ADRIANO E DOM PEDRO

Não vingou a idéia da apresentação de Adriano no Museu do Ipiranga. Mas, foi sem dúvida, uma sacada inteligente. Para quem leu o maravilhoso livro 1822, do grande Laurentino Gomes, não é difícil achar amplas semelhanças entre os dois “imperadores”. Ambos polêmicos,amigos da noite, das garrafas e de mulheres intensas. Se Dom Pedro tinha em Chalaça, seu melhor amigo e protetor, Adriano encontrou Ronaldo, que conseguiu resgatá-lo do fundo do poço onde se encontrava, após um enorme vexame na Roma, onde ficou por seis meses, jogou menos de 10 partidas, não fez nenhum gol e cometeu várias indiciplinas. Dom Pedro adorava os goles prolongados, e o imperador carioca já caiu muitas vezes no mundo, em noitadas intermináveis. Se o imperador portugues teve vários casos amorosos e um rumoroso com a Marquesa de Santos, Adriano já apareceu várias vezes ao lado de belas senhoras, e tantas vezes foi envolvido em escandalos, com suas Domitilas de plantão. Dom Pedro vivia descendo a serra, Adriano não cansa de subir o morro. Dom Pedro criou Petrópolis, Adriano pos no mapa a Vila Cruzeiro. Se a apresentação de Adriano fosse no Museu do Ipiranga, os dois soberanos acabariam por se encontrar. Um morto vivo e outro vivo morto. Ambos não abdicando nunca de plena liberdade, independentemente das consequencias. Com um pouco de sorte, ouviríamos em uníssono grito histórico. E, por certo ficaríamos emocionados :”Independencia ou Morte”. Mas, a administração do Museu não permitiu. Uma tristeza. Seria um encontro para a eternidade.

PARABÉNS, GÊNIO

Que seria do mundo senão fossem os gênios? Eles enxergam na frente, enfrentam chacotas, adversidades e no final, mudam a história.

Se, quando eu comecei no Jornalismo, alguém me dissesse que eu veria um gol de goleiro, eu já teria sérias dificuldades para acreditar. Que dirá 100. Quando Higuita e Chilavert lançaram a “moda”, parecia mais uma farra, ou autopromoção, do que coisa para ficar. Um jovem goleiro, que tinha pela frente, na base, um ágil Alexandre e na equipe principal o brilhante Zetti, viu de maneira diferente. Assim são os gênios.

E com muito treino, paciência, vivência, títulos e se destacando naquilo para o qual era, afinal, pago para fazer, grandes defesas, Rogério Ceni foi trabalhando e ganhando excelência. Da aberração inicial, virou rotina para o torcedor do São Paulo vê-lo resolver as partidas com defesas e gols. Quebrou o paradigma.

Até que alguém começou a perceber que uma marca inimaginável estava próxima. E chegou o gol número 100. Não num joguinho qualquer desse fraco Campeonato Paulista. Foi num clássico. No maior dos clássicos da atualidade e, ainda por cima, quebrando um tabu de quatro anos. Aí já faz parte da ajuda Divina para quem sonha, pensa grande, acredita no sonho e transforma o impossível em algo paupável. Rogério Ceni é o maior jogador da história do São Paulo, o que por si só já é uma conquista incrível. E também um revolucionário da bola.

A Fifa ainda espera mais dois gols para admitir o centésimo. No entanto, quem se importa com isso, até porque outros gols virão? Viva a revolução e o revolucionário. Parabéns, gênio. A Fifa que vá a merda.

