FALECIMENTO DO ESPORTISTA JOHN HERBERT BUCKUP

O falecimento de John Herbert Buckup teve uma ampla divulgação. A maioria dos órgãos de comunicação mais importantes do país dedicou um espaço significativo a esta figura que se tornou popular por seus vínculos com a televisão, o cinema e o teatro. Os que escaparam deste ângulo dedicaram algumas linhas à forte influência germânica na sua educação.

Quase todos “deixaram prá lá” o Johnny Buckup esportista e não incluíram na biografia divulgada sua atuação como um dos mais importantes nadadores do país. Eu, naturalmente, discordo. Como redator de esportes aquáticos desde março de 1946, acompanhei a carreira de Buckup – e não John Herbert como é chamado na TV – desde o início. Johnny aprendeu a nadar quando o Clube Pinheiros ainda se chamava Germânia. Ao atingir a categoria mais alta da natação infanto-juvenil, a de aspirantes, ele tornou-se recordista das provas de nado livre.

Como adulto, integrou a equipe que defendia São Paulo nos campeonatos brasileiros e o Brasil no sul-americano. Conquistou vários títulos de campeão brasileiro e fez parte do selecionado grupo de pinheirenses treinados por Kanichi Sato, que eram Willy Otto Jordan, Plauto de Barros Guimarães, Ralf Kestner e outros. Buckup completava o quarteto paulista e brasileiro dos revezamentos de 4 x 100 e 4 x 200, nado livre. Foi campeão brasileiro individual dos 1.500 metros.

Em 1963, quando nós dirigíamos o departamento de promoções e provas de A Gazeta Esportiva, resolvemos reeditar na represa Billings, em São Bernardo do Campo, a Travessia de São Paulo a Nado, interrompida em 1944 pela poluição do rio Tietê.

Convidamos Johnny Buckup para participar da prova. Ele já havia trocado o estrelato da piscina pela televisão. Atendendo à solicitação de um amigo, ele competiu na prova. Enfrentou seiscentos concorrentes e ficou com um honroso 20º lugar.

Estas linhas têm o objetivo de resgatar a memória esportiva deste amigo e de mandar uma mensagem de solidariedade para os familiares que perderam uma figura histórica da nossa cidade.

RESPONDENDO AO ADILSON

Uma consulta do leitor Adilson (aoses@ufv.br) deu motivação para meu artigo desta semana. Ele queria saber se, além do Esperia, algum outro clube havia retomado a denominação anterior que fora modificada durante a II Guerra Mundial. Além dos clubes por nós citados, ele informou que tomara conhecimento que também o Deutscher Turnverein havia se transformado em Sogipa, Sociedade Ginástica Porto Alegrense. Vejam as respostas:

TAMBÉM EM SÃO PAULO

Este fato ocorreu também em São Paulo, onde um clube com um nome idêntico (Turnverein), transformou-se em 1938 em Clube Ginástico Paulista, que tinha um razoável ginásio de esportes localizado na rua Gal. Couto de Magalhães e uma sede de campo em uma cabeceira da Ponte da Vila Maria, nas bordas do Rio Tietê.

Outro clube de origem teuta foi o Deutsch Turnerschaft, que se tornou mais tarde a Associação de Cultura Física, cuja última sede ficava no primeiro quarteirão da Rua Augusta.

O que gerou as mudanças de denominação foi a tendência do nosso povo considerar inimigas as pessoas provenientes dos países que estivessem em lado contrário ao do Brasil durante as guerras de 1914-18 e 1939-45.

Felizmente, este antagonismo como o que causou a segregação dos germânicos teve curta duração e, passados os anos do conflito, tudo voltou ao normal.

O PARQUE ANTÁRTICA

A primeira guerra, a de 1914-1918, teve também outro efeito: Fez com que o S.C. Germânia, que tinha como sede o Parque Antártica, perdesse seu estádio, que ficou com o Palestra Itália, em negociação bem conduzida pelos dirigentes do clube alviverde que estava nascendo naquela época (na primeira guerra, Brasil e Itália estavam do mesmo lado). Foi quando o Germania deixou de mandar seus jogos no Estádio da Água Branca e emigrou para as bandas do Jardim Europa, em três alqueires naquele tempo à beira do Rio Pinheiros.

O PANORAMA NA SEGUNDA GUERRA

O panorama não mudou por ocasião da segunda guerra, duas décadas mais tarde. O sentimento contra as colônias alemã, italiana e japonesa foi igualmente intenso. Algumas agremiações de origem teuta, como a A.A. de Esportes e o Clube Estrela, acabaram sendo fechados. Outras agremiações, como o Germânia, o Esperia e o Palestra Itália resistiram pelo fato de, durante os anos que precederam a guerra, já possuírem significativa porcentagem de associados brasileiros ou de outras nacionalidades, não se identificando plenamente como estrangeiras.

