Milionários ou meninos?

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Cada um tem o seu jeito. Eu prefiro o jeito alemão. Os dois maiores campeonatos do mundo são o inglês e o alemão. Enquanto os ingleses apostam alto em estrelas de primeira linha, os alemães dão força aos meninos da base. Para a formação de seleções, é claro que o jeito da Alemanha é melhor. Já os ingleses conseguem ter um Liga de provocar inveja até em santo.

No Brasil não se faz nem uma coisa e nem outra. Não há uma filosofia. Aqui cada um tem de uma forma, e essa forma muda de acordo com o vento. Vamos falar do Santos, o que mais tem revelado craques na base. De repente investe um caminhão de dinheiro, numa transação mal explicada, em cima do Leandro Damião. Não esqueçam que o Gabigol foi para o banco por causa disso. Quem pode render mais para o clube, dentro do campo e numa futura negociação?. Claro que o Gabigol. Então para que o Leandro Damião?. Depois veio o Robinho custando 500 mil reais líquidos por mês. Impossível ter retorno disso. O público dos jogos santistas continua o mesmo, média de 5 mil pessoas na Vila e os patrocinadores, talvez esperados, não vieram.

Igual raciocínio se aplica a Kaká no São Paulo. O clube apregoa a estrutura de Cotia. Então para que trazer um jogador, já em fim de carreira, ou mesmo um Ganso num custo absurdo, que jamais será reposto? Ou você tem um trabalho de revelações, como fazem os alemães, ou aposta em estrelas, como os ingleses. Mas aí precisa ter muita grana, para trazer gente, que lote estádios e não estrelas (de)cadentes.

Robinho já se machucou no quarto jogo, Valdivia segue enganando, Pato ferrou o Corinthians, Kaká joga uma e para outra. Enfim, o caminho deve levar a criação de estruturas onde os jovens possam, pelo menos, serem testados nos seus times do coração.

Infelizmente a cada 3000 garotos que pensam em jogar futebol, no Brasil, somente um consegue. E já entra pensando em ir para a Europa, com a cabeça feita, pelos seus empresários. Conclusão, ficamos com um campeonato fraco e uma seleção, que além de dar vexame, não tem identidade nacional. É isso que queremos para o nosso futebol ?

Não valem o que custam

Montagem sobre fotos Djalma Vassão/Gazeta Press, Nelson Perez/Fluminense FC e Alexandre Lops/SCINovamente pequenos clubes eliminaram grandões. Numa mesma noite caíram, na Copa do Brasil,  São Paulo, Fluminense e Internacional. O Inter ainda perdeu do líder da Série B. Já o São Paulo foi derrotado pelo décimo oitavo e o Fluminense pelo décimo terceiro, ambos também da Segunda Divisão. E com detalhe de que os dois tricolores tinham vencidos as primeiras partidas nos campos dos adversários.

Não custa lembrar que o campeão paulista é o pequeno Ituano, montado apenas para o torneio e que logo repassou os jogadores e o treinador. O que vemos no Brasil são jogos nivelados por baixo. Qualquer time da Série A, poderia estar na B  e vice versa. Talvez o Cruzeiro mereça entrar como exceção.

A única diferença evidente está nas folhas de pagamentos. Enquanto os teóricos grandes gastam fortunas e estão endividados até a tampa, os outros pagam o que podem, e quando podem, e vão se virando nas competições. Se os salários são tão desiguais, porque o futebol é parecido? Tem algo errado.

Tenho apoiado o Palmeiras na sua política de ganhos por produtividade. Todos deveriam segui-lo. Antes que falem da situação do time na tabela, lembro que o Flamengo está pior e custa bem mais. O nível dos jogos deixa claro que os jogadores não valem o que ganham. Não, pelo menos, os dos times maiores. Eles não conseguem levar público aos estádios, que vivem vazios, não justificam os altos custos dos direitos de imagem e mesmo assim são contratados a peso de ouro.

Seria simplório demais dizer que os cartolas são incompetentes. Talvez não sejam. Quando pagam fortunas a jogadores, que não fazem diferença em campo, podemos não estar lidando apenas com  incompetência. Quem sabe não é  esperteza demais ? Como podemos ter certeza de que tudo que  sai do clube, vai só para os atletas? A quem prestam contas ?