MIRANDA, MIRANDINHA

O futebol apresenta, de tempos em tempos, figuras adoráveis, que passam para a história menos por uma qualidade técnica impecável e mais por suas histórias e foras homéricos. Tivemos três “mirandinhas” em São Paulo, o original dos anos 70 e 80, que se chamava Sebastião Miranda Junior, daí o Mirandinha.Ficou famoso pelo gols e por uma fratura horrível, que sofreu em Rio Preto, jogando pelo São Paulo. Chegou a ser chamado para a Copa de 74 na Alemanha. Nos anos 80, alguém viu num tal Francisco Ernandes, do Ceará, coisas do outro e ele virou também Mirandinha, o “fominha”, primeiro brasileiro a jogar, e com relativo sucesso, no futebol ingles. Na década passada veio outro Mirandinha. Com menos brilho que seus antecessores, porém com histórias deliciosas. Foi ele o autor da célebre frase “se corro não penso, se penso não corro” seguida tão à risca, hoje, pelo Fernandinho do São Paulo, entre outros. Mas, essa é apenas um frasesinha, entre tantas aventuras da carreira dele. Mirandinha, certa vez, antes de um jogo decisivo no Mineirão, sentia dores terríveis na perna. Tentaram de tudo, até que ele deu a receita mágica “sebo de carneiro”.Faltando duas horas para a partida, onde se poderia achar o santo remédio ?. O jeito foi improvisar com um gel e canfora. Ele colocou no local machucado, a dor passou, é claro, e depois de marcar dois gols, ele dedicou, em rede nacional, a vitória, ao sebo de carneiro. Com Evaristo Macedo viveu a famosa história do torcedor que urrava atrás do banco de reservas exigindo a saída dele de campo. Evaristo sofreu com os erros incríveis nos ataques, mas não capitulou. Saiu fulo da vida, porém feliz “eu fique puto só com o Mirandinha, mas aquele idiota, que gritava, ficou com raiva do Mirandinha e de mim. Ganhei de 2 a 1″ . Mas, talvez a maior aventura do nosso “herói” tenha acontecido na Arábia Saudita. Contratado pelo time do filho do rei, desandou a fazer gols, até que, na decisão o próprio monarca tenha resolvido vê-lo em campo. E Mirandinha não decepcionou. Fez dois gols no primeiro tempo e, já no finzinho, marcou outro belo gol, que resolveu oferecer ao rei. Atravessou todo o campo, parou em frente a tribunal real e executou, no maior capricho, a danca da bundinha. Rebolou de frente, de costas, pulou e gritou, sempre apontando para a sisuda majestade. Terminado o jogo ficou feliz ao perceber que, uma grande comitiva, seguia em sua direcão. Ainda pensava nas glórias que viriam, quando foi algemado e levado para a cadeia, onde ficou detido por 15 dias por “desrespeito” ao rei. Nunca mais jogou por lá e a dancinha jamais foi vista naquela parte do mundo. Pode não ter sido o mais famoso, nem o melhor dos três. Mas, esse Mirandinha, também tem grandes histórias para contar.

FINALMENTE UM JOGO QUE PRESTA

Acabou a rodada do meio de semana do Campeonato Paulista e, finalmente, depois de três rodadas, teremos um jogo que presta nessa competição.São Paulo e Corinthians tem todos os ingredientes para um grande evento. Liedson jogando muito e fazendo gols. Rogério Ceni podendo fazer seu centésimo gol. Mesmo sem o Lucas, convocado para um jogo de data Fifa, que só a incompetente Federação Paulista não sabia que existia, é um momento de muita pegada. Pena que, sem o Morumbi, a partida vá para a pequena, embora linda, Arena Barueri. Lógico que não recomendo a ida de ninguém ao estádio, porém teremos televisão, repercussão, histórias do passado, grandes jogadores, enfim, coisas que desaparecem nessas competições de começo de ano, cada vez menos interessantes. A Capital teve há 15 dias, como atração do futebol, São Paulo e Santo André. Domingo passado, Corinthians e Americana. Agora, na data Fifa e sem o Morumbi, um grande clássico. Nem tabela a Federação sabe fazer. No entanto, mesmo o pequeno torneio, mesmo a ausencia de jogador importante e mesmo a falta de um grande estádio poderão diminuir essa rivalidade. Que domingo chegue logo.

