A nossa versão da derrota do futebol brasileiro

Neste momento todos os meios de comunicação voltados para a área do esporte ainda estão concentrados na desilutória participação do Santos diante do Barcelona, na final da Copa do Mundo Interclubes.

Argumentos de todos os tipos são levantados para justificar uma derrota que não foi só de um clube, mas de todo o futebol do Brasil, que aos poucos vai perdendo a sua imagem de “país do futebol”.

Estávamos ontem mexendo em nossos guardados quando deparamos com um artigo escrito no segundo semestre de 1984, quando cobríamos os Jogos Olímpicos de Los Angeles, há 27 anos, e vimos como nada mudou em quase três décadas. Este artigo é plenamente válido nesta semana em que ecoam os acontecimentos ocorridos no país nipônico. Era um artigo enviado do Centro de Imprensa, ainda em telex, nos tempos em que a internet não tinha chegado aos usuários.

É bom também explicar aos mais jovens que a palavra Hulk refere-se a uma série de filmes em que o personagem principal, quando estimulado, ficava verde e realizava façanhas incríveis, impossível a um ser humano comum. Eis o que escrevemos:

UM POUCO MAIS NA HORA DE DECIDIR OU O ANTI-HULK

Quem, no Brasil, ficou acordado até a madrugada assistindo aos jogos do quarto dia da Olimpíada, deve ter ido dormir diante de uma sensação estranha, um sentimento de desorientação diante de um fato inegável e até certo ponto preocupante.

Não nos deixa tranqüilos a verificação da constância com que cada vez mais freqüentemente as seleções nacionais de nosso país deixam se dominar pela inércia, num momento de pressão psicológica e de alta tensão. Nossos representantes encolhem-se diante do maior entusiasmo do adversário, justamente num momento em que um pouco mais de fibra, um pouco mais de adrenalina e de autoconfiança seriam decisivos.

O estupor, diante de um adversário bem estruturado nestes momentos vitais, tem se repetido com tal constância que já deixa de ser um fato isolado de um jogador, para se transformar numa atitude coletiva e constante, notadamente nos esportes coletivos. Estamos adquirindo uma conotação de anti-Hulk.

Somente ontem este fato aconteceu duas vezes e já havia ocorrido no primeiro jogo do time de basquete. Este fenômeno teve sua versão clássica na final do último campeonato mundial de futebol, disputado na Espanha. O próprio leitor, por sua memória, poderá aduzir facilmente dezenas de outros exemplos a este fato que, infelizmente, está se tornando inegável.

Numa busca das causas deste fenômeno, temos, honestamente, que descartar a falta de preparo que ocorria outrora com nossas equipes nacionais. Nossos times têm treinado tanto ou mais que seus adversários, têm se concentrado e dado muito de si nesses treinamentos.

Vistos individualmente, nossos jogadores e jogadoras são ótimos. Sem reparos. Muitas de suas jogadas, executadas fora daquele momento de pressões psicológicas, mostram uma habilidade técnica superior à maioria dos contendores.

Também a clássica posição de se atribuir qualquer derrota aos técnicos por algum “erro”, nos momentos de pressão, tem como vantagem somente a comodidade de se encontrar uma explicação fácil, bem a mão. Um bode expiatório é ótimo para extravasar uma revolta, um desconforto, uma desilusão. Este imediatismo, porém, também deve ser descartado, pois raramente as derrotas têm esta causa. O poder de influência deste fator não merece o cacife que se pretende dar a ele.

Na realidade, temos que procurar as causas em algo mais profundo. Acreditamos que estas ultrapassam o aspecto técnico em si e devemos buscá-las na psicologia social e em tudo que leva a um estudo do comportamento humano em tais circunstâncias. Este é um tema apaixonante para uma pesquisa realmente científica.

Numa tentativa apriorística de relacionar as possíveis causas da inércia no momento decisivo, podemos levantar uma possibilidade nada cômoda para nós. Parece que as nossas equipes, em menor dose do que as outras delegações, estão apresentando aqui em Los Angeles uma ausência do crescimento técnico na hora decisiva. É o que, na falta de uma denominação mais científica, poderia ser chamado de “amor à camisa”, de espírito de luta.

Estes sentimentos, é pena, existem em menor dose entre nós, salvo gloriosas exceções. O gostar de um clube, de uma cor, de um país, de certa maneira está sendo desmoralizado como sentimento. Tais nobres atitudes chegam a ser tratadas como pieguices, ou outros “ices”. A valorização de qualquer instituição como o nosso país está de tal maneira sendo vilipendiada que se alguém, nas arquibancadas, gritar “Viva o Brasil”, pode ser considerado um estranho, um marciano.

Sempre foi mais fácil contestar valores do que defendê-los. Sempre foi mais fácil passar o pé num castelo na praia do que construí-lo, sempre foi mais fácil pichar um muro do que pintá-lo. Isto corrói um sentimento que deve aflorar na hora da decisão. De outro lado, também o exagero do interesse comercial e pecuniário ajuda a completar o quadro que acaba gerando este vazio interno na hora da decisão em favor de nossa pátria.

