Dom Quixote e oito Sanchos Panças

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Miguel de Cervantes foi genial. Um dos maiores escritores do todos os tempos, criou histórias, que valem até hoje, para o nosso dia a dia. Até no futebol. Quem for ao Morumbi lembrará muito do principal personagem de Cervantes. Dom Quixote imaginava que era um cavaleiro andante imbatível, que lutava contra exércitos gigantes, vencendo a todos, enquanto prometia a seu fiel escudeiro, Sancho Pança, que ele seria o futuro governador de uma das tantas ilhas que eles iriam conquistar. Dom Quixote era arrogante, pretensioso, nunca aceitava menos do que noites em castelos maravilhosos, com grandes damas de honras, jantares suntuosos e reconhecimento de que ele era, realmente, o número um, dentre os tantos cavaleiros andantes que existiam na sua região. Na verdade, Dom Quixote lutava contra moinhos de vento, tonéis de vinho, grupos de carneiros e padres desprotegidos. Dormia em estalagens de quinta categoria, camas de palha e era motivo de chacota por onde passava. Pior é que conseguiu convencer um vizinho a acompanhá-lo em suas loucuras. Sancho Pança acreditava nele, mesmo vendo as doideras que fazia. Convenceu-se de seu poder e, ainda que tomasse pancadas por onde passasse, o sonho de ter uma ilha fazia dele prisioneiro do, teórico, grande fidalgo. Quando, depois de muitos sofrimentos, Dom Quixote voltou à consciência era tarde demais. Morreu de tristeza, deixando seu escudeiro inconformado e sem poder ou propriedade alguma. Linda história. Se Cervantes vivesse hoje e lançasse seu Dom Quixote, numa grande noite de autógrafos, poderia ser acusado de plágio. Quem for ao São Paulo FC e ficar observando o dia a dia desse histórico clube, vai sentir-se como se voltasse no tempo. As ideias de cavaleiro andante imbátivel ainda estão bem vivas por lá. E esse cavaleiro sonhador conquistou a todos. Tem oito Sanchos Panças, sempre ao seu lado, porém, obteve poder total no reino. Os Sanchos curvam-se diante dele, esperando suas ilhas, ou quem sabe, até um convite para apear Rocinante, o cavalo de Dom Quixote. Vencem muitas batalhas. Todas contra moinhos de ventos. A realidade, porém, é bem outra. Como é lindo ainda vivermos num mundo com tantos sonhadores.

Vivendo e aprendendo a jogar

Foto: Site Oficial Copa Imprensa

Sempre se aprende algo a mais na vida. Que bom que é assim.

Segunda-feira nosso time foi eliminado da Copa Imprensa Aceesp Nike, competição que deveria ser para divertir a imprensa, mas que é jogada sob forte tensão. Para que se tenha uma idéia o superintendente geral da Fundação Cásper Líbero, Sérgio Felipe,  foi ver o jogo da TV Gazeta, tal o entusiasmo pelo torneio, nos corredores do prédio. O Juca Kfouri e o João Palomino, estavam vendo a partida da ESPN, e assim por diante. Nas quadras alguns boleiros consagrados. Denilson e Ronaldo, ex-goleiro, jogam no time da TV Bandeirantes. Paulo Sérgio na ESPN, Caio Ribeiro na Globo e assim por diante.

Montei um time com os meninos, que fazem estágio no Mundo da Bola, meu programa da Jovem Pan. Reforcei com pessoal da própria Pan, da Rede TV, meu filho Bruno inclusive e também alguns da TV Gazeta e o Tatá Muniz. Um catadão. Começamos tomando uma goleada da Band e, para minha surpresa, ninguém dormiu naquela noite. Pensei, que aquela era a “brincadeira mais séria que me aconteceu”. Ganhamos os dois jogos seguintes, sempre numa pilha incrível e com jogadores expulsos.

E veio a quarta de final, jogo único contra a TV Record, vice do ano passado e com um timaço. Nós, meros melhores terceiros. Foi um jogão. 1 a 0 pra eles, 2 a 1 pra nós, 3 a 2 pra eles e, no último minuto, 3 a 3. Fomos para a decisão em pênaltis. Eu sou grossíssimo jogando futebol. E como todo grosso, ou compro a bola, ou faço um time ou me aperfeiço em algo. Fiz a terceira opção.

