Rio 2016 – Sujaram nossa imagem

A maior oportunidade decorrente de ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2016 é poder projetar para todo o mundo a imagem de que somos um país sério, confiável, economicamente estável e componente do primeiro mundo. O fato de que seremos os protagonistas de um mega evento – o maior da história do esporte – nos coloca numa super exposição que nos permite livrar-nos de uma avaliação distorcida que nos acompanha desde que éramos colônia. Charles Darwin, a caminho das Ilhas Galápagos, passou alguns meses na Bahia, tempo suficiente para dizer que em nosso país gente rica não ia para a cadeia.

Charles de Gaulle, mais de um século depois, afirmou que “este país não é sério!”, frase fartamente repetida por quem não nos estima.

Na atualidade, qualquer proeza do tráfico, que mata jovens e derruba helicópteros da polícia, circula fortemente em âmbito mundial. As “garfadas” de Ricardo Teixeira na tesouraria da FIFA deixaram nossa imagem de honestidade mais suja do que tábua de gaiola ou pau de galinheiro num cenário internacional.

Quando começava a tomar forma um conceito de que até os Jogos de 2016 era preciso criar uma opinião coletiva de moralidade nacional, para desencanto dos que gostariam de ver nossa imagem melhorada, surge um “affaire” justamente com a Inglaterra, que joga tudo por água abaixo: a ampla divulgação da notícia de apropriação de informações confidenciais sobre segurança na Grã Bretanha.

Ele se refere ao roubo de documentos do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Londres. Dezesseis funcionários do Comitê Organizador do Rio/2016 foram demitidos por terem copiado arquivos sigilosos que abordavam, entre outros temas, a segurança.

Esta atitude vai custar caro ao COB. De agora em diante, as autoridades inglesas, até então disponíveis na colaboração com o nosso país, darão o mínimo apoio nos problemas que iremos enfrentar em 2016, apoio este que era fundamental para que conseguíssemos atingir a meta de produzir os Jogos no mesmo padrão que o Reino Unido obteve há meses.

O Comitê Olímpico Internacional tem um temor ainda maior: que estes dados obtidos ilicitamente sejam revendidos para terceiros.

Este roubo repercutiu na maioria dos veículos de comunicação do mundo. O erro que poderia ficar nos decibéis de um sussurro ganhou um alto falante ouvido por bilhões de pessoas em torno de todo o nosso planeta. Tudo caminhou na direção oposta aos principais propósitos dos brasileiros.

Com a rede de informática inglesa devassada, muita coisa que não deveria vir à tona apareceu e o Brasil recebeu qualificações nada favoráveis, nas quais predominam palavras como “vergonhoso” e outras exatamente na direção oposta da nossa pretensão.

Nos dias que se seguiram, o tema ainda continuou repercutindo nos jornais. Não vamos gastar toda a munição de informes disponíveis num único artigo. Vamos guardar um pouco para os próximos “posts”, pois continuar condenando esta terrível mancada nacional é a melhor maneira de melhorar uma imagem pouco correta que nos acompanha desde que D. João VI chegou em nossa terra fugindo da artilharia de Napoleão.

Rio 2016 – Vençamos os traficantes

Uma notícia publicada no “Estadão” do dia 21 de setembro veio reforçar ainda mais a necessidade de encaminhar para uma atividade artístico-social, e principalmente esportiva, a juventude que vive as soltas nos morros e nas adjacências das favelas, à mercê da bandidagem e do tráfico.

Nos dois últimos artigos nos concentramos neste tema, mas outras notas publicadas naquele veículo de comunicação vieram reforçar ainda mais os argumentos usados em defesa da minha tese de que é necessária uma política mais atuante para a preservação da mocidade abandonada pelo destino.

O título da notícia a que nos referimos dizia: “Tráfico faz Fundação Casa ficar sem vagas” e explicava ao leitor que existem no Estado 9.039 vagas nesse tipo de instituição, que já foi muito mais conhecida como FEBEM. São jovens que estão cumprindo medidas sócio-educativas sob regime de internação ou semi-internação, em 141 unidades, a maioria por tráfico.

