O Corinthians vai sobrar

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Não sou corintiano, mas não posso negar que esteja feliz com a conquista do mundial. Sempre insisto na falta de organização do futebol brasileiro e o Corinthians vai na contramão disso tudo. Depois da saída do ditador Alberto Dualib o time mudou de patamar. Veio da Segunda Divisão acumulando aprendizado. Trocou o vestiário de lata por um moderno CT. Valorizou a marca aumentando, substancialmente, as cotas de televisão, dele e dos outros, por tabela. Conseguiu um estádio, sonho antigo, e,  talvez o grande golpe de mestre, preservou um trabalho positivo, mesmo com um momentâneo vexame naquela eliminação contra o Tolima.

Profissionalismo, esse foi o ponto fundamental. Tite sentiu respaldo, administrando algumas crises, como aquela do Chicão e o mico Adriano. Traçou um projeto, acreditou nele, os jogadores vieram juntos e agora conquistaram o título mundial.

O jogo foi igual. O que, por si só,  já é uma exceção. Se Cássio ganhou a bola de ouro, merecidamente, não vimos um Corinthians só acuado e lutando por uma bola de contra ataque. Até jogou assim no primeiro tempo. Porém, criou boas chances, preocupou o adversário, que foi sempre encarado de frente e terminou premiado com a vitória.

O Corinthians não retrata o nosso futebol. O Brasil continua esculhambado no esporte. Nossos clubes são atrasados taticamente, e até o próprio técnico Tite, campeão mundial, admite que segue a cartilha do portugues José Mourinho. Os clubes mal administrados e os campeonatos organizados com precariedade, mantendo-se ainda os ridículos regionais.

A exceção venceu. Que não se imagine que o nosso futebol tenha mudado de nível. O Corinthians vai sobrar neste lado do mundo. No nosso país, então, não terá para ninguém. Ou se segue esse bom exemplo ou o Brasil será o lugar de um time só.

O lindo Castelão ?

Inaugurado o Castelão o primeiro estádio da Copa do Mundo de 2014. Lindo, caro, coisa de 500 milhões de reais. Todos que vão a Fortaleza passam pela região para ver um cenário diferente dos campos de futebol,  que estamos acostumados aqui no Brasil. Não deve nada aos mais belos de qualquer local do planeta. Quando ficou definido o Mundial para nosso país tivemos a garantia de melhorias em todas as regiões. E, logicamente, os pontos usados para novas contruções ganhariam benefícios. Seria o legado da Copa. E vemos as fotos. Parte da promessa cumprida. Bairro pobre da região nordeste como tantos, esse de Fortaleza esperava mudanças importantes. Mas, não é assim. Meninas com roupinhas simples circulam inseguras vendo a beleza da construção. Perguntadas se elas gostaram abrem um largo sorriso. “Virão muitos fregueses”. O palavriado chulo assusta, incomoda. Elas são garotas de programa. Não lembram nem de longe as glamurosas fotos,  que vemos em alguns sites “especializados” em prostituição. Essas meninas, que alegam maior idade, porém aparentam 12, 13, 14 anos e provavelmente tenham essa idade de fato, não ambicionam fortunas. Elas pedem pouco por um “programa”. $ 10,00 ou um prato de comida. Estao famintas e os corpinhos magros denunciam isso mesmo. Ao lado do suntuoso estádio da Copa a prostituição infantil está solta em Fortaleza, como em tantos locais pelo Brasil afora. O cenário central é outro. Quem chegar para um simples jogo de futebol ficará impressionado. As garotinhas provavelmente estarão escondidas em algum canto como sujeira social. Colocadas debaixo do tapete. Não há o decantado legado da Copa. Quem, no entanto, se importa com isso. A promessa a Fifa está cumprida. O resto a gente ve depois.

