Para os outros…nada?

Terminaram melancolicamente os Jogos Mundiais Militares. Segundo o “Estadão”, a competição não empolgou os cariocas. Os locais das disputas não receberam o público que se esperava e o Comitê Organizador chegou até a distribuir entradas gratuitas, sem resolver a questão.

O Brasil foi o campeão geral, mas reforçado por competidores de alto rendimento que assinaram contrato temporário com as Forças Armadas para disputar o certame. No meu tempo, isto tinha o nome de “laço”.

É impressionante a avidez com que dirigentes e políticos cariocas estão concentrados em levar para o Rio de Janeiro a sede de todos os certames de grande importância internacional, não dando a menor oportunidade para os demais Estados do nosso país. Provavelmente, o público e o entusiasmo seriam maiores em outras unidades não agraciadas com nenhum mega evento, uma vez que os fluminenses estão totalmente voltados para o Mundial de Futebol, para os Jogos Olímpicos e, nesta semana, para o sorteio das chaves da Copa do Mundo.

Deve-se sempre levar em consideração que os recursos federais que tornam possível a realização de todas estas super disputas vêm de todo o país e são aplicados no Rio de Janeiro.

Está na hora dos dirigentes e dos políticos das outras unidades de nossa federação unirem-se para por fim a estas prioridades cariocas que estão acontecendo no Brasil desde o desembarque de D. João VI em 1808.

Toda a hierarquia nacional do esporte também está nas bordas da Baía de Guanabara, integrada pelo COB de Nuzman e a CBF de Ricardo Teixeira, cuja atuação, em nível nacional e mundial, não é, para nós, motivo de orgulho.

Aplaudindo a Quarta Divisão

Neste último fim de semana, o Guarani do Ceará empatou em 0 a 0 com o Santa Cruz de Pernambuco. A novidade foi o registro de um público de 42.000 pessoas em campo, maior do que os 37.000 do Corinthians (líder) x Cruzeiro no Pacaembu, dos 6.547 do Fluminense e Palmeiras, em Volta Redonda, e de todos os demais jogos de sábado e domingo do “Brasileirão”.

Há anos que defendemos o princípio da importância da base na pirâmide do esporte e a tese de que os meios de divulgação deveriam focar mais as divisões impropriamente chamadas de “inferiores”.

A maioria dos veículos de comunicação, principalmente a TV, dedica o espaço que excede à nossa divisão principal a jogos internacionais e encontros sem expressão, realizados no exterior, incluindo até o Campeonato Argentino. Entretanto, estes 42.000 espectadores em um encontro da Quarta Divisão do Nordeste demonstram um índice de interesse pelas bases do futebol que não têm sido valorizadas o quanto merecem (exceção honrosa para a Rede Vida). Já é hora de começar a divulgar estas partidas e colocar na vitrine a qualidade de milhares de jogadores que poderiam mostrar habilidades que ficam anônimas. Vamos dar aos nossos conterrâneos do Interior de São Paulo, do Nordeste e do Centro-Oeste o espaço reservado até hoje a pelejas rotineiras do longínquo Campeonato Francês ou do Leste Europeu.

Dirigentes de ontem e de hoje – III – A remuneração de uma amizade

o ciclista Mauro Ribeiro e o Major Sylvio de Magalhães Padilha

28/07/1982: O Major Sylvio de Magalhães Padilha (direira), presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, entrega uma placa de prata ao ciclista brasileiro Mauro Ribeiro.

Há momentos em que a gente precisa abdicar do pudor da modéstia e contar um fato do qual fomos protagonista. Creio que, cronologicamente, ele se refere a um dos últimos atos de voluntariado dos velhos tempos, antes de chegarmos à realidade pouco lisonjeira demonstrada hoje pelos meios de comunicação atuais que divulgam fartamente os mega eventos.

No final dos anos 80 do último século, a conduta digna de Sylvio de Magalhães Padilha incomodava algumas confederações. Elas tinham outras ideias sobre a gestão do esporte, principalmente na área financeira. O apoio ao trabalho do Major resultou na minha indicação, em 1982, para a chefia da Assessoria de Imprensa do COB, cargo este exercido, obviamente, voluntariamente e sem remuneração.

Naquela década, Padilha, acompanhando o êxito do meu trabalho na empresa de eventos que eu presidia, pediu que eu também desse um apoio à área de marketing.

