Caxirolas e pedhuás

Foto: Divulgação

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O brasileiro não gosta de futebol, gosta de festinha. Quando os times estão bem, ou fazem algum jogo decisivo, aparece um monte de gente querendo aparecer e até fingir forte emoção, se for preciso. E não há limite para isso.

Fico imaginando como será o Mundial em 2014. Primeiro mulatas de bundas de fora, identificando a mulher brasileira e índios com penachos coloridos, representando o homem brasileiro. É sempre essa imagem que passam do nosso povo.

Aí aparecerá a bola, que se refere ao Brasil com z, a tal da brazuca e um tatú bola com nome esquisito. E para finalizar, as caxirolas e os pedhuás, instrumentos inventados recentemente, com aval do Ministério dos Esportes, para captarem verbas a serem descontadas de impostos, que deveriam ser usados para hospitais, escolas ou segurança, por exemplo. Continuaremos vergonhosos nesses ítens vitais, porém os estádios brasileiros, durante a Copa do Mundo, terão caxirolas e pedhuás. Quando tudo acabar, ficarão várias arenas fantasmas, construídas com super faturamento por todo Brasil e algumas poucas realmente úteis.

O tão falado legado da Copa, claramente, não virá. Farão alguns puxadinhos, fecharão vias importantes, para a circulação de veículos oficiais nos dias de jogos e na sequência os mesmos problemas de sempre. A idéia de se organizar um evento desse porte, e depois a Olimpíada de 2016, sempre teve o objetivo de enriquecer espertalhões.

Onde está o dinheiro da iniciativa privada, que falaram, viria à rodo? Cadê as melhorias perenes na infra estrutura do país? Nem precisamos esperar mais dois anos para termos certeza da irresponsabilidade dos gastos. Se ainda havia alguma dúvida, a esse respeito, as caxirolas e pedhuás, acabaram com ela.

Onde Ganso vai jogar?

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

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Contratação de 24 milhões de reais, não admite discussão com o treinador. O cara vai ter que entrar no time. E aí  cada um tem sua forma de ver futebol. Ganso explodiu no Santos no segundo semestre de 2010. Chamou mais atenção até do que Neymar. No Cirque de Solei, do Dorival Junior, foi peça fundamental. Aí vieram as contusões. Do início de 2011 até agora, nunca mais de viu o mesmo desempenho.

Em campo, Ganso esteve pouco participativo, esperando a bola chegar e sem penetrar nas áreas adversários. Mano Menezes via nele o comandante da seleção brasileira. Hoje não teria como tirar Oscar para colocá-lo. De jogador dinamico, agudo, dos primeiros seis meses, Ganso passou a ser um coadjuvante, com pouca pegada e sem participação no movimento do meio campo santista.

Agora chega e tem que jogar no São Paulo. Onde? Se ficar parado, esperando a bola chegar nele, vai ser difícil. Até por essa razão, talvez Nei Franco tenha que achar um lugar para ele no time. Eu tentaria a posição, que vem sendo ocupada por Maicon.

Uma espécie de segundo volante, dando início às jogadas, procurando dar ritmo e passada veloz à equipe. Não tiraria Jadson para colocá-lo. Ele precisa estar mais no jogo. Ser mais ativo e aproveitar sua principal virtude, que é a habilidade no toque de bola. O problema é do Nei Franco. Ele vai  observar o que o jogador pode e suporta. Por enquanto fico no aguardo.

Solange Bibas

Acervo/Gazeta Press

Acervo/Gazeta Press

Rolava uma entrevista do Muricy Ramalho durante a semana, e, lá pelas tantas, ele citou dois jornalistas, que respeitava há anos. Falou de mim, fiquei lisonjeado, afinal já o critiquei tantas vezes e ele sempre entendeu como coisa de profissional, e de Solange Bibas. Foi bom um treinador consagrado lembrar dele. Costumamos cobrar a falta memória esportiva no futebol. E, muitas vezes, não cuidamos da nossa.