Após reformas feitas há 6 anos, a Fundação Casa já havia ampliado o número de vagas, mas atualmente um número maior ainda está se fazendo necessário. O fato mostra que toma vulto cada vez maior a necessidade do envolvimento das autoridades do país, pois trata-se de uma questão fundamental que abre espaço para o bandido ocupar o lugar do professor, utilizando adolescentes nas tarefas que o tráfico exige: levar a droga até o consumidor ou a outros intermediários. Punições que numa rede escolar seriam meras admoestações, ou outras do gênero, entre os “professores” do tráfico e “seus alunos”, chegariam até a pena de morte pela mudança do contexto ético.

É preciso, de qualquer jeito, criar pólos de prática de esporte para ocupar o horário livre da população infanto-juvenil. A criação desses núcleos para a prática do esporte poderia ter o suporte econômico da iniciativa privada, do empresariado, de ONGs idôneas. Esta ação iria reduzir a criminalidade de maneira intensa, ajudando a evolução esportiva do nosso país, principalmente quando consideramos o quadriênio que nos separa de sermos os anfitriões dos Jogos Olímpicos de 2016.

Este trabalho valeria por uma prospecção de valores em várias disciplinas do esporte, mas, também e principalmente, terminaríamos com a obesidade endêmica da população, criando uma cultura distante da maconha, da cocaína, do crack e de outras drogas que estão dizimando o nosso povo.

Os que querem reciclar nosso país, tornando-o uma nação séria, não podem, de jeito nenhum, perder a oportunidade que os Jogos Olímpicos de 2016 nos oferecem e, se possível, mantendo seus valores até o final deste século.

NO PÉ

O REMO BRILHOU

Recebemos, com grande satisfação, um convite do presidente da Confederação Brasileira de Remo, Sr. Wilson Reeberg, para assistir ao Campeonato Brasileiro Junior e Sênior daquela modalidade, que comemorava 110 anos da primeira competição daquele esporte efetuada em nosso país.

O evento, disputado no sábado e no domingo da última semana, foi o modelo de como deveria ser uma competição de remo, pela quantidade de pessoas que participou das 17 provas da programação, muitos deles destaques nacionais e internacionais. O local estava ornamentado com o pavilhão dos patrocinadores e uma tribuna oficial superlotada. Cremos que, em todos os seus 40 anos de existência, a Raia Olímpica da USP não havia apresentado tão belo visual e uma atmosfera tão entusiasta e atraente. Foi uma das melhores competições a que já assisti nos meus 65 anos de jornalismo esportivo profissional.

Uma idéia muito feliz foi convidar centenas de jovens e adolescentes para presenciar o evento, uniformizando-os com camisetas alusivas ao certame. São estudantes que tiveram ocasião de assistir a um campeonato de remo provavelmente pela primeira vez e muitos vão acompanhar esta modalidade.

Um trabalho bem conduzido poderá encaminhá-los para o barco-escola e, quem sabe, no futuro, teremos a nossa raia da Cidade Universitária cheia de novos figurantes.

Quando estamos iniciando o quadriênio que antecede os Jogos Olímpicos no Brasil (2016), este é o melhor momento para preencher com esporte o lazer dos jovens, evitando que os traficantes e os bandidos cheguem até a mocidade antes da escola e dos bons valores, campanha desenvolvida com grande veemência por este nosso Blog.

Agradecemos a oferta de uma medalha comemorativa aos 110 anos do remo no Brasil, iniciativa do presidente da CBR, e prometemos que esta coluna vai dar grande divulgação ao remo, esporte injustiçado que exerceu brilhante papel de protagonista na história do esporte brasileiro.

Salvemos o CR Tietê

XI – Do Corinthians foram 13.000 metros quadrados

Na história da evolução do CR Tietê, a década de 30 do último século foi a mais importante, representada pela aquisição de áreas que completaram o espaço que o clube ocupa atualmente, bem como a construção da primeira piscina olímpica do Estado que deflagrou grande surto de progresso na natação paulista.

