O crepúsculo do rei

Eduardo José Farah (à direita) em almoço com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, na Copa de 1998 (Acervo/Gazeta Press)

Os olhos do velho senhor não têm brilho. Ele passa horas sentado no quarto ou na sala, com pijama e chinelinho estofado, entre cochilos, divagações e, às vezes, resmungos. Deve pensar onde errou. Difícil dizer. Pela  minha forma de ver a vida, ele fez tudo errado. Passou por cima de muita gente, criou uma máquina de dinheiro, com métodos nada convencionais, que lhe trouxe poder, soberba e temor dos inimigos, que, no entanto, estavam ao lado dele, o tempo todo, sem que desconfiasse. Num ambiente onde não há ética, respeito, solidariedade, e somente o dinheiro vale, é muito normal que os adversários se aproximem, aguardando o momento do bote fatal. E o golpe contra ele, foi mesmo mortal. Esse senhorzinho, que hoje vive quase solitário, não recebe visitas, perdeu todo glamour e encanto, depois de ter tanta gente lhe lambendo as botas, por muitos anos, é Eduardo Farah.

O ex-presidente da Federação Paulista de Futebol faz, hoje, três hemodiálises por semana. A rotina de sofrimento difere totalmente dos dias de glória, onde caravanas de presidentes de grandes e pequenos clubes cercavam sua sala, em busca de benesses e favores, e seu grito significava desespero para todos. Farah teve que sair do cargo para amainar uma investigação da Receita Federal. Queria passar o poder para José Reinaldo, em quem ele confiava. Mas o estatuto dava o comando a Marco Polo Del Nero.

Como Farah ainda tinha voz forte, Del Nero prometeu-lhe tudo. Até permanência na mesma sala, motorista, salário régio etc. Aos poucos foi cortando tudo. Até que Farah sumiu, enquanto José Reinaldo se aliava a Del Nero. Durante algum tempo ainda falou-se dele. Hoje, ninguém pergunta mais. As botas a serem lambidas são de Del Nero, e os serviçais fazem isso com a mesma maestria exigida, tempos atrás, por Farah. O reino continua de pé. Agora os gritos do nosso monarca é que assustam.

O velho rei vive seu crepúsculo, quase anonimo. Raríssimas visitas e a luta pela volta da saúde é  tão difícil, ou até mais, do que o retorno aos dias magistrais. Assim é a vida. Não há reinado eterno, para ninguém. Mas você pode fazer o bem enquanto reina, ou criar cobras, que, em algum momento, vão lhe picar. Farah não deixa nenhuma saudade no mundo da bola. Del Nero segue fazendo o que ele fazia. Com aprimoramentos, é claro.

Cabañas e Adriano

Foto: AFP

Foto: AFP

Salvador Cabañas está voltando ao futebol. Ele atuará no 12 de outubro, time paraguaio, onde começou. Desde que tomou um tiro na cabeça, dia 25 de janeiro de 2010, Cabañas foi só luta, primeiro pela vida, depois pela volta à alegria de jogar futebol. Confesso que torci pela vida dele, porém, nunca acreditei, que ele pudesse voltar a ser futebolista profissional. A notícia de sua volta  é surpreendente e fantástica, ao mesmo tempo. Exemplo de vontade de viver plenamente, a qualquer custo, mesmo que a vida tenha lhe preparado uma emboscada. Se eu tivesse acesso ao Adriano, do Corinthians,  faria um video especial desses dois anos de luta do paraguaio. Com um problema muito mais grave, já que Adriano se entregou depois da morte do pai, Cabañas tornou-se um vencedor, enquanto o brasileiro perde pontos a cada dia, apesar das inúmeras chances. Sei que cada um sente de um jeito e reage à sua maneira. Mas, muitas vezes o bom exemplo abre cabeças. Adriano sempre foi muito mais jogador, que Salvador Cabañas, porém, nessa luta para voltar a jogar em alto nível, o gordinho paraguaio está ganhando, de mil a zero, do gordinho brasileiro.

