Santa Maria e o esporte

O leitor que acompanha nossa coluna é testemunha de meu otimismo sobre o impulso de desenvolvimento que o Brasil poderia ter em decorrência de uma série de mega eventos que o país sediará nesta década, entre os quais a Copa das Confederações, o Mundial de Futebol, os Jogos Olímpicos e vários certames internacionais de diversas modalidades, além do Encontro Mundial da Juventude de fundamentação religiosa, com a presença do Papa Bento XVI.

O conjunto destas realizações vai expor o nosso país ao mundo. Se esses eventos obtiverem êxito, criarão a imagem do Brasil como uma nação madura e responsável. Isto corresponderia à nossa porta de entrada no primeiro mundo.

Este “up grade” nos propiciaria um resultado econômico muito grande, resultante da projeção do turismo e de outras atividades que levantariam a auto-estima do país, criando um desejável reconhecimento internacional. Chegamos até a admitir como possível a ocorrência da consolidação do sentimento de um patriotismo coletivo nacional, principalmente pela adesão da parte mais consciente da população. Se esse sentimento fosse também partilhado pela maioria das pessoas que detêm postos de comando governamental esportivo, estaríamos repelindo a corrupção e a negligência que são os fatores mais preocupantes. Seriam aproveitados em obras e serviços todos os recursos e da iniciativa privada. Não seria desperdiçado nenhum tostão. Os orçamentos municipal, estadual e federal seriam preservados para a saúde, os transportes, a segurança e a infra-estrutura condizente com um país de primeiro mundo.

Entretanto, a renúncia aos males endêmicos da corrupção e da negligência não aconteceu e os otimistas foram chamados à triste realidade. A grande maioria dos estádios para a Copa das Confederações está entre atrasada ou atrasadíssima.  Os orçamentos de muitas arenas, como ocorreu com os Jogos Pan-americanos, já dobraram suas estimativas e caminham, no mínimo, para custar quatro, cinco ou seis vezes mais do que a previsão inicial. As negligências ocorridas em 2012 foram tantas que o secretário geral da FIFA, em cada entrevista, dava um puxão de orelhas em nossos dirigentes. Ele chegou a dizer que “o Brasil precisa de um pontapé no traseiro”, declaração fartamente repetida na mídia mundial.

Apesar dos esforços do Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, os jornais andam repletos de notícias de estarrecer, sobre assaltos, agressões e até homicídios contra turistas, naturalmente repetidas pelos jornais dos cinco continentes.

A negligência do servidor estatal e autárquico também nos leva a terríveis conseqüências. Há uma convicção generalizada entre os servidores públicos de que devolver com trabalho honesto e com dedicação o estipêndio recebido do erário é ser tolo. O objetivo é sempre trabalhar menos horas e estar permanentemente lutando por maiores salários e outras vantagens em forma de benesses. Desta atitude resulta o déficit do tesouro público e a falta de recursos para ações mais importantes. A safra de grãos a ser vendida no exterior recebe um acréscimo no custo de 33%, somente pelas condições das estradas situadas entre as fontes produtoras de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás e os portos de exportação.

O recorde desta desmoralização internacional resultante da negligência nacional veio com a terrível catástrofe ocorrida em Santa Maria. As referências dos órgãos de comunicação dos países de todo o planeta Terra levaram-nos a lembrar da “Geni”, da conhecida música de Chico Buarque de Holanda. “Joga m… na Geni” era o refrão. Para os que não estiverem convictos do que estamos dizendo, confiram algumas opiniões emitidas pelos mais famosos veículos de informação do mundo.

O Estadão de ontem noticiou que os meios de comunicação estrangeiros afirmam que a tragédia da cidade gaúcha é incompatível com os anseios de um país que quer ter um novo status mundial. O “Financial Times” chegou a ironizar até o lema da nossa bandeira, chamando-a de “Idiotia e Progresso”, e afirmou que a nova crise chega a ameaçar até a estabilidade do governo da presidente Dilma.

Outros jornais dizem que o Brasil precisa de menos samba e mais sobriedade. O “Financial Times” voltou a dizer: “Para um país que cresce em termos econômicos e está se preparando para mostrar seus progressos com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a lista de erros e fracassos que levou ao incêndio de sábado promove a pior publicidade”, confirmando a nossa tese. A Revista Time comentou que o incêndio matou principalmente os jovens que se preparavam para ajudar o Brasil a se transformar em um país desenvolvido.

A BBC, por sua vez, diz que o incêndio “mancha” a imagem do Brasil, justamente a 500 dias da inauguração do Mundial e o suíço Le Matin levantou o apavorante tema da segurança no Brasil durante a realização dos mega eventos.

