Quando o Brasil conquistou, em memoráveis congressos realizados na Europa, as sedes do Mundial de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, o nosso povo exultou. Esta era uma oportunidade de mostrar ao mundo a parte positiva do país. Neste rol incluíam-se mais de oito mil quilômetros de litoral com belíssimas e famosas praias; tínhamos também a originalidade do Pantanal, a grandiosidade de Amazônia e outros aspectos que causariam impacto a europeus ou habitantes de outros continentes.
Entre os trunfos do nosso baralho, poder-se-ia incluir o Cristo Redentor, as escolas de samba, a originalidade da Bahia, o panorama das nossas plantações que transformam a agropecuária nacional em garantia contra a fome do mundo. Complementando este quadro, há a alegria e a cordialidade do povo brasileiro.
Uma visita de centenas de milhares de pessoas transformaria cada um dos hóspedes em propagandista de nossas virtudes e iria repercutir no incremento da economia e aumentar o índice de empregos formais do país. Seria um largo passo para nos colocar entre as maiores nações do mundo. Não seríamos mais os “emergentes”, mas um país da realidade.
É verdade que esta alta exposição das particularidades nacionais perante as outras 200 nações que integram a ONU tem o outro lado da moeda. Ela também projeta luz sobre as nossas fraquezas, as nossas imperfeições e a corrupção que, lamentavelmente, ocupa várias áreas da sociedade brasileira. Ficaríamos expostos às críticas dos veículos de comunicação que, praticando o jornalismo “mundo cão”, estão muito mais interessados em nossas mazelas do que em nossas virtudes. Estes últimos dias, aliás, estão sendo muito pródigos neste particular.
Em uma única semana recebemos um punhado de más notícias. De início, que São Paulo perderá o direito de sediar os jogos do certame das Confederações por vacilações, burocracia e falta de apoio à conclusão do estádio previsto para ser construído em Itaquera. A seguir, vem a informação que o presidente da CBF teria vendido seu voto a um país árabe na eleição para sediar a Copa do Mundo de 2018. Tem também a informação de que há sérios problemas para a construção do Estádio do Palmeiras, que será um futuro postal da cidade.
Outra informação negativa que nos chega é a de que as empreiteiras que ganharam as licitações para construir os estádios da primeira fase da Copa do Mundo já recorrem ao estratagema de apelar por verbas complementares, medida fortemente usada nos Jogos Pan-americanos e que decuplicaram o custo final daquele evento.
O público ficou sabendo também que o “doping” continua comendo solto em diversas modalidades, com maior destaque para o ciclismo, grande cultor desta ilicitude.
No mesmo dia também é divulgado o estranho acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e o COB com o Comitê Olímpico Internacional, estabelecendo um contrato “secreto” que privilegia o COI na organização dos Jogos Olímpicos de 2016. Por que ele é secreto? É que deve haver muito de vergonhoso a esconder. Uma das cláusulas prevê até a proibição de recursos ao Judiciário, medida que já causou a oposição da Ordem dos Advogados do Brasil. A distribuição dos eventuais rendimentos também tornou-se alvo de contestações.
Todo este noticiário, divulgado em apenas um dia, na quinta-feira, 12 de maio, não ficará, certamente, dentro das divisas do território nacional. Com tantos correspondentes representando em nosso país os seus respectivos veículos, ele ganhou, na mesma hora, as páginas e horários dos mais influentes veículos de comunicação do mundo.
Toda a imagem positiva que fora a meta motivadora de nossa candidatura a anfitrionar os dois maiores eventos do esporte radicaliza-se exatamente no extremo oposto. Nesta altura, é preciso parar um pouco e ponderar que esta avidez por um lucro pessoal deve ser arrefecida em favor de um valor coletivo mais amplo que se chama Brasil.
O PERIGO DE MEXER COM SÃO PAULO
A notícia bomba destes últimos dias é a exclusão de São Paulo como uma das quatro sedes da Copa das Confederações, evento que se realiza um ano antes do Mundial e que vale como um teste da estrutura e organização de um país para o mega evento do futebol no quadriênio.
A citada notícia, atribuída ao secretário geral da FIFA, embora negada, contou com a complacência dos principais dirigentes do futebol nacional residentes no Rio de Janeiro.
A alegação é de que o estádio de Itaquera não estaria pronto para sediar a Copa das Confederações. Este fechar de portas com grande antecedência, partido de quem está longe da realidade nacional, demonstra um completo desconhecimento das conseqüências desta resolução. Partiu de uma insensibilidade saxônica, que ignora que a Grande São Paulo beira 15 milhões de habitantes, sendo maior do que muitos países europeus e que o Estado bandeirante tem mais de 40 milhões, superando diversas potências mundiais.
Naturalmente, um certame que segrega os paulistas vai causar uma revolta que certamente interferirá não só no brilho da Copa das Confederações, mas do próprio Mundial. Esta atitude fará secar o entusiasmo de um Estado responsável por 33,9 por cento do PIB nacional, grande centro esportivo, com seus clubes obtendo quase sempre as melhores colocações do futebol brasileiro.
O evento sem o beneplácito de São Paulo será um evento aleijado. Vai estar incompleto.
Se os dirigentes da CBF e outras entidades federais, por regionalismo, estão apaniguados ou são cúmplices da FIFA, eles não estarão levando vantagem em podar os paulistas, pois vão ficar com o “resto” do Mundial. Na hora em que os bandeirantes verificarem que estão na segunda classe, perderão o entusiasmo pelo certame do qual o Brasil é o anfitrião.
Na África do Sul, um ano antes, também alguns estádios não estavam completos e, mesmo assim, a Copa das Confederações foi realizada nos locais então disponíveis. Morumbi, Pacaembu e até possivelmente o estádio do Palmeiras poderão ser palco de muitos jogos internacionais sem que este fato implique em qualquer grande prejuízo ou fator de vergonha. O que faltou foi vontade política ou espírito de luta de quem deveria, por obrigação, defender o Estado de São Paulo.
A responsabilidade pelo possível desinteresse dos paulistas, obviamente, está com aqueles que, como “vaca de presépio”, deram o sim aos alheios e prepotentes dirigentes internacionais.
Já há vozes dizendo abertamente que o Brasil não deveria ter lutado pela sede da Copa do Mundo.
Em tempo: Se o Maracanã não ficasse pronto para a Copa das Confederações, a CBF concordaria em tirar a sede do Rio de Janeiro?