Chama o FBI

Yuri Cortez/AFP

Yuri Cortez/AFP

A Seleção Brasileira está fora da Copa América. Mais do que isso, está ameaçada de não se classificar para o próximo Mundial, como estará, pela primeira vez, sem disputar a Copa das Confederações.

Não adianta ficar cobrando algo, além do que estamos vendo. A realidade do futebol brasileiro está bem retratada no time de Dunga. No próximo dia 8 se completará um ano do 7 a 1. E o que se fez para mudar o estágio deprimente do nosso futebol? Simplesmente, nada. Em um  ano não se poderia tirar jogadores do chão, surgindo uma grande seleção num passe de mágica.

O que deveria estar em processo era um plano de trabalho, visando a valorização das fileiras de base. A disseminação de cursos de atualização dos técnicos brasileiros, em especial os que trabalham com jovens.

Além disso deveríamos ter uma grande rede de olheiros, espalhados por todo Brasil, em busca dos meninos talentosos pobres, onde normalmente estão os grandes com a bola nos pés. Mas esses que mal conseguem se alimentar, não têm espaços em testes nos grandes clubes. Lá as cartas são marcadas, não para favorecer os melhores e sim os protegidos de empresários, sócios de cartolas e treinadores desqualificados moral e tecnicamente.

Ou seja, o Brasil deveria ter implementado um plano de resgate do nosso principal esporte, que chegou ao fundo do poço com a humilhação da Copa de 2014. Não se fez nada. Apenas trocou-se o treinador. Dunga tentou e até conseguindo alguns bons resultados. Mas, na hora da competição e perdendo o único talento da atualidade, naufragou. Não dá para culpá-lo por todos os males. Poderia ter evitado a volta do capitão chorão, que negou fogo outra vez. Talvez devesse tentar outras alternativas táticas não contando, apenas, com a opção de marcação forte e contra ataques rápidos, que somem sem Neymar.

Sim, uma ou outra coisa poderia ser diferente. Mas a estrutura é que precisa mudar. São necessárias projeções de curto, médio e longo prazo. A CBF,  porém, está mais preocupada em  fugir de investigações, pagar parlamentares para continuar com a mamata atual e evitar a criação de ligas independentes.

Um ano depois, tudo segue igual. O vexame da Copa não serviu para nada. Outras Alemanhas e Paraguais virão. Está claro que os donos do poder não querem mudanças importantes. Primeiro porque perderão seus grandes lucros e segundo por não terem capacidade de fazer algo sério em benefício do futebol.

Se vierem mudanças terão que ser de cima para baixo. Bem de lá de cima. Chama o FBI.

Por quê tanto escândalo ?

AFP

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O Brasil perdeu da Colômbia, por 1 a 0, na Copa América. E daí? Ouvi um tremendo escândalo em todos os lugares, gente falando em vexame, vergonha e coisas do tipo. Será mesmo ? Para mim o resultado foi absolutamente normal. Faz tempo que o futebol brasileiro não é melhor que o colombiano.

Comecemos pelos clubes. Mesmo com Corinthians e Internacional tendo eliminado dois times deles na atual Libertadores, nos últimos dez anos em competições sul americanas, a vantagem nos mata-matas é da Colômbia. Nos dois últimos jogos entre as seleções o equilíbrio foi total.

Na Copa do Mundo, depois de um primeiro tempo bom, talvez o melhor do Felipão na Copa, eles vieram para cima, fizeram um gol e pressionaram intensamente. Quando Neymar se machucou entrou o zagueiro Henrique em seu lugar, para reforçar a defesa. E a pressão foi até o último minuto.

Na volta de Dunga, no amistoso de Miami, na vitória brasileira com gol de Neymar de bola parada, foi um sufoco. O gol só saiu depois da expulsão de Cuadrado. E houve um lance, no mínimo duvidoso, que poderia ser um pênalti para os adversários do Brasil. E no jogo desta quarta feira, a Colômbia deu um baile.

