PROFISSIONALISMO E ESPORTE

Nesta foto de 1946, Bento de Assis defende-se das acusações de atleta profissional em uma das primeiras reportagens do responsável por este blog.

Mexendo nos meus guardados, localizei uma das mais antigas fotografias de minha carreira jornalística. Ela data de 1946, do tempo em que eu ainda nem havia entrado na A Gazeta Esportiva. Eu tinha 20 anos e fora convidado pelo Grupo Folhas, cujo editor de esportes havia gostado do meu trabalho como assessor de imprensa da Federação Paulista de Natação. Estreei na casa de Casper Líbero no dia 10 de outubro de 1947, quando o “mais completo jornal” passou a ser diário.

A foto que aparece neste blog é um marco na história do esporte. Eu entrevistava José Bento de Assis, o maior velocista brasileiro do final dos anos 30 e início dos anos 40, no dia seguinte ao ele ter sido declarado profissional e banido da atividade esportiva.

Havia naquelas décadas um verdadeiro “furor” contra um atleta que recebesse alguma vantagem, quer em dinheiro, quer em espécie. O espírito “coubertânico” eliminava drasticamente do esporte qualquer suspeito de ter se beneficiado economicamente de suas virtudes técnicas.

Naquele 1946, quando Bindo Guida Filho, também atleta, estava na presidência da Federação Paulista de Atletismo, sem provas concretas ele eliminou do esporte um dos maiores nomes de nossas pistas. Bento de Assis havia vencido a prova dos 100 metros rasos no Sul-americano de 1937 (evento que inaugurou a pista do C.R. Tietê), os 100 e os 200 metros em 1941, em Buenos Aires, e os 100 e 200 metros no Campeonato de 1945, em Montevidéu, no Uruguai. Ele defendia o Clube Esperia. Fazia 10,5 segundos há mais de 7 décadas.

Sinal dos tempos

A aversão ao recebimento de vantagens e dinheiro mudou tanto nestes últimos tempos que os próprios planos governamentais, visando os Jogos Olímpicos, prevêem a concessão de bolsas de estudos para os jovens atletas promissores e prêmios em dinheiro pelas melhores classificações. Atualmente, o valor técnico e o prestígio de um competidor são avaliados pelo vulto de seu salário. Alguns, especificamente no golfe, no futebol e no automobilismo, tornaram-se milionários. Criou-se até uma categoria profissional de agentes negociadores de transferências de militantes do esporte, entre clubes e até países.

A desistência do C.A. Paulistano

O dinheiro passava longe na disputa dos primeiros campeonatos paulistas de futebol. Os jogadores eram associados do Clube dos Ingleses, do Clube Atlético Paulistano, alunos do Colégio São Bento e outras entidades com corpo associativo de alto poder econômico.

Quando o esporte popularizou-se (no exato sentido do termo) os competidores economicamente menos dotados passaram a receber clandestinamente para jogar, surgindo o então combatido “amadorismo marrom”.

Este fato causou tamanha revolta nas convicções de Antônio Prado Jr., presidente perpétuo do C.A. Paulistano e membro do Brasil do Comitê Olímpico Internacional, que ele retirou o seu clube do Campeonato Paulista em 1929, quando, após uma vitoriosa excursão à França, seus defensores haviam sido chamados de “Os reis do futebol”.

Muito para contar

Existe muito a relatar sobre a evolução do dinheiro na história do esporte. Sua fundamentação merece ser exposta e diversos fatos históricos informados aos que acompanham este blog. Naturalmente, eles excedem o espaço disponível. Dessa maneira, decidimos contar muito mais sobre este assunto em nossos próximos artigos.

HORA DE ACORDAR!

O perigo do nosso país enfrentar um vexame internacional é o tema em que estamos insistindo, desde que o Brasil conquistou a sede da Copa do Mundo de 2014 e a dos Jogos Olímpicos de 2016.

O risco de passarmos uma grande vergonha, diante de mais de 200 nações que integram o universo do esporte, ganhou mais um arauto de grande poder opinativo. O maior futebolista do mundo está aflito com a falta de qualquer medida prática para transformar nosso compromisso em êxito, considerando-se que já decorreu grande parte do tempo disponível para as principais providências operacionais visando o sucesso e a propaganda (positiva!) do Brasil.

Pelé associou a sua imagem, de indiscutível prestígio, na campanha de arregimentação dos votos que nos elegeram anfitrião do maior evento futebolístico deste quadriênio.