Hoje, o Pinheiros está totalmente descaracterizado como entidade germânica, clube que chegou a ter seus primeiros estatutos e toda a sua documentação original escrita na língua de Goethe.

O Palmeiras, pela mesma razão, não retornou à denominação antiga, mas, quando houve condições, alguns anos depois de 1941, passou a chamar-se “Palestra Itália”, numa cortesia aos associados “oriundi” da velha guarda que ainda permaneciam ativos no clube.

O CASO ESPECÍFICO DO ESPERIA

O leitor Adilson citou em sua consulta o caso específico do Esperia, que difere um pouco daquele das outras agremiações de origem germânica.

Historicamente, o Esperia foi intensamente vinculado à colônia italiana. Chegou, por pouco tempo após a fundação, a chamar-se Società Italiana di Cannotieri. Na primeira conflagração mundial, inclusive, enviou um grupo de 80 associados para defender a Itália contra a invasão do império austro-húngaro.

O nome Esperia tinha alta significação. Ele servia para designar e simbolizar a própria Itália. Esperia também é o nome de um clube ribeirinho que, como ele, atravessa a cidade de Turim.

Em 1941, o Esperia paulistano foi obrigado a mudar de nome. O escolhido foi o de Associação Desportiva Floresta. Esta não era uma denominação aleatória, totalmente despida de simbologia, pois o Esperia tinha nascido na Chácara Floresta, do outro lado do rio, em espaço hoje ocupado pelo C.R. Tietê.

Nada, porém, era comparável a Clube Esperia. Anos depois, esquecidos os rancores gerados pela II Guerra Mundial, ninguém foi contra o fato do Esperia recuperar sua denominação histórica.

Respondemos com estas linhas ao leitor Adilson. Colocamos a responsta em nosso “blog” para que outros leitores, igualmente interessados na história do esporte, possam compartilhar destas considerações.

ALÉM DOS FATOS

Escolhemos “Além dos Fatos” como título do nosso “blog” por causa de um diálogo na peça “Seis personagens em busca de um autor”, do grande escritor italiano Luigi Pirandello.

Quando um personagem fez uma afirmação peremptória:

- Eu só quero saber é dos fatos!

Outra respondeu:

- Os fatos, sem as razões que os sustentam, são como sacos vazios, não param em pé!

A TEMPESTADE E O ESPORTE

O deslizamento de encostas que atingiu a região serrana do Rio de Janeiro ocupou mais de noventa por cento do espaço da mídia eletrônica e a parte principal dos veículos impressos.

Pudera… a extensão da calamidade foi uma das maiores da nossa história e recebeu lugar de destaque no “ranking” mundial. Inúmeros aspectos fora apresentados, como o drama das famílias que perderam seus parentes, suas casas, seus pertences e a dificuldade de comunicação resultante da quebra de pontes e rombos nas estradas. A cobertura jornalística foi completa, pois nada que estivesse acontecendo em nosso país e no mundo era tão importante quanto ao que ocorria em Petrópolis, Teresópolis e outras comunidades turísticas da região serrana do Estado Fluminense.

Na divulgação, que escoava por todo o mundo, não faltaram críticas contundentes ao governo brasileiro por seu despreparo para tragédias como esta. A falta de estrutura para enfrentar calamidades, a falta de autoridade para impedir ocupação de áreas de risco, a cumplicidade com os invasores por razões políticas e outros desmandos ficaram claros e patentes e não escaparam da divulgação dos veículos internacionais.

Esta divulgação não deixou também de ter grandes conseqüências para o esporte do Brasil. A tromba d’água abalou também a imagem de nosso país em um momento crítico. Numa ocasião em que estamos necessitando de credibilidade, num momento em que as nossas condições e até a nossa capacidade estão sendo colocadas em dúvida para organizar o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos, a nossa incapacidade é apresentada ao mundo com lentes de aumento.

Além disto, o país que iria desviar de outras áreas do orçamento importantes quantias para a realização dos dois mega eventos, ainda vai ter de conseguir mais recursos, pois, inapelavelmente, a reconstrução do flagelo serrano terá de ter prioridade.

Tomara que o dinheiro que for necessário provenha do corte do supérfluo no orçamento, da redução do superfaturamento de obras e, principalmente, da extinção da corrupção.

As exigências das entidades internacionais também precisam ser contidas. É necessário que elas vejam no Brasil a sede de Jogos que se caracterizará pela alegria, pelo entusiasmo e pela fraternidade do povo brasileiro, e não somente um evento para a solução de problemas de caixa da FIFA e do COI.

