Desperdício

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Não é raro um pai ligar pedindo ajuda para colocar o filho, “bom de bola”, num time de futebol. Antes, era só dar um bilhetinho e o treinador da base, de qualquer time, observava, por um tempo o garoto e aproveitava ou não.

Hoje as coisas mudaram. Só os empresários de futebol têm acesso aos clubes. Nem sempre entram os melhores, mas sim os mais apadrinhados. A grana, que corre solta em negociações do mundo da bola, gerou tanta ganância, que não são preparados jogadores e sim, brucutus, que possam ser repassados o quanto antes.

De cada 3 mil meninos, que tentam jogar profissionalmente, apenas um consegue algo efetivo. Os que ficam pelo caminho somem nas estatísticas. O Brasil é o país do desperdício. Quer na água, na comida, na energia e também no futebol.

Com um território enorme e tanta miscigenação racial, que ajuda nessa modalidade esportiva, um trabalho sério, dirigido e com cunho nacional, faria toda diferença para o futuro. Nem os 7 a 1 sensibilizaram os cartolas. A arrogância segue a mesma, a vida vai igual, como se nada tivesse acontecido.

Não falo só de um jogo. Há os 8 a 0 do Barcelona no Santos, as eliminações em mundiais de clubes, para africanos e os constantes vexames em copas do mundo.

O novo presidente da CBF será o Marco Polo Del Nero. O novo Ministro dos Esportes nunca foi do ramo.

Ou seja, nada indica que teremos mudança.

Que desperdício.

Esperanças

Os Campeonatos Regionais são torturantes. Times horrorosos, locais feios, estádios vazios, enfim, o anti-espetáculo. Mas vi algumas coisas nos jogos que trabalhei, os únicos que assisto nessas inúteis competições, que me agradaram.

O Audax Osasco, do Fernando Diniz, não é uma surpresa. Joga ofensivamente, ataca os adversários, grandes ou pequenos e faz sempre partidas agradáveis. O XV de Piracicaba, mesmo sem obter um ponto, enquadrou o São Paulo no Pacaembu, com ofensividade, campo curto, toques rápidos e posse de bola.

Claro que a derrota foi inevitável pela enorme diferença no nível dos jogadores. Roque Junior, o treinador, no entanto, mostra que sabe montar um time moderno. E o Corinthians. O Tite voltou colocando em prática ideias, que trouxe do ano sabático, tendo a humildade de conversar com outros profissionais, captar novos métodos de treinamentos e filosofias de jogo, diferentes do que vemos, normalmente, por aqui.

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Lógico que o Corinthians joga no estilo brasileiro. Só que com algo a mais. Se tudo seguir normalmente, será uma equipe boa de ser vista. Ninguém se apaixonou pelo futebol vendo brucutus dando bicões para a frente e fazendo cera.

Futebol bem jogado é algo delicioso. Assim, mesmo na mediocridade de um certame estadual, que só serve para captar votos para a CBF, pude sentir algumas equipes e treinadores tentando algo de novo. Bom sinal. Ainda está bem longe do mundo ideal. Porém, para quem esperava um primeiro trimestre tedioso, não posso me queixar.

Vitória do futebol

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Palmeiras e Corinthians será jogo de torcida única. A ideia não foi da FPF, é lógico, mas,  finalmente, pensou-se em algo para o torcedor do bem e não para uniformizados. Faz tempo que, nos clássicos, só temos famílias entre os mandantes. Da parte contrária, 5% de lugares são ocupados por vândalos, que chegam como reis, escoltados por policiais, na verdade estafetas de marmanjos mal encarados, sujos, drogados, bêbados, que vão espalhando terror por onde passam. Esses caras afugentam o que é bom das praças esportivas.  Com isso as rendas são menores, ficam enormes espaços vazios e todos perdem. Felizmente o Dr. Roberto Senise, o único que ainda tenta esclarecer a vergonhosa venda da vaga da Portuguesa em 2013, exigiu que se respeitasse, a maioria. E teremos um jogo com mais público, mais seguro, higienizado e que, espero, passe a ser o padrão para o futuro. Se os bandidos uniformizados brigarem longe dos estádios é problema deles. Que se matem. Não matando os clássicos do futebol como têm acontecido, já será uma grande vitória do futebol. Que a experiência desse Palmeiras e Corinthians sirva como marco definitivo da volta de pessoas do bem aos campos de jogo. Essa deveria ser a função dos organizadores das competições. Mas o rabo preso deles, não têm permitido qualquer ação a nosso favor. Autoridades, cartolas, governantes e políticos olhem sempre para a bandidagem organizada. A minoria asquerosa está ganhando de mil a zero. Ou melhor, a um. No Palmeiras e Corinthians de domingo, o gol é nosso.

