O Brasil exposto ao mundo

A grande catástrofe ocorrida no Rio de Janeiro – a queda simultânea de três edifícios ceifando duas dezenas de vidas – ocupou durante quatro dias oitenta por cento do espaço e do tempo da mídia nacional, que relatou de todos os ângulos possíveis aquele infausto acontecimento.

Naturalmente todo este “tsunami” noticioso cruzou as fronteiras nacionais e chegou a quase duas centenas de países que integram a ONU.

No exterior, mais um aspecto foi acrescentado aos múltiplos já abordados pelos veículos impressos e eletrônicos nacionais: o despreparo do Brasil para sediar a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. Como dizia sempre Carlos Joel Nelli, o saudoso diretor de A Gazeta Esportiva, temos mil olhos para procurar erros e defeitos e apenas duas palmas de mão para aplaudir.

A má vontade

 

Os principais jornais e agências noticiosas do mundo concentraram-se na divulgação daquele fato com o propósito de evidenciar a falta de estrutura da cidade do Rio de Janeiro para receber os dois mega eventos programados. Eles defendem veementemente a incapacidade das autoridades brasileiras, vinculando um acidente isolado, alheio à estrutura da Copa e das Olimpíadas a quem não tinha nada a ver com isso. Os mais ácidos foram os principais jornais da Inglaterra, que lembraram até da explosão do restaurante no centro do Rio de Janeiro ocorrida em outubro. Esta é uma prova do que se espera daqui por diante na mídia do resto do mundo. As duas palmas de mão para aplaudir o que fizemos de certo serão muito raras.

Abrindo os olhos

 

Diante da formação gradativa de uma atmosfera com que são recebidos os eventos esportivos importantes efetuados fora da Europa e dos Estados Unidos, é hora do Brasil abrir os olhos.

Além da notícia citada, nada honrosa para o nosso país, existem centenas de fatos potencialmente bastante comprometedores e que, com justiça, poderiam fornecer material para os órgãos de divulgação do resto do mundo se esbaldarem contra nós como gostam.

As mesmas mazelas ocorridas no Pan-americano de 2007 no Rio de Janeiro, e inexplicavelmente abafadas no Brasil, encabeçam a lista nos dois hiper eventos programados. Elas já estão claramente delineadas no noticiário dos órgãos nacionais.

Onde eles teriam razão

 

Se a mídia do exterior começar a nos “malhar”, vejam que material estamos oferecendo de bandeja: Dispensa de licitação para obras e serviços; descrédito do judiciário; multiplicação dos casos de corrupção dentro do executivo; o “mensalão”; a redução do alcance da lei da ficha limpa nas próximas eleições; superfaturamento das obras da Copa; funcionários fantasmas; problemas do Enem; falta de confiabilidade da CBF e muitos outros escândalos noticiados por uma imprensa nacional livre e desassombrada. Com a proximidade da Copa e da Olimpíada eles serão tema também da crônica internacional, principalmente quando começarem a chegar os primeiros enviados especiais para a cobertura dos nossos mega eventos. Desta vez eles terão fatos subsistentes para contar.

A Copa e os Jogos Olímpicos foram trazidos ao nosso país exatamente para melhorar a nossa imagem externa, com reflexos na nossa economia, e para ampliar o fluxo turístico. Se não tomarmos providências, podem ter um efeito exatamente oposto.

Plano anti-vexame

 

É preciso frear a ganância dos empreiteiros e terceirizados, os interesses escusos de alguns dirigentes e a criminalidade que já desceu dos morros e emigrou para os centros urbanos. É necessário segurar o tráfico e os traficantes. É urgente modificar o país e a escala de valores de sua população.

Temos muitos produtos a vender para os que nos visitarem. Temos nossa alegria, nossa música, as belezas naturais. Se juntarmos a tudo isto credibilidade, superaremos até certos embargos safados de outros países que estão boicotando nossas exportações de carne, suco de laranja e outros produtos brasileiros competitivos com as demais nações.