Mais uma vez, temos que recorrer à história de outros clubes para que se compreenda a importância da incorporação de espaço ocorrida em 1936, um ano após ter ficado com o terreno e as instalações do estádio do São Paulo FC da Floresta.

Desta vez, precisamos nos valer do passado do S.C. Corinthians Paulista que, embora poucos saibam, também integrou a história do clube da Ponte Grande.

Esse clube foi fundado em 1º de setembro de 1910, em uma barbearia, e seu primeiro presidente foi um alfaiate, João Baptista Mauricio. Era, desde a sua origem, um clube popular, formado por trabalhadores do bairro do Bom Retiro. O seu nome derivou-se da onda de entusiasmo provocada pela vinda ao nosso país de um clube inglês, o “Corinthian”. A escolha do nome foi uma homenagem àquele esquadrão que tanto impressão havia causado na pequena São Paulo daqueles tempos.

Este clube passou a jogar na várzea paulista. O entusiasmo dos jogadores e da torcida estabeleceu um diferencial que até hoje ainda perdura.

A sequência de vitórias corinthianas fez com que o clube não mais se conformasse em jogar no campo do Lenheiro, terreno alagado na região do Bom Retiro. Vôos maiores estavam previstos na sua evolução. Seus adversários passaram a ser associados provindos de agremiações sociais bem diversas, como o Germânia, o Paulistano, a AA das Palmeiras, o Mackenzie, o Clube dos Ingleses e outros.

Após uma cisão ocorrida no Campeonato Paulista, dando origem a mais uma liga de futebol, foi aumentado o número de vagas e o Corinthians encontrou uma oportunidade para jogar no campeonato principal da Liga Paulista de Futebol. Nesse certame, ficou em terceiro lugar e já em 1914 tornou-se campeão invicto.

Em 1916 ele passou a disputar o certame da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), entidade concorrente da Liga Paulista. Nesse ano, porém, por razões urbanísticas o Velódromo (onde eram realizados os jogos da APEA) foi desapropriado e o Corinthians precisava de um local para mandar seus jogos.

Foi nesta altura que o Corinthians foi para a Chácara Floresta, na Ponte Grande, em um espaço contíguo ao Tietê e à AA das Palmeiras.

Para atingir esse grande sonho os corinthianos contaram com o apoio e a orientação do deputado Antônio Alcântara Machado, que dá hoje seu nome ao viaduto sobre as porteiras do Brás. Ele superou todas as dificuldades burocráticas e, no dia 17 de julho de 1916, quando era presidente do Corinthians João Baptista Mauricio, foi assinado o contrato de arrendamento. Assistiu ao ato o Dr. Washington Luiz Pereira de Souza, que uma década depois viria a ser Presidente da República.

Pelo contrato, o clube alvinegro pagaria pelo uso do espaço de 13.000 metros quadrados 110 mil réis por mês, com carência de cinco meses. Comprometia-se também a conservar todos os coqueiros do terreno e pagar multa se algum fosse derrubado.

A transformação desta área em um estádio nos lembra a epopéia atual de construção do “Itaquerão”.

Os associados transformaram-se em pedreiros, marceneiros, encanadores e serventes. Trabalharam gratuitamente em troca das mensalidades atrasadas. Em pouco tempo o charco encontrado no local estava aterrado e, em 1917, poucos meses depois, as arquibancadas prontas para receber os predecessores da “Fiel”. O gramado, absolutamente pleno, resgatava a má fama dos campos de futebol da cidade na época. A mão de obra havia sido paga com a inestimável moeda do amor ao clube.

Este estádio, construído com este esforço, nada ficava a dever à vizinha A.A. das Palmeiras, com um corpo associativo de alto poder aquisitivo.

O Corinthians somente deixou a Ponte Grande 10 anos após, em 1927, quando o local já havia se tornado pequeno para um clube que já tinha sido tri-campeão paulista e campeão do Centenário (Centenário da Independência do Brasil em 1922).

