Carpegiani: “No vestiário, não discuto resultados”

Foi em companhia de Carpegiani que retornei, neste domingo, do Morumbi à TV Gazeta. Estava visivelmente triste com o empate de última hora. Não fez drama, mas lamentou bastante que seu time não tivesse conseguido manter a vantagem. Disse-me que a falta de um homem o obrigou a colocar Xandão, daí passando a jogar com dois zagueiros e, por via de conseqüência, buscar “abrir” o jogo com Jean e Juan.

Só que a vantagem numérica foi bem explorada pelo Palmeiras num trabalho de muita garra que terminou com o gol do Verdão. Convicto de que seu time merecia vencer o clássico, evitou fazer referência individual ao trabalho dos jogadores do São Paulo. “Não falo nada no vestiário ou fora dele depois do jogo. Nem quando ganhamos nem quando perdemos. É o momento menos indicado para analisar resultados e atuações. Apenas agradeço aos atletas, um a um, pela aplicação. De cabeça quente após um resultado não satisfatório, qualquer palavra pode ser precipitada. Melhor deixar para a reapresentação do grupo”.

Eu apresentei Neymar a Ronaldo

Wagner Ribeiro, agente de Neymar, me explica o que de fato pode vir a existir entre a empresa de Ronaldo Fenômeno e a nova sensação do futebol brasileiro. Garante não se preocupar com as notícias do momento.

“O interesse de Ronaldo não é o de administrar um dia a carreira do Neymar. Fique claro que não é nada disso. Sua idéia é trazer outros patrocinadores para ele, além daqueles que já tem. Claro que tudo quanto fizer será bem-vindo. Da mesma forma como negocio com outras grandes agências de propaganda e fecho contratos publicitários para os atletas, será feito quando Ronaldo desejar.”

O empresário me explica que tem um trabalho de seis anos com o craque do Santos. E que tem certeza de que ele próprio e seu pai sustentarão a parceria. Confirma que se está criando uma cena diferente do que é real: “Ao Neymar o Ronaldo não disse nada sobre cuidar de sua carreira. Como todos os negócios que o atleta faz passam por minhas mãos, sempre serei eu o seu agente. Conheço bastante o Fenômeno e sei que sempre foi extremamente ético em tudo quanto realizou no futebol. Nosso relacionamento tem sido  o mais cordial. Inclusive é bom saber que eu fiz a apresentação do Neymar a ele, em sua casa, em Madri. Na época,  Neymar tinha treze anos de idade.”

Wagner Ribeiro - que confessa não ter contrato com a nova estrela dos gramados sulamericanos, mas, sim,  um compromisso verbal com a familia do jogador  -  me reafirma que o novo escritório de Ronaldo poderá realizar contratos na área de marketing e propaganda. “Quanto à carreira de atleta, minha empresa é que a administra, num acôrdo pessoal com ele, com seu pai e com sua familia.”

Taça para o livro dos recordes

Não tente entender porque um caneco é disputado durante tanto tempo, na mais longa das tentativas de um clube para o instalar em sua sala de troféus. Nem busque a razão de uma taça ser conquistada (ou ainda não?) longe dos gramados após 15 anos.

Desista de pensar se o clube campeão brasileiro (na verdade foram dois torneios) de 1987 foi do Rio ou de Pernambuco. Procure não ficar intrigado porque, em 2002, não se reivindicou essa maravilhosa obra de arte. Nem se pergunte o motivo pelo qual um dos pretendentes à posse definitiva há quatro anos só a tenha recebido agora, em 2011, e não ao final do jogo do quinto título, como se faz habitualmente.

Por último, se desejar saber se vale o futebol brasileiro pretender inserir a corrida pela taça no livro dos recordes, isso pode perguntar.

Não faça isso

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press


Não foram poucos os que deram o Santos como favorito para o clássico. Eu mesmo, chegando ao Pacaembu, ouvi de um conselheiro do Timão um ‘apelo’: “Vê se não grita muitos gols do Santos. Se não for possível, pelo menos narra baixinho.” Percebi que na brincadeira havia um sincero sentimento de receio de que o Peixe saisse como ganhador. E foi tudo diferente porque, sempre que mordido, o Coringão cresce e surpreende.

Na saída, voltei a ver o mesmo senhor (então sorridente), que me abraçou na maior alegria pela bonita, muito bonita vitória mesmo. Foi mais uma lição do futebol a todos quantos sempre julgamos que clássico tem que ser esperado na base da lógica e do retrospecto.

Encontro de grandes rivais é jogo de camisas, com peso de história em cada lado. Quaisquer que sejam as escalações. Se você também deu favoritismo louvando-se no passado recente dos dois times, aprenda, não se deixe mais levar pelo risco das hipóteses que nem sempre têm lógica. Lembre-se de que o aquele ditado sábio entre os boleiros continua mais verdadeiro do que nunca: clássico é clássico.

Superação

De repente, iniciando um jogo como titular, Morais cresceu. Ergueu a cabeça, decidiu ser protagonista e jogou demais contra o Peixe. A rigor, foi o maior destaque da equipe corintiana. Para mim, melhor em campo disparado, o rapaz merece umas tantas linhas para justificar sua presença e sua participação importantíssima na atuação do time da Fiel. Morais se superou. Tomara que volte a repetir o que fez neste dia que marcou o fim da hora de verão. No caso, ele trocou o recuo nos ponteiros do relógio por um substancial avanço na qualidade de seu futebol.

GRANDE AMIGA DE LIEDSON


Ouvi de um torcedor, tão logo terminado Corinthians e Mogi Mirim: “Esse Liedson é um cidadão privilegiado pela sorte. A bola sempre cai no pé dele, na cara do gol.”