 

No futebol, o mal sempre vence o bem

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<br /> “Apertado”, Felip o deixa Thiago Silva iniciar reconhecimento de gramado | GE.Net na Copa

Corria o ano de 1995. Uma transferência insignificante do futebol europeu mudava a história do esporte, para sempre, em todo mundo. O desconhecido Jean-Marc Bosman, do Liége da Bélgica, recebeu proposta de um time menor da França, o Dunquerque, à época na Terceira Divisão. Não estava mais nos planos dos belgas, mas, reclamão,  criaram problemas para liberá-lo, solicitando impagáveis, para o Dunquerque, um milhão e 600 mil euros. Bosman, contra todas as previsões, foi à Justiça. E seguiu até a Corte Européia. Lá, alegando necessidade de liberdade para trabalhar livremente, ganhou a ação. Virou jurisprudência.

Hoje atletas ganham fortunas com contratos espetaculares. O jogador de futebol passou a ser pago regiamente e vai jogar onde bem entende. A Lei da Liberdade do Futebol, ganhou o nome de Lei Bosman. Entrevistei o belga quando veio ao Brasil. Fiquei emocionado. Sabia que falava com um personagem histórico. O tempo passou e não se falou mais dele. Mas os efeitos da Lei permitem que jogadores geniais exijam seus direitos sem receios. O Real Madrid paga cerca de 60 milhões de reais por ano a Cristiano Ronaldo. Gareth Bale leva 36 milhões. O brasileiro Marcelo passa de 13 milhões de reais por ano e até o jovem Casemiro tem direito a 4 milhões de reais, anualmente.

Atletas bem pagos e com liberdade. Os contratos acabam e eles estão livres. Se alguém pagar a multa estipulado, leva quem quiser, desde o craque queira. Tudo por causa da briga de Bosman na Corte Europeia. Aí li, no competente blog O Mundo é uma Bola, matéria do jornalista Alex Sabino, sobre aquele, que deveria ser o herói dos boleiros de hoje. E fiquei assustado. Bosman, 20 anos depois de abrir caminho para todos os futebolistas do planeta, está absolutamente só. Nunca mais foi aceito por clubes e não frequenta estádios. A pressão levou-o ao alcoolismo e, através dele, a problemas familiares e condenação a três anos de detenção por agredir a filha de sua esposa. Bosman , que fez o bem, está fora de combate.

Foi assim  lá atrás com Afonsinho. Sócrates também incomodou e teve dificuldades e Paulo André precisou aceitar exílio na China, só para citar alguns. No futebol tentar algo de bom custa muito. As coisas do mal sempre prevalecem. João Havelange passou a Fifa para Blatter, que manda em tudo. No Brasil ele inventou Ricardo Teixeira, que ressucitou José Maria Marin, que repassou a CBF a Marco Polo Del Nero, invenção de Eduardo Farah. Até Eurico Miranda está de volta. Eles sempre estão por aí. O futebol é bem estranho. Minha avó dizia que o bem sempre prevalecia sobre o mal. É que ela não entendia nada de futebol.