O Brasil, como se viu, encontrou em Santa Maria o efeito exatamente oposto ao de sua meta de elevação do reconhecimento internacional.

O desastre pode se transformar numa vitória contra a negligência e a corrupção se obtiver um grande triunfo sobre a impunidade. Na hora que os donos da boate Kiss e os funcionários públicos que permitiram seu funcionamento irregular forem para a cadeia, todos os outros estabelecimentos em situação análoga pensarão duas vezes antes de quererem dar um “jeitinho” para funcionar fora da lei.

O mesmo podemos dizer do mensalão. Na hora em que os indiciados pelo STF forem efetivamente para a cadeia e nenhum político ou advogado vier a quebrar o galho, os bandidos da política perderão a sua chance de corromper o país e o Brasil poderá progredir como deveria e competir com as potências européias e, porque não dizer, os Estados Unidos!

Ginástica substitui o rebolado

A Prefeitura de Peruíbe instalou um palanque no Balneário Oasis, bem em frente a uma casa que eu tenho naquela cidade. Essa instalação serve, em horas programadas, como palco para sessões de ginástica ministradas por professores competentes aos banhistas de uma das praias mais movimentadas daquela estância balneária.

É impressionante ver a receptividade deste programa e como os freqüentadores, em sua grande maioria, se dedicam aos exercícios acompanhando os guias ao ritmo de uma música muito animada.

Este palanque, para mim, é um símbolo de uma mudança radical da nova administração municipal. Uma atividade altamente salutar passou a ocupar um espaço que anteriormente se caracterizava por manifestações de uma camada jovem identificada com outros valores. Prevaleciam naquele local alto-falantes com música atordoante, sem melodia e somente ritmo, instalados em bagageiros de carros particulares. Aproveitando o som, jovens rebolavam de forma muito pouco comportada, exibindo alguns gestos que sugeriam uma relação sexual.

Fiquei feliz em contemplar esta salutar alteração de valores e gostaria que os dirigentes do município ampliassem o número destes palanques por outras praias de frequência mais densa. Muita gente vai se beneficiar deste instrumento saudável de caráter massivo. Até os que não entrarem na ginástica poderão assistir a um espetáculo bonito, ao visualizar a harmonia do conjunto daqueles que aderiram ao exercício.

Estão de parabéns a Prefeita Ana Preto, Nelson Gonçalves Pinto, o vice-prefeito, e Aline Gomes, Secretária Municipal de Esportes, por esta ação revolucionária (creio que inédita) em todo o litoral paulista. Como esportista praticante, militante do karatê, Aline tem consciência da alta importância do valor da atividade que começa a ser desenvolvida.

A “Super Copa”

Israel de Oliveira/Divulgação Santos FC

Israel de Oliveira/Divulgação Santos FC

Acompanhei com grande interesse os jogos da Copa São Paulo de Futebol Junior e revoltei-me com a denominação de “Copinha” que lhe é dada pela mídia. Embora podendo ser interpretada como um diminutivo carinhoso, o epíteto não faz jus a grandiosidade deste evento.

Sigo a Copa desde quando ela foi oficializada pelo Conselho Municipal de Esportes, época em que nem a SEME havia sido ainda criada, no final da década de 60.

A Copa São Paulo nasceu do empenho de Fábio Lazzari e Paulo Soares Cintra. A cada ano ela era ampliada, até tornar-se estadual, sob o comando da FPF. Nos últimos tempos assumiu o âmbito nacional, com o apoio da CBF.

A Copa São Paulo deste ano reuniu 96 equipes de 25 dos 26 Estados do país e congregou equipes juvenis dos certames efetuados de leste a oeste, de Rondônia, Paraíba ou Roraima, de norte a sul, além de defensores de equipes renomadas como Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Cruzeiro e tantos outros. Ela congrega ainda vários clubes do interior de São Paulo, que chegam divididos em 28 séries.

O certame é um exemplo de democracia, pois coloca jogando em igualdade de condições o Vasco e o Mirassol, o Internacional contra um Veloclube de Rio Claro e outros times muito pouco divulgados.

Com tão grande amplitude de participação, este torneio tornou-se a vitrine do futebol brasileiro. Foi a iniciativa que vale como uma verdadeira prospecção de talentos. Vitrine que é atentamente observada pelos agentes, não só do país como do próprio exterior.

É indubitável que a altura do vértice técnico de uma modalidade esportiva depende da largura da sua base quantitativa. Quanto mais valor se der às categorias de base, maior a possibilidade para o aparecimento de grandes nomes no esporte.