Se os clubes quebrados  seguem com salários irreais, me sinto no direito de perguntar: será que eles são na verdade burros, ou estamos diante de grandes safadezas?

Perdendo espaços

AFP

AFP

O Vinicius é um estagiário da TV Gazeta. Ama futebol e por essa razão está ao nosso lado no Departamento de Esportes. Estuda na Cásper Líbero e conversa sobre bola com os amigos o dia todo. Ele tem 20 anos. Falar de futebol é rotina, mas ela vem mudando a cada ano. Se ele se apaixonou pelo jogo por causa da família e dos nossos certames, hoje tem entusiasmo, apenas, com os  europeus. A molecada usa camisas de clubes estrangeiros, assisti os jogos deles, discute as contratações e nem mesmo se surpreende com os constantes vexames dos brasileiros, em torneios internacionais. Vinicius e tantos outros têm amigos, que não torcem para nenhum clube daqui. Ao contrário seguem o Barcelona, o Real Madrid, o Manchester United e por aí vão. Aliás, também o horário das 22 horas faz com que boa parte deles não assista, nem pela televisão, os jogos do Brasileiro no meio de semana. Já os clássicos da Champions são acompanhados com euforia no período da tarde. A noite, além da escola, há o problema de acordar cedo para trabalhar. Ficar sem dormir até meia noite, para que? A qualidade da competição da tarde já satisfaz, e muito, quem gosta de bola. E se arriscar vendo a noite, normalmente, só significam algumas horas de frustrações. Não ficarei surpreso se as pesquisas começarem a mostrar, que os clubes do exterior, estão com mais torcedores do que boa parte dos nacionais. Se somarmos todos os estrangeiros, creio que já ganharão de quase todos os times daqui. E com o detalhe de se poder andar nas ruas com as belas camisas do Porto, Arsenal, Milan, etc, sem correr risco de agressões ou morte. A decadência técnica é evidente. As audiências das transmissões incomodam. Os confrontos com europeus chegam a ser covardia pela fragilidade das nossas equipes. Estão fazendo tudo para que os jovens se habituem com o futebol estrangeiro e deixem o brasileiro, cada vez mais, em segundo plano. É uma lástima, porém não dá para discutir com os meninos. É questão de bom gosto, de se ter um mínimo de exigência de qualidade, naquilo que se vá acompanhar, diante de tantas opções melhores.

Estou com o Paulo André

Publico aqui manifesto do Paulo André do Bom Senso F. C. , movimento que apoio totalmente. Entendam porque o grupo é contrário a aprovação do projeto de lei de responsabilidade fiscal, que volta a parcelar as dívidas dos clubes brasileiros.

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POR PAULO ANDRÉ, do Bom Senso FC

Vou explicar porque sou CONTRA o projeto de lei de responsabilidade fiscal do esporte que propõe parcelar a dívida dos clubes. Do jeito que está, ele exige apenas a apresentação da CND (Certidão Negativa de Débito), uma vez por ano, como garantia “inquestionável” de uma gestão transparente no futebol nacional. Isso é uma vergonha e justifica o desespero dos dirigentes e a pressão da “bancada da bola” para aprová-lo urgentemente, como ficou claro na última sexta feira, quando os presidentes de clubes se encontraram com a Presidente Dilma.

Além disso, dói só de pensar que mais de R$ 4 bilhões sumiram no futebol e nenhuma alma será punida (exceção aos torcedores que são punidos diariamente por verem seus times capengando por aí). No caso específico dos débitos de que trata a LRFE, se o Governo aceitar parcelar a dívida, os dirigentes que cometeram irregularidades não mais poderão ser acionados por crime de apropriação indébita. Traduzindo burramente, se alguém deve dinheiro ao banco e a entidade, sabendo da dificuldade do devedor em quitar a dívida, resolver parcela-la, assunto encerrado. Basta a pessoa cumprir as condições propostas e o pagamento em dia que ninguém poderá acusá-la posteriormente.