O PAPEL DA PRESIDENTE

A nova presidente do Brasil herdou a responsabilidade de enfrentar um grupo de problemas, os mais sérios do período republicano. Durante quase uma década, todos os recursos públicos foram desviados da consolidação de uma infra-estrutura sólida para uma atitude distributiva, demagógica. Preferiu-se abertamente doar o peixe em vez de ensinar a pescar.

Neste momento, com a crise rondando toda a economia mundial, a nova presidente tem de reconstruir o país ao mesmo tempo em que necessita regularizar nossas finanças, conter o endividamento público. Nesta reconstrução, estão incluídos a recuperação dos transportes urbanos, do rodoviário com novas estradas, o ferroviário e o portuário, que incidem diretamente no “custo Brasil”. Precisa reformular o serviço aeroportuário que, mesmo sem a Copa ou os Jogos Olímpicos, já simboliza o caos. Isto tudo sem contar os investimentos específicos da Copa e das Olimpíadas, que enfrentam como agravante altas exigências muitas vezes desproporcionadas das entidades internacionais FIFA e COI.

VOLÚPIA

O desafio, quase insuperável, conta com o agravante da incomensurável volúpia de empreiteiras e intermediários, multiplicando várias vezes o preço justo das obras programadas em favor de um proveito próprio. Existe ainda o fisiologismo político criando milhares de cargos, com salários nababescos. A simples leitura dos projetos dá para revoltar qualquer pessoa de bom senso que tenha tomado conhecimento do noticiário a respeito.

Até quanto ao preparo dos atletas que poderiam nos defender nos dois mega eventos, chegam-nos notícias de corrupção originadas no partido do Ministro dos Esportes, no programa Segundo Tempo.

UMA ESPERANÇA

A esperança dos brasileiros é que, em menos de dois meses de mandato, o novo governo já deu provas de maior seriedade e responsabilidade no trato da coisa pública. A indicação de Henrique Meirelles para reger a orquestra de recursos pecuniários e humanos, a decisão por uma restrição a gastos menos prementes do orçamento da República, o desejo de não cortar as verbas destinadas aos mega eventos já estão em prática.

O problema agora é o de gestão. A mesma firmeza que Dilma mostrou na questão do salário mínimo pode (ou deve!) voltar-se para as questões de gestão. A próxima luta é fazer a turma trabalhar, sem corrupção. Acordar os que estão amorcegados.

FISCALIZAR SEM ATRASAR

Entre outros grandes problemas que o nosso país enfrenta para levar avante a organização do Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos, está o da falta de tempo hábil para começar a operacionalização da infra-estrutura daqueles dois mega eventos. Não bastassem as questões de corrupção e a de incompetência humana para a gestão dos problemas, existe ainda a burocracia, que é congênita em toda a administração pública nacional.

Recebemos com grande reserva informações procedentes de diversos veículos que o Ministério Público do Rio de Janeiro criou uma comissão especial para fiscalizar projetos, obras e investimentos para os Jogos Olímpicos de 2016. Um grupo de cinco promotores pretende inspecionar tudo, partindo do impacto ambiental das novas obras até a aplicação dos recursos públicos, o cumprimento dos contratos e o andamento das licitações.

Segundo o coordenador do grupo, Sávio Bittencourt, o objetivo do Ministério Público é evitar que ocorram os mesmos problemas que se verificaram no Pan-americano de 2007, no Rio de Janeiro.

Nada melhor para a lisura das prestações de contas do que termos o Judiciário “de olho” nos trabalhos dos Jogos Olímpicos, evitando “a priori” o que não teria remédio “a posteriori”.

Entretanto, a participação do Ministério Público do Rio de Janeiro, no seu afã de colaborar, pode tornar-se um instrumento para aumentar ainda mais a burocracia que levaria a uma sistemática negativa, prorrogando prazos e retardando obras que já deveriam estar em plena execução.

Se a participação tiver o objetivo de “aparecer”, para colocar a colher no grande caldeirão, a função do Ministério Público deixará de ser uma colaboração. Esta presença será muito bem-vinda se a missão fiscalizadora puder ser feita sem causar perda de tempo.

Este é o grande desafio dos promotores públicos: fiscalizar sem atrasar. Se for obtido, o Brasil terá muito a agradecer a eles.

PERDEMOS EDSON BISPO DOS SANTOS

O esporte brasileiro perdeu Edson Bispo dos Santos, um dos mais consagrados jogadores de todo o basquete nacional. O noticiário do falecimento do nosso grande cestobolista, por maior que fosse, não transmitiu o nível da grandeza obtida por Edson.