Este é, aliás, o tema do livro “Esporte, da base ao vértice”, que estou preparando há mais de 3 anos. Ele defende que ninguém chega ao pódio sem pisar no primeiro degrau.

Infelizmente, a divulgação dos eventos de base não encontra o merecido apoio da mídia, que prefere dar destaque aos jogos de equipes secundárias do exterior e a fofocas entre jogadores e as diretorias de seus clubes.

Mesmo fora da égide do esporte de alto rendimento, este princípio tem grande validade. As competições massivas ocupam o tempo livre da infância, da juventude, evitando o descaminho para as drogas e outras mazelas decorrentes da falta de atividade física. Também adultos e a terceira idade beneficiam-se com a valorização da saúde.

Domingo passado vimos, horrorizados, o programa de Silvio Santos e ficamos estupefatos com a temática usada em uma apresentação de crianças de 9 a 11 anos. A preocupação com que se falava do sexo abusivo chocou a todos que gostariam de ver a atividade esportiva bem divulgada, integrando a escala de valores dos cidadãos do futuro.

Chamar de “Copinha” um evento que tem todo este embasamento teórico, ético e social é definitivamente injusto. Em vez do diminutivo devem chamá-la pelo seu aumentativo, ou seja, “Super Copa”.

O Civismo Tornou-Se Prioridade

O ano de 2013 marca o início do Quadriênio dos Mega eventos que o Brasil deve sediar até 2016. O primeiro será efetuado em junho deste ano. Trata-se da Copa das Confederações, uma disputa que nos vai testar para a Copa do Mundo de 2014. Ela, certamente, dará ao nosso futebol a oportunidade de voltar ao topo do ranking da FIFA, que reúne quase 200 nações participantes do esporte nacional do planeta. 2016 será também a ocasião dos Jogos Olímpicos, que congregarão mais de duas centenas de países concorrentes.

Não bastasse este big three de eventos, seremos igualmente sede de mundiais de realizações de outras modalidades e ainda da grande reunião de juventude católica no Rio de Janeiro que contará, inclusive, com a presença do Papa.

Bancar todos estes super eventos será razão para o Brasil fixar sua imagem no exterior e demonstrar claramente o nosso pleno desenvolvimento, deixando para trás o subdesenvolvimento e ingressando no primeiro mundo.

De uma imagem de país amadurecido dependem resultados econômicos, como o turismo (somos um país maravilhoso) e maior personalidade no comércio exterior. A auto estima nacional será consideravelmente ampliada se nos organizarmos.Tudo isso em favor do bem estar do nosso povo.

A população consciente de nosso país terá, diante deste quadro, uma sobrecarga de responsabilidades. Além de zelar pela ética, lisura e fair play com os quais o esporte deve ser praticado, terá de se manifestar contra a inidoneidade endêmica de políticos, empreiteiros e figuras governamentais.

A importância de nossa imagem no exterior tem recebido arranhões contínuos, delatados no último ano pela FIFA e pelo Comitê Olímpico Internacional. Não podemos nos esquecer que a corrupção será a principal adversária para atingirmos as nossas metas.

Ainda em 2012, quando os festejos de fim de ano abarrotaram de turistas as praias mais nobres do Rio de Janeiro, os assaltantes preferiram pousadas e hotéis nas quais as vítimas eram ingleses, americanos e viajantes procedentes da área da Europa. Imaginem que os prejudicados disseram nos seus países de origem do nosso Brasil, nação onde perderam o dinheiro que trouxeram, documentos e o passaporte, além de seus aparelhos eletrônicos.

Por todos os meios possíveis temos a missão de divulgar que a imagem do Brasil está em primeiro lugar.

O civismo tornou-se prioridade.

NO PÉ

NOTA ZERO PARA O COB

Não podemos deixar de divulgar a cópia enviada pela honrada SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) ao presidente do COB. Em vez de se preocupar com o enorme problema citado no artigo acima, eles vão intrometer-se em uma causa nobre, tentando atrapalhar ou “melar” uma ação que estimula a educação de nosso país. Leiam este texto:

São Paulo, 08 de janeiro de 2013

SBPC- 138/Dir.

Ilustríssimo Senhor

CARLOS ARTHUR NUZMAN

Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB)

Senhor Presidente,

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entidade civil, sem fins lucrativos nem cor político-partidária, que atua em defesa do avanço científico e tecnológico do Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), receberam com espanto e indignação a informação de que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) notificou extra-judicialmente a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo uso supostamente indevido da palavra “olimpíada”, no nome da competição que organiza, a Olimpíada Nacional em História do Brasil.