Então é essa a discussão que você precisa entender.

Se o Congresso Nacional e a Presidente Dilma, que representam o povo nesse debate, optarem por tomar o caminho de parcelar a dívida e consequentemente isentar os dirigentes pela infração, que a decisão seja tomada pela certeza da GARANTIA de contrapartidas claras e severas, cuja fiscalização seja eficaz e a punição aos clubes e aos dirigentes seja direta.

Não caiam no papo do Sr. Vilson de Andrade, espertalhão, que diz que eles (dirigentes de clubes) defendem uma punição mais dura do que a que propõe o Bom Senso. “90% da proposta deles (jogadores) está incluída na dos clubes. Eles falam em perda de pontos, nós falamos em rebaixamento. Essa é a grande diferença”, disse, com gigantesca cara de pau, o atual presidente do Coritiba. Ele sabe que, do jeito que está, a LRFE não punirá ninguém. Dizer que há severidade em apresentar a CND uma vez por ano para garantir que os clubes que não pagarem em dia as parcelas do “financiamento” sejam rebaixados de divisão é coisa de quem está mal intencionado. E achar que isso é suficiente para moralizar o futebol brasileiro é uma ofensa à inteligência alheia.

Sr. Vilson, cadê o controle de déficit sob pena de punição esportiva? Cadê a garantia do cumprimento dos contratos de trabalho sob pena de punição esportiva? Cadê o limite do custo futebol sob pena de punição esportiva? Cadê a padronização das demonstrações financeiras e a reavaliação do endividamento sob pena de punição esportiva? Cadê o parcelamento da dívida trabalhista já transitada sob pena de punição esportiva? (Desculpe os termos técnicos mas são cinco pontos imprescindíveis, propostos pelo Bom Senso F.C e ausentes no projeto dos clubes).

Ora, chega de enrolação! Tratemos o assunto com a seriedade com que ele deve ser tratado. Vocês são presidentes de clubes de futebol, não estão acima do bem e do mal!

Então, amigo, Secretário do Ministério do Esporte, Toninho Nascimento, temos que correr para quê? “Tem clube que não chega ao final do ano se esse projeto não for aprovado”, disse ele. E daí? Há clubes que estão há sei lá quantos anos se apropriando do IR e INSS de atletas, usando esse dinheiro “sujo” para contratar mais jogadores e aumentar suas dívidas à espera do “perdão” do Governo e somos nós que temos que correr? O clube escocês do Glasgow Rangers, mais vezes campeão nacional no planeta, quebrou, recomeçou na quarta divisão e sua torcida não o abandonou por isso. O Napoli, a Fiorentina e o Racing também.

Se querem moralizar, façam direito. Parem de correr e pensem. Não é isso que se pede aos jogadores “brucutus”? Estamos tratando com alguns dirigentes “brucutus” então chegou a nossa vez de lhes pedir: Parem de correr e pensem. Será que vale tudo nesta terra de ninguém? É preciso restringir a possibilidade de erro, de corrupção e defender melhores práticas de gestão que refletirão diretamente na qualidade do produto final, dos clubes e do espetáculo do futebol brasileiro.

A Presidente e o Congresso Nacional estão entre a cruz e a espada: Ou se apoiam numa possível benção do voto do torcedor apaixonado (desprovido de razão) e deixam passar tudo como está (inclusive via MP – um absurdo), ou se aproveitam da maior oportunidade de se reformar e de se modernizar o futebol brasileiro, optando por incluir as emendas levantadas pelo Bom Senso à LRFE para garantir de verdade uma gestão melhor e mais transparente no nosso futebol. Esta decisão deverá sair esta semana e nós acompanharemos de perto para saber quem está jogando para quem. Que cada um escolha o seu lado, porque o meu, já escolhi.

Acabou o luto

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Voltamos à rotina. Depois dos 7 a 1 contra a Alemanha a impressão que ficou  é que, finalmente, algo sério seria feito em benefício do futebol brasileiro. Foi assim também depois da goleada sofrida pelo Santos por 4 a 0 no Mundial. E novamente quando o Barcelona dobrou e fez 8. A derrota do Internacional para o Mazembe,  primeiro  encarou-se como um acidente. Mas quando o Atlético Mineiro também perdeu para o africano Raja Casabranca, percebeu-se que esse era o nosso nível atual no jogo da bola.

