Eu, Papai Noel

Fui escolhido. Sabe aquela conversinha de “só pode ser voce, as crianças podem perceber” ,etc,etc. O agradecimento pela compreensão inicial começa a virar gozação na hora da escolha da roupa. Fora os palpites, as sugestões e de repente, o Papai Noel transforma-se num personagem teatral, que tem até que fazer um pequeno ensaio. Qualquer esboço de reclamação é sufocado com o “voce não topou?”. Aí chegou a hora, minha auxiliar, minha filha Rita Graziella, ao invés de me ajudar, me gozava o tempo todo. Mas, as coisas só estavam começando. No momento de por a calça do bom velhinho, o Papai Noel se lembrou que estava em férias e logicamente mais gordo. A calça rasgou e não fosse um improvisso de última hora, o símbolo do Natal entraria literalmente com o saco à mostra. Minha auxiliar com um monte de presentes, garantia que sabia, exatamente, para quem eu deveria entregar. E lá entro eu de ooo prá lá, ooo prá cá, com o presente do Matheus. Era da Clarinha. Pego o da Clarinha, era do Matheus. Alguns perceberam o tapão que o Papai Noel deu na auxiliar antes do saco ficar vazio e os últimos presentes foram entregues ao som de ameaças de Lei Maria da Penha e os escambau. Tarefa terminada, saída estratégica, lembrei dos papais noeis, que eu judiava nas festas da Jovem Pan. O Luciano Facciolli ficou preso num carro, num calor de 50 graus, enquanto a mãe dele me xingava. O Marcos Nunes de Barros saiu falando palavrões para as crianças, que lhe davam banho de sorvete de chocolate, seguindo as orientações do “tio” Flavio. Fui banido das confraternizações por mau comportamento. E agora eu estava na pele do Noel, com uma auxiliar, que mais ria do que produzia. Tomei duas decisões, depois de ver a emoção linda nos rostos das crianças. No ano que vem se for convocado, vou pedir um gnomo emprestado ao Wanderley Nogueira,  já que ele cria gnomos, para estar ao meu lado. E comprar uma calça bem larga, nem que precise amarrar mais forte depois. Aproveitei a charretinha estacionada e segui para a Laponia. Aqui está um frio danado, porém estou livre dos jecas com seus carros barulhentos, jogando sujeira pelas ruas, em meio as obras, que a prefeitura do Guarujá deixa para esse período, para fazer de conta que é eficiente. Guarujá na semana entre Natal e Ano Novo, não tem saco que aguente.

Feliz Natal

Abro minha caixa de emails e um monte de mensagens de Feliz Natal. Respeitei uma meia dúzia e o resto joguei no spam. Tem palhaço que nem se dá ao trabalho de colocar seu nome no teórico desejo. É um tal de meu amigo(a), etc,etc. Eu não sei para que isso ? Será que o cara acha que está sendo simpático? Está e enchendo sua caixa de mensagens de porcarias e falsidades. Os amigos, em primeiro lugar, nem precisam ligar ou mandar nada. Voce sabe o que eles pensa de voce. Ok, é simpática uma lembrança como por exemplo do querido Zico, que mesmo falando pouco a gente, sempre manda um abraço e nesse ano de 2011 fez questão de citar os presentes que recebeu, especialmente, mais um netinho, o terceiro do nosso Galo. Porém, teve até político, que nem conheço,  que me mandou recado e deve ter mandado para voce também. Os caras não perdoam nem o Natal. Fazem politicagem o tempo todo, de todo jeito. Adoro estar com meus amigos e minha família e faço isso semanalmente, as vezes até diariamente. Natal não muda nada. Falo com Jesus todo dia, agradeço muito e vá lá, as vezes faço uns pedidozinhos. Ele nasce, para mim, toda manhã quando eu acordo e já agradeço por ter acordado. Essa frescura desses dias finais do ano, cada dia me aborrecem mais. Não bastavam as hipocrisias dos abraços falsos, nas “confraternizações”. Agora elas chegam por todo lado. Salvem  Jesus, os amigos e a família. Hoje e em qualquer dia da minha vida. O resto virou um roteiro batido, que cada dia perde mais a graça.