Falando de jogadores temos gente colombiana no Real Madrid, o James Rodriguez, dois no Chelsea, Falcão Garcia e Cuadrado. O goleiro brasileiro joga num time de Segunda Divisão, o da Colômbia atua no Arsenal. Armero e Valencia atuam no Brasil e são titulares no Flamengo e no Santos. O outros são de equipes que hoje estão em baixa.

Mas como destaques. Zapata no Milan, Zuniga no Napoli, Ibarbo na Roma, Sanchez no Aston Villa e Teo Gutierrez no River Plate, onde é super cobiçado por brasileiros. Bacca do Sevilha foi um dos goleadores do Campeonato Espanhol, enquanto Jackson Martinez é o artilheiro do Porto e está prestes a acertar com o Milan.

Entre os brasileiros o nível não é muito melhor. Firmino é do Hoffenhein e está saindo para a Inglaterra. Douglas Costa e Fred são do Shaktar Donetsk, times apenas médios. Tardelli está na China, Everton Ribeiro nos Emirados Arabes, ficando como maiores nomes, David Luiz e Thiago Silva do PSG, mas, comprovadamente, chorões.

Neymar que é o gênio é o único diferenciado, Fernandinho que tem altos e baixos no Manchester City, Willian nem sempre titular  e Filipe Luiz somente reserva, no Chelsea. Coutinho, chegando agora, ainda está assustado na Seleção e por fim Elias é reserva no Corinthians enquanto Daniel Alves do Barcelona, veio para a  Seleção por mero acaso.

O futuro não parece diferente. Grandes clubes brasileiros não conseguem vender seus jogadores para mercados importantes. Petros e Fábio Santos estão saindo do Corinthians, para o pequeno Betis e futebol mexicano. O São Paulo negociou Denilson para os Emirados Árabes e Paulo Miranda para a Áustria. Grandões não cobiçam brasileiros, a menos que façam estágios na Europa. Ou seja, são mal preparados por aqui.

Enfim, a revolta com o resultado deve-se mais à memória curta ou a arrogância de quem já foi rico e não muda sua postura, mesmo estando, no momento, na miséria. O futebol brasileiro foi pentacampeão. Os dias de hoje  nada tem a ver com o que passou. Do time de 2002, último a vencer, ninguém mais joga. Do pessoal de 58 e 62 poucos estão vivos. 70 era do tempo dos militares, que felizmente, sumiram da nossa política. E alguns de 94 a gente nem sabem onde estão.

Perder ou ganhar da Colômbia, na atualidade, é questão de momento. São iguais. E não custa lembrar que a Venezuela, adversária de domingo, venceu essa mesma Colômbia jogando bem melhor. E James Rodriguez, o craque deles, estava em campo.

Na decisão de domingo o Brasil não terá Neymar. Dunga, nos três jogos contra os venezuelanos, ganhou um, empatou outro e perdeu outro. Na última Copa América a campanha deles foi bem melhor que a do Brasil. E no confronto direto empataram.

Então vamos baixar a bola. É bom olharmos a realidade e não ficarmos vivendo de um passado, que já passou, faz tempo.

Inimigos mais do que cordiais

Montagem sobre foto de Djalma Vassão e Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Montagem sobre foto de Djalma Vassão e Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Dia 28 de junho eles vão se encontrar no Allianz Parque. Será um jogo importante, daqueles que geram crise no time que perde. De um lado Marcelo Oliveira, começando um desafio forte na carreira ao dirigir o Palmeiras. Do outro, Milton Cruz, ajudando Juan Carlos Osorio a conhecer melhor os macetes do futebol brasileiro.

Eles se enfrentaram, recentemente, na Libertadores. Deu Marcelo Oliveira, mas Milton Cruz também já o venceu, inclusive no primeiro jogo, no Morumbi. Os dois treinadores brigam pelos seus espaços. A vida os levou para lados bem diferentes, embora no mesmo esporte. No entanto, Marcelo Oliveira e Milton Cruz são grandes parceiros, há muitos anos.