Ninguém ignora a importância dessas competições científicas – no país já existem 18 delas – para a divulgação da ciência e o aumento do interesse dos jovens pelas atividades científicas, o que é fundamental para o desenvolvimento tecnológico de qualquer nação e o bem estar econômico e social de sua população.

Sem esquecer que jovens que vencem as olimpíadas nacionais depois vão participar de competições internacionais. E muitos deles têm se destacado, contribuindo para divulgar o nome do Brasil e da ciência e educação do país. É o caso, por exemplo, do jovem Matheus Camacho, de 14 anos, aluno de uma escola de São Paulo, que acaba de conquistar em Teerã, uma medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Ciências, concorrendo com estudantes de 28 países.

Por isso, a proibição do uso da palavra “olimpíadas” para designar competições científicas é uma situação que se configura mais despropositada ainda, quando se sabe que a palavra é empregada mundialmente para designar competições científicas, tais como International Mathematical Olympiad, Math Olympids for Elementray and Midde Schools, The British Mathematical Olympiad Sibtrust, Science Olympiad, entre muitas outras.

Assim, a SBPC e a ABC não concordam com a decisão do COB de ter a exclusividade do uso da palavra “olimpíada”, pois significará um retrocesso trazendo em prejuízo a todas as tradicionais olimpíadas educacionais (matemática, ciências, língua portuguesa, química, astronomia entre outras) que se realizam no Brasil há anos.

Sempre prontas a defender a ciência e a educação brasileira, a SBPC e a ABC subscrevem,

Atenciosamente,

HELENA B. NADER JACOB PALIS

Presidente da SBPC Presidente da SBC

Um dia de glória para o futebol de salão

Divulgação

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O Esporte Espetacular divulgou, no dia 30 de dezembro findo, uma excelente matéria sobre os momentos de maior destaque do esporte nacional a partir dos primeiros decênios do século findo.

Esta recuperação da memória esportiva do nosso país não se circunscreveu somente ao futebol profissional, mas abrangeu as principais modalidades esportivas. Não ficou somente nas conquistas do mundial da Suécia, em 1958, a primeira de uma série sob a direção de Vicente Feola, quando apareceu Pelé. A emissora enalteceu nossos feitos em diversos esportes como atletismo, futebol de salão, natação, judô e outros em que o Brasil se destacou. Pessoalmente, dois eventos divulgados despertaram em nós recordações saudosas: 1) a presença de Emil Zatopeck em nosso país em 1953, 2) o primeiro Campeonato Mundial de Futebol de Salão. No primeiro dos casos, fomos coadjuvantes dos fatos e, com grande alegria, escrevemos uma crônica publicada no dia 2 de janeiro, na qual narramos pormenores que poderiam ter enriquecido ainda mais a brilhante matéria da emissora da Rede Globo.

Naquele texto, eu pretendia abordar os dois eventos, mas meus informes sobre Zatopeck eram tantos que “engoliram” o espaço disponível. Prometemos então escrever a outra matéria sobre o Mundial de Salão, que somente hoje tive condições de escrevê-la.

Se no caso da vinda de Zatopeck fomos somente coadjuvantes, na realização do I Campeonato de Futebol de Salão fomos protagonistas.

No início dos anos 70, o Futebol de Salão, num contexto estadual e nacional, estava ainda se estruturando quanto à dimensão da quadra e das traves do gol, ao tamanho e peso da bola, e principalmente quanto à formalização de uma federação específica.

Na época, os brasileiros discutiam com os uruguaios a primazia da criação dessa nova modalidade esportiva. Habib Mafuz, destacado integrante da colônia sírio-libanesa, foi o primeiro presidente da Federação Paulista e conseguiu até um terreno no Parque São Jorge, perto do Corinthians, para a construção de um ginásio (que ainda está lá) para a prática da modalidade.

Entre os dirigentes dos primeiros tempos, figuravam Vicente Piazza, vice-presidente da Confederação Brasileira, Januário D’Alessio, Presidente da Federação Internacional da Fifusa e Ciro Fontão de Souza. O presidente da Confederação Brasileira era o deputado cearense Aécio Borba, que até hoje se encontra no cargo.

Logo depois, para consolidar a primazia nacional, estes dirigentes partiram para a organização de um Campeonato Mundial em São Paulo.

