Uma rua Paulo Rafael

Morreu na semana passada, Paulo Rafael. A maioria nem sabe de quem eu falo, mas os que trabalham no meio de rádio, reconhecem facilmente. Paulo Rafael era um técnico de som, que passou pela Gazeta, Jovem Pan e ultimamente estava na 105 FM. Simplório, trabalhador, dividia sua vida entre o rádio e um táxi, que só abandonou há pouco tempo. Lutava para sobreviver. Tinha tempo ainda para ajudar pessoas em pequenas ações solidárias no centro espírita, que frequentava. Na 105 passou a falar, ou tentar, já que era um gago convicto. Contava histórias e estórias hilárias. Ensinava os mais jovens dando apoio e conselhos e isso ocorreu, inclusive, com meu filho Bruno Prado. Paulo Rafael batalhava pela vida. Só fez o bem e durante seus 62 anos, aliás morreu no dia que fazia aniversário, só somou coisas positivas. Agora que ele foi embora abro uma propositura. Que se dê o nome de uma rua a Paulo Rafael. Por que ? Por tudo que foi dito antes. Reparem os nomes dos logradouros em São Paulo. Há uma, por sinal inútil, Passarela Orestes Quércia. Há outra, perto do aeroporto de Congonhas, que faz uma homenagem ao filho de ACM, Luiz Eduardo Magalhães. Qual a razão de tal deferência? O Minhocão chama-se Elevado Costa e Silva. Nome de um ditador. Valeria mais reverenciar as minhocas. Enfim, se o meio radiofônico se sensibilizou com a morte de Paulo Rafael por ser bom cara, amigo, trabalhador e decente, não é o caso de se fazer uma homenagem a ele, que de fato merece?. Até depois da morte os políticos ganham prioridade. Mesmo sendo do tipo, que se torce o nariz, até quando é viaduto. Não é hora dos simples, do povo, de gente como a gente? Fica a proposta que, provavelmente, cairá no vazio, mas pela qual abro luta e sei que será apoiada por pessoas, que vivem, como o velho técnico de som vivia. Pena que, também, os nomes dos logradouros sejam escolhidos por políticos. E eles só façam homenagem aos seus iguais, mesmo que sintamos azia.

Chinelinho rei

Crédito da foto: César Greco/Agência Palmeiras

Crédito da foto: César Greco/Agência Palmeiras

Foi um sufoco mas, felizmente, o Palmeiras escapou da Serie B. Torci bastante porque gosto dos conceitos do Paulo Nobre. Ganhos por produção, técnico estrangeiro, cuidado com as finanças do clube, pouco contato com uniformizadas, são coisas que defendo, faz tempo. Aliás, só no Brasil não se percebeu que os muros caíram.

Os grandes times do mundo são multinacionais com jogadores, treinadores e executivos de todos os lugares. Isso a parte quero falar de Valdívia. Fiquei estupefato com a consagração a ele no final do jogo contra o Atlético Paranaense. Durante a semana ele fez um grande teatro com uma cocheira enorme, mancando muito e entrou para o jogo, querendo o título de herói. Alegou que não conseguia andar na quinta feira. E jogou 90 minutos no domingo. Estranho. E ainda disse que foi graças ao “Jose”, o fisioterapeuta, que  trouxe de Cuba.

O Departamento Médico do Palmeiras não teve qualquer mérito, pelo dito. Valdívia só jogou 17 dos 38 jogos do Brasileiro. Não fez um gol sequer. Ganha muito mais do que os outros e o Palmeiras sempre esteve em segundo plano, perdendo para a seleção chilena, os problemas particulares e até a Disney. Se houve alguém que salvou o time da queda foi o goleiro Fernando Prass e o contestado Henrique, marcador de 16 gols, num time ruim de doer.

