UM FIM DE SEMANA PARA FICAR EM CASA

             O esporte do nosso país vem atravessando, na segunda quinzena de abril com o “apêndice” do feriado de 1º de maio, uma temporada de eventos decisivos em várias modalidades, principalmente na área do futebol, do automobilismo, do voleibol masculino e feminino e do basquete masculino.

            Em futebol, estamos na fase decisória de todos os campeonatos estaduais, com jogos que irão movimentar multidões. Na Libertadores da América, estão programados encontros em que há uma grande presença de clubes brasileiros.

            Recentemente no voleibol, uma decisão sensacional mobilizou mais de 17.000 espectadores: o SESI trouxe para São Paulo o principal título do país na categoria masculina. No feminino, outra grande final está na programação.

            Também no basquete estamos entrando em etapa decisiva: mais um grande espetáculo para o amante dos esportes acompanhar pela TV.

            Neste quadro geral de grandes atrações, teremos no dia 1º de maio a quarta etapa do Mundial da Fórmula Indy, um circuito de rua com a expectativa de que os 50.000 lugares, resultantes da ampliação das arquibancadas do Sambódromo, sejam ocupados.

            O espectador que decidir acompanhar todos esses eventos da poltrona da sala de sua própria residência ainda vai ter mais um atrativo: a disputa da “Copa do Rei” na Espanha e jogos de outros campeonatos internacionais dos quais participam outros jogadores brasileiros.

            Um fim de semana para ficar em casa.

            A2 E A3 TAMBÉM SÃO ATRAÇÕES

 

            Neste grande banquete esportivo, lamentavelmente, estão ficando de fora outros espetáculos que, sem dúvida, dariam grande Ibope entre os telespectadores. Trata-se dos jogos decisivos das séries A2 e A3, das quais participam equipes de grande história e tradição, como do “Nho Quim”, ou seja, o XV de Piracicaba, o XV de Novembro, de Jaú, o Comercial de Ribeirão Preto, o Guarani de Campinas. Algumas partidas da fase final registraram público de mais de 12.000 espectadores, sem praticamente nenhuma transmissão televisiva. A série A3, mais afortunada, conta com algum apoio da Rede Vida.

            Grande parte do espaço disponível na programação de um número considerável de emissoras das TVs abertas e a cabo é ocupada com partidas dos campeonatos da França, Itália, Holanda, Espanha, Alemanha e até da Argentina e da Rússia. A recíproca não é verdadeira, pois raramente estes países transmitiriam, como nós fazemos, jogos completos do Campeonato Brasileiro.

            Achamos que se este tempo precioso fosse dedicado para os jogos da A2 e A3 de São Paulo, e também para a transmissão de confrontos de outras modalidades, ele seria bem melhor aproveitado.

            Os programadores e anunciantes deveriam ser convencidos que isto incentiva a renovação do esporte brasileiro. Na pirâmide do esporte, fortalecer a base é a melhor maneira de elevar o vértice técnico.

            Este tema nos empolga. Se possível, voltaremos a falar dele em outro artigo deste blog.

 

            O FALECIMENTO DE MARIETINHA

 

            Meu amigo Antonino Silva de Mococa manda-nos um e-mail que me deixou pesaroso. Ele conta o falecimento, neste 25 de abril, da Profª Marieta Lacerda de Figueiredo, primeira campeã estadual infanto-juvenil defendendo a cidade de Mococa, que começava a se destacar na natação.

            O tempo, o grande apagador da lousa da vida, faz com que poucos saibam sobre esta jovem tantas vezes citada na A Gazeta Esportiva do final dos anos quarenta e anos cinqüenta. Era este o período em que eu principiava o meu trabalho no “mais completo jornal de esportes do continente”. Eu era o editor das modalidades aquáticas e me lembro de Mococa como uma das melhores equipes do Estado, treinada por Narciso de Oliveira Carvalho.

            A Gazeta Esportiva estava em seus primeiros anos da publicação diária e a piscina da A.E. Mocoquense era uma das principais do Estado, construída pelo espírito pioneiro de Chico Piscina, até hoje reverenciado.

            Aos familiares de Marietinha, os sentimentos deste jornalista, arauto de suas glórias.

QUEM FOI PIEDADE!

Minha amiga Laurete Godoy mandou-me há alguns meses um texto com uma pesquisa que ela fez sobre a vida e a carreira da grande nadadora Piedade Coutinho, uma pioneira do esporte aquático brasileiro. Um bom trabalho que me despertou muitas lembranças.

Meus primeiros anos de cronista esportivo coincidiram com os últimos anos de militância de Piedade nas piscinas do país e do exterior. Estreamos no jornalismo em março de 1946 e Piedade competiu até 1952, nos Jogos Olímpicos desse ano, em Helsinque. Várias vezes, quando estava em São Paulo, ela nos visitou na redação de A Gazeta Esportiva, na Avenida Cásper Libero.