Como faltava “know how”para a implementação um empreendimento de tal dimensão, estes dirigentes recorrerão ao autor destas linhas que, apoiado na experiência obtida na organização da Corrida Internacional da São Silvestre, e em um amplo programa promocional de A Gazeta Esportiva, havia constituído Comunicações Nicolini, uma empresa pioneira neste setor que já tinha organizado a Copa Arizona (com 2500 times de futebol amador), a Copa Natu Nobilis de Tênis (onde houve uma apresentação do campeão mundial Bjorn Borg), o Revezamento Gigante (que reuniu 2 500 nadadores em uma única prova e consta do Guiness Book), a Operação Juventude (que proporcionou o primeiro relacionamento com as pistas para 300 000 escolares de todo o país) e outros eventos.

Aceitamos as condições e convidamos para o primeiro mega evento da modalidade o Uruguai, a Itália, a Argentina, o Paraguai, a Holanda, Colômbia, Tchecoslováquia, Japão, Costa Rica. Com o Brasil foram 10participantes. (Israel participou unicamente do congresso técnico).

Conseguimos alojamento no Ibirapuera e a cessão (naquele tempo, gratuita) do Ginásio do Ibirapuera. No congresso técnico, harmonizaram-se as diferenças das várias regulamentações dos países concorrentes, chegando-se a uma norma mundial única. Havia países que ainda usavam a bola “que pulava”.

O ineditismo levou a uma grande divulgação mundial pela mídia. A Globo transmitiu a maioria das partidas por intermédio de Luciano do Vale, que na época atuava naquela emissora. À medida que os jogos eram realizados, o público aumentava. Como suprema demonstração de prestígio de uma entidade alem do Futebol de Campo, havia até cambistas vendendo ingressos para os retardatários.

Divulgação

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Na peleja decisiva, a final entre o Brasil e o Paraguai, com a presença até dos Gaviões da Fiel, o Ibirapuera reuniu o maior público de sua história em um evento esportivo. Um recorde que não foi ainda superado: o público que se comprimia até nas escadas era calculado em 17 mil pessoas.

As solenidades de abertura e encerramento tiveram alto nível, seguiram padrão olímpico, com pira, bandeiras e hinos. O Brasil saiu robustecido do evento. O prestígio foi tão grande que a FIFA, enciumada, resolveu chamar a modalidade para a sua égide. Januário D’Alessio, presidente da Fifusa, passou a ser o diretor de Futebol de Salão da FIFA.

Algumas Federações importantes não concordaram com a submissão à FIFA e fundaram a Federação Internacional de Futsal, título que não utiliza a palavra Futebol.

Recentemente, para meu grande desaponto pessoal, no último campeonato de Futebol de Salão, a FIFA mandou retirar duas das seis estrelas do uniforme do Brasil, não reconhecendo os dois grandes eventos que vencemos na época da Fifusa, antes da modalidade passar para a sua égide.

Em compensação, foi muito gratificante para nós ver a Globo mostrando e documentando a grandiosidade daquele evento realizado no início dos anos 80, ao incluí-lo entre um dos principais momentos do esporte brasileiro.

Apenas um par de mãos para aplaudir

Foto: AFP

Abebe Bikila da Etiópia correu descalço e venceu a Maratona dos Jogos Olímpicos de Roma em 1960

Por mais que alguns veículos de comunicação tentem denegrir a Corrida Internacional de São Silvestre, ela possui conquistas históricas responsáveis pelo seu grande prestigio.

Nascida, criada e agigantada pela A Gazeta e a A Gazeta Esportiva, a São Silvestre semeou outras provas na noite de 31 de dezembro, as quais hoje concorrem com a própria disputa do Brasil.

Uma delas é a de Nova York, no Central Park, que este ano reuniu 10.000 atletas. Ela continua sendo disputada à meia noite e conta, para criar clima festivo, com fogos de artifício, ao som da música New York New York. Esta prova tem 34 anos e foi iniciada na época de maior esplendor da São Silvestre brasileira. Antes do lançamento, os organizadores estiveram no Brasil e optaram por implementar o nosso modelo (não confundi-la com a Maratona de Nova York, realizada em ocasião diversa).

Outra São Silvestre bem antiga e prestigiosa é a de Madrid. Dado o grande interesse dos fundistas espanhóis pela nossa corrida, e somando-se ao fato da Fundação Casper Libero convidar somente um representante de cada país, os dirigentes resolveram lançar a São Silvestre espanhola. Este evento conta no ranking de seus vencedores atletas que, em outros anos, também venceram a prova do Brasil.

A ascensão do pedestrianismo africano, após o triunfo de Abebe Bikila, da Etiópia (que correndo descalço venceu a Maratona dos Jogos Olímpicos de Roma em 1960), os países da África começaram aparecer entre os vencedores das principais provas pedestres realizadas pelo mundo, não só na São Silvestre, mas também na Maratona de Nova York, em algumas nações européias e nos Jogos Olímpicos.

