Salvemos o CR Tietê

XI – Do Corinthians foram 13.000 metros quadrados

Na história da evolução do CR Tietê, a década de 30 do último século foi a mais importante, representada pela aquisição de áreas que completaram o espaço que o clube ocupa atualmente, bem como a construção da primeira piscina olímpica do Estado que deflagrou grande surto de progresso na natação paulista.

Mais uma vez, temos que recorrer à história de outros clubes para que se compreenda a importância da incorporação de espaço ocorrida em 1936, um ano após ter ficado com o terreno e as instalações do estádio do São Paulo FC da Floresta.

Desta vez, precisamos nos valer do passado do S.C. Corinthians Paulista que, embora poucos saibam, também integrou a história do clube da Ponte Grande.

Esse clube foi fundado em 1º de setembro de 1910, em uma barbearia, e seu primeiro presidente foi um alfaiate, João Baptista Mauricio. Era, desde a sua origem, um clube popular, formado por trabalhadores do bairro do Bom Retiro. O seu nome derivou-se da onda de entusiasmo provocada pela vinda ao nosso país de um clube inglês, o “Corinthian”. A escolha do nome foi uma homenagem àquele esquadrão que tanto impressão havia causado na pequena São Paulo daqueles tempos.

Este clube passou a jogar na várzea paulista. O entusiasmo dos jogadores e da torcida estabeleceu um diferencial que até hoje ainda perdura.

A sequência de vitórias corinthianas fez com que o clube não mais se conformasse em jogar no campo do Lenheiro, terreno alagado na região do Bom Retiro. Vôos maiores estavam previstos na sua evolução. Seus adversários passaram a ser associados provindos de agremiações sociais bem diversas, como o Germânia, o Paulistano, a AA das Palmeiras, o Mackenzie, o Clube dos Ingleses e outros.

Após uma cisão ocorrida no Campeonato Paulista, dando origem a mais uma liga de futebol, foi aumentado o número de vagas e o Corinthians encontrou uma oportunidade para jogar no campeonato principal da Liga Paulista de Futebol. Nesse certame, ficou em terceiro lugar e já em 1914 tornou-se campeão invicto.

Em 1916 ele passou a disputar o certame da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), entidade concorrente da Liga Paulista. Nesse ano, porém, por razões urbanísticas o Velódromo (onde eram realizados os jogos da APEA) foi desapropriado e o Corinthians precisava de um local para mandar seus jogos.

Foi nesta altura que o Corinthians foi para a Chácara Floresta, na Ponte Grande, em um espaço contíguo ao Tietê e à AA das Palmeiras.

Para atingir esse grande sonho os corinthianos contaram com o apoio e a orientação do deputado Antônio Alcântara Machado, que dá hoje seu nome ao viaduto sobre as porteiras do Brás. Ele superou todas as dificuldades burocráticas e, no dia 17 de julho de 1916, quando era presidente do Corinthians João Baptista Mauricio, foi assinado o contrato de arrendamento. Assistiu ao ato o Dr. Washington Luiz Pereira de Souza, que uma década depois viria a ser Presidente da República.

Pelo contrato, o clube alvinegro pagaria pelo uso do espaço de 13.000 metros quadrados 110 mil réis por mês, com carência de cinco meses. Comprometia-se também a conservar todos os coqueiros do terreno e pagar multa se algum fosse derrubado.

A transformação desta área em um estádio nos lembra a epopéia atual de construção do “Itaquerão”.

Os associados transformaram-se em pedreiros, marceneiros, encanadores e serventes. Trabalharam gratuitamente em troca das mensalidades atrasadas. Em pouco tempo o charco encontrado no local estava aterrado e, em 1917, poucos meses depois, as arquibancadas prontas para receber os predecessores da “Fiel”. O gramado, absolutamente pleno, resgatava a má fama dos campos de futebol da cidade na época. A mão de obra havia sido paga com a inestimável moeda do amor ao clube.

Este estádio, construído com este esforço, nada ficava a dever à vizinha A.A. das Palmeiras, com um corpo associativo de alto poder aquisitivo.

O Corinthians somente deixou a Ponte Grande 10 anos após, em 1927, quando o local já havia se tornado pequeno para um clube que já tinha sido tri-campeão paulista e campeão do Centenário (Centenário da Independência do Brasil em 1922).

Uma década com o São Bento

Foi uma decisão consensual a mudança do Corinthians para o Parque São Jorge, também às margens do Tietê. Como conseqüência, o estádio da Ponte Grande passou a ser utilizado por uma década pela Associação Atlética São Bento, formada e dirigida por ex alunos do Colégio São Bento.

Pouca gente sabe que, pela atual portaria do CR Tietê, já passaram torcedores que, durante 20 anos, foram assistir aos jogos de futebol do time corinthiano ou do São Bento.

A A.A. São Bento, fundada em 1913, foi campeã paulista em 1914 e em 1925. Jogou até o campeonato de 1934, quando por repulsa ao amadorismo marrom (como o Paulistano) abandonou o futebol. Em 1937, fechou suas portas e cedeu seu terreno ao CR Tietê, que em troca assumiu seus compromissos financeiros e, consequentemente, aumentou sua área em mais 13.000 metros.

Nesse espaço o “vermelhinho” construiu vestiários e suas quadras de tênis. No mesmo espaço em que brilharam Neco, Amilcar, Casimiro e Bianco, aprendeu a jogar tênis a maior campeã da história desta modalidade do Brasil: Maria Esther Bueno.

Em homenagem ao clube que se findava, o Tietê batizou o barco mais famoso de sua flotilha, um “out-rigger” a oito, com o nome de A.A. São Bento.

A década dos anos 30 foi a mais importante da história do CR Tietê, pois além de ter incorporado duas importantes áreas do São Paulo e a do São Bento, ele ainda construiu sua piscina olímpica e a melhor pista de atletismo da cidade, onde se realizou o inesquecível Campeonato Sul-americano de Atletismo de 1937.

2 comentários em “Salvemos o CR Tietê

  1. Parabens professor Nicolini pelo exelente texto, só assim para resgatar a memória esportiva de são paulo com artigos extraídos pela brilhante memória e conhecimento que o senhor possui.
    Um grade abraço
    Hely ¨um dos batutas do sertão¨

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