Adriano na dele

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Adriano faltou em mais um treino do Corinthians. Fizeram um escandalo, não sei porque. Ele está fazendo exatamente o que tem feito nos últimos anos. No São Paulo, no Flamengo, na Roma. Por que seria diferente no Parque São Jorge? Nós temos mania de achar, que as coisas serão de outra forma, quando estamos envolvidos nela. Bobagem. Ao fazer um contrato com o velho artilheiro, os cartolas do Corinthians sonhavam com o Imperador. Mas isso ele não é mais, faz tempo. E vem, lamentavelmente, em franca decadência. Teve a contusão, que deixou no ar, por mais algum tempo, a dúvida de alguns, se ele estava ou não disposto a mudar. Nunca tive essa dúvida. Não há o que reclamar do Adriano. Ele está  no Corinthians, como esteve nos últimos 50 meses. Não dá para dizer, que se comprou gato por lebre. É como aquela consagrada música, do meu amigo Luiz Airão, a  Bola Dividida, que fala da mulher do amigo, que fica dando bola para ele. E o cara, não sabe como agir e lembra “se ela faz com ele, vai fazer comigo” Vou mandar o cd para os dirigentes corintianos.

Um conto chinês

Um dos grandes filmes de 2011 foi o argentino “Um Conto Chinês”. Na história, um chinês aparece na porta da casa de um cara mal humorado, o maravilhoso ator Ricardo Darin, que acaba lhe dando acolhida, apesar de não entender nada do que ele fala e nem dos costumes do surpreendente hóspede. No final, o chinês acha sua turma e deixa até uma ponta de saudade no aliviado argentino, que retorna à sua rotina. Longe de mal humorado, Luiz Paulo Rosenberg, o homem do marketing corintiano, colocará dentro do clube em alguns dias, um desconhecido chinês. Aliás, todo jogador de futebol da China é desconhecido. Vi imagens de boas jogadas dele na internet, porém, lembrei que já fiz um video meu, jogando e até deu a impressão que eu sabia jogar futebol, coisa que está muito longe da verdade. Então lá vai o Corinthians rumo ao mercado asiático. Correto. Mas, só isso? De que adianta trazer um china, que servirá como motivo de piadinhas de todos os adversários, se o clube não sair para se mostrar. Por exemplo, a pré temporada do clube, deveria ter sido programada para a China. Ao invés de ficar confinado por aqui, porque não treinar na terra do rapaz, lançar camisas como o nome dele e até fazer jogos treinos por lá. Isso poderia durar um ou dois meses, a pré-temporada e a primeira fase do inútil Campeonato Paulista. Aí sim as coisas começariam a fazer sentido. Milan, Barcelona, Real Madrid e outros times, realmente globalizados, fazem efetivamente isso. Vão aos centros, que lhe interessam, para se mostrar e se divulgar. Poderia-se, enfim, dar-se alguma utilidade ao Adriano, conhecido no mundo todo e até negociar-se participações do Ronaldo, elevando a fama do clube e, por certo, conseguindo-se patrocínios de grandes empresas chinesas. As vendas de objetos, com a marca do clube, viriam atreladas a essa, aí sim, inteligente aventura. Do jeito que está, não creio em grande serventia. Para se por o chinês no time terá que se sacar alguém, por certo melhor do que ele. O Tite vai topar? No Paulistão ainda vá lá, no entanto, vai-se  jogar, eventualmente, com o Boca em La Bombonera, com um chinês como arma secreta? Aí virará mesmo motivo de chacota. Enfim, a idéia é boa e aproveitável, desde que usada na plenitude. O Corinthians tem que deixar de se preocupar com certamezinhos regionais e desbravar o mundo, empurrando sua marca para novos consumidores. Se para isso  tiver que colocar um bode na sala, que use o bode para atrair adeptos de uma buchada de bode (sem alusão a FHC, nos tempos de campanha presidencial, por favor). Por hora, só enfiaram o bode na casa e dessa forma, só poderão contar, pelo menos por enquanto, com o mal cheiro dele.