É natural que a São Silvestre, com o passar dos tempos e sob maior influência do fator econômico, viesse a sofrer a concorrência de seus filhotes, outros eventos realizados na mesma data. Este fato, porém, não justifica as noticias desanimadoras de alguns veículos nacionais divulgadas sobre a tradicional corrida. Se a prova perdeu a presença de alguns grandes nomes do atletismo, pelo seu prestigio ela está congregando atualmente mais de 25 mil concorrentes voluntários, procedentes de muitas nações do exterior e de 25 dos 26 estados que integram o nosso país.

Continuamos como um grande evento nacional e internacional. A vitória de africanos é normal no noticiário de qualquer prova efetivada neste planeta.

Aos críticos, endereçamos uma frase que Carlos Joel Nelli citava frequentemente: “Existem mil olhos para procurar defeitos e apenas um par de mãos para aplaudir”.

NO PÉ

A Gazeta Esportiva e o interior.

O boletim do Panathlon Club Mococa publicou neste começo de ano um texto que demonstra como o espírito promocional de A Gazeta Esportiva alastrou-se por todo o estado e até pelo país.

Ele nos conta como Lauro D’Angelo, um fotógrafo dos primeiros tempos da Fundação Casper Libero, indo morar naquela cidade levou o exemplo de Carlos Joel Nelli e semeou diversas modalidades esportivas em Mococa. Vejamos o que escreveu o esportista Antonino Silva:

“Na década de 1950, com a vinda de Lauro D’Angelo para Mococa, iniciou-se uma série de atividades nunca vista antes em nossa cidade.

Com o beneplácito de A Gazeta Esportiva, Lauro – juntamente com Malim Zamarian e o Dim Bernardes – incentivou a realização de inúmeros campeonatos populares e outras realizações que motivavam a cidade por todo o ano.

Sob a batuta desses valorosos esportistas, tornaram-se tradicionais os campeonatos de “truco”, “bocha”, “damas” e “braço de ferro”. As célebres corridas de bicicleta, no “9 de julho” e pedestre, na São Silvestre, na época realizada no ultimo dia do ano e no período noturno como mandava a tradição.

Alem destas promoções populares que visavam à participação de toda a população, havia também os campeonatos de futebol, principalmente “Campeonato Juvenil”, onde os clubes amadores participavam com os seus valores emergentes.

Havia também os campeonatos de “bola ao cesto” que envolviam clubes amadores e unidades escolares.

Com o retorno de Zezinho Pereira para Mococa, iniciou-se uma nova fase com a criação da “Olimpíada Estudantil” (Escolas: Oscar Villares, Comércio, Industrial e o Tiro de Guerra), culminando em 1968 com a “Olimpíada Infantil” (Escolas: Primário, Hilda Silva, Godoy, Barão, Maestro e dos distritos de Igaraí e São Benedito).

Convém salientar que, por ocasião da Olimpíada Infantil, eram também realizados o Concurso de Robustez e o Concurso de Fanfarras.

São bons tempos que podem retornar, já que se aliando “educação – esporte – cultura”, podemos massificar no desporto toda uma geração que, no futuro, poderá ser a base do nosso desporto competitivo. Isto sem contar que pode ser realizado um amplo Concurso de Fanfarras, com a participação de todas as unidades escolares do município pois, sem que ninguém perceba, possuímos uma cultura de “tocar bumbo”.

OITENTA ANOS VIVENDO A SÃO SILVESTRE

Foto: ReproduçãoGostei do novo percurso e do horário da última São Silvestre. Vê-la longe da Av. Paulista era uma grande desilusão para mim que, por esta prova, tenho uma grande ligação afetiva que dura há mais de 50 anos.

Na minha primeira infância, com sete anos eu já acompanhava a atuação de Nestor Gomes, o maior fundista dos anos 30. Lembro-me quando ele perdeu a São Silvestre de 1934; abrindo os braços, na atitude típica de um vitorioso, ele deixou passar por baixo deles o atleta Alfredo Carletti, que vinha atrás em um grande Sprint.

Menino ainda, consegui aos quinze anos de idade permissão de meus pais para presenciar a chegada de 1941, vencida pelo mineiro José Tiburcio dos Santos e bem pertinho de mim assisti à transmissão entusiasmada de Blota Júnior para a rádio Cruzeiro do Sul.

Como voluntário, estive ligado a A Gazeta organizando eventos populares, como a Prova dos Bairros. A partir de 1947, comecei a trabalhar na A Gazeta Esportiva, que por sua vez passou a circular diariamente. Logo no primeiro ano, fui incluído no staff organizador da corrida.