Uma década com o São Bento

Foi uma decisão consensual a mudança do Corinthians para o Parque São Jorge, também às margens do Tietê. Como conseqüência, o estádio da Ponte Grande passou a ser utilizado por uma década pela Associação Atlética São Bento, formada e dirigida por ex alunos do Colégio São Bento.

Pouca gente sabe que, pela atual portaria do CR Tietê, já passaram torcedores que, durante 20 anos, foram assistir aos jogos de futebol do time corinthiano ou do São Bento.

A A.A. São Bento, fundada em 1913, foi campeã paulista em 1914 e em 1925. Jogou até o campeonato de 1934, quando por repulsa ao amadorismo marrom (como o Paulistano) abandonou o futebol. Em 1937, fechou suas portas e cedeu seu terreno ao CR Tietê, que em troca assumiu seus compromissos financeiros e, consequentemente, aumentou sua área em mais 13.000 metros.

Nesse espaço o “vermelhinho” construiu vestiários e suas quadras de tênis. No mesmo espaço em que brilharam Neco, Amilcar, Casimiro e Bianco, aprendeu a jogar tênis a maior campeã da história desta modalidade do Brasil: Maria Esther Bueno.

Em homenagem ao clube que se findava, o Tietê batizou o barco mais famoso de sua flotilha, um “out-rigger” a oito, com o nome de A.A. São Bento.

A década dos anos 30 foi a mais importante da história do CR Tietê, pois além de ter incorporado duas importantes áreas do São Paulo e a do São Bento, ele ainda construiu sua piscina olímpica e a melhor pista de atletismo da cidade, onde se realizou o inesquecível Campeonato Sul-americano de Atletismo de 1937.

Rio 2016 – Mega plano com repercussão social

A opinião nacional ficou profundamente chocada com a notícia amplamente divulgada no final da semana passada de um fato demonstrando a quantas chegou a delinqüência no país, especialmente no Rio de Janeiro: os corpos de seis jovens foram encontrados num canteiro de obras de Mesquita, na Baixada Fluminense.

Capitaneados pelos chefes do tráfico, praticamente toda a redistribuição e venda de entorpecentes nos morros e das favelas está em mãos de menores orientados pelos bandidos. É a escola do crime substituindo a escola da cidadania, onde o jovem prepara-se para o saber e o trabalho, para exercer funções de responsabilidade e aprende como melhorar a saúde do país, como tirar o petróleo que continua enrustido no fundo de nossos mares e possibilitar exportar produtos que deveria estar exportando.

A grande causa desta distorção está na má ocupação do tempo livre, das horas disponíveis da nossa juventude, à qual os traficantes têm acesso com facilidade.

A vontade política de criar instituições para a atividade sócio-educacional, principalmente na área do esporte, teria um impressionante efeito multiplicador em suas vantagens, além de crucial redução da criminalidade. As poucas iniciativas que existem na área do judô, da ginástica e de algumas outras modalidades na área da arte já têm apresentado bons resultados e demonstram a vitalidade do modelo que deveria ser ampliado em mais de mil por cento.

A realização dos Jogos Olímpicos em 2016 constitui uma grande motivação para o lançamento de um mega programa. É verdade que em um quadriênio apareceriam poucos jovens com condições de vestir a camiseta do Brasil no maior evento esportivo do mundo. Não haveria tempo hábil, mas se mantida a atmosfera, serão criadas condições para que haja uma infra-estrutura para os Jogos, dando-se sequência à história olímpica.

O Rio de Janeiro é a unidade que mais precisa de um programa similar a este, mas ele deverá ter alcance nacional, pois o problema social do país não se restringe às áreas que podem ser vistas do alto do Corcovado.

Este programa deverá ser lançado pela iniciativa privada (aproveitando-se da Lei Piva), por empresas da indústria, do comércio, por particulares e também por ONGs (com grande rigor na observação das contas se houver dinheiro público).

Ao Governo caberá a divulgação dos bons resultados destas iniciativas. Os dirigentes dos setores específicos deveriam promover um mega lançamento e a divulgação constante de cada êxito obtido, seja ele no Rio de Janeiro, seja no Amapá ou em qualquer outra parte do país.