O orçamento dos dois mega eventos desviou recursos de várias prioridades nacionais, como educação, saúde, segurança e outras de infra-estrutura que reduziriam o chamado “custo Brasil”. Se, entretanto, cada brasileiro se convencer que pode incrementar uma onda moralizadora na política e na administração pública, se cada cidadão começar a cobrar honestidade, este sonho pode se tornar realidade edificante e a Copa e a Olimpíada terão ajudado a modificar não só a imagem exterior, mas o próprio Brasil, justificando plenamente os investimentos feitos.

O que esperamos dos brasileiros

 

Este artigo é a nossa contribuição para esta campanha. Ele pode estar na proporção da história do beija-flor que queria apagar o incêndio na floresta, transportando gotas d’água e quando questionado respondia:

“A minha parte está feita. Faça você a sua no limite de suas possibilidades. Afinal, mais vale acender uma vela do que lamentar a escuridão”

Crack

Ao lermos diariamente nos jornais o estrago que o crack está causando em grande parte da nossa sociedade, como sendo entre todos os narcóticos o de conseqüências mais nefastas, lembramos que até bem pouco tempo o significado de crack era algo bem diferente. “Craque” era ser habilidoso, principalmente na área do esporte.

Ser craque era ser o bom do time, era estar entre os melhores. Agora este termo designa uma droga mortífera. Em pouco tempo passou a simbolizar exatamente o oposto.

Se formos puxar pela memória, veremos que a significação de muitas das palavras se transformou através dos tempos. São questões explicadas pela semântica, termo definido pelos dicionários como “estudo das variações do sentido das palavras no decurso da evolução da língua”.

Aliás, a própria história nos apresenta como exemplo a evolução semântica da palavra “solteira”, que atualmente significa mulher não casada. Ela já significou outrora “mulher solta, ou de costumes soltos”.

Hoje pode até ser ofensivo chamar um grande astro do futebol como “crack” ou “craque”.

Nacionalizando

O autor destas linhas já passou da marca das oito décadas e contemplou outras nomenclaturas dos termos usados no futebol e atualmente abrasileirados. Quando eu era garoto, um jogador impedido estava “off-side”, quem batia um escanteio cobrava um “corner”, um zagueiro era um “back” (pronunciado como “beque”), o goleiro era o “goal keeper”, o médio era o “half”, o atacante um “forward”, e assim por diante. O predomínio dos termos britânicos no princípio da metade do século passado decorreu do fato da grande influência inglesa nos primeiros anos do futebol brasileiro, introduzido no país por Charles Miller. Duas palavras, porém, resistiram a um sinônimo nacional. Foram o “goal” (para nós gol) e “penalty”. Chegou-se a substituir o termo gol por “tento”, mas o seu uso foi muito restrito, a palavra não “pegou”.

O esporte constitui um excelente campo para a avaliação pelos estudiosos destas alterações de natureza semântica. Em outras modalidades como a natação, o nado borboleta foi chamado por muito tempo de “butterfly”.

São curiosidades que as novas gerações gostariam de saber.

Preenchendo espaço

Para completar o espaço que temos para este artigo, apontamos mais alguns termos que os nossos netos desconhecem (são exemplos de palavras fora do âmbito do esporte):

  • Rapaz elegante era “almofadinha”
  • Mulher de formas acentuadas era “peixão”
  • Carro conversível era “baratinha”
  • Motorista profissional era “chaufeur”, aquele que precisava esquentar o motor do carro antigo para que ele funcionasse. 

“Copona” e não “Copinha”!

Entre os eventos que compõem o vasto calendário brasileiro de futebol há um pelo qual eu tenho especial carinho e acompanho com um interesse muito grande. Trata-se da Copa São Paulo de Futebol que, nos primeiros dias de janeiro, dá o tiro de partida para uma correria de certames que somente termina com a chegada do Natal.

