O dinheiro é dos jovens!

O ministro Orlando Silva vem ocupando, na última quinzena, um espaço nitidamente majoritário na mídia nacional (com direito a repeteco na do exterior).

Independentemente da repercussão do noticiário referente ao Mundial e ligado à grande quebra de braço com a FIFA e com os detratores do nosso país, existem outros fatos com conseqüências ainda mais lamentáveis.

O escândalo ligado à área da má aplicação (ou da “não aplicação”) do dinheiro público no programa “Segundo Tempo”, belíssimo em seus propósitos, mas com nota próxima a zero em seus resultados, em uma conotação muito diferente do “imbroglio” que tem como protagonistas FIFA, CBF e o próprio Governo brasileiro, tem, entretanto, outras vítimas.

Fala-se agora do desvio do dinheiro público, do “nosso dinheiro”, para fins eleitorais ou mesmo para o proveito pessoal de alguns políticos. E o lamentável é que, no fundo da questão, este dinheiro não foi tirado somente de nós, mas das crianças, dos jovens e dos escolares que perderam a oportunidade de uma freqüência contínua às praças de esportes, de participar de treinamentos e de competições na área infanto-juvenil.

As autoridades ligadas à segurança pública enfrentam diariamente sérios problemas resultantes da desocupação dos jovens que, na falta de ofertas de lazer, se embrenham em maus caminhos. O ócio é o grande semeador de Cracolândias em todo o território nacional.

O programa Segundo Tempo tinha como um dos seus propósitos o de sanar esta questão. Mas este objetivo não era o único, pois ele também poderia servir como um reforço à eficiência do esporte nacional ao firmar uma infra-estrutura para a nossa atuação nas competições de âmbito nacional e mesmo internacional. Já escrevemos diversas vezes nesta coluna que a altura do nosso vértice técnico depende da largura da base quantitativa, representada pelo número de praticantes. Não se chega ao topo de uma escada, ao pódio, sem pisar nos primeiros degraus; justamente o que o programa do Ministério do Esporte pretendia conseguir.

Os prejudicados com esta nova face do escândalo que ocorre no Ministério do Esporte foram o país e os meninos e meninas que escaparam desta grande prospecção de valores e de talentos que poderiam ter sido descobertos com o projeto “Segundo Tempo”.

O esporte dos que não são campeões também seria beneficiado. Seriam beneficiados todos os praticantes daquele programa com saúde, recreação, amizade e demais proveitos que o esporte proporciona. É deste contingente que saem os dirigentes, os árbitros voluntários e os que lotam as arquibancadas em quase uma centena de modalidades existentes. Faltaria gente somente para a Cracolândia.

Segundo a Revista Veja, o desvio da verba foi de 45 milhões de reais dos orçamentos de 2009, 2010 e 2011. O programa não mostrou nenhum grande evento que tivesse sido realizado pelo Ministério do Esporte com resultados concretos, o que justificaria todo este investimento.

Lastreado em vivências específicas que ao longo dos anos o autor destas linhas teve na A Gazeta Esportiva, implementando eventos como a Operação Juventude, o Programa Pernambucanas de Natação, a Copa Arizona de Futebol Amador, o Revezamento Gigante, e diversas outras realizações massivas, efetuadas com recursos de patrocinadores da iniciativa privada, chegou-se a constatação que muita coisa grandiosa pode ser feita com orçamentos ínfimos. Com as polpudas verbas do Programa Segundo Tempo era de se esperar a existência de ações de conhecimento de toda a população brasileira.

A Operação Juventude, por exemplo, financiada pela Yakult e mais tarde pela Colgate, tinha o propósito de que cada jovem, entre 11 e 17 anos, participasse pela primeira vez na vida de uma competição de atletismo. Projetada no início dos anos 70 para reunir 10.000 jovens em competições regionais (realizadas por voluntários em todo o país), chegou a congregar, em uma de suas realizações, 350.000 competidores e com as melhores classificações competindo em São Paulo, no Ibirapuera, em uma grande final. Tudo isto acontecia com os poucos recursos disponibilizados por uma empresa de tamanho médio na época em que ela se instalava no Brasil.

As Casas Pernambucanas, durante vários anos, realizou uma competição colegial poliesportiva que absorveu todo o oeste do Paraná e Santa Catarina em duas centenas de cidades com recursos bastante modestos. A própria Pernambucanas também patrocinou o Programa Ricardo Prado de Natação, abrangendo um Revezamento Gigante de 50 nadadores competindo cinqüenta por cinqüenta metros. A piscina do Ibirapuera, balizada lateralmente, comportou 42 raias, o que totalizou 2.100 concorrentes em uma só prova. Por um investimento irrisório, realizou-se um evento que obteve o registro no Guinness Book de maior prova de natação do mundo.

A Copa Arizona de Futebol Amador, por exemplo, reuniu mais de 3.000 times em todo o território nacional. São muitos os exemplos de eventos que, com poucos recursos, trouxeram grandes resultados.