Marcelo era sucesso com seus cabelos loiros enormes, eles já os teve sim, no Atlético Mineiro. Milton Cruz, depois do bom começo no São Paulo, passou a jogar em várias partes do mundo. E se encontraram em Montevidéu. Companheiros de clube no Nacional, Marcelo sozinho e Milton com a família, passaram a se encontrar também depois dos treinamentos. Marcelo estava sempre na casa do amigo, para não sucumbir à solidão do exterior. E nunca mais parou a amizade.

Tempos depois, Milton Cruz foi jogar no Internacional de Porto Alegre. Agora ele é que conhecia pouca gente na cidade. Até que Marcelo Oliveira lhe falou de parentes, que tinha por lá. E foi a vez da  família de Marcelo acolher a de Milton e ficarem tão próximas, que o primeiro filho de Milton Cruz foi batizado por primos de Marcelo. Nunca mais trabalharam juntos na mesma cidade.

Até o momento que o Palmeiras anunciou o seu novo treinador. E eles vão se enfrentar muito daqui para frente. Quase irmãos, fora do campo e na batalha forte, lá dentro. Vai ser interessante essa partida, também por esse detalhe. “Amigos, amigos, negócios à parte”. Será assim. Milton ajudará Marcelo a se enturmar em São Paulo e será seu “inimigo” durante o jogo, no dia 28. Se as pessoas soubessem que os profissionais de futebol se respeitam e se gostam, fora do campo, talvez não houvesse tanta estupidez nas arquibancadas. No jogo, ninguém vai dar mole. Quando tudo acabar, que tal uma pizza juntos? Era assim até os anos 80.

Hoje, com as famílias fora dos estádios, os “torcedores” não se telefonam para marcarem jantares à noite, e sim guerras entre quadrilhas. Quase nunca sou saudosista, mas lembro com carinho, daqueles tempos, em que os “inimigos” do futebol, inclusive nas arquibancadas, eram mais do que cordiais entre eles.

A casa caindo

AFP

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Foram mais de 40 anos de sujeira na Fifa. João Havelange assumiu em 1974 e o jogo nunca mais foi o mesmo. Vieram juntos Blatter, Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Nicolas Leoz, Julio Grondona e coisas do tipo, pelo mundo afora. Empresas fantasmas, laranjas, lavagem de dinheiro, contas mal explicadas, Cpis, auditorias, e eles, sempre, conseguindo se livrar. Mas, em algum momento, alguém cometeu um erro. Até fortalecidos pelo enriquecimento fácil do mundo das propinas, perderam os limites. Resolveram lavar dinheiro no mercado financeiro dos Estados Unidos. E aí aconteceu o fenômeno  Al Capone. Foram pegos pelo Imposto de Renda e o FBI entrou em ação.  A maravilhosa prisão de Marin e mais sete do grupelho foi um alento para quem gosta de coisas sérias. A reeleição de Blatter, horas depois, mostrou, no entanto, que a corja ainda estava unida. Até vir a renúncia de Blatter, poucos dias depois. Nada poderia ser melhor. Espero que  não se pare por aí. Eles roubaram muito e precisam pagar pelos seus crimes. Cadeia é o mínimo que se espera para todos. O Brasil foi fortemente influenciado pela corrupção da Fifa. Os clubes ficaram miseráveis. Os cartolas ricos. A CBF uma potência. Federações também. E as equipes de futebol vivendo de migalhas e, ainda assim, atraindo vários dirigentes tentando explorá-las. Antes desse bando invadir o futebol, cansei de ver, aqui no Brasil, gente colocando dinheiro do bolso nos times que amavam. Não era algo profissional, porém, não se roubava. Hoje, salvo raríssimas exceções, o que mais se faz é usar dinheiro do futebol em proveito próprio. Está tudo tão poluído que acho difícil voltarmos ao estágio anterior. Lembram do Tropa de Elite Dois, quando uma quadrilha cai e outra assume? O mais provável é que caminhemos para isso. Mas, a satisfação de ver a casa, do bando atual, cair, é algo de sonho. Já me belisquei várias vezes, achando que estava dormindo. Não estou. Que bom. Tomara que, aproveitando o momento, a Polícia Federal brasileira, que é tão próxima da CBF, cumpra sua parte e faça, aqui,o que se está fazendo na Fifa. Aí o futebol voltará a ser um jogo. Limpo, resolvido dentro de campo. Que a idade não seja motivo para livrar a cara de ninguém. A idade vem para todos. Os canalhas, também envelhecem e não deixam de ser canalhas por causa disso.