As razões desta preferência podem ser facilmente identificáveis para os leitores que nos acompanham desde que o nosso site foi lançado há mais de uma década. Vamos a elas:

A – A base e o vértice

O primeiro motivo está na minha arraigada convicção de que, na pirâmide do esporte, a altura do vértice qualitativo está diretamente na dependência da base quantitativa. O progresso é uma escada que começa pelo primeiro degrau. Os três últimos são os do pódio olímpico.

B – Uma oportunidade para 2.000

Embora seja tecnicamente evoluído, com partidas emocionantes, este evento de certa forma não deixa de ter um cunho de campeonato voltado para a base. Ele envolve quase 2.000 jogadores de 96 equipes, representando todos os Estados do país. É considerado a grande vitrine do futebol brasileiro e o início da carreira de jogadores de fama mundial. Constitui uma oportunidade excelente para muitos subirem a escada do sucesso.

Estamos trabalhando em um livro sobre este tema que terá por título “Esporte – da Base ao Vértice” e que indica um caminho para a prospecção de talentos, não só no futebol, mas em todas as modalidades esportivas.

C – Não ao termo “Copinha”

Talvez por ser endereçada a jogadores de menos de 18 anos, esta competição ganhou o epíteto de “Copinha”. A não ser que o diminutivo tenha um cunho carinhoso, discordamos do “inha”, pois ela não tem nada de pequeno. Pelo que significa como o único evento que reúne todo o país competindo pelo título, poderia ser, isto sim, chamada de “Copona”.

D – Vinte e quatro sedes

A Copa São Paulo prestigia nada menos de vinte e quatro cidades do Interior do Estado, cuja população assiste, jogando em seus estádios, à participação de equipes com os distintivos de Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo, Vasco da Gama, Grêmio, Cruzeiro, Internacional, Atlético Mineiro, Sport do Recife e outros tantos times de destaque.

É uma forma “delivery” de levar para Monte Azul, Mirassol, Araraquara e São Carlos jogos de prestígio. Este ano até Jaguariúna foi sede da “Copona” que corresponde à interiorização de grandes eventos.

E – Desde o tempo da SEME

Talvez esta minha estima à Copa São Paulo se deva à minha participação pessoal no evento. Ela foi criada no âmbito municipal, quando uma comissão dirigia o esporte da cidade. O autor da idéia foi o saudoso Fábio Lazzari, meu amigo desde o início dos anos 60, quando ele ia pedir divulgação para a Copa São Paulo, em companhia de Paulo Soares Cintra, nas páginas de A Gazeta Esportiva, da qual eu era o editor-chefe dos esportes amadores.

Mais tarde, ela incorporou-se à DEPEL, departamento de promoções esportivas da recém-criada Secretaria Municipal de Esportes, cujo primeiro titular foi Carlos Joel Nelli.

F – Além da SEME

Vicissitudes na política municipal fizeram com que o evento fosse anos depois para a égide da Federação Paulista de Futebol, ainda com a supervisão de seu criador, Fábio Lazzari.

Aos poucos ela cresceu. Passou para o âmbito estadual e, mais tarde, para o nacional. Hoje é transmitida por diversos canais de TV, despertando o interesse de todo o país.

A Copa São Paulo, por sua história e principalmente por sua significação para o Esporte, até que merecia uma divulgação ainda maior por parte dos veículos de comunicação. O tempo das rádios e TV e o espaço de jornais e revistas estão majoritariamente ocupados pelo foco das transferências de jogadores e técnicos para outros clubes. Um simples indivíduo ocupando o espaço que deveria ser destinado para a difusão de equipes, de cidades que representam coletividades.

O imediatismo leva muitas vezes ao olvido da nossa própria história.

Que tal lembrar-se da história?