Menos respeito

 Quando o Barcelona acerta um grande jogo não tem jeito. E o Barcelona acertou um grande jogo contra o  Santos. Mas, a diferença entre eles não é tão grande. O Santos respeitou demais. Poucas vezes vi o Neymar tão tímido diante de um marcador. Ele olhava para o Puyol com carinho, parecia que o jogador, que ele brincava no vídeo game saíra da tela, num passe de mágica, para brincar com ele, pessoalmente. Puyol, em situação normal, não tem bola para enfrentar Neymar. Só que Neymar já se sentia engrandecido por jogar contra ele. E assim foi o Santos todo, durante todo tempo. A posse de bola do Al Sadd foi maior que a do time santista no enfrentamento com os catalães. Parece que o velho “complexo de cachorro vira-latas”, que o Nelson Rodrigues falava lá atrás, entrou em  campo mais uma vez. Repito, o Barcelona é mesmo o melhor time do mundo e o título está nos pés certos. Porém, fiquei  frustrado com a aceitação pacata dos brasileiros. 73% de posse bola contra 27% parece jogo de times de divisões diferentes, a menos que você tenha uma estratégia para atrair o adversário e surpreendê-lo nos contra ataques. Não foi o que se viu. Os santistas ficaram assistindo o Barça jogar. Só isso. Perdeu passivamente e com um placar até pequeno pelo que se viu da partida. Agora virão os entendedores de última hora ditando regras. Querendo explicar esse fenômeno Barcelona, como se tivesse sido hoje o primeiro grande jogo deles. Eles são sempre desse jeito. O Santos é que não é assim. O Santos pode bem mais do que mostrou e aí vai o lado de se sentir muito inferior, previamente. Perder seria normal, no entanto, já entrar derrotado é que eu não contava. Espero que tenha realmente servido de lição. Quando se respeita demais, os efeitos são tão ou mais nefastos do que quando se ignora o outro. Perdemos a chance de ver um 6 a 4 um 7 a 5, enfim um jogo histórico. O Barcelona foi lá para isso. O Santos, infelizmente, não topou a brincadeira. Preferiu ficar encolhido vendo o outro se divertir sozinho. Pior é ter que agüentar o montão de gente que viu o Barcelona “ pela primeira vez “, ditando regra, como se não desse para fazer coisa melhor. Dava sim. Era só ter menos respeito e perder jogando, não apenas olhando.

Na final, muito fácil

O Santos jogou contra o Kashiwa como se joga contra times desse nível. Fez dois gols e sossegou. Verdade que a posse de bola foi maior dos japoneses, mas isso é bom, afinal eles não sabiam o que fazer com ela. Qual defesa o Rafael fez ? Nenhuma. Eles perderam gols porque o nível deles esse mesmo. O Santos fez três, meteu duas bolas na trave e obteve a maior diferença que um sulamericano conseguiu contra esses timinhos do primeiro jogo.

O Barcelona é mágico,mas dá para ganhar

AFP

Xavi (centro) durante treino em Yokohama

Ver o Barcelona jogar é um prazer. Toques eficientes, jogadores de grande nível técnico, especialmente Xavi, Iniesta e Messi, quase uma magia em campo. Mas há pontos fracos, que o Santos conhece bem e que poderão significar a vitória do Santos na final do Mundial Inter Clubes. Antes de mais nada, não creio que japoneses e catarianos, consigam estragar esse jogo, com vitórias no meio de semana. Assim, domingo cedo veremos uma festa do futebol. Se o Barcelona acertar uma partida como no segundo tempo contra o Real Madrid, aí não tem jeito, porém se atuar como na primeira fase, o Santos terá chances efetivas. Primeiro porque o Muricy sabe tudo do Barcelona e, duvido que, Guardiola conheça profudamente o estilo do Ganso e mesmo a rapidez no giro na área do Borges. Segundo, Muricy tem pedido paciência ao seu time. E esse pode ser o segredo. Querer jogar como eles  ou acompanhar-lhes o ritmo de jogo será bobagem. O tempo maior de posse de bola, durante a disputa será do Barcelona de qualquer maneira. Cabe ao Santos usar o seu período de domínio de modo inteligente. Bola no Ganso e no Elano, passe rápido para o Neymar, que com a bola dominada coloca no chão qualquer beque do Barça, e finalização dele ou da Borges. Marcar a saída de bola deles, também pode ser um bom expediente, já que o goleiro Valdez, falha muito nesse aspecto. E, claro,  rezar para que o time do Messi não esteja num dia de brilho. Enfim, frieza de um matador, concentração plena e um pouco de sorte. Com esses ingredientes pode dar Santos. E se perder não ocorrerá nada demais, afinal os espanhóis são sim, os  favoritos. Eu creio na preparação santistas. Adoro ver o Barça jogar e vejo muito os jogos dele. Até por essa razão sei de seus dias irregulares, que ocorreram bastante na atual temporada. Se dia 18 for um deles, o Santos poderá voltar com o tri lá do Japão. A diferença entre eles não é tão grande como andam apregoando.