Este trabalho não apresentaria somente as vantagens já citadas ao longo desta crônica, ele também repercutirá na área da saúde, ajudando na redução dos problemas da obesidade de nossa juventude. A organização de jogos e certames entre as várias células deste programa também vale por um trabalho em favor do lazer e que prosseguirá ao longo da vida de todos os envolvidos.

O esporte passará a integrar, com um maior índice, a escala de valores da população brasileira, multiplicando o número de seus beneficiários.

É uma pena que este programa não tivesse sido lançado no ano de 2009, logo após o Comitê Olímpico Internacional ter oficializado o nosso país como sede dos Jogos Olímpicos. Neste, como em quase todos os itens da organização, estamos atrasados três anos.

Post scriptum” – É preciso aduzir que não consideramos ser este o único plano de trabalho visando pódios e medalhas. Neste artigo, nos concentramos principalmente nos jovens carentes, em situação social precária. Existem, porém, dezenas de outros segmentos da atividade humana que podem responder por planos semelhantes e que abrangerão outras instâncias e a juventude de nosso país, como, por exemplo, os universos dos clubes, das escolas (tão desprezados ultimamente), dos centros educacionais e esportivos (municipais e estaduais), das Forças Armadas (João do Pulo apareceu quando servia o Exército numa unidade militar de Lorena). O objetivo é alargar a base quantitativa para atingirmos o vértice qualitativo, expandindo os benefícios físicos, sociais e educativos, inerentes à maior quantidade possível de pessoas integrantes da população brasileira.

Naturalmente, outros artigos abordarão especificamente cada um destes ângulos.

Salvemos o C.R. Tietê

X – São Paulo F.C., primeira incorporação territorial

 Esta é a continuação da série de artigos sobre a sobrevivência do CR Tietê. Recentemente, a Prefeitura renovou o comodato de concessão do terreno de oito clubes esportivos, deixando de fora o clube vermelhinho.

Fazer os órgãos municipais e a opinião pública tomarem conhecimento da história tieteana é a melhor forma de superar a ameaça que ronda o clube.

Em nosso blog, informamos um fato muito importante, ocorrido em 1930, que deu início à expansão territorial do Regatas Tietê: a fundação do São Paulo FC da Floresta, assim chamado por localizar-se na Chácara da Floresta, na região da Ponte Grande, ente os rios Tietê e Tamanduateí.

O futebol de nosso Estado teve, desde o seu primeiro campeonato, como um dos principais participantes, o CA Paulistano. Seu presidente, nos anos 20 do último século, Antônio Prado Jr. (que chegou a ser membro do Comitê Olímpico Internacional), era adepto de um amadorismo radical.

Quando começou a aparecer o amadorismo marrom, com os jogadores recebendo de alguns clubes por baixo do pano, Antônio Prado decidiu que o clube que presidia deixasse de participar do Campeonato de Futebol em 1930. O seu clube estava no auge, retornando de uma vitoriosa excursão à Europa em 1929, onde seus jogadores haviam recebido a alcunha de “Os Reis do Futebol”.

Nem todos os associados do Paulistano, porém, estavam de acordo com a atitude de Antônio Prado Jr e decidiram assim fundar um novo clube, fundindo-se com a Associação Atlética das Palmeiras, agremiação que desde o começo do século tinha um campo de futebol em uma área situada na Ponte Grande, contígua ao CR. Tietê.

A A.A. Palmeiras, ostentando as cores alvinegras, participou desde os primeiros tempos do Campeonato da Liga Paulista de Futebol e sempre mantivera estreita relação com o Paulistano. Nasceu então desta fusão o São Paulo FC da Floresta. Ele era tricolor pelo alvi-rubro do CA Paulistano e pelo alvinegro da AA das Palmeiras.