Piedade nasceu em 2 de abril de 1920, na Ilha do Governador. Ela cresceu à beira-mar e demonstrava, desde a primeira infância, grande pendor para a natação.

Naquela época, a Marinha era muito vinculada à natação nacional. Diversos campeões brasileiros eram marinheiros e defendiam a Liga de Esportes da Marinha, como Benevenuto Nunes, Manoel Vilar e outros. Foi quando o comandante Irineu Ramos Gomes, com a autorização da família, levou-a para treinar no C.R. Guanabara, que havia construído a primeira piscina de 50 metros do Rio de Janeiro em 1934. No certame inaugural daquele natatório, ela venceu a sua prova num páreo cujas dez raias estavam totalmente ocupadas pelos diversos nadadores dos clubes da Liga Carioca de Natação.

O sucesso de Piedade foi meteórico e, em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, ela já foi a primeira nadadora brasileira a obter uma classificação olímpica (5º lugar).

Os Jogos Olímpicos de 1940 e 1944 não foram realizados por causa da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando ocorreu o ápice de sua carreira. Nos Jogos de Londres, em 1948, ela voltou a competir e obteve o quinto lugar, mesma classificação obtida na mesma prova dos 400 metros nado livre em 1936. Esta proeza tornou-a novamente finalista olímpica doze anos depois.

Em 1952, ela voltou a integrar a nossa equipe olímpica, em Helsinque, mas não obteve classificação para a final. O astro dos esportes aquáticos desse ano foi o jovem de Marília, Tetsuo Okamoto. Ele conquistou a medalha de bronze nos 1.500m nado livre, sagrando-se o primeiro medalhista olímpico da natação brasileira.

No âmbito latino-americano, Piedade tinha como grande rival a argentina Janete Campbel. Foi campeã brasileira e sul-americana diversas vezes e bateu vários recordes como a melhor especialista em nado livre do país.

Sua carreira foi de 1934 a 1952, portanto, por dezoito anos. Casou-se e passou a ser Piedade Coutinho Tavares. Teve dois filhos. Nos anos 40 foi para o Fluminense FC e lá era treinada pelo famoso técnico Caximbau, um dos maiores do país na época.

Piedade faleceu em 14 de outubro de 1997, como uma das mais expressivas figuras de nossa aquática.

Esta coluna tem entre seus objetivos a preservação da história do nosso esporte e não pode deixar de exaltá-la pelo que ela fez pelo seu país e de agradecer Laurete Godoy por ter lembrado de Piedade e por alguns preciosos dados de sua pesquisa que foram por nós aproveitados.

A MORTE DE DOMINGÃO

As colunas especializadas dos nossos jornais anunciaram o falecimento, aos 95 anos, de Domingos Lug de Faria. Os esportistas da velha guarda lembram-se dele como sucessor de Sylvio de Magalhães Padilha, no final da década dos anos 50, no comando do DEFE, Departamento de Educação Física e Esportes do Estado de São Paulo, antes dessa entidade tornar-se Secretaria Estadual de Esportes e Turismo.

Domingão foi um bom diretor. Ativo, seguiu com rigor o calendário deixado por Padilha. Era acessível e brilhou na realização do Curso Técnico e Pedagógico do Estado de São Paulo, destinado ao aperfeiçoamento dos professores de Educação Física. Ele era mineiro, foi enterrado na cidade de Monte Santo de Minas (MG).

PONTUALIDADE BRITÂNICA

O Estadão publicou no último domingo em seu caderno de esportes duas matérias que, mesmo não tendo esta intenção, estabeleceram um paralelo entre a cultura britânica e a nacional na área da organização de eventos, mostrando a diversidade de comportamento, valores e até da idoneidade do país insular em relação à nossa mentalidade tupiniquim. Numa delas diz que, mais de um ano antes do início dos Jogos Olímpicos, tudo está praticamente pronto em Londres.

Um relógio na Trafalgar Square, o ponto mais movimentado e símbolo da cidade, marca os dias que faltam para o desfile de abertura dos Jogos em julho do próximo ano. O Estádio Olímpico, com capacidade para 80.000 pessoas, já está com as obras concluídas e até o gramado está plantado para receber as provas de atletismo e a parte do cerimonial.

A verba para o maior evento do ano próximo foi de 9,3 bilhões de libras, o que corresponde a 24 bilhões de reais. Este dinheiro se destinou à construção do estádio olímpico (a ser usado para o basquete para 12 mil pessoas), do velódromo para 12 mil pessoas e do centro aquático para 12.300 pessoas. Após os Jogos Olímpicos, a capacidade de todos os estádios será drasticamente reduzida para estar de acordo com a realidade esportiva cotidiana do país-sede.