Conheci Solange Bibas, um paraense de extrema inteligencia, quando comecei a estagiar na Gazeta Esportiva, em 1974. Ele era famosíssimo e eu, um moleque esperançoso. No entanto, fui tratado, sempre, de igual para igual. Em tempos de máquinas de escrever e necessidade de espaços enormes para arquivos, a redação da Gazeta Esportiva adaptou as velhas Remington às mesas. Elas ficavam presas por fortes parafusos, podendo assim suportar o próprio peso, quando o tampo das mesas era virado, para que pudessem ser feitas pesquisas. Sem google, o jeito era recorrer à coleções de jornais, espalhando tudo pela mesa em busca de algo fundamental para aquele momento.

Bibas tinha mais que isso. Ao lado possuia um armário de aço, Fiel, onde guardava um número enorme de fichas retangulares, com anotações. Um dia quis vê-las. E ele me explicou que ali armazena biografias de grandes jogadores do exterior.

No começo dos anos 70, Bibas era capaz de comentar vastamente sobre as revelações, os melhores de cada certame da América e do mundo, além de características básicas, como pé preferencial e forma costumeira de atuação em campo. Incrível que seu principal informante era o técnico da seleção da Iugoslávia, Miljan Miljanic, grande amigo de Osvaldo Brandão, por sua vez parceirão de Bibas. As informações vinham por cartas. E Miljanic também sabia das coisas do Brasil, pelo grande jornalista brasileiro.

Não foram poucos os treinadores que pediram informações a Solange Bibas, anos a fio. Ele nunca negou nada a ninguém. Gostava de trocar vivências e sentia alegria quando alguém se interessa pelos seus apontamentos. Nem preciso dizer que enlouqueci diante de tudo aquilo.

Foi Solange Bibas que me ensinou que o futebol não se limitava ao nosso país. Que grandes jogadores nasciam em qualquer lugar e que o conhecimento, geral, era extremamente necessário, caso eu quisesse fazer algo novo na profissão. Hoje, quando meu programa na Jovem Pan, o No Mundo da Bola, completa 22 anos, só posso ser grato ao velho mestre. Já transmiti campeonatos da Espanha, Inglaterra, França, Japão, Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Itália, Portugal, etc, além de jogos envolvendo várias seleções do mundo todo. Meu filho, Bruno, também opta por uma visão mais global do futebol, não restringindo-se apenas ao nosso País, um dos melhores, mas longe de ser o único bom de bola.

Atualmente, dá para se assistir jogos de todos os lugares, com as tvs a cabo, a internet e tantos profissionais gabaritados espalhados pela nossa imprensa. Eles têm, sem saber, o virus de Solange Bibas. Nosso precursor morreu logo após a Copa de 1982, onde foi jornalista oficial da Seleção, numa homenagem de Giulite Coutinho, então presidente da CBF, ao grande homem, já então doente e com poucos meses de vida. Bibas deu conta do trabalho, maravilhosamente. Sofreu com a derrota do Sarriá, porém, conhecia os craques italianos, como se fossem seus filhos, tal o número de detalhes acumulados sobre cada um.

A morte de Bibas me trouxe uma grande tristeza. No entanto, a internet o reabilitou. Hoje encontro nos computadores, que aposentaram as máquinas de escrever, quase tudo que Bibas tinha em suas fichinhas ‘mágicas’. Foi um visionário. Pensei que estivesse totalmente esquecido. Muricy lembrou dele. Obrigado, Muricy.