O vexame da Copa do Mundo voltou a acender o sinal amarelo, caminhando para o vermelho. Mas só durou alguns dias. Retornamos aos clássicos mal jogados, aos árbitros que seguram o jogo, às torcidas uniformizadas e aos dungas da vida.

Acabou o luto. Brasileiro esquece fácil. Logo teremos novo papelão. Não será no Mundial de clubes, porque ninguém chegou, nem mesmo, às semifinais de Libertadores.

Porém, em algum momento, um time brasileiro voltará a encontrar outra escola moderna de futebol. E aí vai ser, de novo, como uma morte, o baile que os brasileiros levarão. Virão outras gritarias e outro luto, que o tempo tratará de apagar rápido.

Aqui não se aprende com nada. Não se tem vergonha na cara. Seguimos com os marins e marcos polos. A tecnologia é abominada. Não se admite estudar, aprender, criar metodologias de treinamentos. Afinal o Brasil é o país do futebol. Que descanse em paz.

Não foi por acaso

Foto: Ricardo Stuckert/CBF

Foto: Ricardo Stuckert/CBF

A  derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 não foi um acaso. Os sintomas da decadência do futebol brasileiro vêm sendo apresentados faz tempo. Mas as pessoas fingem não perceber. É mais ou menos como o cara que fuma três maços de cigarro por dia e está, aparentemente, bem. De repente vai ao médico e descobre que tem câncer .

Era lógico que ocorreria, porém ele insistia em se enganar. Os vexames brasileiros têm se acumulado. O Internacional perdeu para o Mazembe. O que parecia um acidente repetiu-se com o Atlético Mineiro sendo derrotado pelo Raja Casablanca. O melhor time dos últimos anos, o Santos,  tomou primeiro de 4 e depois de 8 do Barcelona e não teve nem coragem de marcar novo jogo na Vila, coisa que tem direito pela venda do Neymar.

O Campeonato Brasileiro é um lixo. Os jogos são tediosos nem lembrando exatamente futebol, se comparado com os certames que vemos na Europa. Os métodos são arcaicos, as bases só servem para negociatas e não revelam ninguém . A maioria dos garotos que tenta jogar futebol é barrada por um esquema de cartas marcadas. A cada 3000 meninos que gostariam de atuar, somente um consegue. Quantos neymares não estarão sendo desperdiçados.

Nunca houve um projeto de futebol. É tudo empírico . Fora a corrupção que impressiona, mesmo vivendo-se num dos países mais corruptos do mundo. Se os alemães perceberam que estavam em decadência e fizeram um plano de trabalho, uma metodologia de treino a partir de 2004, no Brasil a opção é pela enganação.

Lembram-se da força à base com o Ney Franco no comando? Depois de um ano tinha uma pessoa cuidando de todas as categorias e estava uma zona completa. Não há alternativa que não seja a criação de uma liga, um plano de trabalho com tempo determinado e projeto público para acompanhamento de todos. Cursos para treinadores, intercâmbio , uso da academia e métodos de modernização e transparência obrigatória nos clubes e afastamento dessa corrupta CBF do comando do nosso futebol.

Fora isso não haverá jeito. Outras vergonhas virão. A Liga Alemã é considerada a instituição de maior credibilidade pelo povo alemão. No Brasil a CBF é comandada por José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. Por essa razão não se pode dizer que o 7 a 1 foi obra do acaso.

Blatter cínico

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

A Copa do Qatar subiu no telhado, como naquela velha piada do português. Fora de contexto, sem tradição, com uma temperatura infernal, claro que não é lugar para o maior evento esportivo do mundo. A eleição do Qatar foi uma clara demonstração de como funciona a Fifa.

