Revolta não ganha jogo

A derrota (e consequente eliminação do Palmeiras) é para ser encarada com muita serenidade. A pressa não melhora nada, a cobrança explosiva não modifica o fracasso e a ofensa apaixonada não traz de volta o sonho de ver o glorioso Verdão disputar a final da Sul-americana.

Acabou! Como em tantas vezes tem acontecido, terminou a ilusão. Ter a certeza de passar por cima do Goiás era teoria. Faltava confirmar na prática. Só que muitos campeões de véspera têm levado para casa apenas frustração e lágrimas depois de ver o adversário explodir em comemoração.

O Pacaembu lotado não estava esperando o título, mas a chance de vir, depois, a disputá-lo. Na verdade, a tentativa era ainda obter a passagem para o mais importante – a final.

Gente, ocasionalmente a surpresa também é personagem das cenas do esporte, não só do futebol. No entanto, parece-nos impossível considerá-la e admiti-la entre as opções Esse filme protagonizado pelo Verdão tem sido exibido em muitas ocasiões. Não foi a primeira. Nem será a última.

Por que será que sempre temos antecipada certeza de fazer o placar e obter a classificação para botar as mãos no caneco? Nunca admitimos que, na competição, há três chances: ganhar o melhor, aquele que costuma fazer as coisas com maior competência, dar empate ou vencer o improvável, tirando partido de vacilos do nosso favorito.

No caso desta quarta feira, deu a terceira hipótese porque o time de Felipão fez quase tudo o que era preciso, mas não conseguiu levar seu melhor futebol para campo. Numa situação dessas, depois que a bola comaça a rolar, não dá contornar, impossível encontrar o jogo suficiente para alcançar a vitória?

Ninguém vai a campo para perder. Claro que o Palmeiras queria ganhar. Isso é o mais sério. Não deu porque não deu, o resto é inexplicável. Para os apaixonados, único jeito é aceitar o irreversível. Nenhum gesto de revolta reergue o edifício desabado.

País do voleibol

Elas foram batalhadoras, tecnicamente excepcionais, estrelas capazes de continuar projetando mundialmente o nome do Brasil. Com o recente segundo lugar, superaram, com atuações impecáveis, outras tantas grandes concorrentes. Superaram porque sabem muito do seu jogo.

Atuar com qualidade de causar inveja é a rotina das garotas brasileiras que nunca falham quando têm que exibir sua encantadora perfeição nos confrontos com o primeiro mundo.

Enquanto o masculino emplaca, por seu lado, sua força que impõe enorme respeito a todos os demais competidores, o time feminino nacional faz sua parte com sobras, ali, na mesma medida disparada de grandeza.

É a prova de que este país já deixou há muito de ser apenas campeão de futebol. E não é de hoje, todos sabemos.

O jeito de ser, a maneira de gostar e a convicção de que são melhores faz um Brasil escola que ensina muitos técnicos estrangeiros a estudar pela cartilha de José Roberto Guimarães e Bernardinho.

Aí, a gente se pergunta: por que não acontece também no basquete, no atletismo, na natação (a ginástica olímpica é exceção também) uma explosão parecida. Se temos uma enorme população, clima que convida a praticar esporte e um generoso público sempre presente nos estádios e ginásios, por que não alcançamos um leque de atividades em que tenhamos patrícios entre os melhores do mundo?

Importante é repelir a velha bobagem de que ser vice é mesmo que ser último. Mentira, ser um dos primeiros é firmar-se como muito bom, como ótimo participante capaz de nos orgulhar bastante. Ou não foi assim que o público provou levando seu aplauso delirante quando as meninas vice-campeãs chegaram do Japão?

O voleibol brasileiro, há tantos anos se renovando sem perder seu altíssimo nível, repetindo sucessivas gerações de craques, é a modalidade da hora. A provar que podemos, podemos, sim, ser o país do futebol, do voleibol, da ginástica, do atletismo e (se desenvolvermos programas adequados, com seriedade e ambição) até do boxe, do handebol, da natação, da esgrima e de muitos, muitos outros, capazes de subir aos degraus do pódio a cada competição por esse mundo afora.

O Gavião Julio Cesar

Um grande goleiro é importantíssimo nas conquistas de seu time, ao mesmo tempo em que se torna razão decisiva para levantar o moral dos demais colegas em campo. Suas defesas ainda concorrem para desestabilizar os adversários. Equipe que tem um craque de verdade em seu gol joga de cabeça fria e convicta de que pode sair para o jogo porque lá atrás está alguém que pega muito.

Foi o que provou Julio Cesar, no Morumbi, quando seu time derrotou de novo o São Paulo. Suas incriveis defesas (repetindo o que vem fazendo ultimamente) foram decisivas para o Corinthians sustentar a escrita contra o rival.

A hora é de reconhecer que aquele jovem discreto, simples, sorridente e movido por justa ambição, que curtiu o banco de reservas do Timão nos melhores dias de Felipe, já fez a galera esquecer o antigo titular.

Cresceu com disciplina e dedicação obstinada. Se não superou, com certeza já se igualou a outros grandes que se tornaram ídolos no Parque São Jorge. Sua trajetória, sabemos, não foi fácil. De um começo nervoso (nunca inseguro) foi amadurecendo e agora é um especialista completo.

Dentro do primeiro tempo do clássico, três ou quatro vezes chegou ao nível de um acrobata nos saltos surpreendentes e na precisão para catar ou rebater a bola. Fez crescer a chama da tradicional garra corintiana. Desequilibrou o jogo e garantiu a vantagem iniciada pelo grande Elias.

No segundo, não foi menos brilhante nas suas jogadas. Ao contrário, como que elevou a dose de arrojo e empolgou o estádio, não só a Fiel.

Em certos momentos, vi Julio Cesar como que um pássaro voando em seu espaço, um predador preciso ao alcançar o balão, sua presa. Isso, o goleirão foi assim como um Gavião. Animado pela força empolgante partida das arquibancadas.