Falando de Zatopek

Foto: Acervo/Gazeta Press

Zatopek no topo de pódio no dia 31 de dezembro de 1953 (Foto: Acervo/Gazeta Press)

No dia 30 de dezembro, quando eu passava férias na minha casa de praia em Peruíbe, minha filha Augusta chamou-me atenção para um excelente programa de reconstituição da memória esportiva do país desde o início do século passado.

Era uma produção do Esporte Espetacular, da Rede Globo, que não se circunscreveu somente ao futebol, mas ao esporte em geral, notadamente às modalidades mais praticadas em nosso país.

Entre muitos tópicos daquela grande matéria, não faltaram o desaponto do mundial de 1950 e a alegria do Tri em 1970.

Dois temas, entre os que foram expostos naquela verdadeira história do esporte brasileiro, evocaram a mim muitas recordações e me estimularam a escrever outros pormenores não citados pela emissora: a presença de Emil Zatopeck na São Silvestre de 1953 e a realização e vitória do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol de Salão.

No primeiro destes dois, eu fui coadjuvante e, no segundo, atuei como protagonista. Zatopek não foi o primeiro recordista mundial a participar da Corrida Internacional de São Silvestre. O grande prestígio internacional da então “corrida da meia noite” começara em 1949, quatro anos antes com a participação do então campeão e recordista mundial, o finlandês ViljoHeino, provavelmente também campeão mundial da simpatia. Não somente a colônia da Finlândia radicada em São Paulo recepcionou à altura o renomado visitante, mas também o público e os principais esportistas brasileiros, como Adhemar Ferreira da Silva, que com a proximidade dos nórdicos aprendeu palavras e canções folclóricas finlandesas. Este contato rendeu a ele, nos jogos de Helsinque, em 1952, o status de atleta mais aplaudido após sua vitória no salto triplo.

Enquanto, ViljoHeino veio sem nenhum dirigente acompanhante, e andava sozinho, livremente pelas ruas de São Paulo, em uma atmosfera diametralmente oposta, Zatopek veio acompanhado por um membro do órgão de segurança da Tchecoslovakia. Era muito grande o medo de que a “locomotiva humana” quisesse ficar por aqui, escolhendo a liberdade que não havia no governo de sua terra e com a qual ele vivia às turras. Na época da guerra fria, era grande o medo dos países de além da “cortina de ferro” que houvesse uma debandada de seus campeões esportivos, motivo para a propaganda do regime.

Os treinos de Emil Zatopek eram acompanhados com grande interesse por atletas e técnicos de atletismo nos dias que antecediam a São Silvestre. Esses treinos eram realizados na pista do C.R. Tietê. Zatopek mostrou ao vivo o interval training. Ele dava grande número de sprints de 100m, em vez de correr como os demais atletas que faziam grandes percursos ininterruptos. Neste particular, a contribuição de Zatopeck foi de trazer para o Brasil uma aula prática de modernidade.

Nós, pessoalmente, como membro do staff da prova, cujo diretor geral era Carlos Joel Nelli, tivemos de dar assistência a Zatopek. Sua popularidade era tão grande que um elevado número de jornalistas estava em seu encalço, pois muitos queriam conseguir declarações sobre a política do seu país. No ano de 1953, a largada da São Silvestre foi dada na Praça Oswaldo Cruz e a chegada na Av. Casper Líbero. Coube a mim, levar o famoso atleta com meu carro particular (um Ford Canadense daquele ano) até o local da partida, evitando os veículos da frota da Fundação Casper Líbero. Coube também a mim levá-lo, nos dias seguintes da prova que vencera com galhardia, para jantar em uma das churrascarias tipo rodízio existentes em São Paulo. Escolhemos a mais farta e sofisticada da Capital. A segurança de Zatopek estava reforçada pela presença de um diplomata do Consulado Geral da Tchecoslováquia, seu guia em São Paulo. Era impressionante ver o deslumbramento do então mais famoso corredor do mundo diante da abundância de um cardápio com mais de 20 tipos diferentes de carne e um buffet também diversificado com a oferta de quase tudo o existente na cozinha brasileira. O atleta tcheco havia saído de um país no qual ainda existia enorme racionamento de víveres.

O Brasil mostrava naquele momento que também era um campeão, o campeão da fartura.

Uma das maiores emoções da minha vida de militante do esporte foi-me dado no dia 1º de janeiro de 1954, quando se realizou no auditório da Fundação Casper Líbero, com o Prédio da Gazeta ainda em construção, a solenidade da entrega de prêmios.

Por um beneplácito de meus colegas, coube a mim entregar o troféu de campeão ao fundista mais famoso (até hoje!) da história do atletismo. A foto desse momento inesquecível até hoje é guardada como uma relíquia.

Eu pretendia, e anunciei no início desta crônica, que iria falar sobre o primeiro Campeonato de Futebol de Salão realizado em 1982, mas Zatopeck chegou antes e engoliu todo o espaço disponível. Melhor….uma outra história de pioneirismo do Brasil terá brevemente uma crônica especial, só para ela.

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