Gazeta Esportiva

Helder Júnior/Gazeta Press

Um argentino teve um bom motivo para lamentar a eliminação precoce do Brasil na Copa América. Dono de um restaurante de beira de estada, próximo ao hotel onde a seleção brasileira estava concentrada na Argentina, Angel lucrou bastante com a presença da imprensa estrangeira na cidade de Campana e arredores nos últimos dias.

Para seduzir a sua nova clientela, Lito (como Angel é chamado pelos familiares) mostrava simpatia desde o princípío da competição. O senhor de cabelos grisalhos, cuidadosamente penteados para trás, óculos de lentes grossas e barriga proeminente chegava até a forçar o riso quando era alvo de brincadeiras dos brasileiros.

- Quer dizer que eu me pareço com o Eurico Miranda? Aquele do Vasco? Já me disseram isso! – vibrou (com sotaque carioca), certa vez, quando começou a ser comparado ao ex-presidente vascaíno pelas semelhanças físicas. A partir de então até o fracasso brasileiro nos pênaltis diante do Paraguai, Lito só atendeu por “Eurico” em seu restaurante.

Da mesma forma como faria um dirigente de futebol populista, “Eurico Miranda” fez o possível para agradar a freguesia nas semanas que se seguiram. Aumentou consideravelmente a produção de comida, sobrecarregando a esposa cozinheira e o amigo churrasqueiro, e também a carga de trabalho dos garçons – todos seus parentes.

Enquanto Lito degustava seus vinhos tintos de Mendoza e contava piadas aos brasileiros, por exemplo, o filho gordo e barbado – que também adorou o apelido de “Brutus”, inspirado no personagem do desenho animado “Popeye” – encerrava o expediente cada vez mais tarde.

A dedicação da família não se refletiu na limpeza. O ambiente rústico, com pratos de diferentes cores e tamanhos, tinha as paredes decoradas por manchas negras. Na véspera da eliminação do Brasil na Copa América, Eurico Miranda chamou seus amigos brasileiros, um a um, para tirarem fotografias dos porcos que ele comprara para assar no almoço do dia seguinte. Os animais mortos estavam expostos em fila, sobre mesas de madeira.

- Os porquinhos estão prontos para serem devorados por vocês, amanhã, no nosso Mosca Grill! – afirmou Lito, orgulhoso, adotando o apelido dado pelos brasileiros ao seu restaurante.

Mal sabia “Eurico Miranda”, no entanto, que Elano, Thiago Silva, André Santos e Fred isolariam as suas cobranças de pênalti, em La Plata, e também os clientes do Mosca Grill, em Campana.

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

A vitória do Peru sobre a Colômbia, com dois gols marcados na prorrogação no último sábado, foi a última partida sediada pela cidade de Córdoba na Copa América. Durante todo o torneio, o governo local não mediu esforços para capitalizar com a presença de jornalistas e torcedores estrangeiros.

A jogada derradeira para atrair mais turistas a Córdoba nos próximos anos foi a promoção de um jantar, com todas as despesas pagas pelos governantes, para autoridades, patrocinadores e a imprensa que cobria a Copa América.

O lugar escolhido para o evento foi o mesmo luxuoso hotel que serviu de concentração à seleção brasileira antes dos jogos com Paraguai e Equador, na fase de grupos. Houve fartura de bebidas e comidas. E até um desfile de modelos sorridentes, vestidas com biquínis fio dental.

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O acanhado estádio do Club Atlético Belgrano se tornou ponto turístico em Córdoba. Durante a Copa América, torcedores de diferentes nacionalidades aproveitaram para conhecer as dependências da equipe que ficou famosa por selar o rebaixamento do River Plate à Segunda Divisão do futebol argentino.

Aqueles que demonstram mais euforia quando estão próximos à sede do Belgrano são, obviamente, os fanáticos pelo Boca Juniors – maior rival do River Plate.

-Veja, Pablo. Estão falando mal do River no Brasil! – comentou um torcedor do Boca, quando percebeu que uma emissora de televisão brasileira fazia uma reportagem no local. Às gargalhadas, os argentinos se aglomeraram para tirar fotografias e filmar a cena. Os registros seriam enviados a amigos que torcem pelo River Plate, segundo eles.

Com tamanho assédio, os funcionários do modesto Belgrano também se empolgaram. Um deles proibiu a emissora brasileira de fazer imagens do gramado e das arquibancadas do estádio.

- Não precisamos que vocês mostrem nada. Depois do que fizemos com o River, o mundo todo já nos conhece! – bradou o sujeito, antes de dar as costas.

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- É o Marcão ali? – perguntou um senhor, na sala de embarque do Aeroparque Jorge Newbery, em Buenos Aires. Ele apontava para um sujeito careca, com a barba por fazer, vestido com a camisa de goleiros do Palmeiras.

A dúvida era justificada. Marcelo Guimarães, de 47 anos, trabalha como sósia profissional do goleiro Marcos. Por causa das semelhanças com o seu ídolo, o intérprete já participou de campanhas publicitárias e até de alguns programas humorísticos de televisão, como “A Praça é Nossa”, do SBT.

Marcelo começou a se vestir como Marcos depois do incentivo que recebeu em um jogo beneficente, disputado na Arena Barueri, em 26 de dezembro de 2009. Na ocasião, o meia Carlos Alberto (hoje no Bahia) descobriu o sósia nas arquibancadas.

“O pior é que estava faltando um goleiro para a partida. Também jogo no gol. Eles me chamaram, e eu ajudei a compor o time!”, recordou o imitador, que já se encontrou com o verdadeiro Marcos duas vezes. “Até ele se assustou quando me viu no Palestra Itália”, comentou.

