Com uma adolescência e juventude voltadas principalmente para a militância política, provavelmente pouco familiarizada com o esporte, o desfile inaugural dos Jogos Olímpicos, sem dúvida, deu-lhe uma dimensão da magnitude do compromisso que assumimos para o próximo quadriênio.
Não temos dúvida que esta visão vai refletir no grau de seriedade com que o próximo evento será encarado, levando-a a olhar mais de perto o ritmo e, principalmente, a correção das prestações de contas, evitando dessa maneira a cegueira com que o governo anterior acompanhou esta área nos Jogos Pan-americanos de 2008, permitindo a riqueza para os que se locupletaram com a gestão de recursos públicos destinados ao esporte.
Dilma viu de perto a responsabilidade de ser “anfitriã do mundo” e, naturalmente, não vai querer estourar o orçamento nacional.
Temos a certeza que ela vai ser fiscal do trabalho e, sem dúvida, afastar a demagogia populista dos políticos nos Jogos Olímpicos e, por extensão, na Copa do Mundo de 2014.
O máximo com o mínimo
Desde 2008 a economia mundial não atravessava um período de crise como o atual, que já superou o ocorrido em 1930.
Diariamente os meios de comunicação transmitem notícias desanimadoras das maiorias (para não dizer totalidade) das nações do mundo. As manchetes falam em desemprego, queda da produção e do consumo, carestia, diminuição do PIB e outros índices, envolvendo bancos e países.
Algumas nações estão na vanguarda das preocupações, entre elas a Espanha, Portugal, Irlanda, Itália. A pior colocação, porém, é a da Grécia, onde o único remédio prescrito foi reduzir salários e direitos da população.
Neste momento, algumas vozes começam a dizer que o endividamento grego, estopim que está pondo em risco até a unidade do euro, é decorrência das despesas que o país teve com a organização dos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. Não sai barato ser anfitrião do mundo. Os financiamentos em bancos um dia terão de ser pagos.
Os Jogos Olímpicos de 2016 do Rio de Janeiro e também o Mundial de Futebol de 2014 serão uma enorme fonte de despesas. O desejo de intermediar obras e serviços está jogando na estratosfera os gastos do orçamento estimulados pelas entidades internacionais. Os Jogos Pan-americanos de 2008 superaram em mais de dez vezes a previsão inicial.
Se as autoridades não vigiarem desde já a transparência das concorrências e das prestações de contas, poderemos, depois de 2016, nos tornar uma Grécia, não a da tradição esportiva, mas a das agruras econômicas.
Marina Silva, a glória foi do Brasil
Foi uma glória para o Brasil ver uma de suas cidadãs segurando uma das bordas da bandeira olímpica em um momento apoteótico da abertura dos Jogos de Londres. Entre seus companheiros nesta excepcional atribuição estavam o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, e personalidades que já receberam o Prêmio Nobel da Paz. Dividir esta tarefa com estas figuras é um ato honorífico que poucos brasileiros receberam em nossa história.
Marina não tem muito a ver com o Olimpismo, mas, naquele momento, não era somente sua campanha preservacionista que deveria ser aplaudida, mas antes de tudo a inclusão do Brasil em tão diminuto grupo de figuras que subiram ao pódio da cidadania e do prestígio.
Estranha foi a posição tomada por nosso ministro do esporte, Aldo Rebelo, criticando Marina nesta questão. Predominou nele a visão da política interna, muito pequena no contexto daquele amplo universo. Ele escondeu as mãos num momento grandioso que pedia aplausos.
As medalhas do “fair play”
As primeiras medalhas obtidas pelo Brasil nos Jogos Olímpicos simbolizaram um dos maiores gestos de “fair play” de toda a história do esporte do Brasil.
Elas foram conquistadas pela equipe de tiro ao alvo do nosso país, nos Jogos de 1920, em Antuérpia. A representação brasileira chegou a Bélgica com equipamento tão desatualizado em relação ao resto do mundo, com munição tão escassa e também não atualizada, que despertou a solidariedade dos Estados Unidos, país que naquela época já era uma potência econômica e olímpica.
Os norte-americanos cederam a nosso conterrâneo Guilherme Paraense e ao advogado (depois ministro) Afrânio Costa armas e munições modernas, excedentes daquela equipe.
No “stand”, na hora da prova, não deu outra: Paraense ficou com o ouro e Afrânio com a prata.
Eu ainda pretendo levantar o nome dos atiradores dos Estados Unidos, autores de tão nobre gesto, para propor ao Comitê do Fair Play do COI, sediado na Hungria, um prêmio especial “in memoriam” levando a um conhecimento mundial um fato que poucos conhecem, ocorrido há quase um século.



