Em nosso último artigo deste blog, noticiamos uma profusão de iniciativas e ações em favor da integridade e da idoneidade nos esportes, eventos realizados na metade do mês de maio.
Informamos também que seríamos um dos conferencistas no 16º Congresso do Panathlon International, na cidade siciliana de Siracusa.
Embora um pouco longo, estamos apresentando aos leitores da nossa coluna o texto em português, do original que foi lido em italiano para esportistas de 28 nações. Havia tradução simultânea também para o inglês e o francês.
Integridade no Esporte
Preâmbulo
Esta não é a primeira vez que tenho a honra de vir a Siracusa. Eu já havia tido o prazer de estar nesta cidade histórica no grande almoço de gala que encerrou o Congresso do Panathlon International realizado em Taormina, em 22 de março de 1983. Discutimos naquela ocasião o tema “Panathletismo, ontem, hoje e amanhã”.
As principais figuras que participaram daquele evento, lamentavelmente, não estão mais hoje entre nós. O presidente do Panathlon International na ocasião era Paolo Cappabianca, mas lá estavam também o past-presidente, o militar suíço Demetrio Balestra, o fundador do PI Domenico Chiesa, o intelectual e historiador Sisto Favre, Giulini e tantos outros que deram alta dimensão ao panathletismo como movimento de cultural.
Na estada em Taormina, feita ao lado do presidente Cappabianca, fui vendo “In loco” os locais que se tornaram símbolo da Sicilia: vimos o Etna fumegando, admiramos Agrigento, berço de Empédocles e, após as sensações causadas por tais visões, desembarcamos na terra de Arquimedes. Siracusa guardou para a atualidade vários tesouros de sua herança do período clássico grego. Cícero referia-se a ela como a mais bonita cidade grega. Foi sobre as conjunturas locais que São Paulo, o Santo Guerreiro, escreveu epístolas aos coríntios. Por feliz coincidência, São Paulo é o nome de minha cidade e Corinthians é a sua principal equipe de futebol. A vida ainda permitiu-me hoje, três décadas depois, como o último dos moicanos, rever na condição de expositor deste importante congresso esta região que tanto admiro e respeito.
A abrangência do tema “Integridade no Esporte” é tão ampla que chega a nos dar a noção de infinito. Como professor de filosofia, poderíamos seguir a linha de muitos outros expositores, analisando o assunto baseando-me em livros e tratados já escritos pelos mais importantes especialistas em ética, ciência dos costumes e outros conteúdos desta área.
Acontece, porém, que também somos jornalista e achamos que seríamos diferenciados se abordássemos esta questão do ponto de vista histórico e do ângulo específico regional do Brasil, país que represento no Panathlon e que, no breve espaço de quatro anos, sediará o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos, os dois eventos mais importantes do mundo do esporte. O tema “Integridade do Esporte” já está no dia a dia. Passou a ser uma preocupação generalizada de toda a população brasileira pela responsabilidade de ser a anfitriã de dois eventos de tanta significação para a imagem do país no exterior.
Uma cultura de importação
O renascimento da tradição cultural greco-romana não seguiu no esporte a mesma época cronológica das demais áreas do conhecimento humano. O esporte, com as características que é praticado hoje, somente ocorreu no início do século XIX, e teve origem no meio universitário da Inglaterra. Foi quando o clérigo Thomas Arnold, da Universidade de Rugby, resolveu aprovar e regulamentar a atividade espontânea que ocorria nos pátios das universidades daquele país.
Em seu livro “Le Sport et L’Educacion”, edição de Presses Universitaires de France, o Prof. Bernard Guillemain nos demonstra o espírito com que nasceu o esporte nas primeiras décadas de 1800. As modalidades esportivas se caracterizavam por valores como o amadorismo e o fair play, que eram típicos de uma categoria social economicamente e culturalmente elevada.
Estes valores foram absorvidos pelo Comitê Olímpico Internacional, fundado na Sorbonne, França, na última década do século XIX, juntamente com a criação dos Jogos Olímpicos da Era Moderna.
O esporte difundiu-se por todo o mundo num tempo em que a Inglaterra atravessava um período econômico muito destacado (esse país insular era chamado de “Rainha dos Mares”). Com a vinda ao Brasil de profissionais que iam construir portos e ferrovias e negociar a compra do café e outros produtos agrícolas, veio também o esporte como cultura característica dos imigrantes.
Deve-se considerar também outra fonte no aparecimento da atividade física mundial: a ginástica, que teve como pioneiro Jahn. Tratava-se de uma atividade originada nos países germânicos após estes terem sido vencidos pelos exércitos napoleônicos. Essa derrota originou o desejo de se criar um sistema de fortalecimento da raça germânica.