Segue a matéria À procura de Jean-Marc Bosman  http://omundoeumabola.blogfolha.uol.com.br/2015/01/12/a-procura-de-jean-marc-bosman/

Uma rua Paulo Rafael

Morreu na semana passada, Paulo Rafael. A maioria nem sabe de quem eu falo, mas os que trabalham no meio de rádio, reconhecem facilmente. Paulo Rafael era um técnico de som, que passou pela Gazeta, Jovem Pan e ultimamente estava na 105 FM. Simplório, trabalhador, dividia sua vida entre o rádio e um táxi, que só abandonou há pouco tempo. Lutava para sobreviver. Tinha tempo ainda para ajudar pessoas em pequenas ações solidárias no centro espírita, que frequentava. Na 105 passou a falar, ou tentar, já que era um gago convicto. Contava histórias e estórias hilárias. Ensinava os mais jovens dando apoio e conselhos e isso ocorreu, inclusive, com meu filho Bruno Prado. Paulo Rafael batalhava pela vida. Só fez o bem e durante seus 62 anos, aliás morreu no dia que fazia aniversário, só somou coisas positivas. Agora que ele foi embora abro uma propositura. Que se dê o nome de uma rua a Paulo Rafael. Por que ? Por tudo que foi dito antes. Reparem os nomes dos logradouros em São Paulo. Há uma, por sinal inútil, Passarela Orestes Quércia. Há outra, perto do aeroporto de Congonhas, que faz uma homenagem ao filho de ACM, Luiz Eduardo Magalhães. Qual a razão de tal deferência? O Minhocão chama-se Elevado Costa e Silva. Nome de um ditador. Valeria mais reverenciar as minhocas. Enfim, se o meio radiofônico se sensibilizou com a morte de Paulo Rafael por ser bom cara, amigo, trabalhador e decente, não é o caso de se fazer uma homenagem a ele, que de fato merece?. Até depois da morte os políticos ganham prioridade. Mesmo sendo do tipo, que se torce o nariz, até quando é viaduto. Não é hora dos simples, do povo, de gente como a gente? Fica a proposta que, provavelmente, cairá no vazio, mas pela qual abro luta e sei que será apoiada por pessoas, que vivem, como o velho técnico de som vivia. Pena que, também, os nomes dos logradouros sejam escolhidos por políticos. E eles só façam homenagem aos seus iguais, mesmo que sintamos azia.

Chinelinho rei

Crédito da foto: César Greco/Agência Palmeiras

Crédito da foto: César Greco/Agência Palmeiras

Foi um sufoco mas, felizmente, o Palmeiras escapou da Serie B. Torci bastante porque gosto dos conceitos do Paulo Nobre. Ganhos por produção, técnico estrangeiro, cuidado com as finanças do clube, pouco contato com uniformizadas, são coisas que defendo, faz tempo. Aliás, só no Brasil não se percebeu que os muros caíram.

Os grandes times do mundo são multinacionais com jogadores, treinadores e executivos de todos os lugares. Isso a parte quero falar de Valdívia. Fiquei estupefato com a consagração a ele no final do jogo contra o Atlético Paranaense. Durante a semana ele fez um grande teatro com uma cocheira enorme, mancando muito e entrou para o jogo, querendo o título de herói. Alegou que não conseguia andar na quinta feira. E jogou 90 minutos no domingo. Estranho. E ainda disse que foi graças ao “Jose”, o fisioterapeuta, que  trouxe de Cuba.

O Departamento Médico do Palmeiras não teve qualquer mérito, pelo dito. Valdívia só jogou 17 dos 38 jogos do Brasileiro. Não fez um gol sequer. Ganha muito mais do que os outros e o Palmeiras sempre esteve em segundo plano, perdendo para a seleção chilena, os problemas particulares e até a Disney. Se houve alguém que salvou o time da queda foi o goleiro Fernando Prass e o contestado Henrique, marcador de 16 gols, num time ruim de doer.

Quando Prass saiu, ele sim machucado de verdade, os goleiros que entraram deixaram o Palmeiras a pé. A volta de Prass recuperou a equipe. E Dorival Junior chamou Valdívia de melhor de todos. Claro que o venezuelano/chileno tem alguma técnica, insuficiente, porém, para ser titular da seleção, até, do país dele. Mas o comprometimento é zero. Transformar um chinelinho em rei é um perigo.