Com Felipão. No meio fio.

Arquivo Pessoal/Flávio Prado

Arquivo Pessoal/Flávio Prado

Paulinho da Viola fez uma linda música nos anos 70 chamada Sinal Fechado. Dois amigos se encontram no semáforo e conversam, rapidamente, sobre a vida. Aí o sinal abre e eles vão embora prometendo se encontrar outras vezes. Vivi essa história hoje. Estou atravessando a Paulista e do outro lado vejo um rosto conhecido. Parecia o Felipão. Era o Felipão. Paramos no meio fio e conversarmos alguns minutos. Falamos de netos, o dele vive em Portugal de onde ele chegou há horas. Dona Olga, a esposa, chora pela ausência. Mas o filho nem pensa em voltar para o Brasil. Felipão estava apressado. Ia para uma reunião. Negócios a vista. Proposta do exterior “para ganhar muito dinheiro”. Se der tudo certo ele vai. E vai logo.

Durante a semana terá que voltar a Porto Alegre para dar baixa na carteira de trabalho da saída do Grêmio. “Agora é tudo no sindicato”. Alguém passa de carro e pede para ele voltar a trabalhar. As manifestações são simpáticas. Felipão não se conforma em assumir culpas alheias. “Eu tive culpa nos 7 a 1, é claro. Mas agora, um time perde clássico e o derrotado fala do 7 a 1. O que é meu eu não nego, mas não posso assumir a culpa pelo mal momento do futebol brasileiro. Não há mais o mesmo número de bons jogadores. E naquele dia, tudo deu errado”.

Lembro que os 7 a 1 são tão anormais como o título com 7 vitórias de 2002. Ele concorda. “Pena que não tenha sido em ordem invertida”, digo e sorrimos. “Hoje, perder alguns jogadores faz muita diferença. O Bayern tomou goleada do Barcelona, porque faltaram alguns titulares importantes. Robben, Ribery. No jogo contra os alemães eu não tinha meu capitão e o Neymar. E demos azar. Dante, que joga na Alemanha, errou num lance e saiu gol. Acontece. Depois o Fernandinho, que tinha sido meu melhor jogador na partida anterior, também não teve sorte numa jogada e saiu outro gol São coisas que ocorrem no futebol”.

Convido para ir ao Mesa Redonda. Ele diz que está com saudades do programa. Veio duas vezes de Portugal para participar do Troféu Mesa Redonda. “Fala com o Acaz. Vamos ver se dá certo. Vou viajar logo, se tudo der certo”. Perguntei se vai para longe. Deu a entender que sim. “Mas é um belo contrato. Vamos ver”.

A reunião dele estava para começar. Meu programa também. Lembrei da música do Paulinho da Viola. O papo estava bom, mas cada um tinha que ir para o seu lado. “Tchau, Felipão”, “Tchau, Flavio”. “E o Chico (Lang), continua maluco?”, pergunta ele já atravessando para o lado oposto.”Claro que sim”, respondo. “Mas é um maluco beleza”, diz ele rindo, já entre os carros da grande avenida, que nos separam. Conversa de amigos, que pouco se encontram. Desabafos de um homem vitorioso e triste. Tomara que o Acaz (Felleger, assessor de imprensa) acerte a agenda para que ele possa ir ao Mesa Redonda.

Manhã maravilhosa

Foto:  Fabrice CoffriniAFP

Foto: Fabrice CoffriniAFP

Acordei com a espetacular notícia da prisão de José Maria Marin e mais seis da mesma laia, lá em Zurique, onde, em troca de grana, iriam reeleger Joseph Blatter para mais um mandato na Fifa. O melhor é que o FBI está no meio da história. Ou seja, agora a coisa vai ser séria. Na Suíça basta pagar uma multa e o corrupto é liberado.