A ginástica era bem mais diversificada e praticada também na Suécia, Noruega e outros países e em suas origens visava a hegemonia do povo com interesse na segurança nacional. A ginástica teve grande apoio dos militares.
No Brasil
No Brasil, hoje a sétima economia do mundo, o esporte somente chegou na última década do século XIX. A atividade física, como cultura de importação, não era um valor autóctone.
Foram ingleses, alemães e italianos os seus introdutores de maior expressão. Em 1890, São Paulo, a cidade que eu represento no panathletismo, atualmente a sexta do mundo com uma população de 12 milhões de habitantes, tinha somente 30.000 e destes, muito poucos com condições sociais para praticar modalidades esportivas. Os primeiros clubes foram formados pelas colônias estrangeiras: os ingleses eram representados pelo São Paulo Athletic Club, fundado em 13 de maio de 1888 (data da libertação dos escravos no Brasil). Em 1899, foi fundado o SC Germânia. Em 1888 e 1890, dois clubes alemães de ginástica, respectivamente, o Turnverein e o Turnerschaft. Ainda em 1899, nasceu o Clube Esperia, de origem italiana. O único clube brasileiro com status na época era o Clube Athletico Paulistano, formado pela burguesia do café, produtores e negociantes deste produto.
O introdutor
O introdutor do futebol no Brasil foi Charles Miller, brasileiro, filho de um engenheiro escocês e que fora estudar em Southampton. Jogou no seu colégio e defendeu a equipe dessa cidade no campeonato inglês. Retornou a São Paulo em 1894 com duas bolas e um livro de regras. O primeiro campeonato de futebol de São Paulo foi efetuado em 1900.
Discriminação
Conhecendo-se o meio social que praticava o esporte no final do século XIX no Brasil, não é de se estranhar que ele tenha sido marcado pela discriminação. Pobres, mulatos e negros não tinham acesso às primeiras equipes que disputavam o campeonato oficial. Os excluídos, então, organizaram seus próprios times e jogavam partidas em campos localizados nas várzeas e margens dos rios que cortam São Paulo.
Acontece que os clubes de elite, para ganhar seus campeonatos, começaram a se utilizar dos jogadores varzeanos mais hábeis, dando início à extinção da discriminação no futebol.
Com o passar do tempo, os jogadores de futebol de nível técnico elevado, mas de baixo poder aquisitivo, passaram a exigir remuneração, o que não era admitido pela rígida regulamentação nos primórdios do esporte. Surge então o chamado amadorismo marrom, que consistia no pagamento “por baixo do pano”. Em 1936, não foi mais possível manter esta situação antiética e finalmente o futebol foi considerado um esporte profissional.
Na natação e em outras modalidades a discriminação persistiu. Clubes esportivos começaram a construir suas piscinas a partir dos anos 30 do século passado e, por mais de 40 anos não permitiram que neles nadassem os afro-descendentes, comportamento que resiste até os dias de hoje em alguns deles.
No remo, o conceito de amadorismo era tão radical que resistiu por quatro décadas. Não podemos deixar de apresentar aqui o que dizia o estatuto da federação de remo do Rio de Janeiro, aprovado em 1933:
“No dia sete de março de 1933, no Rio de Janeiro, os clubes de Regatas Botafogo, Gragoatá, Icarahy e Flamengo, filiados à Federação Brasileira das Sociedades de Remo, passam a denominá-la Federação Brasileira de Desportos Aquáticos, conservando a mesma finalidade que motivou a sua fundação em 1897”
Os artigos 31 e 32 do Estatuto da nova entidade, incluídos no Capítulo VIII – Dos Amadores, dizem o seguinte:
“Art. 31 – A federação não reconhece como amadores:
a) Os profissionais em qualquer modalidade esportiva e os analfabetos;
b) Todos aqueles que pelo seu meio de vida profissional adquiram desenvolvimento físico que contrarie o espírito do Art. 30, a juízo da Diretoria;
c) Os que exerçam profissão ou emprego que lhes empreste o caráter de serviçais, tais como: criados de servir, de hotéis, cafés, bares e botequins, armazéns de secos e molhados, tendas, confeitarias, bilhares e casas de sorvetes, barbeiros, cabeleireiros, chauffeurs, empregados de agências de loterias, contínuos e serventes em geral, vendedores de bilhetes de loterias ou exploradores de jogos proibidos, condutores ou recebedores de veículos e, bem assim, os que receberem gorjetas no exercício da profissão;
d) Os professores de esportes ou treinadores assalariados, os pescadores de profissão, mestres de embarcações, empregados de clubes, piscinas ou estabelecimentos balneários e os construtores de embarcações;
e) As praças do Exército, da Marinha, das Polícias e de Bombeiros;
f)Os operários em geral, oficiais e artífices de fábricas, oficinas, arsenais e estaleiros;
g) Os de profissão manual que não exija esforço mental;
h) Os não amadores em outros esportes;
i) Os que disputarem ou praticarem o esporte em conjunto com profissionais;
j)Os que, embora exercendo profissão ou emprego compatível com o amadorismo, não tenham o nível social e moral exigido para a prática dos desportos aquáticos, a juízo da Diretoria.