O esporte nacional não nadava ainda em dinheiro quando amadureceram os preparativos para os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Era importante e urgente a conquista de novos recursos para complementar a dotação do Governo para todas as necessidades da nossa delegação na capital da Coréia.

Nesse momento, por grande felicidade, conseguimos o “sim” de um importante cliente de nossa empresa para dar tranqüilidade ao COB. Era uma vultuosa quantia, difícil de precisar exatamente o quanto seria hoje devido às mudanças de moedas pelas quais nosso país teve de passar por causa da inflação galopante, mas a participação daquela empresa privada praticamente correspondia quantitativamente à dotação do Governo Federal.

Considerando-se a minha condição de dirigente voluntário do COB, abri mão de qualquer comissão ou forma de remuneração pessoal  pela intermediação na conquista daqueles recursos.

O agradecimento pelo ato está em três diplomas de honra ao mérito e benemerência que guardo com muito orgulho em meu escritório.

Dezoito anos depois destes Jogos Olímpicos, eu escrevi o livro “O Evento Esportivo como Objeto de Marketing”. O texto do prefácio foi de autoria do homem da área de publicidade da Philips que havia assinado a autorização da verba olímpica. A retribuição que recebi pela minha renúncia a um lucro pessoal foi a conquista de uma grande amizade que dura até hoje.

II – Dirigentes de ontem e de hoje – A dignidade de Ferreira Santos

Rapallo – Estamos enviando esta coluna da cidade de Rapallo, na Riviera Italiana, onde estamos numa reunião do Panathlon International. Mesmo assim, não poderíamos deixar de dar prosseguimento à série iniciada com a publicação do dia 4 de Julho.

Nos Jogos Olímpicos que sucederam a segunda Guerra Mundial, as condições econômicas eram bem diferentes das de hoje. Não havia rios de dinheiro correndo em direção aos Comitês Olímpicos Nacionais. A televisão não tinha se desenvolvido o suficiente para as transmissões via satélite como acontece hoje. Contavam-se os tostões quer para organizar os Jogos ou outros mega eventos, quer para enviar uma delegação ao exterior.

Em nosso País, o Comitê Olímpico Brasileiro apelava para a iniciativa privada e para o Governo, que contribuía espartanamente para a finalidade.

Quase sempre a burocracia, que já era uma marca nacional naquela época, aumentava a agonia dos dirigentes, todos eles voluntários.

Na época, o Presidente do COB era o Dr. José Ferreira Santos, um urologista que tinha seu consultório à Rua Conselheiro Crispiniano. Um dos demais membros era Antonio Prado Jr, presidente histórico do C.A. Paulistano e amadorista radical. Ele acabou com a vitoriosa equipe do seu clube assim que apareceram os prenúncios do amadorismo marrom. O Brasil tinha direito a três membros no Comitê Olímpico Internacional, num momento em que o nosso esporte olímpico era ainda incipiente. O Dr. Ferreira Santos era chamado de “Cazuza” pelos mais próximos.

Um dia, entrevistando-o em seu consultório, ele falou de sua agonia. Juntamente com os demais membros brasileiros do COI, ele havia endossado um título de um banco de São Paulo para possibilitar a ida da delegação à Olimpíada enquanto não viesse a verba oficial. Todos os seus bens seriam perdidos se, por alguma razão, a verba governamental não saísse.

Quando comparamos este desprendimento com a atitude dos muitos dirigentes de hoje, verdadeiros marajás, com alta remuneração e patrimônio resultante da atividade de “cartola”, podemos avaliar com justiça a qualidade dos dirigentes que já tivemos.

O desprendimento de Ferreira Santos ficou gravado para sempre em minha memória. Lamentavelmente, muita gente da geração atual ignora fatos edificantes como este, que nunca chegou à Internet.

Anos depois Ferreira Santos morreu. Faltou luz no edifício do seu apartamento nas Perdizes e ele precisou subir alguns andares a pé. Eu estava no funeral, realizado no Cemitério da Consolação. Segurei-me para não chorar. Escrevi uma matéria no dia seguinte em que expressava todo o valor do esportista que nos deixava.

Este segundo artigo da série prometida está cumprindo a minha meta que é distinguir o amor ao esporte e o amor ao dinheiro.

Perdemos Fábio Lazzari

Vítima de um ataque cardíaco, faleceu no último dia 1º de julho o esportista e fundador do Panathlon Club São Paulo Fábio Lazzari.