Acreditamos que o caminho a seguir seja o preenchimento deste espaço interno de cada um. Ao lado do treinamento técnico, precisamos colocar um sentimento de autoconfiança nos jogadores, no esporte e no Brasil. Precisamos de agora em diante, em nosso preparo, também dedicar um tempo para o ser humano, motivá-lo para o que se espera dele. O homem é um ser integral. Não importa somente a cesta, a cortada ou o chute a gol. Vamos cuidar também de quem arremessa, de quem corta e de quem chuta.

Daqui de Los Angeles não poderíamos deixar de dar esta nossa contribuição. Até nós da imprensa, para elevar este sentimento de confiança nacional, precisamos dosar melhor a centimetragem e a secundagem entre o aplauso e a crítica. É verdade que dizer “não” dá mais ibope que dizer “sim”, mas a constância desta atitude também pode originar causas funestas como a ablação de uma instituição.

Vamos ajudar, minha gente. Vamos apoiar no futuro sentimentos de confiança que não estão nem mortos e nem superados. Afinal, foi o próprio amor à camisa e a seus países que acabou por dar a vitória aos nossos adversários. Eles os tinham em uma dose um pouco maior do que a nossa.

Já é o momento de marcharmos respeitosamente e em forma no desfile inaugural. Está chegando a ocasião de termos orgulho do Hino Nacional e cantá-lo, sem acanhamento, cada vez que ele for executado.

Nós e a Avenida Paulista

Acervo/Gazeta Press

A sede da Fundação Cásper Líbero, na avenida Paulista, em 1950, ainda em construção.

Agora que a Avenida Paulista comemora seus 120 anos (altamente badalada pela mídia impressa e eletrônica), cabe-me contribuir para a história do cartão postal dos paulistas sobre a enorme influência que a Fundação Casper Líbero e a A Gazeta Esportiva tiveram nas profundas alterações verificadas naquela via nos últimos 50 anos.

Há meio século, a Paulista era composta por grandes palacetes e mansões construídas pela burguesia paulista enriquecida pela cultura do café. Desde o final do século XIX, um bem sucedido loteamento, obra de Eugênio de Lima, mantinha normas de zoneamento que perduraram por 70 anos.

No final da década de 50, a Fundação Casper Líbero, por inspiração de Carlos Joel Nelli, adquiriu um amplo terreno, na mesma quadra da mansão da família Matarazzo, para construir sua nova sede. A Gazeta desde o final dos anos 30 estava na Rua da Conceição (depois Avenida Casper Líbero), ao lado da Igreja de Santa Ifigênia. O proprietário desse terreno era Von Bullow, acionista da Cia. Antarctica Paulista.

É verdade que naquela época a medida foi arriscada, pois, para construir sua sede, projetada como um dos edifícios mais altos de São Paulo, era preciso superar as restrições da lei de zoneamento, que proibia a construção de arranha-céus em todo o trajeto entre a Praça Oswaldo Cruz e a Rua da Consolação.

Carlos Joel Nelli usou na empreitada todo o seu carisma e poder de persuasão e conseguiu, na Câmara Municipal, a revogação da lei que inviabilizava o grande sonho de todos os sonhos dos funcionários dos órgãos da Fundação Casper Líbero.

O projeto, que teve até a participação de José Carlos Figueiredo Ferraz (depois prefeito da capital), era quase um conto de Mil e Uma Noites. O edifício planejado era tão alto que, quando pronto, interferiria nos planos de vôo de chegada a São Paulo. O slogan de Nelli dizia tudo: “Uma luz sobre São Paulo”.

O importante é que o brado de independência estava dado e, com o começo das obras, outras empresas e empresários, sequiosos de progresso, também deram início a seus empreendimentos. Como pioneiros podemos mencionar Nicolau Scarpa, com seu prédio na esquina do Parque Siqueira Campos, a Federação das Indústrias, perto da Rua Pamplona e, finalmente, o Conjunto Nacional, que selaram definitivamente a nova face da tradicional avenida.

As obras do nosso edifício cresciam em ritmo normal e já tinham seis andares construídos quando estourou a crise econômica de 1968. Ela afetou o ingresso de recursos para o seu prosseguimento. A principal fonte de renda da Fundação era proveniente do mercado aquecido pelos anúncios classificados, num momento de grande procura por mão-de-obra especializada. A Gazeta Esportiva era, consequentemente, do ponto de vista econômico, o carro chefe de toda a Fundação.

Com o dinheiro obtido com a venda da sede da Avenida Casper Líbero, foi possível dar acabamento aos andares já erguidos. Em seguida, o prédio número 900 da avenida dos paulistas abrigava redações, impressoras e até cinemas. O local de largada e de chegada da tradicional e internacional Corrida de São Silvestre também tinha novo endereço que já debutava com sua sede de grandes eventos, atrações e shows.

O nosso prédio foi subindo e agregando outros andares com os recursos do dia a dia. Não chegou (ainda!) à altura do projeto original, mas já ostenta no topo a torre da televisão iluminada pelos holofotes, a “luz sobre São Paulo” de que tanto falava Carlos Joel Nelli.

Lamentavelmente, quando todo o noticiário se concentra na história e nas magnitudes da nossa avenida agora com 120 anos, não estamos vendo nenhuma citação à grandiosa participação da nossa Fundação. Ciumeira?