Art. 32 – Excetuam-se das disposições do artigo anterior:
a) Os datilógrafos, linotipistas e outras pessoas de profissão manual semelhante;
b) As praças de pret que, antes de incorporadas, tiverem as condições de amadores;
c)Os alunos das escolas Naval, de Aviação e de Contadores e os Elementos da Polícia Especial;
d) Os sub-oficiais e sargentos de qualquer corporação militar.”
Integridade e dinheiro
É verdade que os primeiros profissionais do futebol precisavam de uma compensação financeira para poder se manter economicamente. Mais tarde, também em outras modalidades esportivas, era necessário um período integral de treinamento para o praticante atingir o vértice técnico. Não só o futebol, mas também algumas outras modalidades esportivas tornaram-se verdadeiros “espetáculos”, com elevado número de espectadores e, naturalmente, bilheteria.
Esta movimentação no começo era uma pequena marola, até tornar-se hoje um tsunami que atinge não somente os atletas bem sucedidos, mas todo o universo que os envolve: empresários, empreiteiros da construção civil, dirigentes e até presidentes de clubes e federações internacionais, nem todos escrupulosos. Desapareceu o trabalho voluntário que é o que caracteriza o panathletismo.
Imagem internacional
Infelizmente, problemas de má distribuição de renda entre sua população levam o Brasil a grandes distorções com a criminalidade crescente, principalmente a localizada nas favelas. Além disso, a preocupação maior talvez seja com os criminosos que usam colarinho branco.
A batalha contra os ladrões e os traficantes de drogas está sendo vencida pela criação de uma polícia interestadual e está reduzindo o quadro estatístico deste tipo de ilicitude. A maior batalha, porém, está na parte administrativa. Os Jogos Pan-americanos de 2007 tiveram um orçamento de 396 milhões de reais e acabaram custando quase 4 bilhões.
Sente-se que esta atmosfera de desfrute dos recursos da Copa já se manifestou. Aos custos dos estádios em que se realizarão os jogos, é anexado um “over price” e a expectativa do aparecimento desses aditivos aumenta as previsões do orçamento inicial. Com a desculpa de acelerar as construções, o Senado chegou a aprovar leis que amenizam as exigências das prestações de contas dos dois mega eventos previstos para os próximos 4 anos.
Vitrine
O Brasil é um dos países do mundo que menos tem sentido as conseqüências da atual crise econômica que está acontecendo em diversos países, principalmente na União Européia. Ele disputa com a Grã-Bretanha o 7º lugar no ranking das maiores economias mundiais.
O Brasil assumiu a sede do Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos com a finalidade de dar maior visibilidade ao país, melhorar sua economia e aumentar o seu fluxo turístico. Ele se tornará neste quadriênio, logo após Londres, uma vitrine no mundo. Qualquer acontecimento que ocorra nestas bandas, desde já ganha destaque na mídia internacional.
Integridade como instrumento
Para combater um possível vexame, dada a grande exposição que o Brasil vai enfrentar, a solução será a Integridade. Os meios de comunicação do país, que felizmente se destacam pela sua idoneidade, estão divulgando de forma acusatória estas ações de políticos e empresários que procuram o lucro ilícito. Estas medidas estão cerceando, aos poucos, o apetite de políticos e dirigentes e ampliando a expectativa da população educada do país. A opinião pública já pensa na importância da integridade para superar o problema.
É verdade que esta questão não é exclusiva do Brasil. Atualmente ela também existe em grande número de países do mundo (ainda outro dia lemos a notícia que ex-dirigentes da FIFA receberam aposentadoria por serviços prestados àquela entidade).
Falando-se em FIFA, neste grande tsunami representado pelo dinheiro, ela tornou-se um organismo muito mais comercial do que esportivo.
Retorno à ética
Somente retornaremos à ética e à integridade do esporte em nível internacional quando entidades como o Panathlon e outras, voltadas para o esporte limpo, moverem grandes campanhas em favor do fair play, da cortesia no esporte, reverberando toda a violência dos atletas e dos espectadores, mudando a escala de valores da população na direção da idoneidade.
Unidos, e com a colaboração geral, como dizia Arquimedes, o mais famoso filho desta cidade, “Teremos o ponto de apoio para erguer o mundo”!