destas partes moles ao redor do joelho associado ao treinamento intensivo podem propiciar a ocorrência de lesões nos tendões (tendinopatias) e o aparecimento de processos inflamatórios no tracto iliotibial, a chamada síndrome do tracto iliotibial mais conhecida como “joelho do corredor”.

Figura 2: Envelope muscular ao redor do joelho.

 

Da mesma forma o encurtamento excessivo do quadríceps e da musculatura flexora do joelho, podem gerar durante a corrida um aumento da pressão exercida sobre a cartilagem patelar e favorecer com isso o aparecimento de lesões da cartilagem de revestimento da patela e/ou tróclea (nome dado à superfície do fêmur com a qual a patela mantém contato). As lesões de cartilagem da patela são conhecidas como “condromalácia patelar”, sendo classificadas frequentemente de grau I a IV de acordo com sua gravidade.

A inclusão de alongamentos ao término das sessões de treinamento podem auxiliar no equilíbrio deste sistema tão elaborado que é nosso mecanismo extensor, e com isso prevenir o aparecimento e a recidiva de quadros dolorosos envolvendo a patela (dor anterior no joelho).

A realização dos exercícios abaixo pode auxiliar na prevenção de lesões na articulação do joelho.

Treinamento de flexibilidade para o joelho:

  • Realizar ao final da sessão de treinamento.
  • 4 séries de 30 segundos em cada posição.

 

1. Alongamento para o Tracto íliotibial.

2. Alongamento para o quadríceps.

3. Alongamento para a musculatura flexora do joelho.

*Agradecimentos à colaboração da fisioterapeuta Renata Ortiz.

Dr. Caio Oliveira D’Elia

Ortopedista do Instituto Vita

Mestre em Ciências pela USP 

Especialista em Cirurgia do Joelho e em Medicina do Esporte

As nossas mãos sãos as mais incríveis ferramentas já desenvolvidas. Elas nos permitem trabalhar, criar, cuidar de nós mesmos e de quem amamos, praticar diferentes esportes em que são exigidas com intensidade e, até, defender-nos. Cada uma delas é um conjunto de ossos, ligamentos, tendões, nervos e artérias que, agindo em conjunto, podem assumir a forma de uma pinça, um martelo, uma concha ou qualquer outro utensílio ou gesto que precisamos para executar com precisão uma determinada tarefa.

            Essas maravilhosas estruturas também estão expostas às lesões. A nossa vida moderna nos leva a assumir posturas e a realizar gestos que ultrapassam a capacidade de adaptação e cicatrização dos tecidos, causando as lesões degenerativas como as tendinites e as tenossinovites muito comuns tanto no trabalho quanto na prática esportiva.

            Tendinite é a inflamação dos tendões que realizam o movimento do punho e dos dedos. Esses verdadeiros cabos de aço passam, cada um, por um trajeto estreito no punho, o que lhes confere precisão nos movimentos. Esses trajetos são chamados de túneis sendo preenchidos por uma camada fina de lubrificante, o líquido sinovial, responsável pelo deslizamento dos tendões. Quando existe inflamação nos túneis temos as tenossinovites. Essas inflamações podem manifestar-se de diversas maneiras, desde uma simples dor no trajeto dos tendões até o aumento de volume das tenossinovites e os cistos sinoviais, bolhas de líquido sinovial que surgem no trajeto dos tendões e sobre as articulações, causando dor e deformidade local.

            As tendinites e tenossinovites podem ser causadas por um traumatismo importante ou pelos microtraumatismos repetitivos do excesso de movimentos. No tratamento faz-se necessário um repouso temporário da área lesada, muitas vezes com imobilização. Os anti-inflamatórios aliviam a dor nos primeiros dias e a reabilitação com meios físicos e exercícios, supervisionados pelo terapeuta da mão, têm papel fundamental para uma boa recuperação. Os casos refratários podem ser tratados com infiltração e até com a remoção da parte inflamada pela cirurgia aberta ou pela artroscopia. Outro aspecto que deve ser lembrado é a correção da forma de trabalho para não haver recidiva da lesão. A má postura é um fator causal frequente nesse tipo de lesão e, no esporte, a adequação de equipamentos para a prática como, por exemplo, a da empunhadura da raquete do tenista às características pessoais (tamanho do equipamento e empunhadura do atleta) se faz muito importante.

            Portanto, cuide bem das suas mãos, pois existem inúmeras lesões do punho e da mão que exigem atenção preventiva e tratamentos totalmente diferentes para elas. Lembre-se que, por trás de um simples pulso aberto, existem lesões que, quando não diagnosticadas a tempo, podem comprometer a sua carreira.