Numa época em que não se contava com o apoio dos meios eletrônicos e nem se sonhava com o computador, a classificação era feita através da inserção de uma ficha de papel com o nome dos atletas em um espeto localizado na chegada. Não havia como evitar um embolo no funil e a chegada simultânea de muitos corredores.

Mais tarde, conheci pessoalmente quase todos os vencedores das quinze primeiras provas e tive, inclusive, a ocasião de entrevistar Alfredo Gomes, o vencedor da primeira São Silvestre. Ele me contou detalhes que mostravam como as disputas iniciais eram despretensiosas. Em 1925, por exemplo, nem o trânsito era interrompido e os atletas corriam ao lado dos bondes elétricos.

Carlos Joel Nelli foi a alma e o coração desta prova, dando a ela o seu prestígio internacional. Foi após o falecimento de Casper Líbero, em um acidente de aviação no Rio de Janeiro em 1943, que Nelli assumiu a gerência da Fundação Casper Líbero e, nessa qualidade, transformou em 1945 a São Silvestre em um evento internacional, com a presença de atletas da América do Sul, especialmente do Cone Sul.

As duas primeiras provas já em nível internacional foram vencidas por Sebastião Alves Monteiro. Em 1947, Oscar Moreira subiu ao topo do pódio e deu início a um grande jejum brasileiro, que somente terminou em 1980 com a grande vitória do garçom José João da Silva.

Até 1947, os locais da chegada e o percurso eram variáveis. Foi nesse ano que A Gazeta transferiu-se para a então R. Da Conceição (hoje Av. Casper Líbero) e a chegada acontecia pertinho da Igreja da Santa Efigênia.

O enorme prestígio internacional se iniciou no ano de 1949, com a vinda ao Brasil de ViljoHeino, da Finlândia, uma das pessoas mais afáveis que já conhecemos.
Nos dias em que permaneceu em nosso país, o campeão e recordista mundial não reuniu em seu redor somente membros da colônia finlandesa. Ele juntou também destacados esportistas do Brasil, entre eles Adhemar Ferreira da Silva.

Dois anos depois, nos Jogos Olímpicos de 1952, a Finlândia viu impressionada um esportista negro cantando as canções mais carinhosas do folclore daquela nação. Este particular tornou Adhemar o atleta mais aplaudido daqueles Jogos Olímpicos, logo após ter vencido a prova do salto triplo.

Em 1953, Emil Zatopek veio participar da São Silvestre. Noticiamos em uma outra crônica desta série muitos detalhes que cercaram sua presença no Brasil.

O espírito olímpico ainda reinava naquela época e ser convidado para concorrer à prova da passagem do ano era uma questão de prestígio. É por isso que nomes como Gastão Roelands, Ken Norris, Victor Mora e outros nada recebiam além da passagem e da hospedagem.

Com o passar do tempo houve uma grande evolução do pedestrianismo africano e atletas da Etiópia, Kênia e outros países desse continente passaram a ocupar o lugar dos europeus.

A quebra do amadorismo olímpico de certa maneira dificultou a presença de grandes astros e estrelas a partir de 1992. Entretanto, se o advento do computador e o aumento da metragem do percurso deslocaram o foco do aspecto rigorosamente técnico, permitiram congregar vinte e cinco mil competidores atraídos pela grandiosidade da história e do prestígio da São Silvestre. Mas, a concorrência de outras atrações na Av. Paulista, para grande tristeza do autor destas linhas, transferiu o horário da realização e da chegada da prova da meia noite, o que constituía o seu grande charme. Mudanças de itinerário visavam ceder espaço para shows da virada do ano.

Voltando para o terreno das recordações, lembro-me de ter ciceroneado em São Paulo os melhores atletas do mundo, entre os quais Wladimir Kuts, Gastão Roelands e muitos dirigentes do atletismo internacional. Vários jantaram em minha residência. Não foram somente os atletas vencedores que deixaram aqui sua estima, mas também outros, como LucienTheis, um carteiro da Bélgica que por muito tempo trocou correspondência comigo.

Durante mais de meio século não soube nunca o que era estar em casa na passagem de ano. Neste particular, contei sempre com a solidariedade e colaboração de minha esposa, professora de inglês.

Falando de Zatopek

Foto: Acervo/Gazeta Press

Zatopek no topo de pódio no dia 31 de dezembro de 1953 (Foto: Acervo/Gazeta Press)

No dia 30 de dezembro, quando eu passava férias na minha casa de praia em Peruíbe, minha filha Augusta chamou-me atenção para um excelente programa de reconstituição da memória esportiva do país desde o início do século passado.