Quando Prass saiu, ele sim machucado de verdade, os goleiros que entraram deixaram o Palmeiras a pé. A volta de Prass recuperou a equipe. E Dorival Junior chamou Valdívia de melhor de todos. Claro que o venezuelano/chileno tem alguma técnica, insuficiente, porém, para ser titular da seleção, até, do país dele. Mas o comprometimento é zero. Transformar um chinelinho em rei é um perigo.

Qual o exemplo que ele dá? É isso que queremos do futebol profissional? Se ele é bom o que dizer do Alex, que fez mais gols na carreira do que Zidane, Baggio ou Ronaldo Fenômeno, jogando na mesma posição de Valdívia?. E o Palmeiras, com ele, Alex, ganhava, não caia, como em 2012 e nem comemorava salvação. Nem falo de Ademir da Guia e Marcos, porque, apesar de tentarem elevá-lo a esse a patamar, considero uma aberração tão grande, que faço de conta que não ouço.

O Palmeiras precisa ser profissional. Precisa de gente que honre o clube. E que dê exemplos bons. Com Valdívia o time é ruim. Sem ele é péssimo. A história do Palmeiras merece mais. Não um chinelinho, que deixe ruim, um time péssimo. E sim de gente que vista a camisa histórica e gloriosa do clube, para ganhar títulos.Como, aliás, fazia o tio do Dorival, o Dudu.

Velhinhos nos Estaduais

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Estive numa pelada de fim de ano em Cesário Lange, interior de São Paulo. Em campo o genial Careca, os craques Silas, Renato, que à época era Pé Murcho, Velloso, os ex-zagueiros Alexandre Rosa, Fonseca e Toninho Cecílio, além de Marcos Lange, que teve a carreira truncada muito jovem, depois de ser um dos melhores sub 15 do mundo com a camisa do São Paulo.

Detesto saudosismo. A vida tem que ser vista pela frente, não pelo que passou. Mas veio uma ideia, que quero compartilhar com vocês, depois de “jogar” com  Careca. Ventava muito contra o gol que ele atacava. Tentou um chute e  saiu errado. Outro e o goleiro pegou fácil. No terceiro, da entrada da área, ele deu uma curva com efeito. O vento foi desafiado e puxou a bola no sentido contrário. E ela entrou no ângulo. Um golaço. Ao lado dele perguntei como fez aquilo e ele explicou, que depois dos dois chutes iniciais, entendeu o jeito correto de bater na bola para usar a ventania a favor. Isso dentro do campo, numa brincadeira e, convenhamos, praticamente  ”sem”  joelhos.

Aí olho para a tabela de artilheiros do Campeonato Brasileiro. Entre os primeiros estão Henrique, Fred, Ricardo Goulart. Jogadores que funcionam bem nas suas equipes, porém jamais teriam a capacidade de uma ação como a do Careca na brincadeira entre amigos. E ele sempre fez isso. Especialmente ao lado do mitológico Maradona nos anos 80 e 90. Sim, hoje eu paro qualquer coisa para ver o Messi, o Cristiano Ronaldo, o Neymar, o Bale e outros do tipo. Mas não no Brasil.

Esses momentos mágicos deixaram de existir nos nossos campeonatos. Há várias razões para essa realidade. Uma delas a falta dos campos de várzea, as bases usadas para negociatas e não para revelar jogadores e mesmo as frescuras dos jovens, incapazes de admitirem suas limitações. Aí lembrei que os primeiros quatro meses do futebol brasileiro são jogados no lixo com os campeonatos regionais.

Na Alemanha, depois de constatada a crise na Eurocopa de 2000 foram feitas algumas alterações importantes, que resultaram no brilhante 2014. Uma delas colocar um número mínimo de juvenis nas equipes principais nos grandes torneios. Aqui, apesar do 7 a 1, tudo segue igual. Vai uma sugestão. Já que as bases estão poluídas por negociações vergonhosas e o que menos se faz é ensinar algo aos meninos iniciantes, que tal obrigar os clubes a colocar pelo menos um jogador com mais de 50 anos em cada time, nos falidos estaduais?

