No último texto de nosso blog, tocamos em muitas passagens que marcaram a grandeza e a tradição da corrida de S. Silvestre, vivida com grande intensidade nos anos em que militei na edição impressa de A Gazeta Esportiva, um órgão que fez história no esporte do Brasil.
Citamos, “au passant”, algumas passagens da influência da “guerra fria” na participação de atletas provenientes do leste europeu, num tempo em que o muro de Berlim ainda existia e muitos países e partidos políticos postulavam a extinção da propriedade privada e tornar o mundo comunista.
Esses episódios nos estimularam contar alguma coisa sobre os efeitos da II Guerra Mundial em relação ao esporte.
Em 1939, uma tentativa expansionista territorial do nazi-fascismo coloca a Alemanha, a Itália e (dois anos depois), o Japão contra todas as demais nações do mundo. Era o “eixo” Roberto – Roma, Berlim e Tóquio. Este fato deixou sob suspeita e em situação muito difícil as entidades e as pessoas oriundas destes países radicadas no Brasil. Elas poderiam lutar em favor de suas nações de origem, contrárias aos interesses nacionais.
É verdade que o nosso país só entrou na guerra em 22 de agosto de 1942, quando oito navios cargueiros nacionais foram colocados a pique por submarinos alemães. Mas, muito antes desta data, as condições reinantes já não eram favoráveis ao intercâmbio esportivo internacional.
Como decorrência desta repulsa aos nossos adversários do “eixo”, a Associação Alemã de Esportes foi extinta e perdeu a sua sede, abrindo um espaço para o São Paulo F.C. apossar-se da praça de esportes do Canindé. Este local, mais tarde, foi negociado com a Portuguesa de Desportos, que ali ergueu seu estádio. No campo do Canindé, o S.Paulo treinava sua equipe de futebol, no tempo em que Roberto Gomes Pedrosa (futuro presidente da F.P.F) era o goleiro. O tricolor, na pista que fora dos alemães, formou uma excelente equipe de atletismo sob a direção do técnico Dietrich Garner. Lá, Adhemar Ferreira da Silva deu os primeiros saltos de uma carreira que culminou com o ouro olímpico, em 1952, em Hensinque.
A segunda guerra fez também com que o Clube “Estrela” encerrasse suas atividades. Ele era um clube ribeirinho, localizado atrás da Associação Atlética S. Paulo e foi berço de grandes atletas de origem germânica, como Maria Lenk e sua irmã Sieglinda, além do maior aquapolista dos anos 30 e 40, Guilherme Schall.
Na ocasião, também outros importantes clubes de colônias de países do eixo passaram por ameaças de extinção, ou tiveram de mudar de nome. O S.C.Germania tornou-se Esporte Clube Pinheiros, o Palestra Itália, transformou-se em S.E. Palmeiras e o Esperia passou a se chamar A.D.Floresta.
Intercâmbio Internacional Extinto
Por causa da conflagração mundial o intercâmbio internacional foi praticamente extinto durante mais de uma década. Os Jogos Olímpicos de 1940, que estavam programados para Tóquio, não se realizaram. Também os de 1944 não foram efetuados, diferentemente dos tempos dos gregos, quando se interrompiam todas as guerras para a realização dos Jogos.
A Olimpíada somente foi restabelecida em 1948, em Londres, um evento efetuado em condições muito precárias. As nações, durante um conflito cruento, não tinham as mínimas condições de pensar em competições, mesmo na América do Sul, numa época em que o custo do transporte aéreo era proibitivo para o esporte, e as viagens de navio eram de alto risco, pela ameaça dos submarinos que rondavam as costas do nosso país. Também o intercâmbio continental quase desapareceu.
As lágrimas dos japoneses
Mesmo com o fim da guerra, em maio de 1945, o restabelecimento do intercâmbio esportivo internacional ainda demorou.
Uma visão histórica torna compreensível o fato de que a primeira S.Silvestre, só para Americanos do Cone Sul, ocorresse em dezembro de 1945. O primeiro europeu (Viljo Heino) que competiu naquela prova foi em 1949.
O fato mais marcante, porém, ocorreu em 1950, quando os “peixes voadores” Furuhashi, Hashizume, Hamaguchi e Murayama vieram se apresentar no Brasil.
Grande parte da colônia japonesa, profundamente segregada no Brasil após o ataque a Pearl Harbour, em 1941, foi ver os heróis contemporâneos na competição entre brasileiros e japoneses realizada no Pacaembu. Na solenidade inaugural, quando após o Hino Nacional brasileiro foi tocado o Hino japonês, todo o público, majoritariamente composto por nipônicos, chorava copiosamente.
Após a conflagração mundial a Guerra Fria
Derrotadas as doutrinas de extrema direita (o nazismo e o fascismo), adveio a disputa entre os vencedores da II Grande Guerra: isto é, doutrinas de extrema esquerda, sob a égide da União Soviética (e mais tarde seus países satélites) e os “aliados”, que congregavam os Estados Unidos, a Inglaterra, a França e outros países do ocidente europeu.
A luta pela propaganda política estava por trás da participação de “astros” dos países liderados pela União Soviética em grandes certames internacionais. Eles tinham treinamento estipendiado pelo governo numa época de fervor esportivo amadorístico. Mais do que competidores, eram eles garotos propaganda de ideologias das nações que, na época, pretendiam dominar o mundo. Era por esse prisma que repúblicas orientais encaravam a nossa corrida de S. Silvestre – uma grande exposição na mídia mundial.