Nada disso, nenhum craque alcança sucesso na base do acaso. Cada um joga o que seu talento permite e faz gols porque sabe como mandar a bola para a rede. O que acontece com o camisa nove corintiano é puramente consequência do seu jeito de jogar. Obcecado por chutar a gol (e aí está o lado positivo do artilheiro), Liedson realiza seu trabalho sem qualquer ajuda dos deuses do estádio. Sempre ligado, ele sabe, segundo velho ditado, estar no lugar certo na hora certa. Coisa simples, absolutamente normal em quem nasceu para ser jogador de área. Fácil: é amigo íntimo da rainha do gramado e faz questão de guardá-la no local em que ela mais gosta de estar – o fundo do gol.

LIGA NÃO, JOÃO PAULO!

No primeiro gol que sofreu, até que o goleiro do Mogi Mirim foi bem. Defendeu, sim, o tiro forte de Dentinho, mas, na sequência, só Liedson acreditou e foi para a bola. Nenhum defesa chegou a tempo para o rebote. O chute acabou saindo à queima-roupa sem chance para João Paulo. No segundo gol, houve um toque de risco e deu no que deu. Bem, mas perder a bola no chamado mano a mano é coisa que acontece. O engano foi não chutar logo para qualquer lado. É isso aí: ficar como último homem na frente de um atacante sempre é um perigo pelo qual só passa quem está lá dentro, às vezes precisando fazer uma jogada de improviso fora de sua função. Cabeça fria, rapaz, contra o Palmeiras tudo há de ser melhor.

Magia: Ronaldo sai, mas fica

Em campo, poucas vezes errou ao fazer de forma rápida os passes, as fintas e – principalmente, óbvio – os gols. E assim levou adiante uma carreira de sucessos, três vezes consagrado pelo mundo como o melhor. Ronaldo Nazario deixa o futebol da mesma forma simples e objetiva como sempre fez em campo – convoca uma coletiva e diz que parou, chora e faz chorar. Pronto, fim. A mídia internacional abre espaços da primeira página para estampar em manchetes sua última entrevista como atleta.

Lógico imaginar que algum motivo pessoal muito forte o tenha feito optar por renunciar em meio a um campeonato. Quem pode dizer que não? Só ele… Seja como for, em forma ou não, sai dos gramados ainda no auge da fama. Não podemos negar-lhe esse direito de parar no topo, emocionado, sim, mas satisfeito porque, afinal, em vinte anos, contribuiu para o futebol ser bem mais feliz.

Última de suas jogadas mágicas: sai dos estádios, mas fica no coração do povão do mundo inteiro.

ÚNICO NA HISTÓRIA

Rogério Ceni vai no estilo devagar e sempre para chegar aos 100 gols em 2011. Cauteloso, não demonstra ansiedade. Justo que não queira deixar a emoção surgir antes da hora, mas o certo é que, este ano, está com tudo para chegar ao grande feito. Dentro do São Paulo, claro que providências devam estar sendo tomadas, todas na direção de transformar o dia do centésimo tento num evento de repercussão espetacular. Sabe lá o que é ser o único a alcançar essa conquista mundial após mais de um século do surgimento do futebol? Dá para imaginar ser só ele, e por quanto tempo esse recorde permanecerá na história do planeta bola?

SOBROU SÓ PARA DOIS

Vi bem de perto a reação de torcedores da Portuguesa inconfomados. Na região do estacionamento do Canindé (perto do campo de areia) alguns gritavam palavras pesadas não contra o time, mas apenas contra Heverton e Fabrício. Entendo esse resultado da paixão pelo time do coração quando as coisas não vão bem. Vejam: o camisa 17 marcou dois gols e Fabricio – que entrou fora de sua função – não jogou mal. Tivesse a lusa ganho o clássico, só alegria dominaria o pós- jogo e, com certeza, ia todo mundo para casa na maior felicidade.

Liedson merecia mais

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Nada de precipitar juízo, mas Liedson superou o que dele eu esperava. Condições adversas a considerar: chegou apenas há dois dias de Portugal, seguramente não teve tempo de conhecer bem os colegas, trocou o frio europeu que ainda se sente nesta época pela fornalha em que se transforma esta cidade nestes dias, fez um só treino e se portou com a naturalidade de quem já estivesse pelo menos há uns trinta dias no grupo.

O homem jogou toda a partida, correu extremamente aplicado, entrou nas divididas, sofreu faltas e, só para confirmar sua personalidade de artilheiro, fez dois gols. Não há como duvidar de que pode melhorar o próprio campeonato.

Com uma estréia tão boa, será que ele ficará no banco quando Ronaldo estiver liberado ou irá atuar ao lado do Fenômeno? Ora, o problema é de Tite e Liedson não tem nada com isso. Negócio dele é entrar quando escalado, fazer o seu melhor e devolver a alegria à Fiel.

Pena que tão poucos foram ao Pacaembu recepcioná-lo.

Ele merecia uma platéia maior.

CORINTHIANS COMO FERA FERIDA

Cada competição tem seu clima próprio. Nem tem dúvida que o mesmo time, com a mesma escalação tem jeito e comportamento diferentes em campeonatos distintos. Taí o Corinthians – um indiscutível estranho no ninho quando na Libertadores – capaz de renascer e se tornar guerreiro ganhador dentro
de qualquer evento nacional.
Que o digam os palmeirenses, após mais um clássico em que a crise alvinegra foi milagrosamente esquecida por Julio Cesar e sua turma surgindo no gramado do Pacaembu um Corinthians tradicional, empolgado e empolgante.
Todo o assustador clima de pavor que parecia tomar conta do elenco como que por milagre desapareceu. E o Verdão teve frustradas suas expectativas. Sentiu como é duro enfrentar uma fera ferida.