Primeiro que haveria alguma atração. Segundo que os meninos conseguiram ver de perto, como eu vi, o que era a técnica apurada brasileira no passado. Antes que vocês me perguntem se não é mais fácil os ex-jogadores dirigirem as bases, já respondo que não dá, por dois motivos. Primeiro porque defendo a plena pedagogia. Eles teriam que estudar para isso. E segundo porque  teriam que aceitar esquemas, que lhes fariam mal para o fígado.

Seria legal ver os patéticos regionais com pelo menos alguns minutos de Ademir da Guia, Rivellino, Careca, Silas, Renato, etc. A rendas, que são baixíssimas, aumentariam. Fica a sugestão.

Seria um jeito bem mais interessante de suportamos os meses iniciais do ano com seus joguinhos inúteis. Pelo menos relembraríamos momentos lindos e os meninos mais espertos, de repente, aprenderiam algo de muita utilidade para o futuro. Como, por exemplo, usar a força do vento para jogar a bola no ângulo. Salve, Careca.

Pi, Pi, Pi, Pi, Pi

Foto: AFP

Foto: Luis Acosta/AFP

Vejo pouco televisão quando o tema não é futebol.  A correria do dia a dia não deixa. Menos num caso. Esteja onde estiver, fazendo o que for, paro para ver o Chaves. Não importa a situação meu estado de espírito sempre melhora, ao ver aqueles grandalhões vestidos de criança, praticando e sofrendo bullying, dando e levando porrada, vivendo a infância que eu vivi, num lugar também humilde.

Ninguém perdoa o gordo, o bochechudo, o pobretão, o malandro, que leva a culpa de todos os males sofridos pelo menino “riquinho” da região, mas burro como uma porta. O professor fuma charuto na sala de aula e ainda canta, ou tenta seduzir, a mãe de um aluno. Aliás, os alunos colam descaradamente, enquanto o mestre, que é apelidado de Linguiça, quase enlouquece com as dificuldades do dia a dia. Seu Madruga, Dona Clotilde, ou melhor, a Bruxa do 71, Chiquinha, Kiko, Seu Barriga, Nhonho, Patty, Jaiminho, são figuras da minha rotina.

Vários amigos meus são chamados por esses nomes, num misto de gozação e homenagem. E foi o genial Roberto Bolaños, que criou esse mundo paralelo na minha vida, como avatares, que me acompanham e me fazem rir, mesmo nos momentos mais complicados.

Morreu Roberto Bolaños. Humano, portanto mortal.

Senti demais. Devo muito a ele. Não foram poucas as vezes, que as palhaçadas dos personagens dele, me tiraram de momentos complicados, passando energia positiva com sua alegria pastelonica.

O Chaves é o menino que fui, ou imagino ter sido. Lutador, atrapalhado, as vezes discriminado, porém, acima de tudo um Chavo, ou seja, um moleque. Sei que aquele moleque da Penha, ou da vila mexicana, segue comigo. Daí tanta identidade.

Obrigado querido Bolaños, o pequeno Shakespeare, ou Chesperito, em mexicanês. Quem me faz rir merece minha eterna gratidão. Quem me faz gargalhar é meu mestre, meu guru. Você separou-se do Chaves. Cada um ficou de um lado. Bolaños mudou de esfera e o menino miserável da vila segue aqui. E sempre seguirá. Afinal, enquanto houver alguém sorrindo com ele, Chaves será imortal.

O que espera Kaká

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

A aventura de Kaká, segundo ato, no São Paulo, acabou. Foram jogos disputados com muita gana, viagens constantes é um bagaço físico, que beirou o insuportável . Correria, falta de tempo para treinamentos, calendário ridículo, tudo concorreu para que ele começasse muito bem e terminasse comum. Em 2015 Kaká muda de ares. Vai para os Estados Unidos. E será tudo ao contrário.