Qual o exemplo que ele dá? É isso que queremos do futebol profissional? Se ele é bom o que dizer do Alex, que fez mais gols na carreira do que Zidane, Baggio ou Ronaldo Fenômeno, jogando na mesma posição de Valdívia?. E o Palmeiras, com ele, Alex, ganhava, não caia, como em 2012 e nem comemorava salvação. Nem falo de Ademir da Guia e Marcos, porque, apesar de tentarem elevá-lo a esse a patamar, considero uma aberração tão grande, que faço de conta que não ouço.

O Palmeiras precisa ser profissional. Precisa de gente que honre o clube. E que dê exemplos bons. Com Valdívia o time é ruim. Sem ele é péssimo. A história do Palmeiras merece mais. Não um chinelinho, que deixe ruim, um time péssimo. E sim de gente que vista a camisa histórica e gloriosa do clube, para ganhar títulos.Como, aliás, fazia o tio do Dorival, o Dudu.

Velhinhos nos Estaduais

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Estive numa pelada de fim de ano em Cesário Lange, interior de São Paulo. Em campo o genial Careca, os craques Silas, Renato, que à época era Pé Murcho, Velloso, os ex-zagueiros Alexandre Rosa, Fonseca e Toninho Cecílio, além de Marcos Lange, que teve a carreira truncada muito jovem, depois de ser um dos melhores sub 15 do mundo com a camisa do São Paulo.

Detesto saudosismo. A vida tem que ser vista pela frente, não pelo que passou. Mas veio uma ideia, que quero compartilhar com vocês, depois de “jogar” com  Careca. Ventava muito contra o gol que ele atacava. Tentou um chute e  saiu errado. Outro e o goleiro pegou fácil. No terceiro, da entrada da área, ele deu uma curva com efeito. O vento foi desafiado e puxou a bola no sentido contrário. E ela entrou no ângulo. Um golaço. Ao lado dele perguntei como fez aquilo e ele explicou, que depois dos dois chutes iniciais, entendeu o jeito correto de bater na bola para usar a ventania a favor. Isso dentro do campo, numa brincadeira e, convenhamos, praticamente  ”sem”  joelhos.

Aí olho para a tabela de artilheiros do Campeonato Brasileiro. Entre os primeiros estão Henrique, Fred, Ricardo Goulart. Jogadores que funcionam bem nas suas equipes, porém jamais teriam a capacidade de uma ação como a do Careca na brincadeira entre amigos. E ele sempre fez isso. Especialmente ao lado do mitológico Maradona nos anos 80 e 90. Sim, hoje eu paro qualquer coisa para ver o Messi, o Cristiano Ronaldo, o Neymar, o Bale e outros do tipo. Mas não no Brasil.

Esses momentos mágicos deixaram de existir nos nossos campeonatos. Há várias razões para essa realidade. Uma delas a falta dos campos de várzea, as bases usadas para negociatas e não para revelar jogadores e mesmo as frescuras dos jovens, incapazes de admitirem suas limitações. Aí lembrei que os primeiros quatro meses do futebol brasileiro são jogados no lixo com os campeonatos regionais.

Na Alemanha, depois de constatada a crise na Eurocopa de 2000 foram feitas algumas alterações importantes, que resultaram no brilhante 2014. Uma delas colocar um número mínimo de juvenis nas equipes principais nos grandes torneios. Aqui, apesar do 7 a 1, tudo segue igual. Vai uma sugestão. Já que as bases estão poluídas por negociações vergonhosas e o que menos se faz é ensinar algo aos meninos iniciantes, que tal obrigar os clubes a colocar pelo menos um jogador com mais de 50 anos em cada time, nos falidos estaduais?

