Vale o teste

Acostumado a ser um super-marcador, Ralf sempre encontra jeito de jogar bem no seu setor e ainda visitar o espaço mais da defesa e até chegar por vezes à área adversária. É um daqueles titulares absolutos que qualquer garotinho identifica.

Aplicado, embora pouco badalado, em seu jeito sério encontra, nesta altura, a chance que já merecia – seleção brasileira. Pelo modo como reagiu à convocação, confirma que se trata de um trabalhador simples e desprovido de desnecessárias vaidades.

Se vai entrar no jogo contra a Alemanha, isso já outra coisa. Mesmo que fique no banco, já terá alcançado um degrau que o futebol já estava lhe devendo. Sua chamada é prova de que Mano vai, devagarzinho, ampliando o leque de suas pesquisas mesmo quando se trate de craques que possivelmente nem alcançarão em grande forma a Copa de 2014. No caso de Ralf, justa a oportunidade que lhe dá o treinador. Uma vez, pelo menos, fica bem – por que não? – dar a amarelinha a alguém com experiência e maturidade técnica. Se não der certo, nada de grave acontecerá.

Assim se joga fora o sonho

Foto:AFP

Foi melhor, sim, o time brasileiro. Fez, com bola correndo, quase tudo que os fundamentos do jogo mandam. Pelos detalhes não conseguiu nada. Procurou e não achou jeito de mexer no placar. Com certeza, poderia ter sido diferente. Chutou mais vezes a gol, ficou na frustração de não conseguir nenhum. Por que não conseguiu? Muito, claro, pela presença (e sorte) dos defensores paraguaios, retrancados e sempre incrivelmente na linha da bola.

Quanto à falta de pontaria, na hora de chutar penaltes, essa não, não poderia acontecer.

Do jogo, nem pensar em fazer criticas. Agora, dos tiros na derradeira chance de decisão, nem dá para encontrar palavras. Profissionais de experiência internacional não podem errar daquele jeito. Uma só vez, o arqueiro guarani precisou defender. O resto foi por conta de um desequilíbrio inaceitável.

Vai daí, sem essa de loteria, papo furado tão antigo quanto a bola. Ademais, foi incrível alguém chegar a culpar o gramado pelos chutes por cima ou de lado. Que estranha falta de argumentos. Melhor seria não dizer nada. Ou pedir desculpas ao torcedor e fim. Acaso os paraguaios não fizeram seus três gols chutando da mesma marca de cal em que os nossos chutaram?

Então, por uma questão de justiça, valeu pelos 120 minutos. Nem sempre o melhor vence. Quanto ao fracasso, ficou por conta de tomar 3 a 0, quase uma goleada nos penais. Assim se joga fora o sonho da Copa América.

Rivaldo: futebol com respeito

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta PressO clima de euforia no vestiário do São Paulo era o resultado do tratamento simples que Milton Cruz deu à crise que cresceu nos três jogos anteriores do tricolor. O sempre presente profissional que surge com sua competência nos momentos mais delicados do futebol do pessoal do Morumbi raciocinou de maneira elementar: se Rivaldo, com sua enorme experiência, começasse como titular, as coisas poderiam ser diferentes.

Milton me confirmou que buscou a lógica de dar aos mais novos um líder no meio-campo em que eles iriam com certeza confiar bastante. Se Rivaldo não conseguisse um bom desempenho (afinal, há muito tempo não jogava noventa minutos) poderia substituí-lo sem traumas. Mas ocorrendo o contrário, o moral da equipe seria outro. E foi o que se deu. Não completou os noventa minutos mas chegou quase lá. Na troca de papeis, deixando, de ser um bancário triste, ele sentiu o gosto que ainda aprecia muito, aquela sensação sempre renovada de ouvir o apito inicial e sair para a perfeição física e tática que sempre ostentou.

Seus trinta e nove anos nada significaram porque ele sonhava fazer bem aquilo em que sempre foi maravilhoso – obstinação para vencer sem deixar de respeitar a bola, os companheiros e os adversários. E foi assim que o Morumbi viu de novo fantasias lindas nos perfeitos passes desse cidadão do futebol do mundo que ainda é capaz de jogar muito, esse artista que faz as coisas com jeito limpo, sadio, no melhor padrão de civilidade.

Carpegiani sai e a fila anda

Poderia ter sido depois do vexame na derrota para o Corinthians. Preferiam dar mais uma chance. Será? Ou foi só para deixar a poeira baixar, cabeças esfriarem e tomar a decisão mais manjada do futebol, no mais das vezes sem sentido.

Disse sem sentido porque não é o treinador que ganha ou perde jogos e jogos seguidos. Todo mundo sabe disso. Se é bom, time de futebol pode até cair uma ou outra vez, mas, no todo, vai bem. Quando as derrotas se avolumam, aí já é outra coisa.

Velho filme, reprisado cada vez que a água sobe e diretores se sentem pressionados pela torcida, a demissão do técnico, esse eterno pagador da conta que nem sempre é dele aceita porque sabe que a incoerência o trará de volta. Sempre virá o dia de amanhã.

Carpegiani não foi contratado pela segunda vez? Estava treinador. Quem garante que não estará de novo, daqui a uns dois ou três anos? Sabia disso muito bem, desde o dia em que assumiu. Por sua vez, o próximo “salvador” posará para a foto, pegará a bola, o apito e o uniforme que lhe derem para usar com toda certeza de que a fila anda. E como anda!