Se lá ninguém chora pelo time, como no Brasil, o futebol vai ganhando espaço importante. A média de público já é quase 50% maior do que o Campeonato Brasileiro. Se aqui a CBF é uma esculhambação, a Major League Soccer desce a detalhes e normas, que exigem o máximo em organização dos clubes, em nome dos frequentadores e do evento. A MLS é uma liga de franquias. As exigências, cobranças e divisões do bolo, são iguais. Para gerar lucros extras os times precisam ser criativos. O Houston, por exemplo, viaja sempre com dois aviões, que são usados por jogadores e torcedores.

Não, nem pense que lá existem esses bandos de vagabundos, como aqui, que exploram as equipes. Sem essa de torcida uniformizada. Os aviões levam jogadores ao lado de simpatizantes, que pagam fortunas para estarem no assento ao lado do seu ídolo. Eles também se hospedam nos mesmos hotéis e tomam café da manhã com o time. Pagando bastante, é claro. Há ainda sessões de fotos, que custam 10 dólares por click. O time do Beckham em Miami vai jogar numa ilha. O acesso a ela será através de pontes, onde carros não entrarão. Você  vai a pé, dentro de um shopping. Nele têm de tudo. Camisas, chaveiros, bolsas, comida, bebida, tudo com o símbolo da equipe e arrecadação total para o franqueador.

Em Orlando torce-se um pouco o nariz para o time de Kaká. Primeiro porque o complexo Disney não é muito afeito a concorrências. E depois porque o “prefeito” está colocando dinheiro da comunidade num dos estádios, que a equipe vai usar. Só Kaká ganhará fora do padrão autorizado pela Liga, que é de mais ou menos 20 mil dólares por jogador, pensando na saúde financeira da franquia. Jovens têm lugar garantido no time, para que possam evoluir. E os campeonatos, nem de outros esportes, se misturam em datas. Calendários práticos e enxutos com marketing intenso. Há quem aposte que logo os americanos estarão entre os melhores do futebol mundial. Não sei com certeza. Mas posso garantir que diversos brasileiros, que não frequentam estádios aqui, vão pagar alguns dólares em ingressos e consumo, por lá. E se Kaká não conseguir levar torcedores, logo será descartado, como ocorreu com Juninho Pernambucano. Recebe, mas sai do esquema. Enfim, a  CBF nós conhecemos. A MLS nem tanto. Que tal um intercâmbio? . Só por esse restinho de século. A CBF vai para os Estado Unidos e os americanos organizam nosso futebol. Será que eles topam a permuta ?

 

Mais um gol da Alemanha

Joe Klamar/AFP

Joe Klamar/AFP

A seleção do Dunga vai bem, é verdade. Mas nada mudou na montagem do futebol brasileiro. O Brasil foi vergonhoso na Copa de 2014. Dentre outros vexames a choradeira dos jogadores ficou marcada.

Faltou trabalho psicológico, sem dúvida. A competente Regina Brandão fez o que pode, de forma improvisada, em cima da hora e sem receber nada.

Mas o que faz diferença é o trabalho constante, a estrutura montada no dia a dia, desde a base até os profissionais. Assim fazem a Alemanha, a Holanda e os países mais civilizados do mundo da bola.

Aqui Dunga elegeu como psicólogos da seleção os ex- atletas. Primeiro foi Mauro Silva, depois Edu e na atual viagem, Oscar Bernardi. É óbvio que eles têm muita coisa a ensinar aos atuais jogadores. Porém, não são psicólogos. Só quem for muito ignorante não saberá diferenciar uma coisa da outra. Nada contra levar os ganhadores, os exemplos. Psicologia é outra coisa. Pior é que o Alexandre Gallo também adotou o mesmo discurso para as seleções de base.

Infelizmente uma ciência, tão útil ao ser humano, é deixada à margem no esporte mais importante para os brasileiros. Enquanto os outros se aperfeiçoam, usam as evoluções científica e tecnológica no trabalho, no Brasil ainda se pensa como na Idade da Pedra.