João Havelange, a madre superiora de toda essa história e sua cria predileta, Ricardo Teixeira, já se beneficiaram disso. No Brasil, a CBF acostumou-se a colocar alguns juízes, promotores, desembargadores e outras pessoas poderosas, em seus trens da alegria. Viajam pelo mundo com passagens de primeira classe, hotéis de luxo e outras mordomias, nos jogos e eventos da seleção. Quando se tenta algo contra a entidade, eles entram em ação, para que tudo fique como está. Da mesma forma age a bancada da bola no Congresso.

Nos Estados Unidos o papo é outro. Mesmo com alguns escorregões históricos, tipo O.J. Simpson, eles costumam fazer a lei ser cumprida. Espero que os presos sejam julgados lá. Por certo, não sairão mais da cadeia. Seus currículos lhes garantem isso. E por aqui, como fica? Fora o susto, acho que não muda nada. A estrutura montada pelo Havelange, continua a pleno vapor.

Marco Polo Del Nero está na CBF, as federações seguem recebendo mesadas e garantindo com seus votos, a manutenção do esquema vigente, enquanto os clubes, covardes ou tão comprometidos quanto as federações, não fazem nada para mudar a situação. Cadê as ligas, que baniriam as federações do mapa e limitariam o poder da CBF, que aliás, já deveria ter sido diminuído por atos governamentais?. Nem sinal de nada disso.

De qualquer forma ver gente desse tipo presa é sempre muito bom. Daí a ter a ilusão de que o futebol, especialmente no Brasil, vai mudar,  já é sonhar demais. No entanto, vale curtir o momento. Foi uma manhã maravilhosa. Espero por outras iguais. Que os presos de hoje não saiam nunca mais da cadeia. E que muitos de seus comparsas lhes façam companhia o mais rapidamente possível.

Os marinheiros choram

Foto: Gazeta Press

Jeronimo Gomes em noite como convidado do programa Mesa Redonda

Alfama é um dos mais agradáveis bairros de Lisboa. A vista é linda, o fado é ouvido por todo canto. Mesmo abandonado pelos ricos na Idade Média, essa região de marinheiros e pescadores resistiu ao terremoto de 1755. Lugar abençoado. Há 45 anos, a cidade de São Paulo também tem o seu Alfama. No meio da Alameda Pamplona enquanto o fado é chorado, as conversas fluem entre amores e sorrisos.

O Almirante desse Alfama estava sempre lá. Solícito, alegre, inteligente, sabia exatamente o que dizer e quando dizer em cada mesa. A comida parece de sonho e ninguém fica menos que duas horas, aproveitando esse Portugal, nos Jardins da Cidade de São Paulo. Só uma coisa tirava o bom humor do local. Quando alguém falava da Portuguesa. Se você ama muito e se sente traído a dor vem forte. Jeronimo Gomes fez muito pela Lusa. Só não aceitou, jamais, a palhaçada do rebaixamento na troca com o Fluminense. Mas a vida seguiu. E as boas conversas também. Não importava a hora, a noite ou a tarde. Gomes sempre tinha um espaço no seu enorme coração, para quem fosse viver a Alfama paulistana.

E esse enorme coração começou a falhar. Muito trabalho, algumas tristezas, como um terrível assaltado na residência batalhada durante toda vida, deixaram as lágrimas, que eram quase sempre de emoção por qualquer presentinho que recebesse, virarem gotas doídas. Gomes foi internado. O pulmão não estava bem. A recuperação, no entanto, não tardaria a vir. O fado foi ficando preocupado entre os marinheiros da nossa Alfama. Faltavam só liberar duas artérias entupidas numa intervenção, quase sempre simples, através de um cateterismo.

