Solange Bibas

Acervo/Gazeta Press

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Rolava uma entrevista do Muricy Ramalho durante a semana, e, lá pelas tantas, ele citou dois jornalistas, que respeitava há anos. Falou de mim, fiquei lisonjeado, afinal já o critiquei tantas vezes e ele sempre entendeu como coisa de profissional, e de Solange Bibas. Foi bom um treinador consagrado lembrar dele. Costumamos cobrar a falta memória esportiva no futebol. E, muitas vezes, não cuidamos da nossa.

Conheci Solange Bibas, um paraense de extrema inteligencia, quando comecei a estagiar na Gazeta Esportiva, em 1974. Ele era famosíssimo e eu, um moleque esperançoso. No entanto, fui tratado, sempre, de igual para igual. Em tempos de máquinas de escrever e necessidade de espaços enormes para arquivos, a redação da Gazeta Esportiva adaptou as velhas Remington às mesas. Elas ficavam presas por fortes parafusos, podendo assim suportar o próprio peso, quando o tampo das mesas era virado, para que pudessem ser feitas pesquisas. Sem google, o jeito era recorrer à coleções de jornais, espalhando tudo pela mesa em busca de algo fundamental para aquele momento.

Bibas tinha mais que isso. Ao lado possuia um armário de aço, Fiel, onde guardava um número enorme de fichas retangulares, com anotações. Um dia quis vê-las. E ele me explicou que ali armazena biografias de grandes jogadores do exterior.

No começo dos anos 70, Bibas era capaz de comentar vastamente sobre as revelações, os melhores de cada certame da América e do mundo, além de características básicas, como pé preferencial e forma costumeira de atuação em campo. Incrível que seu principal informante era o técnico da seleção da Iugoslávia, Miljan Miljanic, grande amigo de Osvaldo Brandão, por sua vez parceirão de Bibas. As informações vinham por cartas. E Miljanic também sabia das coisas do Brasil, pelo grande jornalista brasileiro.

Não foram poucos os treinadores que pediram informações a Solange Bibas, anos a fio. Ele nunca negou nada a ninguém. Gostava de trocar vivências e sentia alegria quando alguém se interessa pelos seus apontamentos. Nem preciso dizer que enlouqueci diante de tudo aquilo.

Foi Solange Bibas que me ensinou que o futebol não se limitava ao nosso país. Que grandes jogadores nasciam em qualquer lugar e que o conhecimento, geral, era extremamente necessário, caso eu quisesse fazer algo novo na profissão. Hoje, quando meu programa na Jovem Pan, o No Mundo da Bola, completa 22 anos, só posso ser grato ao velho mestre. Já transmiti campeonatos da Espanha, Inglaterra, França, Japão, Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Itália, Portugal, etc, além de jogos envolvendo várias seleções do mundo todo. Meu filho, Bruno, também opta por uma visão mais global do futebol, não restringindo-se apenas ao nosso País, um dos melhores, mas longe de ser o único bom de bola.

Atualmente, dá para se assistir jogos de todos os lugares, com as tvs a cabo, a internet e tantos profissionais gabaritados espalhados pela nossa imprensa. Eles têm, sem saber, o virus de Solange Bibas. Nosso precursor morreu logo após a Copa de 1982, onde foi jornalista oficial da Seleção, numa homenagem de Giulite Coutinho, então presidente da CBF, ao grande homem, já então doente e com poucos meses de vida. Bibas deu conta do trabalho, maravilhosamente. Sofreu com a derrota do Sarriá, porém, conhecia os craques italianos, como se fossem seus filhos, tal o número de detalhes acumulados sobre cada um.

A morte de Bibas me trouxe uma grande tristeza. No entanto, a internet o reabilitou. Hoje encontro nos computadores, que aposentaram as máquinas de escrever, quase tudo que Bibas tinha em suas fichinhas ‘mágicas’. Foi um visionário. Pensei que estivesse totalmente esquecido. Muricy lembrou dele. Obrigado, Muricy.

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