Se o Programa Segundo Tempo tivesse um retorno proporcional ao investimento, teríamos resultados do mesmo nível dos exemplos citados.

Achamos que informações completas sobre o número de realizações, locais e modalidades envolvidas deveriam ter sido utilizadas como argumentos por Orlando Silva em sua defesa na Câmara e na imprensa. Elas seriam os dados que convenceriam da sua inocência perante todos que querem ver o Brasil ser um país maduro e respeitado.

Palestra de Aurélio Miguel

O Panathlon Club São Paulo convidou Aurélio Miguel, campeão olímpico e vereador, para pronunciar uma palestra sobre “O futuro do esporte universitário”.

 O medalhista de ouro na modalidade de judô foi recentemente eleito presidente da FUPE (Federação Universitária Paulista de Esportes) e irá expor seus planos aos interessados no convívio panathlético programado para o dia 20 de outubro, quinta-feira, no Salão Grená do Clube Esperia, a partir das 20 horas.

Maiores informações pelo telefone 5572-7356, com Solange

10 DE OUTUBRO

O dia dez de outubro é, para mim, bem diferente dos demais. Nessa data, há sessenta e três anos, eu escrevi a minha primeira notícia para A Gazeta Esportiva, quando o nosso jornal deixava de ser um tablóide semanal para ter sua edição diária.

É óbvio que mais de seis décadas deixaram recordações indeléveis em um jornalista que se apóia na experiência passada para discorrer em seus escritos principalmente sobre fatos referentes ao presente e ao futuro. É verdade que o saudosismo, por si só, também tem a sua importância. Ele vale como resgate da história e mantém vivas nas gerações seguintes informações preciosas que poderiam ir para o túmulo do esquecimento. Tratar o passado apenas como “já era” é uma manifestação de ignorância.

Escrevi não só no primeiro, mas também no último número da edição impressa da Esportiva, quando a sua forma tradicional migrou da rotativa para o visor.

Se fôssemos enumerar aqui tudo o que nos sucedeu em mais de seis décadas da Fundação Casper Líbero, teríamos de escrever um livro e não um artigo. Foi por esse motivo que escolhemos apenas um fato que consideramos mais significativo para representar o prestígio de A Gazeta Esportiva há quase um século. É sobre as transformações que a Avenida Paulista sofreu nos últimos 40 anos.

Quem contempla a via que hoje simboliza São Paulo, com seus arranha-céus, bancos, museus e sede de grandes manifestações, jamais poderia imaginar o seu perfil pacato do começo dos anos sessenta do século passado.

Ela já foi uma avenida tranqüila, formada por mansões de magnatas do café ou de algumas indústrias que começavam a surgir. Era o local de moradia nascido de um loteamento muito bem sucedido, uma iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima na última década do século dezenove.

Setenta anos depois, a persistência da lei do zoneamento provocou um descompasso entre uma área nobre pouco aproveitada diante da demanda de novos espaços. Exigência do progresso.

Naquele momento, as instalações da Fundação Casper Líbero, na avenida de mesmo nome (antiga Rua da Conceição), estavam acanhadas e exigiam uma expansão. Por inspiração de Carlos Joel Nelli foi comprada na Avenida Paulista a mansão da família Von Bullow, co-proprietária da Cia Antártica Paulista.

Depois da aquisição, a grande batalha para a construção da nova sede era a derrubada da lei do zoneamento, fato que foi uma decorrência do prestígio de A Gazeta Esportiva na época. A Câmara Municipal de São Paulo acolheu os insistentes e bem arrazoados pedidos de Carlos Joel Nelli aos vereadores da nossa cidade.

O projeto inicial do edifício Casper Líbero tinha o dobro da altura atual. Entretanto, na época da construção, ele foi surpreendido pela crise de 1968. Seu gabarito precisou ser reduzido. Conforme o projeto inicial, o prédio teria sido tão alto que recebera o epíteto de “Uma luz sobre São Paulo”, e iria até ter de modificar os planos dos vôos para Congonhas quando ele ficasse pronto.

Com a liberação das restrições à altura dos prédios da Paulista, outros empreendedores também se animaram a construir outros arranha-céus. Um dos primeiros foi Nicolau Scarpa, dono da cervejaria que fabricava a tradicional Caracu. Esse prédio está ao lado do Parque Siqueira Campos. Hoje a Paulista é o marco mais expressivo da megalópoles que é a nossa cidade.

Muitas histórias de vida de A Gazeta Esportiva, como as da São Silvestre internacional ou das grandes coberturas, ainda estão por serem publicadas. Mas outros 10 de outubro ainda virão, e eu espero poder contar algumas delas.

A gazetaesportiva.net segue uma tradição histórica que, acredito, quase nenhum outro tem.

É justo que se comemore a data com um grande “oba oba”, por sinal, uma locução criada dentro de A Gazeta Esportiva.