Para o querido Gomes não foi simples. Parecia ter corrido tudo bem, mas minutos depois a pressão foi caindo, caindo e ele não resistiu. Era fim de tarde no Brasil. Começo de noite em Lisboa. As vozes dos cantores pareciam gemidos nas ruelas do bairro tradicional da capital portuguesa. Estavam mais tristes, mais sofridas. Na Alfama de São Paulo os marinheiros choravam. Os frequentadores iam chegando, para a noite de sábado e levavam  um choque. O Gomes não estava lá para recebê-los com suas rosas carinhosas. Nem voltaria a estar. Como em 1755  em Portugal, nossa Alfama tinha, aqui também, o seu terremoto. O Mesa Redonda nunca mais será o mesmo.

Foto: Gazeta Press

Na época em que foi dirigente da Portuguesa, Jeronimo Gomes apresenta o técnico Antônio Lopes

Não terei o abraço do grande amigo me recebendo com um sorriso e fazendo um comentário, sempre positivo. Não serei mais surpreendido pelos docinhos portugueses no banco de trás do carro, como afago de alguém, que eu beijava e chamava de irmão. Jeronimo Gomes foi, como todos nós iremos um  dia. É a lei da vida. Só que dói. Dói muito. Suas ceias maravilhosas serão servidas em patamares mais elevados. Agora vão ser Santas Ceias. Não quis vê-lo morto. Há pessoas que vão sempre estar por perto, mesmo nem estando mais entre nós.

O amado filho Cesar perdeu o pai no dia em que fazia aniversário. Os fatos sobrepostos deixarão sempre, o jovem desembargador, com algo entalado na hora do parabéns. Mas que não seja assim. O orgulho que ele sentia da família é uma benção que Gomes levou lá para cima. Sei que irei outras vezes em direção à Pamplona, pós Mesa Redonda. No caminho lembrarei das palavras fidalgas do anfitrião ausente e mudarei a rota. A culinária paulista está de luto. E meu coração terá sempre uma lágrima pronta a cada fado, daqui para frente.

O estudo incomoda

Foto: Divulgação

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Tite, Vagner Mancini, Dorival Junior, os técnicos brasileiros resolveram se atualizar. Desde Rinus Mitchels, nos anos 70, o futebol europeu uniu-se à faculdade. Nada que criasse a pólvora, mas que desse ao bom jogador condições de apresentar todo seu potencial.

A Holanda da Copa de 1974 mostrou que a tática era inevitável, fundamental até. Johan Cruyff foi o maior seguidor e divulgador de Mitchels. Foi com ele para o Barcelona e lá começou um trabalho, primeiro como jogador e depois treinador, que até hoje faz dos catalães referências mundiais. Mitchels era um professor de Educação Física. Lia muito, via muito. Sua Holanda de 74 tinha movimentos de basquete, voleibol e técnica muito apurada de futebol, boa parte inspirada na seleção brasileira de 1970.

Tudo que pudesse ser bom foi unido. A Academia trouxe a Fisiologia, o Condicionamento Específico, exames de laboratórios, que identificam os riscos de contusões e, mais tarde, Tecnologia de ponta. No Brasil os primeiros ruídos chegaram em 1978 com Claudio Coutinho. E, claro, com enorme rejeição. Mas ele deixou um Flamengo brilhante e uma seleção invicta em 1978, mesmo jogando feio.

O time mágico de Telê Santana em 1982 teve combustão espontânea, não há dúvida. Mestre Telê usou seus conhecimentos práticos, muito trabalho e uniu craques importantes num mesmo grupo. A derrota foi uma catástrofe. Não pelo que se perdeu, mas sim pelo que se filosofou. Criou-se o mito que jogar bonito não dava bons resultados. E o Brasil passou a copiar o que havia de pior lá fora. Não se deu conta de um movimento rumo a beleza do jogo.