Fábio tem uma larga folha de serviços prestados ao esporte, mesmo antes da existência da Secretaria Municipal de Esportes. Ele foi o primeiro titular da área da promoção esportiva dessa Secretaria, desde 1970, época da sua criação. O primeiro secretário foi Carlos Joel Nelli.

As primeiras disputas da Taça São Paulo de Futebol Junior foram dirigidas por Lazzari, seu criador. O mesmo aconteceu em relação à Olimpíada Infanto-Juvenil da Cidade de São Paulo, cujo desfile inaugural na Avenida São João reunia dezenas de milhares de estudantes e espectadores. Nas últimas duas décadas, Fábio dedicou-se à Federação Paulista de Handebol, onde brilhou por sua eficiente gestão.

Foi Fábio que, na Câmara Municipal, obteve que panathletas, esportistas e amigos fossem lembrados com seus nomes em instituições e logradouros públicos. A solenidade prevista para o próximo dia 05 de agosto, às 10 horas, que dá o nome do ex presidente do Panathlon Club São Paulo, Luiz Baccalá, a uma unidade de saúde na Barra Funda, é resultado de sua iniciativa.

Seu funeral foi realizado com grande presença de personalidades do esporte paulista.

I – A dignidade no esporte – Ontem e hoje

Uma carreira de seis décadas e meia no jornalismo esportivo permite-me uma análise das alterações dos valores e atitudes ocorridos neste longo período. Esta circunstância transformou-nos em testemunha e, em alguns casos, até em protagonista de muitos fatos que aconteceram nestes anos no campo do esporte.

Neste terceiro milênio, após os Jogos Pan-americanos de 2007, e principalmente depois que o nosso país conquistou a sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, as más notícias de superfaturamento dos orçamentos, negociatas, corrupção e tantos outros males que não deveriam existir ganharam espaço majoritário em quase todos os veículos de comunicação.

Uma avidez pelo lucro está presente com enorme amplitude, representada não só pelo empresariado voltado ao grande número de obras e serviços que aqueles mega eventos vão requerer, mas também pelos dirigentes e políticos individualmente, interessados em um quinhão do dinheiro público e privado que irão administrar.

Não é necessário aprofundar mais este aspecto, pois as notícias do próprio dia a dia estão aí para comprová-lo. O importante é estabelecer um contraste dessa atitude com exemplos de dignidade e de espírito público de dirigentes de outrora no manuseio de recursos para mega eventos na área do esporte.

Os IV Jogos Pan-americanos de 1963, em São Paulo (naquele tempo o Rio de Janeiro não tinha a exclusividade dos mega eventos), foram realizados com enorme êxito. As federações paulistas foram convocadas para participar de um grande mutirão de apoio.

A então Federação Paulista de Natação (na época sob a minha presidência) comprou uma coleção de bandeiras dos países participantes para colocar na entrada da piscina do Pacaembu, na Rua Capivari. Cuidou da adaptação das pilastras de partida para as provas de nado de costas, encarregou-se da melhoria dos vestiários, da ornamentação do local e até do serviço médico durante as competições.

Com todas as demais federações partilhando do grande ideal dos Jogos, o certame, que mereceu elogios gerais pela sua organização, acabou custando a décima parte de um orçamento que não contasse com este clima de colaboração e esportividade.

Não foi necessário gastar nada nem com as obras de alojamentos, pois as instalações do CRUSP da Cidade Universitária, que estavam sendo concluídas, serviram de hospedagem aos atletas.

No final da história, feito um balanço geral, sobrou um saldo vultuoso, produto dos ingressos de todas as modalidades programadas e de donativos não utilizados.

Imagine o leitor o destino deste montão de dinheiro nas mãos de dirigentes dominados pela mentalidade tão difundida na atualidade? Pois este dinheiro de São Paulo, com autorização do Governo, foi empregado por Sylvio de Magalhães Padilha na aquisição da antiga sede do Comitê Olímpico Brasileiro, num conjunto de salas de um edifício da Rua da Assembléia, no Rio de Janeiro!

Temos uma dezena de outros casos para contar sobre a conduta dos dirigentes de outrora, um material que extrapola o espaço de uma edição deste blog. O remédio é iniciar uma série de artigos sobre a dignidade do esporte de ontem, da qual este texto é a abertura.