 

 Os atuais responsáveis pela Copa São Paulo, aproveitando uma oportunidade para a preservação de sua história, poderiam dar o nome de Fábio Lazzari a um dos troféus em disputa.

Considerando-se que os jogadores são todos menores de 18 anos, também poder-se-ia nomear um dirigente com sensibilidade e estima pelos sentimentos patrióticos e que lutasse para que os jovens (e se possível o público) cantassem o Hino Nacional. Nada mais lamentável do que, nas passagens de câmera de TV, ver alguns dos participantes quietos, sem ao menos saber balbuciar as palavras da música que representa a nossa pátria. Uma simples conversa antes das partidas acrescentaria mais um mérito a esta grande competição.

Juro que não é careta gostar do Brasil.

 

Meditações de um período de falta de notícias

Passamos nossas férias natalinas na casa que possuímos em Peruíbe há vinte e cinco anos. Entre  26 de dezembro e o Dia de Reis, mais perto do mar do que do mundo. As duas exceções foram ouvir as transmissões da São Silvestre e os noticiários das várias emissoras no período de 19 às 21 horas.

Sobre a São Silvestre, as novidades foram as modificações do local de chegada (sobre a qual prefiro me calar) e o êxito da raça negra, que predominou no pódio da premiação, mostrando o quanto a negritude está próxima da vitória e das medalhas.

Nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, Hitler, que pregava a superioridade ariana, não escondeu seu desaponto com o triunfo do americano Jesse Owens. Hoje, os africanos passaram a liderar as provas de fundo, enquanto que as de velocidade ficaram por conta dos norte americanos e dos jamaicanos. Este país das Antilhas é o berço dos dois últimos recordistas mundiais dos 100 metros rasos.

Outro ponto que me chamou a atenção foi a grande presença de turistas nacionais e do exterior que ocuparam quase cem por cento da capacidade albergueira do Rio de Janeiro. As emissoras de TV, principalmente a Globo, dedicaram mais de 50% de seu tempo disponível na louvação do Réveillon da cidade maravilhosa, criada por Deus e pela natureza.

Os clamores iniciais da Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos começam a colher os primeiros resultados pela presença de uma grande quantidade de turistas, nacionais e do exterior, atraídos pelo show do Réveillon que se realizava bem próximo das areias e dos desenhos típicos das calçadas de Copacabana. É de se imaginar o que é possível acontecer em termos quantitativos quando os dois maiores espetáculos do mundo forem efetuados no mesmo espaço abençoado pelo Cristo Redentor.

No meio de toda a louvação, a TV Record solta a notícia que nos abalou e rompeu parcialmente a maior atmosfera de “oba oba” já vista nos últimos tempos: casais de turistas do exterior estavam sendo alvo de assaltantes provenientes dos morros adjacentes. O maior esforço para melhorar a economia carioca era anulado por gente desqualificada que começava a dar a primeira demonstração das preferências dos fora da lei para quando chegarem os mega eventos.

Numa época de carência de noticiário causado pelas festas natalinas e pela ausência de grandes acontecimentos, a imprensa internacional deve ter sido acionada pelos correspondentes dos veículos estrangeiros sediados no Rio de Janeiro. Como as más notícias circulam em todo o mundo mais celeremente do que as boas, pode se imaginar os prejuízos que estes bandidos nos causaram.

As autoridades do país, especialmente as da Guanabara, precisam estabelecer de forma especial e muito rígida a defesa do turista do exterior, uma fonte inesgotável de prestigio. Receitas e empregos podem perder-se pela ação de possíveis ações nefastas de bandos organizados, cuja dimensão eles próprios não poderiam imaginar.

A luz amarela acendeu. Que o farol do nosso país volte para o verde e não para o vermelho é o que todos esperam. Medidas enérgicas seriam melhor recebidas pela população do que qualquer lance de políticos demagógicos. Que se divulgue amplo noticiário da prisão dos assaltantes a turistas é o que todos esperam. Isto também dá votos!