Hoje não há mais revelações de craques em massa. A várzea sumiu e os praticantes também. Jogador de escolinha é jogador de condomínio. Não segura nada.

E a Seleção Brasileira quer a Psicologia bem longe. Talvez Freud explique melhor o que se passa com os comandantes das equipes brasileiras.

Por enquanto, a Alemanha está fazendo mais um gol, na eterna goleada de 2014.

O homem mais triste do mundo

hugo_sanchezA Copa do Mundo de 1986 deixou muitas marcas no futebol. Além da magia de Diego Maradona ficou a ola, que até hoje é vista nos estádios brasileiros. A ola, onde os torcedores levantam-se e sentam-se numa sequência, que parece uma onda marinha, veio de um comercial da Coca Cola apresentado em todo México de forma insistente. Ola em espanhol é onda. E lá, como cá, onda pode ser do mar, ou um modismo.

Eles passavam então a mensagem de que Coca Cola era a ola, ou onda, daquele mundial, enquanto um estádio cheio fazia o famoso movimento. Fiquei por lá, entre alguns escombros de um terremoto, que abalara o país meses antes, por mais de 50 dias.  Aí você entra na vida dos moradores. E naqueles dias o México endeusava um jogador. Mais do que um ídolo, Hugo Sanchez era um orgulho nacional. Um programa humorístico mostrava um rapaz sentado atendendo um telefone, que não parava de tocar. Ele dizia sempre a mesma coisa. Alô. Quem é ? É o presidente ? Quer falar com Hugo Sanchez ? E caia na gargalhada. O Papa também queria, naquele quadro de humor, os principais políticos e até o presidente dos Estados Unidos, o mundo todo, queria falar com Hugo Sanchez.

O México não venceu a Copa, mas guardei o respeito do país pelo atacante, que se transformou no terceiro maior da história da Liga Espanhola, jogando pelo Real Madrid, Atlético de Madrid e Rayo Vallecano, por dez anos. Nas poucas aparições públicas, Hugo era visto ao lado de uma bela esposa, Emma Portugal e de um garotinho de pouco mais de dois anos, também chamado Hugo. Era o cara mais invejado do planeta.  Exemplo de felicidade plena. No último sábado veio uma notícia chocante. Aquele garotinho, agora com 30 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, provavelmente vítima de um vazamento de gás.

Hugo Sanchez estava longe. Mora em San Diego nos Estados Unidos. A mãe, que  já não vive mais com ele, é casada com um ex jogador brasileiro, Antonio Carlos Santos. Hugo Sanchez Portugal morreu sem jamais ser feliz. Tentou jogar futebol por três anos. Só conseguiu atuar cinco vezes, quatro com o pai como treinador, no time do Pumas. Não fez gols. Virou beque. Desistiu. Tornou-se comentarista da Televisa e modelo. E tinha uma imensa mágoa do pai. Alegava que para comprar o apartamento onde foi encontrado morto, teve que posar nu e pegar algum dinheiro do pai, que em troca não passou o imóvel para o nome dele. Tempos depois de dizer, que não conheceu o pai durante seis anos e que ele era violento e infiel, deu nova entrevista pedindo perdão ao grande artilheiro, mas clamando pelo carinho dele.

Nos últimos tempos Hugo Sanchez Portugal trabalhava como diretor de Educação Física e Esportes em Miguel Hidalgo, uma das 16 províncias da cidade do México. No sábado não compareceu a um evento. A namorada chegou na casa dele e o encontrou morto, ao lado de um primo. Não havia sinais de violência. O Ídolo mexicano veio dos Estados Unidos e não quis falar com ninguém. A mãe desmaiou várias vezes no velório. Hugo Sanchez, o homem mais feliz do mundo em 1986, ficou o tempo todo cabisbaixo, vestido de preto, enterrado em pensamentos. Deve ter feito um grande balanço da vida espetacular que teve.