Primeiro que haveria alguma atração. Segundo que os meninos conseguiram ver de perto, como eu vi, o que era a técnica apurada brasileira no passado. Antes que vocês me perguntem se não é mais fácil os ex-jogadores dirigirem as bases, já respondo que não dá, por dois motivos. Primeiro porque defendo a plena pedagogia. Eles teriam que estudar para isso. E segundo porque  teriam que aceitar esquemas, que lhes fariam mal para o fígado.

Seria legal ver os patéticos regionais com pelo menos alguns minutos de Ademir da Guia, Rivellino, Careca, Silas, Renato, etc. A rendas, que são baixíssimas, aumentariam. Fica a sugestão.

Seria um jeito bem mais interessante de suportamos os meses iniciais do ano com seus joguinhos inúteis. Pelo menos relembraríamos momentos lindos e os meninos mais espertos, de repente, aprenderiam algo de muita utilidade para o futuro. Como, por exemplo, usar a força do vento para jogar a bola no ângulo. Salve, Careca.

Pi, Pi, Pi, Pi, Pi

Foto: AFP

Foto: Luis Acosta/AFP

Vejo pouco televisão quando o tema não é futebol.  A correria do dia a dia não deixa. Menos num caso. Esteja onde estiver, fazendo o que for, paro para ver o Chaves. Não importa a situação meu estado de espírito sempre melhora, ao ver aqueles grandalhões vestidos de criança, praticando e sofrendo bullying, dando e levando porrada, vivendo a infância que eu vivi, num lugar também humilde.

Ninguém perdoa o gordo, o bochechudo, o pobretão, o malandro, que leva a culpa de todos os males sofridos pelo menino “riquinho” da região, mas burro como uma porta. O professor fuma charuto na sala de aula e ainda canta, ou tenta seduzir, a mãe de um aluno. Aliás, os alunos colam descaradamente, enquanto o mestre, que é apelidado de Linguiça, quase enlouquece com as dificuldades do dia a dia. Seu Madruga, Dona Clotilde, ou melhor, a Bruxa do 71, Chiquinha, Kiko, Seu Barriga, Nhonho, Patty, Jaiminho, são figuras da minha rotina.

Vários amigos meus são chamados por esses nomes, num misto de gozação e homenagem. E foi o genial Roberto Bolaños, que criou esse mundo paralelo na minha vida, como avatares, que me acompanham e me fazem rir, mesmo nos momentos mais complicados.

Morreu Roberto Bolaños. Humano, portanto mortal.

Senti demais. Devo muito a ele. Não foram poucas as vezes, que as palhaçadas dos personagens dele, me tiraram de momentos complicados, passando energia positiva com sua alegria pastelonica.

O Chaves é o menino que fui, ou imagino ter sido. Lutador, atrapalhado, as vezes discriminado, porém, acima de tudo um Chavo, ou seja, um moleque. Sei que aquele moleque da Penha, ou da vila mexicana, segue comigo. Daí tanta identidade.

Obrigado querido Bolaños, o pequeno Shakespeare, ou Chesperito, em mexicanês. Quem me faz rir merece minha eterna gratidão. Quem me faz gargalhar é meu mestre, meu guru. Você separou-se do Chaves. Cada um ficou de um lado. Bolaños mudou de esfera e o menino miserável da vila segue aqui. E sempre seguirá. Afinal, enquanto houver alguém sorrindo com ele, Chaves será imortal.

O que espera Kaká

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

A aventura de Kaká, segundo ato, no São Paulo, acabou. Foram jogos disputados com muita gana, viagens constantes é um bagaço físico, que beirou o insuportável . Correria, falta de tempo para treinamentos, calendário ridículo, tudo concorreu para que ele começasse muito bem e terminasse comum. Em 2015 Kaká muda de ares. Vai para os Estados Unidos. E será tudo ao contrário.

Se lá ninguém chora pelo time, como no Brasil, o futebol vai ganhando espaço importante. A média de público já é quase 50% maior do que o Campeonato Brasileiro. Se aqui a CBF é uma esculhambação, a Major League Soccer desce a detalhes e normas, que exigem o máximo em organização dos clubes, em nome dos frequentadores e do evento. A MLS é uma liga de franquias. As exigências, cobranças e divisões do bolo, são iguais. Para gerar lucros extras os times precisam ser criativos. O Houston, por exemplo, viaja sempre com dois aviões, que são usados por jogadores e torcedores.