ET: O Barcelona tem variado o jogo entre o 3/4/3 e o 4/3/3. Acho que atuará no 3/4/3 contra o Santos. Os zagueiros Puyol, Pique e Abidal não tem nível para segurar o Neymar. O meio campo com Dani Alves, Xavi, Busquets e Iniesta é o ponto forte. Especialmente os geniais Xavi e Iniesta. Xavi dá o ritmo ao time e Iniesta lembra muito Tostão nos grandes momentos. É preciso colocar  marcação forte no setor, ficando fundamentais os trabalhos de Henrique, Arouca e Elano e o auxílio do Ganso, além dos laterais mais fixos. Na frente Fábregas, que se alterna com Iniesta, Messi e Sanchez ou Villa. Dois jogadores bem abertos para que o toque rápido venha pelo meio e Messi tenha espaço para atuar. Aí é que precisa ter paciência, o tempo todo, não é fácil, porém é possível. Os laterais do Santos não devem e não precisam sair. O Muricy sabe bem disso e já falou bastante do tema. Será um jogão para estudar futebol também.

Título merecido

Corinthians ganhou merecidamente o título brasileiro. Foi o melhor durante a maior parte do tempo e o título está em ótimas mãos. Flamengo e Internacional garantiram as últimas vagas na Libertadores. Farão companhia a Vasco, Santos, Corinthians e Fluminense. O Cruzeiro salvou-se em grande estilo, goleando o arqui-rival e derrubando um Ceará de muita torcida, mas pouco futebol. Foi um grande torneio. O turno e returno está mais do que consagrado e os cariocas parece que pegaram mesmo o jeito. É só olhar as boas campanhas de todos eles, enquanto em São Paulo, Palmeiras, Santos, por motivos óbvios e São Paulo, nunca mostraram grande força no principal torneio nacional. Ficam boas lições para todos. Os inteligentes saberão se corrigir para poderem comemorar dentro de um ano.

Morreu minha melhor entrevista

Sócrates

Acervo/Gazeta Press

Fui repórter durante 18 anos. Aliás, a gente nunca deixa de ser repórter.Não tenho a menor idéia de quantas entrevistas fiz, mas por certo o melhor entrevistado morreu na madrugada desse triste domingo de decisão. Qualquer entrevista com o Sócrates tinha um brilho diferente. Nunca foi óbvio em nada. Anti-atleta, arrebentava em campo. Não treinava com afinco, mas decidia nos momentos fundamentais. Era politizado, enxergava muito além das quatro linhas do campo. Buscou a felicidade sempre, a ponto de largar milhões de dólares na Itália, para tentar ser alegre, de novo, no Brasil. Se os jogadores normais procuravam esconder seus gostos etílicos, ele sempre deu suas entrevistas com uma garrafa de cerveja ao lado. A bebida lhe custou a vida, porém, jamais foi hipócrita. Era o que era, na boa ou na ruim. Lutou muito pelos direitos dos jogadores, gerou a Democracia Corintiana e foi um craque maravilhoso. Para quem pergunta se jogou mais do que Raí, seu irmão,  não consigo ver comparação. Raí sempre foi mais atleta, Sócrates muito mais genial. Ele fazia comentários sábios, não se importava em mostrar seus defeitos e sempre encarava tudo de frente. Errou ao não saber medir o número de doses, que tomava e quem convivia com ele sabia disso. Parece que queria viver tudo intensamente e exagerava na categoria, nos calcanhares, nas declarações inteligentes e no alcóol. Jamais foi um cara previsível, trivial. Foi diferente. Sócrates fará uma falta imensa no mundo da bola. Fiquei chocado com a notícia da morte dele. Nosso futebol segue sendo muito infeliz. As grandes coisas passam rapidamente e as tranqueiras, parecem que são eternas.