Este clube teve grandes glórias, mas uma vida efêmera. Logo no seu segundo ano de existência conquistou o título de campeão do certame paulista. Na sua história ficou com a glória de ter sido o primeiro clube do Estado a iluminar seu campo para jogos noturnos. Pudera… o vice-presidente do São Paulo FC, Edgard de Souza, era dirigente da Light, a concessionária de energia elétrica de nossa cidade.

O São Paulo da Floresta teve vida efêmera porque o clube contraiu dívidas muito grandes em um curto espaço de tempo, com arrecadação insuficiente para cobri-las. Havia ainda um agravante: pelos estatutos os diretores eram responsáveis pessoalmente por elas. Este débito fora decorrente de uma tentativa de aquisição da sede da Sociedade Sul Riograndense, situada na confluência da rua Conselheiro Crispiniano com a 24 de Maio.

A única solução encontrada para a sobrevivência do clube foi fazer uma fusão com o Regatas Tietê, formando o Clube de Regatas Tietê São Paulo, no ano de 1935.

O Tietê teve condições de assumir todo o débito do São Paulo FC da Floresta, que fora economicamente muito mal administrado. O “vermelhinho”, ao contrário, vinha de uma diretoria com predominância de associados competentes e provenientes da colônia portuguesa, bons financistas e que assim puderam encarar o grande débito tricolor.

Dois ou três anos depois, o Tietê aumentava seu espaço físico, eliminando da sua razão social o nome São Paulo FC. Toda a área que havia pertencido à AA das Palmeiras era agora do Tietê, que realizou grandes melhoramentos, transformando a década de 30 nos anos de ouro do clube.

Nesse decênio aconteceu também outra incorporação territorial, rica de história e de glórias. Excelente tema para os próximos capítulos desta série.

NO PÉ

Faleceu Mário Cardoso Xavier

Faleceu no último dia 12, aos 91 anos, o esportista Mário Cardoso Xavier, ao qual o esporte deve muito. Vinculado ao Corinthians (a bandeira do clube envolvia o seu caixão), ele prestou grandes serviços à natação, tendo sido diretor de esportes aquáticos do clube do Parque São Jorge, diretor da Federação Paulista de Natação e membro da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos e da FINA. Era também membro da “Orden de Los Caballeros de La Natacion Sudamericana”.

O titular deste blog esteve presente aos funerais de Mário, realizados no Cemitério do Morumbi.

Salvemos o C.R. Tietê

IX – AS GLÓRIAS ENTRE 1914 E 1930

O Clube de Regatas Tietê, em 1914, ocupando um espaço às margens do Rio, embora possuísse apenas 433 sócios, passou por uma fase auspiciosa. Construiu novas instalações para as modalidades mais praticadas na época: o remo, a natação e o atletismo. Para a natação, construiu cochos, que eram tanques de madeira, onde se podia exercer o aprendizado com segurança. Desde a primeira Travessia de São Paulo a Nado, iniciada em 1924, um ano antes da São Silvestre, o Tietê já participava daquele evento (realizado até 1943) e teve vários vencedores “vermelhinhos”.

Nos fundos da área que lhe foi atribuída, o Tietê construiu um local específico para competições de natação, com pontões de madeira flutuantes demarcando os 25 metros, que era a distância oficial na época. Competições inesquecíveis foram efetuadas naquele local, onde se destacavam Carlos de Campos Sobrinho, o banqueiro Herbert Levy e as irmãs Maria e Sieglinda Lenk.

Partidas memoráveis de water polo também foram disputadas lá, até a construção de sua piscina em 1934.

Ao Tietê, comprimido entre a Associação Atlética das Palmeiras e a margem do rio, somente sobrava espaço para uma pequena pista de atletismo, com circunferência de apenas 200 metros, mas onde surgiram Álvaro de Oliveira Ribeiro (mais tarde dedicado à vida religiosa e patrono de uma prova clássica), Domingos Pugliese, campeão dos 400 metros, Luiz Pagliari, grande arremessador de dardo, e Bento de Camargo Barros, o inesquecível campeão das provas de arremesso, o inconfundível “Pastelão”. Anos mais tarde, sua projeção esportiva valeu-lhe uma grande homenagem: o seu nome foi dado a um logradouro público, a praça que fica em frente ao CR Tietê.