Profissional de tecnologia da informação, Marcelo Guimarães acompanha a Copa América a convite de uma das patrocinadoras do evento. Por onde passa na Argentina, ele desperta tanta atenção quanto alguns dos astros das principais seleções do continente.

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No Aeroparque Jorge Newbery, por exemplo, Marcelo se inspirou na fama de Marcos depois de ser reconhecido como sósia. Concedeu entrevistas, posou para fotografias e distribuiu autógrafos.

Até alguns argentinos, curiosos com toda aquela movimentação ao redor do palmeirense, passaram a assediá-lo.

- Viu a minha foto, Matías? Acho que é um jogador brasileiro, famoso – comemorou uma garota, mostrando para um rapaz a imagem registrada em sua máquina fotográfica digital.

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Com cabelos desgrenhados e capacete em mãos, um ex-jogador chamou a atenção no treinamento da seleção brasileira na sexta-feira. Paulo Jamelli percorreu os cerca de 2.300 km que separam Santos de Buenos Aires em sua moto, para acompanhar a Copa América.

Ex- gerente de futebol do Santos, Jamelli abraçou carinhosamente o atacante Neymar e o meia Paulo Henrique Ganso (com quem convivia na Vila Belmiro) depois da atividade do Brasil. Os santistas se mostraram surpresos com a aventura do amigo, que espera propostas para retornar ao futebol como dirigente.

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Os argentinos de Córdoba tratam os brasileiros verdadeiramente como “hermanos”. Em uma rápida pesquisa pelas ruas da cidade, a maioria deles deixa a rivalidade de lado e responde que torcerá pelo sucesso da seleção de Mano Menezes na Copa América – desde que o confronto não seja com a Argentina.

Alguns até fazem questão de provar seu apoio ao Brasil. Ao escutar palavras pronunciadas em português em uma região próxima ao Estádio Mario Alberto Kempes, um cordobês se aproxima, saúda os visitantes com um aceno e começa a citar pontos turísticos, jogadores e artistas brasileiros.

Para concluir o discurso, o cordobês diz ser fã de “Garota de Ipanema”. E usa as mãos para desenhar os contornos de uma mulher no ar, com atenção especial para as curvas dos seios e das nádegas.

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A organização da Copa América mostrou criatividade para elaborar uma senha para a utilização da internet sem fio do Estádio Mario Alberto Kempes, local do empate do Brasil com o Paraguai e da partida decisiva contra o Equador, nesta quarta-feira.

Um dos voluntários que trabalham na arena de Córdoba decifra o código para os usuários da rede com naturalidade:

- “CopaAmerica”, tudo junto. Basta substituir as vogais das palavras pelo número correspondente.

Ou seja: “C0P44M3R1C4”.

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O desabafo é diário. Quem quer que passe pela entrada de visitantes do hotel onde a seleção brasileira está concentrada em Campana escuta.

- Messi não é argentino. Deveria jogar pela Espanha, aquele galego. Nós não o queremos. Que vá embora do nosso país! – esbraveja o funcionário daquele setor do hotel, em uma rotina que mantém desde o início da Copa América.

Ele não é o único argentino insatisfeito com Messi. Na véspera da vitória por 3 a 0 sobre a Costa Rica, um programa de televisão local promovia um acalorado debate sobre a utilidadade de Messi à seleção da Argentina.

- Ele não canta o hino! É realmente argentino? – reclamava um dos muitos contrários a Messi naquela mesa redonda.

- E Maradona cantava o nosso hino? Vamos acreditar em Messi! – defendia o outro, que fazia do meia do Barcelona um messias argentino. A discussão durou quase uma hora – sem alcançar um consenso ao final.

Na noite de segunda-feira, em Córdoba, Messi deu uma resposta aos seus críticos: estava inspirado e fez belas assistências diante da Costa Rica.

Na manhã de terça-feira, em Campana, o emburrado funcionário do hotel da seleção brasileira não contestou Messi: estava de folga.

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Os jogadores que disputam a Copa América concedem entrevistas em sistema de “zona mista” após as partidas. Trata-se de um corredor em direção aos ônibus das seleções, protegido por grades, onde repórteres e cinegrafistas se amontoam.

Em espaço reduzido, as zonas mistas dos estádios argentinos fazem jus ao nome e dificilmente comportam a imprensa brasileira nos jogos da seleção de Mano Menezes. Prevalece o tumulto, com muitos empurrões e pouca organização.

Um incidente agitou a concentração da seleção brasileira em Córdoba, pouco antes das entrevistas coletivas agendadas para o início da tarde desta sexta-feira. O repórter Alexandre Praetzel, da Rádio Bandeirantes, sofreu uma tentativa de furto no saguão do hotel onde a equipe de Mano Menezes está concentrada para a partida contra o Paraguai.

Praetzel se preparava para entrar no ar quando percebeu que uma bolsa com seu notebook e pertences pessoais estava nas mãos de um senhor bem vestido. O repórter avançou na direção do suposto criminoso e logo ganhou o apoio de outros profissionais de imprensa que estavam no local.

“Ladrão! Ladrão! Ladrão!”, berravam alguns, com dedos em riste, preparados para desferir agressões físicas. A segurança do hotel apareceu para deter o sujeito, que tentava se explicar em espanhol. “Pensei que a bolsa fosse minha”, disse, enquanto era escorraçado para fora da concentração. Ele foi encaminhado para uma delegacia de polícia, onde prestaria esclarecimentos.

No Aeroporto de Córdoba e em outros pontos turísticos da cidade, é comum moradores alertarem os turistas sobre a violência. “Nunca ande com todo o dinheiro no bolso, brasileiro. É para o seu bem”, advertiu uma senhora, diante do Cabildo Histórico municipal, para um rapaz que caminhava por ali.