Não só essa Copa foi indevida como as da África do Sul, a do Brasil, é bom não confundir o nível lindo dos jogos com o que sobrará de tudo isso, a da própria Rússia e essa no mundo árabe. Rolou dinheiro para todo lado. Alguns foram premiados por ajudar Blatter em reeleições. Outros pela grana fácil e sem procedência, que precisaria ser usada em corrupção. E Blatter, até por seguir os passos do seu mestre e criador, João Havelange, sempre soube de todos os movimentos.

Agora fala, surpreso, em eventual compra de votos pelos catarianos. Eventual ? Qualquer um sabe como as coisas funcionaram e funcionam os Conselhos Executivos da Fifa. Tirar a Copa do Catar é bom senso. Não deveria nem ter chegado a esse ponto. Mas Blatter fingir que foi enganado é muita cara de pau. Ele é o chefão. O todo poderoso. Ele sempre sabe o roteiro. Quando não executa pessoalmente o filme.

A Copa na Paulista

Foto: AFP

Foto: AFP

Sai caminhando. Nem acreditava que era 12 de junho. Finalmente a Copa do Mundo começou no Brasil. Sou apaixonado por Mundiais e até divido fases da minha vida, entre períodos do torneio. Logo vejo um grupo de croatas. Os carros passam e buzinam. Eles sorriem e gesticulam. Nos postes discretas bandeiras do evento, como já vi tantas vezes, em tantos lugares do planeta. Ontem passei o dia em Itaquera acompanhando a seleção brasileira. A sala de imprensa fala as mais variadas línguas. Voltei de metro como não faço aqui, porém cansei de utilizar nas copas da França e da Alemanha  e o melhor é que, depois de várias estações, cheguei em casa, não no hotel.

Voltando à Paulista velhos, jovens, crianças, todos têm algo amarelo ao redor do corpo. Um chato helicóptero sobrevoa, pela milésima vez, o hotel onde estão os jogadores americanos. Mais croatas. Agora um casal. E lá na frente outro grupo bebendo cerveja. Nunca imaginei que veria tantos croatas, fora da Croácia. O “Elvis Presley” da esquina com a Augusta ajeita seus play backs com mais capricho. É dia especial. Passam dois mexicanos. Volto no tempo e lembro, como me encantou, o domingo em que cheguei a Buenos Aires para cobrir o Mundial de 1978.

Essa mistura de gente nunca saiu da minha cabeça. Fico emocionado com a lembrança. Aquele foi o primeiro. Hoje começa o décimo que participo como jornalista. Sempre fui e continuo sendo absolutamente contrário à Copa no Brasil. Sabia que seria um roubo antológico e foi. Temo pela nossa economia com tantos desfalques. Mas agora não tem jeito. É como se roubassem seu cartão de crédito e organizassem uma enorme festa, que você não queria e nem poderia pagar, usando o seu dinheiro. Cancelar a festa não ia ser mais possível. Então o jeito é aproveitar e depois ver no que dá.

Se a seleção brasileira não for campeã do mundo deveremos ter enxurradas de CPIs, explicando os gastos absurdos com o evento. Se ganhar vão deixar para lá. Eu gostaria que todos os ladrões da Copa acabassem na cadeia. Com ou sem título dos jogadores. Agora, no entanto, darei uma trégua. Como disse a Joana Havelange, com conhecimento de causa, é claro, “o que tinha que ser roubado, já foi”. Lamento e cobrarei punições. Mas darei uma trégua.

O futebol, que amo, está no seu máximo. Veremos grandes jogos em campos brasileiros, coisa que faz tempo não acontecem. Vou viver a Copa intensamente, vendo todos os jogos, fazendo anotações e trabalhando com enorme prazer. Minha agenda está fechada para todo o resto até dia 13 de julho. Em seguida voltarei com carga toda contra a bandidagem do futebol.

Passar vergonha?

YASUYOSHI CHIBA / AFP

YASUYOSHI CHIBA / AFP

Está todo mundo preocupado com as obras da Copa. De fato o roubo é escrachado, mas não surpreendente e nada ficará pronto totalmente, nem hoje e talvez nunca. Mas não sei se isso será exatamente motivo de vergonha. O que interessa para o gringo se os acessos prometidos aos estádios, as facilidades nas cidades sedes e as obras de melhorias nos estados não ficarão prontas?