O orçamento, porém, não será investido somente nas citadas novas instalações, mas também na adaptação de outras. O espírito é o de aproveitar também as instalações existentes, sem necessidade de novas despesas.

Pelo que sentimos, nossos amigos britânicos, ao que parece, utilizaram todos os 24 bilhões de reais de forma competente e idônea, despertando a atenção mundial para a alta capacidade da comissão organizadora.

MUITO MAIS DO MESMO

Uma outra notícia do mesmo veículo, publicada também no mesmo dia, em destaque diz que, no Brasil, ainda no início das obras, diversos orçamentos já foram refeitos sob os mais variados argumentos, numa ameaça de repetição da “orgia” de gastos dos últimos Jogos Pan-americanos. O Estadão cita que a reforma do Maracanã, prevista para 705 milhões, já está em um bilhão e cem milhões. A previsão do custo do Itaquerão já foi de 600 para 700 milhões. A reforma do Beira Rio não é mais de 130 milhões. Já está em 270, quase o dobro, e a de Cuiabá já foi de 342 para 500. Cada caso sempre vem acompanhado de uma alegação específica.

Começa a se delinear o script de um filme já visto e de resultados funestos. Um fracasso nos prazos e na administração dos recursos vai expor, com lente de aumento, nossas mazelas para todo o mundo. Nossa imagem internacional, como se dizia antigamente, vai virar “pau de galinheiro” ou “tábua de gaiola”. O nosso posto de sétima economia do ranking mundial poderá perder vários pontos.

É tempo de sermos sérios!

“BOCA NO TROMBONE”

O atraso em obras para a realização de mega eventos já passou a ser cultura regional. Agora, faltando noventa dias para a inauguração dos Jogos Mundiais Militares (mais um entre os múltiplos sediados pelo Rio de Janeiro), vem a notícia que algumas instalações esportivas e os alojamentos não ficarão prontos a tempo.

Embora venha recebendo pouca divulgação, este certame será grandioso. Reunirá 90 países que participarão de 20 modalidades.

Se este fracasso ocorrer, a imprensa internacional vai colocar a “boca no trombone” e propalar aos quatro cantos a nossa incompetência para organizar os próximos outros grandes compromissos da agenda: a Copa das Confederações, o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos.

PRÉ-DISPOSIÇÃO

Não podemos ocultar que a tendência de ampliar ou alardear as possíveis falhas brasileiras é uma realidade na mídia do exterior.

Até a catástrofe da escola de Realengo recebeu um “link” na área do esporte de jornais internacionais. Foi a primeira vez que esta matança coletiva aconteceu no Brasil. O mesmo fato já ocorreu, nas últimas décadas, mais de 20 vezes em países como Estados Unidos e Alemanha. Mas, no nosso caso, o Mundial e os Jogos Olímpicos entraram no esquema.

Estamos na mira de franco-atiradores internacionais que nem sempre aceitam com satisfação o nosso progresso econômico e o acesso do país ao sétimo posto no ranking da economia mundial.

ENFIM… “UMA DENTRO”

Depois de tantas medidas criticáveis, os responsáveis pela organização do Mundial deram “uma dentro”: contrataram como assessor na área de segurança o ex-prefeito de Nova York, Giuliani. Ele destacou-se em seu mandato por uma extraordinária redução da criminalidade ao implantar o programa “Tolerância Zero”.

Não sabemos ainda o espaço e a interferência do famoso norte-americano dentro da estrutura da segurança dos mega-eventos programados para o nosso país, mas se ele tiver força desejável, muita coisa vergonhosa não irá ocorrer.

Como pessoa de bom senso, ele declarou em entrevista que o Brasil terá muito a perder se a segurança da Copa fracassar.

Claro que concordamos inteiramente com ele.

NADA PARA SÃO PAULO!

Começa a ganhar corpo uma corrente que interpreta que a atitude do BNDES, em negar-se ser avalista das obras do Itaquerão, tenha uma conotação de regionalismo.

Seria uma das formas dos políticos e “cartolas” sediados no Rio de Janeiro tirarem de São Paulo o único item de destaque que sobrou para o Estado bandeirante: a sede da abertura da Copa do Mundo.

Criar dificuldades é a melhor maneira de alijar uma comunidade que contribui com quase 50 por cento da arrecadação de impostos do país, inclusive os federais que financiam toda a Copa no Rio de Janeiro e outros Estados. O povo que dá a maior contribuição para que a Copa seja realidade acabará ficando sem sediar coisa alguma. Tudo vai para os mais “vivos” na política esportiva.