Futebol como vôlei

AFP

AFP

A ESPN Brasil está fazendo um belo trabalho mostrando como funciona o Chelsea, o que pensa seu torcedor e o momento difícil pelo qual passa o time inglês, eliminado precocemente da Champions League. E conversando, aleatoriamente, com pessoas da região, a pergunta girou em termos de Corinthians. E as respostas foram unanimes. Ninguém tem a menor ideia de nada sobre o time, que pode ser adversário do próprio Chelsea,  dia 16,  no Japão. Não há o menor traço de soberba. Ao ouvir o nome Paulinho, o rosto de um rapaz com a camisa do clube da Inglaterra denotou surpresa. Um arriscou perguntar se era o time do Neymar e sobre o Mundial de clubes, ninguém demonstrava preocupação, ainda,  já que há problemas maiores a serem resolvidos, como o futebol fraco e a crise, que já envolve o recém-contratado técnico  Rafa Benitez. Como pode uma equipe do porte e importância do Corinthians ser ignorada na Inglaterra? E isso se aplica a praticamente todos os times brasileiros. Já quando o tema é Seleção, o respeito fica evidente, em qualquer lugar. Algo está errado nisso. Em toda parte  os clubes são mais importantes do que as federações e confederações. Aqui não. Há anos os times não podem excursionar, o marketing não é agressivo e os nossos campeonatos só passam nos grandes centros em horários ruins, além da baixa qualidade do que se mostra nos primeiros meses de todos os anos, com os arcaicos torneios regionais. A CBF monopolizou os craques. Neymar, nossa maior estrela, jogou três vezes mais pela Seleção em 2012, do que pelo Santos, que lhe paga com bastante sacrifício, um salário alto, merecido, porém para que a CBF o utilize bem mais do que o próprio pagador. É no voleibol as coisas funcionam assim. Nossas Seleções, feminina e masculina, são decantadas em todo lugar, pelo brilho que redundou em várias medalhas olímpicas. Porém, nem internamente, conhecemos os clubes que disputam as competições internas e pagam os atletas. Não fosse o grande amor do povo brasileiro pelo futebol, nossos times também não seriam lembrados, como ocorre com as outras modalidades. Os cartolas usam as Seleções, sem custo e com abundância e não se preocupam com as agremiações. Enquanto lá fora as seleções nacionais ficam em segundo plano, no Brasil o processo está inverso. Lá, cada mais se internacionalizam as marcas dos clubes. No Brasil as equipes pensam pequeno. Ninguém torce só para a Seleção, mas ela segue valorizada no exterior, enquanto os clubes são cada vez mais regionais. Por que isso? Espero ver quem banca o futebol valendo cada dia mais. Porém, o que assistimos a todo momento é um número maior de jovens brasileiros vestindo, orgulhosamente, camisas de times europeus.

Depois falam dos portugueses

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

A CBF e a Conmebol não servem para nada. E nos últimos tempos ainda estão atrapalhando cada vez mais  os clubes. Essa resolução, que obriga o campeão da Copa Sul-americana a disputá-la novamente em 2013,  deixa o São Paulo em desvantagem sobre os rivais mais fortes. Se vencer o Tigre em dois jogos, o time de Ney Franco estará afastado,automaticamente, da Copa do Brasil de 2013. É que esse ” prêmio” pela conquista é um presente de grego. O problema é que a partir do ano que vem, a Copa do Brasil vai durar o ano todo. Os seis participantes da Libertadores entrarão nas oitavas de final, junto com os dez que sobreviverem às primeiras fases. Dentre os 16 sairá um clube com vaga na fase de grupos da edição de 2014 do principal certame do continente. Já a Sul-americana dá ao campeão vaga, somente, na pré-Libertadores de 2014, o que implica em voltar mais cedo das férias, além de encurtar a pré-temporada. No lugar do São Paulo, que foi quarto colocado no Brasileiro, entrará o Vasco, que ficou em quinto. Então, quem foi melhor terá desvantagem. Se fosse em Portugal o que estaríamos falando ? Pior é que os clubes são passivos. Aceitam tudo sem reclamar. Como se precisassem de CBF e Conmebol para alguma coisa, e não o contrário.