VITRINE INTERNACIONAL

Não concordo com alguns colegas que chamam a Copa São Paulo de Futebol Junior de “Copinha”. Para ser fiel à verdade, é uma Super Copa, uma vitrine do futebol do futuro, acompanhada nos mínimos detalhes por “olheiros” e empresários do resto do mundo.

POR QUE “INHA”?

O nome “Copinha” não tem caráter terno e carinhoso de um diminutivo, mas o de uma redução da sua dimensão. Chega a ser até uma maldade.

ESQUECERAM DO FÁBIO

Poucos falam da história deste evento, lançado por Fábio Lazzari, com apoio de Paulo Soares Cintra, quando a SEME era ainda o Conselho Municipal de Esportes, há meio século.

São poucos até os que dizem que este evento homenageia a fundação da Cidade de São Paulo. Numa atmosfera de informação “globalizada”, este fato passa como irrelevante.

A importância da imagem

Uma quantidade fabulosa de dólares ou de reais é investida anualmente em propaganda, movimentando uma multidão de pessoas nos veículos de comunicação, nas agências especializadas e em outros setores vinculados à mídia.

Todos os recursos são endereçados ao principal objetivo que é a busca de uma imagem positiva, conquista que se transforma em venda de um produto, seja ele uma marca que figura nas prateleiras de um supermercado, de um serviço, ou um artista que vende shows ou gravações.

É a importância da imagem que faz com que patrocinadores se aproximem do esporte, colocando o nome de seus produtos ou das suas empresas em uniformes ou em placas nos estádios. Esta associação a um clube ou a uma modalidade esportiva cria uma empatia, aliando a imagem de jogadores aos sponsors, imagem essa que se transforma em vendas ou benefícios econômicos.      

LEILÃO INDESEJÁVEL

 Todas estas considerações vieram à minha mente após o verdadeiro leilão que se fez em torno da transferência de Ronaldinho Gaúcho para o futebol brasileiro, um retorno que mobilizou os principais clubes do país.

O dinheiro era tanto que alguns professores chegaram a reclamar dizendo que Ronaldinho receberia por mês o que um professor ganharia em toda a sua vida.

DESAPEGO AO NINHO

O importante nesta história é que o futebolista, como qualquer esportista ou mesmo profissional de outras áreas, também precisa cultivar a sua imagem. Em alguns aspectos da negociação, acreditamos, Ronaldinho perdeu imagem. A busca de algumas dezenas de dólares a mais no contrato fez com que ele desgostasse a torcida do Grêmio, o seu “ninho”, que o venerava como um dos maiores heróis de sua história. Pelé, mais radical, achava até que ele deveria jogar um ano de graça. Ainda estão na retina dos espectadores todas as cenas focalizadas pela TV, onde torcedores mostram dinheiro para as câmeras das principais emissoras do país. Certamente, ele não será aplaudido pelos gremistas nas partidas em que, defendendo um outro clube, vier no futuro enfrentar o tricolor gaucho.

A preferência por morar no Rio de Janeiro é um outro índice preocupante. O seu encanto pela vida noturna (como também o seu xará Ronaldo) demonstrou sua predisposição para baladas, bailes funks e outras atividades não condizentes com quem tem de treinar ou jogar no dia seguinte, ou ainda responder com boas performances por um salário inimaginável, acima daquele dos maiores executivos mundiais.

BALADAS E PELADAS

Se Ronaldinho pudesse intuir o quanto ele está perdendo em imagem e dinheiro por seus maus hábitos, certamente passaria bem longe dessas casas noturnas. A eventual companheira a ser encontrada nesses lugares não será um poço de virtudes, mas alguém interessada em explorá-lo, em partilhar alguns reais do seu contrato, além de constituir um perigo para a carreira do ex ídolo do Grêmio. Acreditamos que foi a perda de rendimento causada por aquelas circunstâncias que provocaram sua saída do Milan e sua devolução para o Brasil.

A reconquista da imagem e dos bons hábitos é a única maneira de prolongar a vida economicamente rendosa, mas de curta duração, de um craque do futebol e não secar a fonte prematuramente.

A 2ª Guerra Mundial e o Intercâmbio Esportivo

No último texto de nosso blog, tocamos em muitas passagens que marcaram a grandeza e a tradição da corrida de S. Silvestre, vivida com grande intensidade nos anos em que militei na edição impressa de A Gazeta Esportiva, um órgão que fez história no esporte do Brasil.

Citamos, “au passant”, algumas passagens da influência da “guerra fria” na participação de atletas provenientes do leste europeu, num tempo em que o muro de Berlim ainda existia e muitos países e partidos políticos postulavam a extinção da propriedade privada e tornar o mundo comunista.

Esses episódios nos estimularam contar alguma coisa sobre os efeitos da II Guerra Mundial em relação ao esporte.