Não sei porque ele e o filho não se entendiam bem. Mas, imagino o tamanho da dor, que está sentindo. É bem provável que trocaria tudo que teve, pela amizade e boa relação com seu filho mais velho. Não tem mais jeito. O herói mexicano, Hugo Sanchez, vai ter muita dificuldade para voltar a  sorrir. Hoje ele é o homem mais triste do mundo.

De Kombi, no Morumbi

Foto: Acervo/Gazeta Press

Foto: Acervo/Gazeta Press

Estávamos no final dos anos 60, começo de 70. Na periferia da cidade, os campos de futebol colavam-se uns aos outros. Entre a Vila Ré e a Penha, minha região, tínhamos o Vila Esperança, o Macalé, o América, o Rio Branco, o Triângulo, o Vila Matilde,o Nacional.

A bola rolava aos sábados e domingos, com milhares de atletas amadores, que pagavam recibos, para defender suas equipes. E não foram poucos os que passaram da várzea para os grandes estádios. Julinho Botelho foi maior de todos. Mas jogaram por lá em várias épocas, Ataliba, Nelsinho, Casagrande, Osvaldo Ponte Aérea e tantos, que se perderam no tempo.

O futebol rolava de dia e de noite. Os esburacados e carecas campos de várzea, eram também usados pelos meninos mais novinhos, depois do horário das aulas. Valiam tubaínas, as vitórias de sonhos. Veio o metro. Sumiram os campos. Agora há asfalto onde havia lama. O som dos festivais, das manhãs de domingo, morreram com os ecos saudosos de quem os viveu. Até das brigas a gente sente falta.

O metro, que agora leva multidões aos estádios, sob forte vigilância policial, substituiu as Kombi alugadas, duas ou três vezes por ano, no máximo, pelas limitações financeiras, que nos levavam para ver jogos de futebol. O Morumbi era muito longe. Não havia a Marginal Pinheiros, então o trajeto levava duas horas ou mais. Iam todos juntos. Tricolores, palmeirenses, corintianos, santistas e quem estivesse disposto e com uns trocados a mais.

Apostava-se tudo. Quem faria o primeiro gol, o placar do segundo tempo, a renda, qual time jogaria com o uniforme principal, etc. No final dos clássicos, as gozações na Kombi eram o melhor do dia. Pagar o churrasquinho de gato ao vencedor era doído. Quando chegávamos de volta à casa, já passavam das dez da noite.

No trabalho, ou na escola, na segunda feira, tínhamos lindas histórias. E no outro final de semana muita bola rolava, de  novo, pelos campinhos e campões da periferia. Hoje temos Arenas, reuniões de policiais com uniformizados, jogos truncados e clássicos sem público. É o progresso. Mas, como custou caro.

Adeus, Gente Boa.

Tem pessoas que entram na sua vida e conseguem modificá-la de tal modo, que se não as encontrasse você não seria o que é. Quando cheguei a Tv Record em 1977 com Milton Peruzzi e Galvão Bueno eu era apenas um moleque procurando caminho. No ano seguinte estava na Copa do Mundo da Argentina e, ao lado de Silvio Luiz e Hélio Ansaldo, percebi que poderia ser um bom repórter de campo.

Com o passar dos anos era preciso saber fazer matérias também. Meu jeito radiofônico não servia para a televisão com suas técnicas próprias, formatos e embelezamentos. Os responsáveis por essas técnicas são os editores. No começo do anos 80 um novo grupo de pessoas foi trabalhar na Record. Entre elas, Michel Laurence. Ele era editor chefe, mas punha a mão na massa. E como sabia fazer bem. Minhas simples entrevistas viravam obras primas nos programas da hora do almoço. Certa vez, sem tema específico, Michel Laurence sugeriu que eu fosse ao Instituto Butantã e comparace cada espécie de cobra a um time de futebol.