COMPLEXO DE BALTAZAR

Foto: AFP

Foto: AFP

Que coisa triste. O tempo passa e as coisas não mudam. Adriano chegou ao Brasil ontem, desceu em São Paulo e foi a um balcão de empresa aérea para saber o tempo, que teria que esperar, para seguir até o Rio de Janeiro. Resposta : 40 minutos. Para qualquer um de nós, um prazo maravilhoso. Não, no entanto, para o Imperador. E ele resolveu alugar um jatinho, pagando entre 15 e 20 mil reais, ao invés dos 400, 500, que custaria a Ponte Aérea. Hoje não faz falta para alguém que recebeu, só de multa pela rescisão com a Roma, mais de 10 milhões de euros. Mas, ele tem só 29 anos e um custo de vida bem elevado. Narro o fato, apenas para que as pessoas saibam como é o padrão diário e a cabeça desse jogador. Há alguns anos, quando os números não eram tão soberbos, nem a vida tão difícil, surgia com brilho no nosso futebol, outro centro avante, do porte de Adriano. Falo de Baltazar, o Cabecinha de Ouro do Corinthians e da seleção brasileira. Ele ganhava muito e vivia intensamente. Certa vez o carrão importado dele pegou fogo em plena rua. Ele não fez nada para impedir a destruição plena do veículo, garantindo que “a torcida do Corinthians lhe daria outro”. E deu mesmo. Enquanto ele foi o Cabecinha de Ouro, viveu como um Imperador. Tempos depois, porém, voltou ao Corinthians para tomar conta da sala de troféus, em troca de um salário baixo, que, no entanto, lhe garantia as despesas do mês, para as quais ele não tinha nada. Cuidar de troféus é um trabalho digno. Inimaginável, todavia, para um nobre. Adriano, talvez nunca tenha ouvido falar de Baltazar. Aliás, ele não ouve ninguém, a não ser seus “amigos” de infancia. Já vimos esse filme antes. Tomara que ele não se repita, apesar de um enredo muito parecido até o momento. Pobre, rico, Imperador. Se Deus lhe desse algum dom de usar, pelo menos  um pouquinho da cabeça não só para fazer gols em cruzamentos, mas também para pensar, seria bem melhor. Ele entenderia, que tem que se cuidar, que está doente. E isso tem cura. Espero, sinceramente, que ele consiga, enquanto dinheiro não lhe for, nem de longe, um problema. Porque, até a cura, fica mais difícil, com a conta em vermelho e esquecido pelos torcedores.

DÁ PARA SER CAMPEÃ

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Claro que não creio no que estou escrevendo. Mas, a análise, entendam, é apenas técnica.Tenho visto muitos jogos no Campeonato Paulista. Hoje mesmo vi Noroeste e Palmeiras, Corinthians e Ponte, além de pitacos de Santos e Portuguesa. E sábado trabalhei em São Caetano e São Paulo, só para citar os últimos confrontos. A Ponte, a minha Macaca, que quebrou a invencibilidade do Corinthians, tem time para ser campeã. Não é nada de maravilhosa, essa equipe. Mas,marca forte, tem bons zagueiros e três volantes competentes, além de saber contra-atacar com rapidez. Simples, assim. Sei porém, que na hora de decidir as coisas mudam. Ainda mais numa equipe com traumas históricos nas decisões. Por essa razão, que eu disse, que nem eu mesmo acredito no que escrevo. Porém, hoje em dia, tirando o Barcelona e a seleção da Espanha, que são mais ou menos os mesmo jogadores, o resto é tudo muito próximo. Cada vez menos as camisas estão fazendo diferença. Só os salários é que seguem desproporcionais.Todavia, isso não é problema meu. Cada um paga aquilo que acha, que o empregado merece.