Em 1939, uma tentativa expansionista territorial do nazi-fascismo coloca a Alemanha, a Itália e (dois anos depois), o Japão contra todas as demais nações do mundo. Era o “eixo” Roberto – Roma, Berlim e Tóquio. Este fato deixou sob suspeita e em situação muito difícil as entidades e as pessoas oriundas destes países radicadas no Brasil. Elas poderiam lutar em favor de suas nações de origem, contrárias aos interesses nacionais.

É verdade que o nosso país só entrou na guerra em 22 de agosto de 1942, quando oito navios cargueiros nacionais foram colocados a pique por submarinos alemães. Mas, muito antes desta data, as condições reinantes já não eram favoráveis ao intercâmbio esportivo internacional.

Como decorrência desta repulsa aos nossos adversários do “eixo”, a Associação Alemã de Esportes foi extinta e perdeu a sua sede, abrindo um espaço para o São Paulo F.C. apossar-se da praça de esportes do Canindé. Este local, mais tarde, foi negociado com a Portuguesa de Desportos, que ali ergueu seu estádio. No campo do Canindé, o S.Paulo treinava sua equipe de futebol, no tempo em que Roberto Gomes Pedrosa (futuro presidente da F.P.F) era o goleiro. O tricolor, na pista que fora dos alemães, formou uma excelente equipe de atletismo sob a direção do técnico Dietrich Garner. Lá, Adhemar Ferreira da Silva deu os primeiros saltos de uma carreira que culminou com o ouro olímpico, em 1952, em Hensinque.

A segunda guerra fez também com que o Clube “Estrela” encerrasse suas atividades. Ele era um clube ribeirinho, localizado atrás da Associação Atlética S. Paulo e foi berço de grandes atletas de origem germânica, como Maria Lenk e sua irmã Sieglinda, além do maior aquapolista dos anos 30 e 40, Guilherme Schall.

Na ocasião, também outros importantes clubes de colônias de países do eixo passaram por ameaças de extinção, ou tiveram de mudar de nome. O S.C.Germania tornou-se Esporte Clube Pinheiros, o Palestra Itália, transformou-se em S.E. Palmeiras e o Esperia passou a se chamar A.D.Floresta.

Intercâmbio Internacional Extinto

Por causa da conflagração mundial o intercâmbio internacional foi praticamente extinto durante mais de uma década. Os Jogos Olímpicos de 1940, que estavam programados para Tóquio, não se realizaram. Também os de 1944 não foram efetuados, diferentemente dos tempos dos gregos, quando se interrompiam todas as guerras para a realização dos Jogos.

A Olimpíada somente foi restabelecida em 1948, em Londres, um evento efetuado em condições muito precárias. As nações, durante um conflito cruento, não tinham as mínimas condições de pensar em competições, mesmo na América do Sul, numa época em que o custo do transporte aéreo era proibitivo para o esporte, e as viagens de navio eram de alto risco, pela ameaça dos submarinos que rondavam as costas do nosso país. Também o intercâmbio continental quase desapareceu.

As lágrimas dos japoneses

Mesmo com o fim da guerra, em maio de 1945, o restabelecimento do intercâmbio esportivo internacional ainda demorou.

Uma visão histórica torna compreensível o fato de que a primeira S.Silvestre, só para Americanos do Cone Sul, ocorresse em dezembro de 1945. O primeiro europeu (Viljo Heino) que competiu naquela prova foi em 1949.

O fato mais marcante, porém, ocorreu em 1950, quando os “peixes voadores” Furuhashi, Hashizume, Hamaguchi e Murayama vieram se apresentar no Brasil.

Grande parte da colônia japonesa, profundamente segregada no Brasil após o ataque a Pearl Harbour, em 1941, foi ver os heróis contemporâneos na competição entre brasileiros e japoneses realizada no Pacaembu. Na solenidade inaugural, quando após o Hino Nacional brasileiro foi tocado o Hino japonês, todo o público, majoritariamente composto por nipônicos, chorava copiosamente.

Após a conflagração mundial a Guerra Fria

Derrotadas as doutrinas de extrema direita (o nazismo e o fascismo), adveio a disputa entre os vencedores da II Grande Guerra: isto é, doutrinas de extrema esquerda, sob a égide da União Soviética (e mais tarde seus países satélites) e os “aliados”, que congregavam os Estados Unidos, a Inglaterra, a França e outros países do ocidente europeu.

A luta pela propaganda política estava por trás da participação de “astros” dos países liderados pela União Soviética em grandes certames internacionais. Eles tinham treinamento estipendiado pelo governo numa época de fervor esportivo amadorístico. Mais do que competidores, eram eles garotos propaganda de ideologias das nações que, na época, pretendiam dominar o mundo. Era por esse prisma que repúblicas orientais encaravam a nossa corrida de S. Silvestre – uma grande exposição na mídia mundial.