Naturalmente, era ao remo que se dedicava a maioria dos associados do clube. Motivados pelo fervor despertado pela modalidade, nos anos 20 e começo dos anos 30 do século XX, os remadores militantes iam dormir em alojamentos nos barracões de barcos às 9 horas da noite, para poder acordar no dia seguinte às 5 horas da manhã, fazer seus treinamentos e depois irem para as respectivas ocupações.

Foi nessa época que se ampliou a rivalidade histórica entre o Tietê e o Esperia. Os tieteanos tinham um canhãozinho de pólvora (sem obuses) que se caracterizava pelo estrondo que fazia. Quando os “vermelhinhos” venciam os esperiotas em uma regata, disparavam o canhão em direção ao outro lado do rio, com um barulho tão grande que chegava a quebrar os vidros do clube rival.

As grandes glórias do Clube de Regatas Tietê começaram cedo, mas em 1930 houve um marco que o levou a ser um dos principais clubes amadores do país.

Este será o tema do próximo artigo desta série.

Rio 2016: Sem aplauso não há êxito

A maioria dos artigos que escrevemos em nosso blog na série “Rio 2016” estava voltada para as questões de natureza ética, da necessidade de nosso país superar os problemas endêmicos de idoneidade de dirigentes esportivos, das empreiteiras e dos próprios políticos. Eles podem invalidar a nossa meta de igualarmos ou mesmo superarmos em termos de organização e sucesso os Jogos recentemente findos na cidade de Londres.

Chegou o momento de falarmos um pouco da importância da nossa presença nas competições da programação daquele mega evento que será sediado por nós. De nada vai valer fazer uma festa cara, dispendiosa, para os demais concorrentes ficarem com as medalhas que poderiam ser nossas e nosso país, como anfitrião, continuar com uma participação tradicionalmente desapontadora.

São vários os fatores que interferem na eficiência e na participação de uma nação entre as mais de duzentas que concorrem aos Jogos Olímpicos. São eles: o número de habitantes de um país, a quantidade de instituições que integram sua infra-estrutura esportiva, a presença do esporte na escala de valores do conjunto da população e, finalmente, a imperiosa pressão econômica que torna o esporte um poderoso motivo de inserção social. Esta motivação coloca na ribalta da classificação geral olímpica alguns países de mínima representatividade sócio-política.

A influência de cada um destes fatores deve ser analisada em profundidade e comparada com dados estatísticos para que sejam tomadas medidas cabíveis que venham a ter influência no quadro final de medalhas.

É importante saber o “peso” de cada um desses fatores na obtenção do número de medalhas. Alguns dirão que é a população (o número de habitantes), baseados no fato dos Estados Unidos, Rússia e China estarem entre os primeiros. Entretanto a Índia, com um bilhão e duzentos milhões de habitantes, está em uma posição nada honrosa: 55º lugar no conjunto. O oposto também ocorre com a Jamaica e Kenia.

Outro fator a ser analisado é a eficiência esportiva pela motivação política, como é o caso de Cuba.

Enfim, a metodologia de análise da questão proposta requer que cheguemos a uma conclusão ampla e geral após uma análise que inclua tudo o que deverá ser considerado para que os brasileiros tenham um motivo para vibrar com as suas vitórias, transformando a Rio 2016 na melhor participação técnica em um século, isto é, desde 1920, quando o Brasil competia pela primeira vez nos Jogos de Antuérpia.

Sem aplauso não há êxito.

Rio 2016: A responsabilidade da Paralimpíada

No último domingo, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recebeu mais uma bandeira. Desta vez o fato ocorreu na grande festa que encerrou a Paralimpíada. Este evento, voltado para a área dos portadores de necessidades especiais, repetiu o mesmo êxito dos Jogos Olímpicos de Londres, o maior em 116 anos de olimpismo da era moderna.

Como na passagem de bastão num revezamento, a entrega do estandarte paralímpico continha uma mensagem dos ingleses aos brasileiros: “O problema, de agora em diante, é de vocês”.