CRIANDO COBRAS

Minha avó dizia “quem procura acha”. O Carnaval de São Paulo terá um sério problema para administrar a partir de 2012. A torcida do São Paulo também subiu para o Grupo Principal e estou curioso para saber como se resolverá o pepino de três torcidas de futebol, em duas noites no Sambódromo. E nem dá para culpar as uniformizadas. Elas estavam lá, com seu blocos, quando foram convidadas a virar escolas de samba e participar ativamente entre as tradicionais. Deu no que deu. A violência dos estádios será transferida para o Carnaval. Criaram cobras e agora terão que administrá-las. Quero só ver como farão. Pior é que, a torcida do Santos também caminha para conseguir ser promovida. Cedo ou tarde vai conseguir. Eu que já não vou a campos de futebol por causa dessa “gente” repensarei as idas aos desfiles. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, onde a pior Escola é dez vezes melhor que as nossas principais, as coisas seguem como sempre. Samba é samba, futebol é futebol. Aqui misturaram, sei lá, talvez pensando em melhoria. Só vão conseguir aprimorar as confusões.

GOBBI É A DILMA DO ANDRÉS

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta PressO Corinthians é sempre efervecente.Pós Libertadores tem jogado um futebol gostoso e a contratação de Liedson só não foi perfeita, porque demorou um pouco. Mas as alamedas do Parque São Jorge, nunca são calmas. Com o final do mandato de Andrés Sanchez, impreterivelmente dia 15 de dezembro próximo, a campanha de sucessão está aberta, embora pareça encubada. Os associados decidirão qual será o novo presidente do clube e cada esquina pode contar uma história definitiva, valendo votos preciosos. A indicação do atual mandatário vale muito nessa briga e não são poucos os pleiteantes, mesmo que, nem sempre, se declarem abertamente. Andrés não fala sobre o tema, porém tenho sérios motivos para crer, que ele já tem o seu eleito, a sua Dilma. É Mário Gobbi. Gobbi saiu estrategicamente no final de 2010, foi poupado do vexame contra o Tolima e não há nada contra ele, internamente. André Negão é candidato importante, Roberto Andrade, atual homem do futebol, por certo também gostaria, além de Paulo Garcia, velho pretendente. Porém, Gobbi saiu na frente. Se vai ter folego até dezembro, fica difícil saber. No entanto, data hoje, o prestígio dele na cúpula, poderá fazer a diferença. Há muita coisa pela frente. Andrés cada vez ficará mais envolvido com as brigas no Grupo dos 13 e na CBF, que talvez seja o seu futuro. E alguns jogadores corintianos, de nobre estirpe sonham em assumir postos, ou quem sabe a presidencia, no Sindicato do Atletas Profissionais. Ou seja, mesmo com a bola rolando redondinha, basta dar uma voltinha pelas ruas molhadas ou pela capelinha de São Jorge, no Parque, para sentir que o clima fervilha em vários setores. E assim, deveremos ter outra, das históricas noites de eleições fervilhantes, pouco antes do Natal desse ano.

NÃO É QUESTÃO DE TIME E SIM DE ENCAIXE

Futebol é um esporte raro. Ser melhor, ter os jogadores mais graduados, uma organização correta, não significa, necessariamente, vitórias. De repente, um time encaixa, porque os deuses da bola quiseram assim e aí vão por terra todas as teorias litúrgicas de como se chegar ao gol. Cansamos de ver, surgirem do nada, times maravilhosos.O último deles foi o Santos de Dorival Junior. Foi daquela forma, por falta de opções mais lógicas. Não tendo as contratações pedidas, o jeito foi tentar com o que se tinha. E virou aquela máquina. Antes ocorrera o mesmo com o time do Emerson Leão com Robinho e Diego. Cito o Santos, pelo que tenho visto da equipe de 2011. Segurou Neymar, repatriou Elano. Contratou Jonatas e Diogo. Está certo que falta o Ganso, mas ninguém sabe o futuro dele. Virou “salvação” até da seleção brasileira, onde só atuou uma vez e agora, há quem creia, que com ele voltará o show do ano passado. Improvável. A equipe do Dorival Junior encaixou. A atual, mesmo com mais peças fortes, parece que não vai andar. Quanto não encaixa, não tem jeito. Mais ainda chutando o treinador com apenas 11 jogos. Vira tema para estudos e novas teorias. Na prática, não dá em nada.