Era uma produção do Esporte Espetacular, da Rede Globo, que não se circunscreveu somente ao futebol, mas ao esporte em geral, notadamente às modalidades mais praticadas em nosso país.

Entre muitos tópicos daquela grande matéria, não faltaram o desaponto do mundial de 1950 e a alegria do Tri em 1970.

Dois temas, entre os que foram expostos naquela verdadeira história do esporte brasileiro, evocaram a mim muitas recordações e me estimularam a escrever outros pormenores não citados pela emissora: a presença de Emil Zatopeck na São Silvestre de 1953 e a realização e vitória do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol de Salão.

No primeiro destes dois, eu fui coadjuvante e, no segundo, atuei como protagonista. Zatopek não foi o primeiro recordista mundial a participar da Corrida Internacional de São Silvestre. O grande prestígio internacional da então “corrida da meia noite” começara em 1949, quatro anos antes com a participação do então campeão e recordista mundial, o finlandês ViljoHeino, provavelmente também campeão mundial da simpatia. Não somente a colônia da Finlândia radicada em São Paulo recepcionou à altura o renomado visitante, mas também o público e os principais esportistas brasileiros, como Adhemar Ferreira da Silva, que com a proximidade dos nórdicos aprendeu palavras e canções folclóricas finlandesas. Este contato rendeu a ele, nos jogos de Helsinque, em 1952, o status de atleta mais aplaudido após sua vitória no salto triplo.

Enquanto, ViljoHeino veio sem nenhum dirigente acompanhante, e andava sozinho, livremente pelas ruas de São Paulo, em uma atmosfera diametralmente oposta, Zatopek veio acompanhado por um membro do órgão de segurança da Tchecoslovakia. Era muito grande o medo de que a “locomotiva humana” quisesse ficar por aqui, escolhendo a liberdade que não havia no governo de sua terra e com a qual ele vivia às turras. Na época da guerra fria, era grande o medo dos países de além da “cortina de ferro” que houvesse uma debandada de seus campeões esportivos, motivo para a propaganda do regime.

Os treinos de Emil Zatopek eram acompanhados com grande interesse por atletas e técnicos de atletismo nos dias que antecediam a São Silvestre. Esses treinos eram realizados na pista do C.R. Tietê. Zatopek mostrou ao vivo o interval training. Ele dava grande número de sprints de 100m, em vez de correr como os demais atletas que faziam grandes percursos ininterruptos. Neste particular, a contribuição de Zatopeck foi de trazer para o Brasil uma aula prática de modernidade.

Nós, pessoalmente, como membro do staff da prova, cujo diretor geral era Carlos Joel Nelli, tivemos de dar assistência a Zatopek. Sua popularidade era tão grande que um elevado número de jornalistas estava em seu encalço, pois muitos queriam conseguir declarações sobre a política do seu país. No ano de 1953, a largada da São Silvestre foi dada na Praça Oswaldo Cruz e a chegada na Av. Casper Líbero. Coube a mim, levar o famoso atleta com meu carro particular (um Ford Canadense daquele ano) até o local da partida, evitando os veículos da frota da Fundação Casper Líbero. Coube também a mim levá-lo, nos dias seguintes da prova que vencera com galhardia, para jantar em uma das churrascarias tipo rodízio existentes em São Paulo. Escolhemos a mais farta e sofisticada da Capital. A segurança de Zatopek estava reforçada pela presença de um diplomata do Consulado Geral da Tchecoslováquia, seu guia em São Paulo. Era impressionante ver o deslumbramento do então mais famoso corredor do mundo diante da abundância de um cardápio com mais de 20 tipos diferentes de carne e um buffet também diversificado com a oferta de quase tudo o existente na cozinha brasileira. O atleta tcheco havia saído de um país no qual ainda existia enorme racionamento de víveres.

O Brasil mostrava naquele momento que também era um campeão, o campeão da fartura.

Uma das maiores emoções da minha vida de militante do esporte foi-me dado no dia 1º de janeiro de 1954, quando se realizou no auditório da Fundação Casper Líbero, com o Prédio da Gazeta ainda em construção, a solenidade da entrega de prêmios.

Por um beneplácito de meus colegas, coube a mim entregar o troféu de campeão ao fundista mais famoso (até hoje!) da história do atletismo. A foto desse momento inesquecível até hoje é guardada como uma relíquia.

Eu pretendia, e anunciei no início desta crônica, que iria falar sobre o primeiro Campeonato de Futebol de Salão realizado em 1982, mas Zatopeck chegou antes e engoliu todo o espaço disponível. Melhor….uma outra história de pioneirismo do Brasil terá brevemente uma crônica especial, só para ela.