Eduardo Paes, isto é, o Brasil, já estava de posse da bandeira olímpica. Na última quinzena, teve ocasião de acrescentar o compromisso de organizar não um, mas dois mega eventos.

O peso desta responsabilidade foi ampliado pela seriedade e o entusiasmo com os quais o Reino Unido encarou a Paralimpíada. Estádios lotados e atletas enquadrando-se como verdadeiros astros (ou estrelas), obtendo a mesma fama de muitos heróis dos próprios Jogos Olímpicos. “Casa cheia” foi o maior qualificativo que os órgãos de comunicação empregaram para ressaltar esta nova vitória londrina.

O Brasil teve uma presença técnica melhor na Paralimpíada do que nos próprios Jogos Olímpicos. Nossa representação recebeu mais aplausos do que críticas. A meta do 7º lugar na contagem de medalhas foi obtida e já existem planos para, em 2016, no Rio de Janeiro, conquistarmos a quinta colocação. Nossos compatriotas saíram-se muito melhor do que há 4 anos em Pequim. Voltaram da Europa com 43 medalhas (vinte e uma das quais de ouro, 14 de prata e 8 de bronze). Perdemos somente da China (95 ouros), Rússia (36 ouros), Grã Bretanha (33 ouros), Ucrânia (32 ouros) e Estados Unidos (31 ouros).

Para que os brasileiros, como os londrinos, venham a ter justos motivos para ficarem orgulhosos de seu país, também é preciso começar a preparar a organização e a participação da Paralimpíada desde já. Que apareçam outros astros do nível de Daniel Dias, que voltou com seis medalhas de ouro, e Alan Fonteles, que venceu o super star Oscar Pistorius, são os nossos votos.

Para que isto ocorra, a forma somente pode ser uma: trabalho, trabalho … e trabalho!

Rio 2016: Esporte, questão de cultura

Os Jogos Paralímpicos mereciam mais divulgação na mídia do que estão recebendo. Mereciam mais espaço, principalmente depois que um nosso conterrâneo, Alan Fonteles, venceu Pistorius, a grande estrela deste mega evento que sucede cronologicamente os Jogos Olímpicos, levando o Brasil às manchetes dos veículos de comunicação londrinos.

Para nós, um aspecto nos chamou atenção tanto quanto o triunfo nacional: nas tomadas panorâmicas de uma competição para atletas portadores de problemas físicos, estavam ocupados os 80.000 lugares das arquibancadas do Estádio Olímpico, o maior da Inglaterra.

Também nos Jogos Olímpicos (já dissemos isso em artigo anterior desta série), todos os lugares nas competições de atletismo, durante quase toda uma quinzena dos Jogos, estavam lotados.

Este fato corresponde a um sinal de cultura, valorizando uma modalidade esportiva muito mais considerada na Europa do que em nosso país. Quando dávamos nossos primeiros passos na crônica esportiva há anos, o atletismo recebia a alcunha de “esporte base”. Temos que reconhecer que a modalidade que nos deu Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Joaquim Cruz, Bento de Assis, Maurren Maggi, Fabiana Murer e tantos outros não recebeu a devida contrapartida em público.

Em nosso país predomina a monocultura de uma única modalidade, com uma pequena abertura para o voleibol, o “vice” no campeonato de popularidade. O poli interesse é uma meta e esta conquista somente irá mudar se nossas escolas melhorarem, o índice de leitura for ampliado e dirigentes esportivos quiserem trabalhar nos eventos de base.

O principal indicativo que mostraria uma evolução cultural seria programar o atletismo para o Maracanã e o futebol (salvo na final) para o estádio João Havelange. O grande número de turistas, espectadores provenientes de outras culturas e outras escalas de valores favoráveis ao atletismo, por si só, já garantiria metade da ocupação do maior estádio do Rio.

A realização dos Jogos Olímpicos no Brasil trará mais esta grande vantagem ao nosso país, à nossa cultura, propiciando uma mudança na escala de valores que nos levaria a uma visão poliesportiva.