Neste texto decidimos substituir os adjetivos louvarinheiros pelo substantivo, pelo balanço de feitos que muito poucos obtiveram em todo o Brasil.

Vejam quem foi Edson:
Nasceu no Rio de Janeiro RJ em 27/05/1935

Clubes em que atuou: Vasco da Gama RJ (1952 a 1958), Corinthians SP (1959), Palmeiras SP (1960 a 1970) e Hebraica SP (1973) onde encerrou a carreira de jogador.

Títulos pela Seleção Brasileira Masculina de Basquete

-Campeão Mundial em Santiago, Chile, 1959
-Medalha de Bronze nos Jogos Olímpicos de Roma, Itália, 1960
-Medalha de Bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Japão, 1964
-Medalha de Ouro nos Jogos Pan Americanos de Cali, Colômbia, 1971
-Medalha de Prata nos Jogos Pan Americanos de São Paulo, Brasil, 1963
-Medalha de Bronze nos Jogos Pan Americanos do México, México, 1955 e de Chicago, USA, 1959
-Bi Campeão Sul Americano em Santiago, Chile, 1958 e Buenos Aires, Argentina, 1960
-6º Lugar nos Jogos Olímpicos de Melbourne, Austrália, 1956
-7º Lugar Jogos Pan Americanos de Winnipeg, Canadá, 1967

Na Seleção Brasileira Masculina de Basquete, como pivô, disputou 60 jogos em competições oficiais, marcando 589 pontos.

Como Técnico da Seleção Brasileira Masculina de Basquete em 7 competições oficiais, dirigiu 53 jogos, obtendo 40 vitórias e 13 derrotas.

-Campeão Sul Americano, Colômbia, 1973
-6º Lugar Campeonato Mundial de Porto Rico, 1974
-4º Lugar Torneio Pré Olímpico das Américas, Canadá, 1976
-Medalha de Bronze Jogos Pan Americanos do México, México, 1975
-Vice Campeão Sul Americano, Colômbia, 1976

Diretor da Federação Paulista (Setor Desportivo Educacional) e da Associação de Veteranos de Basquete do Estado de São Paulo.

A ESPERANÇA É MEIRELLES

Desde quando o Brasil conquistou, em pleitos inolvidáveis, a sede da Copa do Mundo de Futebol 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016, passamos a alertar, nas dezenas de textos que já escrevemos, sobre os problemas do uso idôneo dos recursos que serão colocados para estes eventos pelos poderes federal, estadual, municipal, pelas entidades autárquicas e pela iniciativa privada.

Os precedentes que tivemos com os Jogos Desportivos Pan-americanos, realizados no Rio de Janeiro, nos fazem ficar gelados diante do que poderá ocorrer com as outras duas mega realizações de muito maior vulto, se alguma atitude muito séria não for tomada. As despesas de 2007 foram dez vezes maiores que as previstas no orçamento inicial. O Tribunal de Contas da União e outros órgãos fiscalizadores reprovaram veementemente as prestações de contas. As palavras “desvio de dinheiro” figuram repetidamente em todos os relatórios contábeis no período que se seguiu à realização dos Jogos.

Na área das construções, o Pan transformou-se em um criatório de elefantes brancos, o que gerou uma mídia especializada em desvios da correção, na qual o colega Juca Kfouri e o consultor Alberto Murray tornaram-se verdadeiros “experts”. Eles apontaram com grande propriedade o caminho torto seguido pelos gestores dos recursos. Afinal, alguém precisa ser responsabilizado pelos desmandos. Este é o desejo da opinião pública.

O ESTÍMULO DA IMPUNIDADE

A impunidade aguçou ainda mais a cobiça dos que (pelo menos até agora) se aproveitaram das benesses do Pan-americano. Os orçamentos de 2014 e 2016 são muito maiores e o raio de abrangência mais amplo, pois no Mundial de Futebol outras sedes estarão envolvidas, além do Rio de Janeiro. Serão mais gestores e empreiteiras a colocar suas colheres num grande e dadivoso caldeirão. A atração pelos recursos do orçamento é imensa.

A própria FIFA e o Comitê Olímpico Internacional entram voluptuosamente na participação das verbas dos mega eventos como sócios, uma parceria nas receitas de publicidade que irá fortalecer com dinheiro brasileiro o bem nutrido cofre das entidades internacionais. Neste contexto, a Organização Pan-americana foi infinitamente mais comedida.

