Explicar ou elogiar o ganhador?

Entre os perplexos ocupantes do vestiário do São Paulo, quem falou só falou; não disse. Carpegiani bem que tentou explicar, mas só fez preencher seu tempo na coletiva para não perder a elegância. Dagoberto deixou no ar uma frase enigmática ao abordar a realidade do grupo. Entende-se que ninguém tenha sido muito claro e conciso. Afinal, uma só atitude cabia: cumprimentar o vencedor pela flagrante superioridade que exibiu e pelos gols lindos que marcou. Isso, mais importante é consignar que o que aconteceu no Pacaembu foi a vitória do Corinthians. Que venceu com alarde, fazendo de sua exibição uma festa ao melhor estilo do futebol brasileiro cinco vezes campeão do mundo.

Mais feliz foi João Paulo de Jesus Lopes. Do alto de sua nunca desmentida diplomacia poupou a todos – desde seu técnico e jogadores até o árbitro – consciente de que, após uma derrota dessas é inútil lavar roupa em público. Fez o certo, ao elogiar o adversário na tentativa de fechar a conta dos prejuízos que naquela hora conturbavam o ambiente.

Passadas as primeiras vinte e quatro horas, a casa são-paulina, por certo, já faz as contas de cabeça fria, e constata o óbvio: no balanço das perdas e danos, o espetáculo chocante da goleada foi doloroso, mas nada que o futuro do campeonato não possa fazer esfriar. Lá se foi a invencibilidade, verdade, mas não a liderança.

Questão de currículo

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Luiz Felipe Scolari ouve as perguntas, sorri com discreção, balança a cabeça e mostra o quanto é respeitado lá dentro da estrutura do Palmeiras. As notícias de uma crise ele as nega com a certeza de que tem absoluta autoridade para desmenti-la. A cada jogador mencionado, faz sua colocação na maior serenidade, passando ao entendedor que tem carta branca, que assume responsabiliade e que suas diretrizes são apenas fruto de suas convicções, assentadas num profissionalismo exemplar.

Conhece, evidentemente, o limite de seus direitos e obrigações. Sabe onde pisa e como deve trabalhar. Mais uma vez, ao final da goleada em cima do Avaí, aceitou falar de suas decisões sem esquivas. No maior bom humor, ao abordar Kleber pretendido pelo Flamengo, não usou de meias palavras. Foi ao ponto mais vulnerável (e real) do futebol brasileiro – falta de dinheiro. Falou e disse. Brincou quando explicou porque nao deixou que Marcos batesse pênalti. Usando seu vocabulário muito simples, mas cheio de conteúdo, deu os devidos recados.

Felipão sabe de bola como os melhores técnicos nacionais e internacionais. Sua diferença está na bagagem, no invejável passado de conquistas nos dois lados do Atlântico. Disso tudo vem sua firmeza. Ademais, aliada a uma personalidade sempre comunicativa.

Quem leva o caneco?

É preciso levar muito a sério a possibilidade de o Peñarol fazer um grande jogo em São Paulo. Nenhum atleta do Santos ignora ou deixa de considerar essa perspectiva. O feito do Peixe na capital uruguaia foi, lógico, um passo importante, que lhe dá maior serenidade para a partida de volta. Os visitantes chegarão aqui carregando nos ombros um stress muito maior. Ainda assim, no entanto, serão onze contra onze.

Na noite do estádio Centenário se viu bem como o respeito entre os times foi considerável. Em cada rosto mostrado pelas câmeras se percebia a marca da preocupação. Dos dois treinadores, então, só se viram tomadas  pesado estado nervoso. E, depois da primeira parte da disputa da Copa, a tensão cotinúa.

Ninguém se poderá considerar injustiçado pelo empate. Os dois tiveram suas chances  (poucas, é verdade) e não souberam ou não conseguiram aproveitar. O equilíbrio marcou a partida como se ela estivesse sendo jogada em campo neutro. Em nenhum instante se percebeu o Santos assustado com a continua participação da torcida local em favor de seu antagonista. Nada revelou o Peñarol maior ou mais competente por causa do povão que tentou empolga-lo. Foram duas equipes tensas, sim, mas muito aplicadas. Verdade que desprovidas de qualquer estilo mais acadêmico. Claro, não havia condições para os craques das duas camisas demonstrarem exuberância nos toques e nos passes. A correria foi a tônica da partida. Uma busca impressionante da vantagem que afinal não veio.