Eles, como a Fifa, querem saber dos jogos. Se der para vê-los  bem, com mobilidade nos dias das partidas, o resto pouco lhes  importa. O que me preocupa é a imagem que o Brasil deixará como um todo. Será que estamos educados para receber tanta gente? O brasileiro, de modo geral, é legal, hospitaleiro, gentil e receptivo. Porém, metido a espertalhão, querendo levar vantagem em tudo. Imagine a pessoa que desce no Rio de Janeiro e pega um táxi. Por certo haverá, no mínimo, a tentativa de se cobrar muito mais pela corrida. Em São Paulo tentou-se dobrar o preço dos hotéis. Voltaram atrás quando as reservas não apareceram, mas queriam explorar os visitantes. Restaurantes de toda nação estão remanejando seus preços, muito além da natural lei da  oferta e procura. Até os ambulantes já mexeram nos valores cobrados.

Querer levar vantagem desse tipo é cara do nosso país. Há exceções sim, aquelas que justificam a regra. Muito de nós, e reparem que me incluo, temos a mania de achar que os outros são tolos, pelas suas bermudonas, pernões brancos e meias soquetes engraçadas. Não são. Nem falo dos riscos de assaltos, que hoje em dia estão espalhados pelas grandes cidades do mundo, mas sim da nossa forma de ser. Será que dará tempo de mudar a postura? Não acredito.

É questão de jeito, de educação, de vivência. Muitos acharão graça ao enganarem os forasteiros. Eles formarão a imagem do nosso país no dia a dia de convivência. E isso ficará registrado. Alguém ficará envergonhado?. Mas é esse o Brasil. Reclamamos dos políticos, que são apenas reflexos do que fazemos diariamente. Uns conseguem pegar mais, outros menos de acordo com suas atividades. Os estádios estarão ajeitados. Os jogos vão sair. Ninguém tem que se preocupar. Já o resto dos nossos problemas, o jeito de ser do brasileiro, aí não tem mudança de uma hora para outra. É isso que o gringo vai levar para casa. Você está preocupado?

Figurinhas

É uma febre. Quem não tem um album da Copa está fora de moda. As trocas estão em todos os lugares. Bares, lojas, no vão livre do Masp, em parques, bancas de jornais e por aí vai. Numa cidade como São Paulo os albuns são bençãos. Pessoas que não se conhecem, conversam, fazem “negócios”, trocam sorrisos, coisas que fazíamos no dia a dias anos atrás, e que ficaram num passado distante. Hoje as relações estão nas redes sociais. O cara acha que têm amigos virtuais. Que são virtuais não há dúvida. Já amigos são outra coisa. Lembrei da minha infância lá na Penha. Tinha album de tudo. Desde bandeiras dos países, até museus pelo mundo. De futebol então, qualquer campeonato virava album. O jeito era diferente. Valiam prêmios. Para isso precisava completa-los com as famosas figurinhas carimbadas, normalmente os craques dos times. Nunca consegui nada, mas era uma grande curtição. E olha que eu estava totalmente envolvido no processo. Minha família trabalhava empacotando as figurinhas. Tínhamos uma mesa enorme onde netos e avós separavam, fechavam e colavam os pacotinhos. As carimbadas não vinham para nós. Das outras, a gente cuidava. Dava um dinheirinho legal, para a  “mistura”. O trabalho, que ajudava nas despesas, servia também como agradável encontro familiar, que durava horas. E bem novinho, a gente já aprendia o gosto pelo trabalho. Trabalhar e receber algo em troca. Hoje me assusto quando proíbem crianças de trabalhar. Eu fui balconista, feirante, empacotador de figurinhas, enquanto estudava e tinha que apresentar resultados na escola. Não tenho nenhum trauma por causa disso. Ao contrário, só me fez bem. Atualmente os menininhos não podem ter essas atividades, sei lá por que. Algum gênio definiu e acabou. No tempo ocioso eles servem de aviõezinhos para traficantes, ou ajudam quadrilhas, aproveitando o fato de serem “dimenor”. Acho que empacotar figurinhas era bem melhor e você internauta, o que acha?