 Dr. Mateus Saito

Ortopedista e Cirurgião da Mão do Instituto Vita e do Hospital das Clínicas da FMUSP.

 

 Para aprender mais:

1 – Pardini. Cirurgia da Mão – Lesões Traumáticas. Ed Manole

2 – Pardini. Cirurgia da Mão – Lesões Não-Traumáticas. Ed Manole

3 – Sizínio e Herbert. Manual de Ortopedia e Traumatolofia. Ed Medsi

 •          Algumas expressões foram simplificadas para um melhor entendimento.

Quando uma pessoa decide começar a correr, ela procura ter certeza de que está tudo bem com seu sistema cardiovascular. Já é bem conhecido que o coração e o sistema que depende dele devem estar em boas condições para que o treino não tenha nenhuma restrição. Mas e o aparelho locomotor? As articulações e músculos do nosso corpo também precisam estar em ordem para o início dessa atividade. O bom funcionamento desse sistema garante o alinhamento adequado dos membros e o equilíbrio das forças que agem sobre eles, consequentemente evitando lesões. Isso ocorre porque algumas lesões estão intimamente ligadas à mecânica que foi usada para praticar essa atividade, o que chamamos de mecanismos de lesão, ou o movimento que favorece certa lesão.

O número de pessoas que praticam corrida hoje em dia é considerável. É muito fácil ter acesso a uma planilha de treino, não precisa ser profissional. As assessorias esportivas tem um número grande de alunos, pessoas que não vivem para a corrida, mas que treinam para um Iron Man por exemplo. Todas essas categorias de atletas estão sujeitas à lesão se não realizarem reforço muscular adequado e se não apresentarem mecânica de corrida correta. Um desalinhamento sobrecarrega o sistema, principalmente, quando ele é repetido muitas vezes durante vários quilômetros e ainda mais numa situação de fadiga.

Mas como podemos saber se o atleta apresenta ângulos adequados durante uma atividade? Temos um exemplo: a análise cinemática. Esta é uma ferramenta da biomecânica muito utilizada nos laboratórios de análise do movimento em universidades do mundo todo. Ela possibilita a análise quantitativa do movimento através da filmagem por câmeras de infravermelho. Colocam-se marcadores refletivos sobre o corpo da pessoa em posições estratégicas para que seja possível reconstruir o movimento do indivíduo dentro de um programa de computador.

Uma vez tendo essa ferramenta na mão, e estrutura para uma pesquisa de qualidade, você tende a produzir uma base de dados, quer dizer, você convida indivíduos saudáveis, sem qualquer tipo de lesão e analisa o movimento dessas pessoas. Obtém-se uma média que pode ser considerada “normal”, ou seja, de pessoas que não adaptam seu movimento a partir de um desconforto e que fazem atividade física com frequência. Após montar essa base de dados, é possível iniciar comparações como, por exemplo, a cinemática da marcha em indivíduos com alguma lesão no joelho comparado a indivíduos saudáveis, ou a diferença entre a cinemática da corrida outdoor e na esteira. É possível, então, saber se o atleta executa um movimento saudável ou não.

Mas, uma vez verificado um desalinhamento, podemos interferir para prevenir lesões vinculadas a essa mecânica não adequada?

Pensando, fisicamente, que um segmento executa um movimento em resposta a uma força que é aplicada a ele, esse desalinhamento do membro está sendo provocado por alguma força a mais de um lado ou fraqueza do outro. Algum lado está “puxando” mais do que deveria ou um músculo não está aplicando a resistência necessária a um movimento. Isso pode ser evitado com um fortalecimento bem direcionado, voltado para a necessidade de cada atleta.

Além da força, o músculo responsável por esse alinhamento deve ser capaz de controlar e manter o movimento alinhado para que haja resposta rápida aos imprevistos, o que também pode ser treinado por exercícios que estimulem o tempo de reação e por atividades proprioceptivas.

A ideia é prevenir para manter a regularidade da atividade, evitando desconfortos que tirem o atleta da sua rotina. É possível e devemos começar a nos acostumar a antecipar as possibilidades de lesões. É preciso valorizar esses desconfortos e procurar profissionais que orientem a prática consciente, mesmo em competições de alto nível.

Carla Arnoni

Pesquisadora e Membro da Equipe de Preparação Física do Instituto Vita

Especialista em Atividade Física Adaptada e Saúde