Hoje vemos um Barcelona, um Bayern, um Real Madrid e a dinâmica européia como se fosse outro esporte. O ritmo de lá é muito maior, a cultura tática é outra, a beleza, que vimos pela última vez em 1982, virou rotina entre eles. Os cursos da Uefa, padronizações de esquemas em todas as categorias, escolinhas de captações em várias regiões dos países, e muita, muita, tecnologia, fizeram essas mudanças. As escolas de futebol proliferaram. Aquilo que Telê fazia como rotina no São Paulo, virou obrigação no exterior. O treinador tem que saber muito de treinamento e ter noção do todo. Ficamos muito para trás. O 7 a 1, o 8 a 0 as derrotas para Mazembe e Raja Casablanca deixam isso bem claro. E o que se fez para mudar o quadro? Nada. Sempre a ridícula conversa dos 5 títulos mundiais, como se alguém hoje tivesse algum mérito pelo que se conseguiu em 58, 62, 70 ou 94. E mesmo o pessoal de 2002 já está aposentado. Passou. Foi. Hoje não é. Quem tenta fazer algo, vira motivo de chacota.

Foto: Divulgação

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O Corinthians não perdeu do Guarani do Paraguai porque Tite esteve se atualizando na Europa. Nem Mancini e Dorival adquiriram varinhas mágicas. Mas eles têm o mérito de procurar, pesquisar, querer saber e respeitar o que se faz lá fora. O Brasil hoje tem um futebol, com boa vontade, intermediário. Não é nada mais do que uma Colômbia ou Chile. Precisa estudar muito, se quiser voltar a ser de ponta. Mas o estudo incomoda. Por preguiça e arrogância da maioria, a minoria, que tenta aprender, não recebe apoio. O intercâmbio é absolutamente necessário para que se saia do péssimo momento atual.

Fico feliz quando o São Paulo tenta uma novidade. Vai sem campeão? Não sei. No entanto, tentar o diferente, não diminui em nada os profissionais daqui. Seria ótimo se eles, também, fossem lá fora também, aprender e ensinar. Nosso futebol está parecendo a história de um senhorzinho japonês, encontrado numa ilha deserta nos anos 60, que se dizia escondido da guerra mundial. A guerra tinha acabado há mais de 20 anos e ele não sabia. E vivia como se ela estivesse em plena ebulição.

Um técnico de outro mundo

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

O velho cartola saiu para mais uma viagem do futebol. Sete da manhã já chegava. Tão cedo em outro país. Táxi, hotel e o encontro. A conversa deveria ser objetiva, mas o treinador tinha muito que mostrar. A começar pelo drone. Jogadores em campo sobe o moderno aparelho e tudo passa a ser gravado e visualizado de cima.

Orientações táticas detalhadas, individuais e em bloco e o momento da checagem. Sobe um telão no fundo do campo e as imagens do drone são exibidas. As correções são feitas. O trabalho coletivo, ou alguma movimentação, não saíram como se esperava. Sobe o drone e o treino segue. Há uma filosofia em cada movimento. Não é o cada um por si. É o  todo. Você pode até bater certo na bola, fazer a marcação correta, mas estar no momento errado.

Difícil entender? Sobe o telão de novo e as novas imagens do drone são vistas e, na insistência no erro, um joystick entra em ação. Os jogadores entendem essa linguagem. Usam joystick desde criança. Agora o movimento é feito pelas setas e fica bem claro o que o treinador quer. O meio campista, que tinha dúvidas, sabe, por fim, exatamente o que fazer. Sobe o drone de novo e depois de assistirem a tudo, outra vez no telão, fica claro, que o treinamento tático, daquela manhã, foi assimilado. Foi tudo rápido e intenso. A tarde tem mais. Da mesma forma rápida e intensa.

A equipe do treinador está fazendo o mesmo trabalho com as outras categorias. A instrução tática não muda. O jeito de jogar é bem nítido na cabeça do garoto de 12 anos ou do veterano de mais de 30. Sabendo que o dirigente é brasileiro um  laptop com informações detalhadas do Brasil é mostrado, agora. E com dados incríveis, do time do cartola. Aquilo está lá faz tempo. Jogos do Brasil são vistos e gravados como rotina. Qualquer time está bem mapeado. Hora do  almoço. Trocam idéias e o sonho de consumo fica revirando a cabeça do visitante. Ele parece uma criança numa loja de brinquedos, ou um adulto dentro de um carrão importado. Quanto custa esse sonho? O preço é compatível. A viagem de volta foi, literalmente, nas nuvens.