Não, nem pense que lá existem esses bandos de vagabundos, como aqui, que exploram as equipes. Sem essa de torcida uniformizada. Os aviões levam jogadores ao lado de simpatizantes, que pagam fortunas para estarem no assento ao lado do seu ídolo. Eles também se hospedam nos mesmos hotéis e tomam café da manhã com o time. Pagando bastante, é claro. Há ainda sessões de fotos, que custam 10 dólares por click. O time do Beckham em Miami vai jogar numa ilha. O acesso a ela será através de pontes, onde carros não entrarão. Você  vai a pé, dentro de um shopping. Nele têm de tudo. Camisas, chaveiros, bolsas, comida, bebida, tudo com o símbolo da equipe e arrecadação total para o franqueador.

Em Orlando torce-se um pouco o nariz para o time de Kaká. Primeiro porque o complexo Disney não é muito afeito a concorrências. E depois porque o “prefeito” está colocando dinheiro da comunidade num dos estádios, que a equipe vai usar. Só Kaká ganhará fora do padrão autorizado pela Liga, que é de mais ou menos 20 mil dólares por jogador, pensando na saúde financeira da franquia. Jovens têm lugar garantido no time, para que possam evoluir. E os campeonatos, nem de outros esportes, se misturam em datas. Calendários práticos e enxutos com marketing intenso. Há quem aposte que logo os americanos estarão entre os melhores do futebol mundial. Não sei com certeza. Mas posso garantir que diversos brasileiros, que não frequentam estádios aqui, vão pagar alguns dólares em ingressos e consumo, por lá. E se Kaká não conseguir levar torcedores, logo será descartado, como ocorreu com Juninho Pernambucano. Recebe, mas sai do esquema. Enfim, a  CBF nós conhecemos. A MLS nem tanto. Que tal um intercâmbio? . Só por esse restinho de século. A CBF vai para os Estado Unidos e os americanos organizam nosso futebol. Será que eles topam a permuta ?

 

Mais um gol da Alemanha

Joe Klamar/AFP

Joe Klamar/AFP

A seleção do Dunga vai bem, é verdade. Mas nada mudou na montagem do futebol brasileiro. O Brasil foi vergonhoso na Copa de 2014. Dentre outros vexames a choradeira dos jogadores ficou marcada.

Faltou trabalho psicológico, sem dúvida. A competente Regina Brandão fez o que pode, de forma improvisada, em cima da hora e sem receber nada.

Mas o que faz diferença é o trabalho constante, a estrutura montada no dia a dia, desde a base até os profissionais. Assim fazem a Alemanha, a Holanda e os países mais civilizados do mundo da bola.

Aqui Dunga elegeu como psicólogos da seleção os ex- atletas. Primeiro foi Mauro Silva, depois Edu e na atual viagem, Oscar Bernardi. É óbvio que eles têm muita coisa a ensinar aos atuais jogadores. Porém, não são psicólogos. Só quem for muito ignorante não saberá diferenciar uma coisa da outra. Nada contra levar os ganhadores, os exemplos. Psicologia é outra coisa. Pior é que o Alexandre Gallo também adotou o mesmo discurso para as seleções de base.

Infelizmente uma ciência, tão útil ao ser humano, é deixada à margem no esporte mais importante para os brasileiros. Enquanto os outros se aperfeiçoam, usam as evoluções científica e tecnológica no trabalho, no Brasil ainda se pensa como na Idade da Pedra.

Hoje não há mais revelações de craques em massa. A várzea sumiu e os praticantes também. Jogador de escolinha é jogador de condomínio. Não segura nada.

E a Seleção Brasileira quer a Psicologia bem longe. Talvez Freud explique melhor o que se passa com os comandantes das equipes brasileiras.

Por enquanto, a Alemanha está fazendo mais um gol, na eterna goleada de 2014.