Na volta, com certeza, será adrenalina pura a disputa dos noventa minutos que ainda restam para a decisão da Libertadores. O que se previa aconteceu no Uruguai – igualdade entre dois grandes finalistas. A perspectiva para a próxima quarta feira é a mesma. A torcida sabe que fator campo não anda valendo muito, não. Ainda estamos naquela de quem ganhar leva o caneco.

O GOL DO RONALDO

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

O espetáculo se dividia em dois : Seleção e Ronaldo. Era para ser assim. Afinal, veio de longe a equipe da Romênia para enfrentar a nossa. Mas todos ficaram mais para esta ordem: Ronaldo e Seleção.

Como jogo, coisinha sem graça, levando o povão às vaias. Como festa, tudo bem. A própria equipe nacional se sentiu como que motivada mais a participar das homenagens ao maior artilheiro de todas as Copas do
Mundo. Todos viram que os momentos mais quentes foram os quase 20 minutos finais do primeiro tempo, quando a vibração geral era na direção de sair um gol do Fenômeno.

Num ritmo alucinante, surgiram três lances para que acontecesse aquilo que todos queriam, inclusive os jogadores brasileiros – o ÚLTIMO GOL. Não deu certo, uma pena. Teria sido o fato mais importante da noite em que o Brasil inteiro testemunhava o fim de mais uma carreira maravilhosa.

Mas não faz mal. Vá lá, 1 a 0, está bom…

Pareceu até nem haver clima para que tentassem jogar um bolão. Aos mais frustrados fica o consolo de que pelo menos um foi feito por Fred. Pera aí, consolo ou alegria? Não é que acabo de perceber que tinha que ser um só mesmo? Isso, um só, não precisava mais. Unzinho, o gol-homenagem. Na falta de um gol DE Ronaldo, o gol de Fred fica batizado como O GOL DO RONALDO.

FENÔMENO MESMO!

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Ronaldo não abandona o futebol; apenas sai de campo e muda de função. Sua carreira não termina; só troca de traje. Entra para história sem deixar de contrinuir para fazer maior o esporte que abraçou.

Quem – como ele – nasceu para marcar gols e encantar torcidas não deixa de ser ídolo só porque se afasta da bola. Na memória de milhões ele será sempre um exemplo espetacular, um fenômeno na arte mágica de jogar futebol. Fora dos gramados, mas sempre perto deles, seguirá sendo referência.

Ronaldo não foi apenas um titular em oito clubes diferentes mais a seleção brasileira. Mais que isso, tornou-se o melhor com todos os uniformes que vestiu. O que mais gols obteve. Desde os primeiros dias de São Cristovão, no Rio, subiu os três degraus que o levariam com a camisa canarinho – seleção brasileira sub-17 (22 gols), olímpica (6) e principal (67).

Talvez não haja, em qualquer parte do mundo, um só torcedor que não se tenha encantado com pelo menos um de seus 15 tentos marcados em Copas do Mundo, 8 dos quais apenas na de 2002, que o tornaram o maior artilheiro da competição.

A disputar alguns momentos desta partida entre Brasil e Romênia, tem o orgulho de haver obtido marcas nunca antes calcançadas por qualquer outro craque. Muito feliz quem o apelidou de Fenômeno.

VOTOS PERDIDOS PARA O NADA

Foto: AFP

Foto: AFP

Que coisa incrível o fascínio que tem o poder do futebol. Na Fifa, nas Confederações, Federações e clubes os ocupantes da cadeira mais alta não aceitam desocupa-la. Quem se senta nela parece não ter consciência do prazo de validade de seu mandato. Sempre quer outro, mais outros, quantos puder. No mundo esportivo, SER presidente é o sonho dos eleitos. Ser por muito tempo, tanto quanto possível, e nunca apenas ESTAR presidente.

A Fifa acaba de realizar uma eleição com cédula de um nome só. Ainda assim, não houve unanimidade. Sinal de resistência. As vozes de 17 paises cujos representantes não votaram pela reeleição foram um gesto tímido, mas não insignificante.

Pouco mais de oito por cento das confederações preferiram dizer não ao candidato único. O que quer dizer que o novo mandato representa um disputante que perdeu 17 votos para adversário nenhum, para o nada.