A vergonha de 5 bilhões

Não consegui entender como os clubes aceitaram, tão passivamente, a mudança de poder na CBF, que na realidade não mudou nada. Afinal, saiu Ricardo Teixeira e entrou José Maria Marin/Marco Pollo Del Nero. Mudou o que? Nem o estilo. Ricardo Teixeira não deveria ter conseguido o espaço que teve, porém, vamos admitir, depois de um certo tempo, voce perde o controle de uma situação, que perdura por muitos anos. Mas, quando entrou Marin, que ninguém sabia onde andava e só voltou às manchetes depois do caso da medalha na final da Taça São Paulo, era o momento certo para os clubes darem um bom bico nos fundilhos da CBF, que não serve para nada, a não ser explorar os clubes. Num movimento só, poderiam ainda acabar com as federações estaduais, da mesma forma párias, ricas, embora não tenham times, clubes, ou jogadores para pagar. Usam os dinheiro dos times para subjugá-los, através de empréstimos, que lhe garantem força, na hora de eternas reeleições. Esperava uma liga de clubes. Todos os países evoluídos no futebol são regidos por ligas. Não há razão para ter-se intermediários, que nada lhe acrescentam. Mas o discursinho vazio dos primeiros cartolas que ouvi, tirou-me a esperança de evolução no nosso principal esporte. Com a desculpa da Copa do Mundo por aqui em 2014, resolveram adiar a idéia para o pós-Mundial. Que raio tem uma coisa com a outra? Os clubes, os campeonatos, não tem qualquer atuação ou envolvimento na organização do evento. Estranhei. Mas, o tempo sempre mostra a realidade. E ela veio através de um projeto, arquitetado na CBF e coordenado pelo dirigente da FPF, o deputado Vicente Candido, que visa um perdão generalizado das dívidas do clubes brasileiros. O valor total passa de 5 bilhões de reais. Primeiro tentou-se a Time Mania. Com o fracasso inventaram essa, agora. Teoricamente, o dinheiro devido, seria pago com apoio aos esportes olímpicos. Cascata do mesmo porte da liberação de áreas públicas, em diversas cidades, para clubes de futebol, em troca de abertura de espaço para as comunidades carentes. É lógico, que isso não ocorre, como não haverá qualquer apoio olímpico a ninguém. Se alguém de uma comunidade próxima aos tais CTs, feitos nessas áreas públicas, se aproximar do local, será enxotado por seguranças mal encarados. Ninguém controla nada e ninguém saberá como foi investido o dinheiro das dívidas. E elas vieram, quase sempre, de maus investimentos, em grande parte por má fé. Está cheio de cartola rico, às custas do futebol. Roubo puro. O dinheiro sonegado ao FGTS, foi, muitas vezes,descontado dos funcionários. E rarissímos ladrões dessa espécie, forrada deles, prestaram contas ou foram parar na cadeia. E essa gente vai ter perdão. Tente voce, caro leitor, dever qualquer coisinha ao governo e o mundo cairá na sua cabeça, mesmo voce sendo um trabalhador e pessoa séria. Por essa razão os clubes aceitaram, calados, o continuísmo de Ricardo Teixeira, com outras caras no lugar. Querem esse perdão. Só a presidenta Dilma poderá evitar essa vergonha. Confio nela e espero continuar confiando. Tomara que eu não me frustre.

Coisas chatas

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Sou a favor de qualquer jogador encher o saco do adversário. Quando você irrita o outro, favorece seu time, que, afinal, lhe paga. No entanto, uma coisa é, eventualmente, tentar cavar uma falta, um pênalti, dar uma entrada mais forte para intimidar e outra é fugir do jogo, com a desculpa da malandragem. Algumas coisas tem atravancado os já lentos jogos do futebol brasileiro. Primeiro os árbitros, que marcam qualquer faltinha, para que o ritmo do jogo não flua e ele tenha tudo sob controle. Depois os boleiros, que sempre se atiram, preferindo até tentar cavar uma falta do que finalizar num lance decisivo. Mais uma chatice: o tempo, que se perde, para bater faltas na entrada das áreas. Ou o jogador que cai e levanta pedindo cartão amarelo para o adversário. Tem ainda aquela básica, do jogador que fica no chão na hora de ser substituído, atrasando a sequência da partida. Quando o meu time está ganhando eu acho ótimo. Já me peguei no Majestoso, gritando para que alguém se jogasse na hora da pressão do outro time. Porém, como espetáculo, a coisa fica feia. Aliás, está cada vez pior. Jogos arrastados, juízes sem ousadia, jogadores que não se arriscam, somados aos brucutus, que substituiram os hábeis de outros tempos, vemos um número muito grande de confrontos desagradáveis. Quando olhamos o futebol inglês ou alemão, numa velocidade incrível, ficamos sem entender o que está acontecendo com o nosso principal esporte. Está muito burocrático, previsível e se repetindo, até nas comemorações de gols e nos cortes de cabelos. Passou da hora de uma reciclagem geral. Ainda dá tempo. Ainda. Mas não podemos esquecer que a Seleção Brasileira nunca esteve tão mal cotada no ranking da Fifa e não há qualquer brasileiro, como principal protagonista, em qualquer time internacional importante, apesar das grandes somas financeiras envolvendo profissionais compatriotas. Pela importância do futebol no nosso dia a dia, deveríamos ter mais cuidado com esse momento. Se o Brasil perder a potência no futebol, vai ser potência em que?