Fui até lá meio cético, porém sabendo, que aquilo viraria coisa boa. Quando vi no ar, não acreditei. Michel transformara minhas comparações de cobra coral com São Paulo, jiboia com Santos e jararaca com Corinthians, ou algo assim, em agradáveis 2 minutos, que deram o melhor índice de Ibope do jornal. E terminava com uma musiquinha de muito sucesso na época “depois que mataram a jiboia, jararaca deita e rola”.

O genial Michel Laurence deve ter ouvido a música em algum canto, pensou na matéria e fez o que fez. Virei um repórter bom de matéria. Na verdade eu era um repórter ótimo de editor. Saímos juntos da Record e ele me levou para a Bandeirantes. E depois, no final da Jovem Pan TV, novamente me recolocou na televisão, então na TV Cultura, onde eu viraria apresentador do Cartão Verde. Devo muito a Michel Laurence. Nunca pude pagar o débito, até porque seria impossível.

Ele nunca me chamou pelo nome. Sempre, sei lá porque, de “Gente Boa”. Perdemos o contato nos últimos anos. Nem sabia das internações e doenças dele. Separações da vida, porém lamento não ter podido lhe dar algum conforto, nesses momentos difíceis. Até saber da morte dele, hoje. Fiquei muito triste. Quando um mestre morre o mundo fica mais pobre. A televisão brasileira está bem mais pobre. Sei que Deus recompensa aqueles que ajudam pessoas durante suas vidas. Agora eles estão juntos e Michel levou vários bônus do que fez por mim. Obrigado querido amigo.

Adeus, Gente Boa.

Vergonhosa convocação

Foto: CBF

Principais times da Série A ficarão sem jogadores devido a um torneiozinho na China

Terminava o jogo da verdade, o 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo e o que mais se ouvia é que, agora, as coisas iriam mudar. Pouco mais de três meses depois segue tudo igual. Nenhum plano estratégico para o futebol brasileiro, nenhuma mudança de postura e a CBF limitou-se a trazer Dunga de volta.

Os clubes seguem desamparados, nas mãos dos empresários e, alguns, com dirigentes desonestos, até vendendo lugares para pais endinheirados nos times de base e mesmo nos elencos principais. Apesar dessa esculhambação surgem bons jogadores. E os treinadores, sem grande material humano, tratam de antecipar etapas utilizando os nascidos da combustão espontânea nas equipes principais.

De repente, no momento mais importante do Campeonato Brasileiro e na decisão da Copa do Brasil, chega a CBF. Ela não produz nada, não gasta nada, não serve para nada, mas aproveita a safra. A convocação do Alexandre Gallo para um torneiozinho na China, chega a ser acintosa. Não pelo treinador, que tem que fazer o trabalho dele. Mas pelas condições.

De novo a CBF vai ganhar uma grana preta e desfalcar os times principais. Nas rodadas 33 e 34 e nas finais da Copa do Brasil, não estarão disponíveis Gabigol do Santos, João Pedro e Nathan do Palmeiras, Malcom do Corinthians, Carlos do Atlético Mineiro, Andrey e Yuri Mamute do Botafogo, Auro do São Paulo e também o artilheiro Thalles do Vasco na hora de definição da Série B.

Essa seleção vai fazer jogos sem importância, o dinheiro não virá para os clubes e alegação, vejam só, é a preparação da seleção para a Olimpíada de 2016. Parece gozação é, porém, imposição de força contra um bando de frouxos. Esse abuso só acontece porque os clubes se borram de medo da CBF. Acatam tudo, cabisbaixos. São usados, desrespeitados e estão sempre de joelhos.

Enquanto essa covardia persistir, nosso futebol não sairá do lugar. O que José Maria Marin e Marco Polo Del Nero resolverem será concedido com reverência, por todos. E pela competência deles já sabemos o que deverá acontecer. Os 7 a 1 da Alemanha poderão virar rotina.