As 23 horas, em casa, ele era outa pessoa. Seus conceitos, seus objetivos, seu jeito de ver futebol mudaram, completamente, nas pouco mais de 15 horas de viagem. Dias depois a frustração. Não será possível fechar negócio. Segue a vida rotineira do Brasil. Só que ele mudou. Depois de tudo, que vivenciou, quer algo grande, próximo do que viu naquela viagem. Não tem como dormir em paz com menos.

Vai ao jogo. Em campo seu time é um sono. Nada funciona, o ritmo é tão lento que ele cochila. No sonho sobe um drone, ergue-se um telão, usam-se joysticks. A velocidade de jogo, naquela pequena cochilada, é muito forte e vibrante. Tem coisas que é melhor não conhecer. Quem não conhece não sente falta. Mas depois de saber que existe, fica quase impossível o convívio com a mediocridade.

NOTA DO BLOGUEIRO: A história acima parece de ficção. Mas não é. Ocorreu na semana passada.

O susto

Detesto fazer refeições sozinho. Às vezes, prefiro não almoçar ou jantar caso não tenha companhia.

Nos últimos 25 anos, tempo que trabalho na Jovem Pan, 70% dos almoços foram com o mesmo cara. Dividimos piadas, lágrimas, temores, histórias e estórias, felizmente repetidas milhares de vezes. Muita gente participou, eventualmente. Mas eu e ele estávamos sempre lá no “melhor momento da rádio” conforme definição dele. Nesse mesmo espaço de tempo devo ter almoçado ou jantado com minha única irmã, no máximo uma vez por ano. Coisas da vida, do trabalho, do nosso tempo. Ou seja, o parceiro de almoço sabe bem  mais de mim do que minha própria família.

Nos últimos meses, pelas correrias, escalas, compromissos diferentes, os almoços foram ficando mais espaçados. Quase raros. Sem problemas. Eles podem voltar a qualquer hora.

Na quinta-feira, fiz o convite, mas ele não pode. Na sexta cedo cheguei à rádio e levei enorme susto. Meu amigo estava na UTI. Coisa séria. Nem deu tempo de chegar ao hospital pretendido. Teve que ser atendido num outro, no meio do caminho.

Um filme assustador passou na minha cabeça. Lembrei do Miguel Dias, querido mestre das artes pouco sacras, que morreu do nada, numa notícia de rádio, numa noite de São Paulo e Santos no Morumbi. Como lamentei não ter aproveitado mais a presença dele. E o Ely Coimbra, então… Foi devastador. Nossas brincadeiras eram tão cruéis, um com o outro, que só uma amizade de pedra suportaria. E ele se foi quase que me gozando. Inacreditável. Até hoje costumo falar dele no verbo presente, como se apenas estivesse viajando e voltasse nas próximas horas.

quartarollo_pan_dvMas dessa vez ficou só no susto. A UTI passou rápido. As brincadeiras por telefone voltaram. Em alguns dias estaremos juntos de novo e voltaremos à rotina dos almoços longos e engraçados. Luiz Carlos Quartarollo teve um problema, mas está bem. Não sei o que foi direito e não vem ao caso. Sei que o amigo com o qual discuto, troco confidências, choro e dou muita risada, segue ao meu lado.

Não sou afeito a luxo, carros caros, roupas de grifes, nem perfumes importados. Porém, sou viciado em amigos. Os almoços com o Quartarollo, as pizzas às segundas-feiras, os papos com o Roberto Petri e o Fernando Soléra, as palhaçadas com o Fernando Fontana, as mesmas conversas, e as histórias repetidas ao infinito. São minha riqueza.

Não tenho a menor condição psicológica, no momento, de perder nada disso. Então as mesas já estão reservadas. Quando o Quartarollo voltar, os almoços voltarão. Vamos dar um tempo, no tempo, nos compromissos e nas escalas. Temos que viver a vida na plenitude. E uma das grandes coisas é jogar conversa fora sabendo que, na hora da necessidade, o cara que ri com você, será também seu ombro de apoio.