O SALVADOR POSSÍVEL
Estes temores, entretanto, não são preocupação exclusiva de alguns jornalistas entre os quais o titular deste blog. A quase totalidade da população consciente deste país está pessimista quanto ao destino que o dinheiro público e o privado tomará de hoje até os próximos cinco anos, dinheiro este que será retirado da saúde, da educação e da infra-estrutura das obras e transportes responsáveis pelo “custo Brasil”.

Dentro de um deserto de pessoas com a qualidade profissional e estrutura moral para comandar a aplicação de grande porcentagem do próprio PIB nacional, surgiu, por indicação da presidente Dilma Roussef, o nome do economista Henrique Meirelles, uma figura intocável por sua idoneidade e competência.

Ele é um dos principais responsáveis pelo equilíbrio da nossa economia, pela contenção da inflação, pela melhoria da imagem do Brasil num panorama mundial. É também vencedor das pressões das alas de esquerda mais radicais do nosso país. Não existe ninguém mais capacitado para ficar com a chave do cofre.

POLITICAGEM

Quando o ex-presidente do nosso Banco Central não havia ainda sido indicado para ocupar a APO (Autoridade Pública Olímpica), os partidos da base governista, principalmente os mais fisiologistas, já estavam de “olho gordo” neste cargo. Colocavam-no em nível dos ministérios mais visados, hierarquizados pelo volume de recursos que o envolvem. Queriam indicação política para o cargo.

Dirigentes do PMDB chegaram a declarar que não consideravam a nomeação de Meirelles como peemedebista (ao qual ele pertence). Ele não era integrante da “cota do partido”, mas da “cota pessoal” da presidência da República. Nada mais claro e evidente de que o fisiologismo não poderia contar com Meirelles para fazer política, para influir e participar de uma porcentagem dos recursos que serão colocados à disposição para a construção de estádios e outras obras necessárias para os dois mega eventos.

Compreende-se: a APO terá até 184 cargos com remuneração de 15 mil a 22,1 mil, num total de 30 bilhões de reais. O diretor executivo receberá 21 mil mensais e outros seis diretores perceberão 20 mil de salário. Haverá ainda 29 cargos de superintendência de 18 mil mensais, 92 cargos de supervisão de 15 mil. Para finalizar, estão previstos ainda 35 postos de assessores com remuneração de 15 mil e outros 20 assessores com 18 mil.

Como se tudo não bastasse, 300 servidores concursados poderão ser colocados à disposição da APO, recebendo ainda pelo comissionamento das funções gratificadas 3 ou 5 mil.

O paradoxo acontece justamente no ano em que o Comitê Olímpico Internacional e outras entidades comemoram este 2011 como “Voluntariado no Esporte”.

MOVIMENTAÇÃO DO FISIOLOGISMO

De acordo com a legislação, Meirelles somente poderá assumir dentro de 40 dias. Ele tem de cumprir uma “quarentena” após ter exercido sua missão no Banco Central. Isto, certamente, dará um pouco mais de tempo para o fisiologismo agir.

Aliás, começam a ser sentidos os primeiros passos da politicagem, procurando reduzir a influência de Meirelles. Infelizmente, a medida que criou a APO abre brechas para os políticos poderem prevaricar na organização dos mega eventos. A principal delas é que está previsto um mandato de apenas quatro anos. Dessa maneira, a renovação da APO no ano de 2014 será conturbada pelo processo eleitoral, processo que, inegavelmente, vai abrir um espaço enorme para a corrupção. A manutenção de Meirelles, portanto, vai depender das eleições presidenciais de 2014.

QUESTÃO DE PATRIOTISMO

Pelo que se vê, Meirelles vai ter que mostrar grande determinação diante da enorme pressão que ele vai sentir dos políticos, que querem preservar os cargos destinados a técnicos nas especialidades esportivas e administrativas para apaniguados sem a mínima qualificação para os cargos. Terá também que enfrentar “lobbys” fortíssimos em favor de empreiteiras. Se permanecer no cargo até o final de 2016, vai ter que matar um leão por dia.

Se ele vencer estas batalhas, o Brasil sairá fortalecido, fixando sua imagem como país maduro para o resto do mundo e usufruirá na economia, no turismo o trabalho digno realizado.

Se, ao contrário, a politicagem triunfar, nossa imagem internacional irá para a lata do lixo, voltaremos ao nosso terceiro-mundismo bem primário e a auto-estima nacional vai cair.

O Brasil espera de Meirelles a mesma firmeza e determinação que ele demonstrou nos seus oito anos de Banco Central e que o levaram a não aceitar um terceiro mandato.