Agradável surpresa

Nem acreditei quando li a informação. A Conmebol saiu da sua perene letargia e puniu o Corinthians pela morte do garoto em Oruro. Não por ser o Corinthians, mas por uma postura inédita de uma entidade movida só a interesses financeiros. Parece que novos ares estão chegando. Se puniu o poderoso campeão da Libertadores, por ação de sua torcida, poderá e deverá fazer o mesmo com outros, que igualmente pisem na bola.

Fiquei mais feliz ainda, ao perceber que até os mais fanáticos corintianos entenderam como  justo o afastamento da torcida dos estádios por, pelo menos, 60 dias. Aliás, a postura do Tite e dos jogadores, também, foi sempre elegante durante o incidente.

O vínculo de todos os clubes com esses bandos é evidente. Eles trazem prejuízos financeiros e na imagem, porém, ou por medo, ou comprometimento, ninguém limpa o futebol dessa gente. A atitude forte, que espero vire norma, deixa claro aquilo, que hipocritamente se negava, que os times bancam esses grupelhos, e que passou da hora dos estádios serem saneados deles.

Estou surpreso e ao mesmo tempo contente. O Corinthians, que tem feito um trabalho admirável, pode perder num primeiro momento. Mas, o futebol ganhará bastante se essa mudança de postura perdurar. E a morte do menininho boliviano não será jogada debaixo do tapete, como tantas nos últimos anos.

Punição? Nem pensar

AFP

AFP

A morte do garoto boliviano é apenas mais uma. As gangues que tomaram conta do nosso futebol, faz tempo, tem força política, respaldo da polícia e conivência dos clubes em todos os seus atos. Eles fazem o que bem entendem, por aqui, seguros de que nada acontecerá, inclusive dezenas de outros crimes semelhantes. Fora do país as coisas têm sido diferentes. Primeiro foram os santistas presos no Paraguai por roubo.E agora o bando detido na Bolivia pelo assassinato desse pobre rapaz. Não vai acontecer nada. A Conmebol não tem moral para fazer coisa nenhuma. Nicolas Leoz só pensa no dinheiro que os clubes representam. Para alguém como ele, a vida desse menino não tem a menor importância. Não creio que o atirador quis matar. Seria quase impossível mirar, acertar e fazer o estrago, que foi feito, propositadamente. O que ele não se importou foi com o que poderia ocorrer. Como todo psicopata, não se preocupou com a eventual dor que poderia infrigir em outro ser humano. Atirou o sinalizador. Se queimasse, ferisse ou mesmo matasse, não era assunto dele. A Conmebol já provou várias vezes que só pensa mesmo é em grana. Até agora, por exemplo, não puniu ninguém do jogo São Paulo e Tigre, que não terminou por causa da violência dentro e fora do campo, para não ferir interesses menores. E, por certo, apostará no esquecimento nesse caso também. A família do garotinho de apenas 14 anos, sim, não esquecerá nunca a noite fatídica. E ficará desse jeito.  Os parentes de Leoz estão bem cuidados. Talvez nem passem perto de estádios de futebol. Voces acham que irá mexer nos seus imensos esquemas, só por causa desta morte?

A heroína de Vila Kennedy

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Ela era uma simples manicure, viúva, mãe de três filhos, moradora numa comunidade carente, ou favela no popular, na Vila Kennedy, no Rio de Janeiro. Lá sobram pessoas de bem, mas falta tudo. Como sempre acontece nesses lugares, o poder público passa ao largo. O crime organizado, não.

A manicure era viúva porque o marido morreu roubando, ou passando droga, ou algo do tipo. Não dá para julgar aquele homem. Eram três filhos e mulher para sustentar e as oportunidades bem pequenas, a não ser aquelas que o poder paralelo dava. Ao mesmo tempo que ele era  um criminoso, era também uma vítima. E a família ficou na mão da mãe. Não eram poucos os problemas. Além de dar comida, educação e orientação aos filhos ela precisava lutar contra os maiores inimigos, as tentações que vinham de fora.

Na medida que as crianças cresciam mais ouviam propostas de “trabalho”. Entregar drogas, participar de assaltos, enfim,  conseguir dinheiro, como eles diziam, de forma “fácil”. Mas ela estava atenta e lembrava o quanto sofreu com a morte do pai e que não suportaria perder qualquer filho da mesma forma. Apesar da simplicidade soube mostrar valores para as três crianças. Até que um deles descobriu que sabia jogar futebol. Primeiro os joguinhos de rua, onde era sempre um dos primeiros a ser escolhido, até o convite para um teste no Botafogo. Topou e foi aprovado, mas não aproveitado. Aí a sugestão para largar tudo no Rio e tentar a vida em São Paulo, no Palmeiras.

Mesmo não sendo um clube de dar muitas oportunidades ao pessoal da base, o Palmeiras o recebeu com carinho e Gilson Kleina resolveu apostar nele. Bingo. O garoto não tremeu. E porque ficaria assustado depois de tudo que passou na vida ? Na estréia da Libertadores ele fez o gol da vitória contra o Sporting Cristal e encarou o campeão do mundo, Corinthians, com total naturalidade. Patrick Vieira só está começado. Tem virtudes, porém é difícil saber até onde poderá chegar. Mas  é um grande, um vencedor. Só a sobrevivência, ao contrário da maioria dos amigos de infância, mortos ou presos, já mostra que o rapaz tem valor. Isso não se discute.

Só que a grande vitória não é dele. É da manicure da Vila Kennedy, a heroína, que além de dar um jogador de bom nível para o nosso futebol, preservou três jovens, que tinham tudo para serem criminosos. Não foi o governo, não foi o estado, não foi ninguém. Foi a mãe batalhadora, cujo nome, lamentavelmente não sei, que fez sozinha o que tanta gente, que tinha obrigação de  fazer, simplesmente virou as costas. Minha homenagem a figuras assim, anônimas, que ainda dão alguma esperança ao nosso país.