Foto: Site Copa Imprensa

Bato pênaltis bem. Já fiz gol no Zetti, no Carlos na Copa de 86, no Cristiano, ex Rio Branco, tudo devidamente gravado, e muitas vezes entrei nos jogos só para bater pênaltis. Incrível, nunca errei. E contava vantagem em cima disso. Na hora de escolher os batedores na decisão, os próprios meninos sabiam que só precisávamos de dois. O terceiro seria meu. O Daniel, que arrebentou no jogo não bate. Perdeu um, no tempo do exército, e não quis mais saber. A Record bateu e meu goleirão pegou. O Bruno Prado fez. A Record fez. O Fabinho, do meu time, fez. A Record fez o terceiro. Se eu marcasse, o que seria normal, estávamos classificados. Confesso que nem olhei para o goleiro deles, um bolão, o Márcio de Castro. Mas eu não olhei para o Zetti, nem para o Carlos, nem para nenhum outro, antes. Bati como sempre. Modéstia a parte, bem. No canto esquerdo com meia força. Não acreditei porém, no capítulo inédito. A mão do Márcio chegou na bola e a defesa estava feita.

Nunca sentira isso antes. Na cobrança alternada, é claro que perdemos. Eu é que não tinha direito de errar. Perdi o rumo por alguns minutos. O Bruno me abraçou, todos me consolaram. O campeão mundial Denilson, da outra quadra, me deu solidariedade. “Só perde quem bate, Flavião”. O rosto dele retratava pena. Eu devia estar um caco. No vestiário pedi desculpas a um por um. Até que entrou o Márcio de Castro. E eu dei parabéns a ele. “Você foi o único goleiro, que pegou um pênalti meu”. E ele respondeu. “Eu sei.Você já tinha feito dois gols em mim em jogos contra. Eu sabia onde você ia bater”. Dei um abraço nele e aprendi que, até em brincadeiras, há sempre alguém estudando tudo que a gente faz. E levando a sério.

Aprendi a respeitar a solidão do perdedor de pênaltis e a entender, um pouco, do que sentiram aqueles, que um dia erraram nas decisões, mesmo sendo gênios, ao contrário de um perna de pau, como eu. Vi a solidariedade de quem já sentiu essa pressão na pele. E entendi melhor, também, o que dizia o grande Barbosa, “culpado” por 1950, quando falava, que já tinha sofrido o gol do Gigghia mais de um milhão de vezes. Eu já perdi o pênalti de segunda-feira pelo menos dez vezes.

Os meninos querem nova chance. Eu também. Já estamos treinando para 2013. E pensando em reforços. Vampeta, por exemplo, que agora trabalha comigo na Pan e,  ficará na Gazeta também,  por uns três meses. E se tiver pênalti vou bater de novo. A menos que o goleiro seja o Márcio de Castro. Aí talvez eu passe a vez para outro. Afinal, duvido que o Barbosa, mesmo que tivesse chance, gostaria de jogar contra o Gigghia outra vez.

Veja a reportagem da TV Gazeta

Confira o site da Copa Imprensa

Foto: Site Copa Imprensa

Jogos especiais

Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Não estou falando de brilho técnico, porque isso não existiu. Mas, as vitórias do Corinthians e do Palmeiras, foram especiais. Não custa lembrar que  ambos são os lanterninhas do Campeonato Brasileiro, porém conseguiram vitórias maiores, pelo menos a princípio. O Corinthians se impos na Vila, especialmente no primeiro tempo, enquanto o Palmeiras foi fatal,  no final. Claro que, na volta,  as coisas podem ser diferentes, porém, por enquanto, os torcedores darão tréguas aos seus times, até porque, terão prontas as respostas para eventuais gozações. No caso do Corinthians, a equipe é muito bem definida taticamente e o Santos vai sofrer bastante para reverter em São Paulo. No caso do Palmeiras, fosse outro time, e os 2 a 0 dariam total tranquilidade. No entanto, com os antecedentes recentes, até o mais fanático palmeirense, ainda se dá ao direito de ter dúvidas. Ou seja, na semana que vem, teremos, de novo, outros jogos especiais. Estavam mesmo fazendo falta, depois de cinco meses de ridículos campeonatos regionais.

Eurocopa promete

AFP

AFP

Começa a Eurocopa e ela será uma grande referência para projetarmos a Copa do Mundo de 2014. Quando a Espanha ganhou em 2008, eu continuei cético, esperando os últimos jogos pré-Mundial 2010, para ver se aquele time suportava algo maior. E ficou claro quem era o melhor mesmo. As vezes surgem aberrações, tipo Grécia, e aí perde-se a lógica de bem na Euro, bem na Copa do Mundo. Mas, normalmente surgem equipes organizadas nessa competição, que chegam e mantém 0 sucesso, dois anos depois. Lembro, além da Espanha, da Dinamarca de 1986, a Dinamáquina, que na verdade, apareceu bem em 84, na Euro, organizada pela França. Então, atenção aos jogos, que começam nessa sexta-feira. Os principais adversários do Brasil estarão em campo. Junto com uruguaios e argentinos, que além de adversários são arqui-rivais. Mas eles estão aqui perto. É mais fácil de espionar.