Um dia de glória para o futebol de salão

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O Esporte Espetacular divulgou, no dia 30 de dezembro findo, uma excelente matéria sobre os momentos de maior destaque do esporte nacional a partir dos primeiros decênios do século findo.

Esta recuperação da memória esportiva do nosso país não se circunscreveu somente ao futebol profissional, mas abrangeu as principais modalidades esportivas. Não ficou somente nas conquistas do mundial da Suécia, em 1958, a primeira de uma série sob a direção de Vicente Feola, quando apareceu Pelé. A emissora enalteceu nossos feitos em diversos esportes como atletismo, futebol de salão, natação, judô e outros em que o Brasil se destacou. Pessoalmente, dois eventos divulgados despertaram em nós recordações saudosas: 1) a presença de Emil Zatopeck em nosso país em 1953, 2) o primeiro Campeonato Mundial de Futebol de Salão. No primeiro dos casos, fomos coadjuvantes dos fatos e, com grande alegria, escrevemos uma crônica publicada no dia 2 de janeiro, na qual narramos pormenores que poderiam ter enriquecido ainda mais a brilhante matéria da emissora da Rede Globo.

Naquele texto, eu pretendia abordar os dois eventos, mas meus informes sobre Zatopeck eram tantos que “engoliram” o espaço disponível. Prometemos então escrever a outra matéria sobre o Mundial de Salão, que somente hoje tive condições de escrevê-la.

Se no caso da vinda de Zatopeck fomos somente coadjuvantes, na realização do I Campeonato de Futebol de Salão fomos protagonistas.

No início dos anos 70, o Futebol de Salão, num contexto estadual e nacional, estava ainda se estruturando quanto à dimensão da quadra e das traves do gol, ao tamanho e peso da bola, e principalmente quanto à formalização de uma federação específica.

Na época, os brasileiros discutiam com os uruguaios a primazia da criação dessa nova modalidade esportiva. Habib Mafuz, destacado integrante da colônia sírio-libanesa, foi o primeiro presidente da Federação Paulista e conseguiu até um terreno no Parque São Jorge, perto do Corinthians, para a construção de um ginásio (que ainda está lá) para a prática da modalidade.

Entre os dirigentes dos primeiros tempos, figuravam Vicente Piazza, vice-presidente da Confederação Brasileira, Januário D’Alessio, Presidente da Federação Internacional da Fifusa e Ciro Fontão de Souza. O presidente da Confederação Brasileira era o deputado cearense Aécio Borba, que até hoje se encontra no cargo.

Logo depois, para consolidar a primazia nacional, estes dirigentes partiram para a organização de um Campeonato Mundial em São Paulo.

Como faltava “know how”para a implementação um empreendimento de tal dimensão, estes dirigentes recorrerão ao autor destas linhas que, apoiado na experiência obtida na organização da Corrida Internacional da São Silvestre, e em um amplo programa promocional de A Gazeta Esportiva, havia constituído Comunicações Nicolini, uma empresa pioneira neste setor que já tinha organizado a Copa Arizona (com 2500 times de futebol amador), a Copa Natu Nobilis de Tênis (onde houve uma apresentação do campeão mundial Bjorn Borg), o Revezamento Gigante (que reuniu 2 500 nadadores em uma única prova e consta do Guiness Book), a Operação Juventude (que proporcionou o primeiro relacionamento com as pistas para 300 000 escolares de todo o país) e outros eventos.

Aceitamos as condições e convidamos para o primeiro mega evento da modalidade o Uruguai, a Itália, a Argentina, o Paraguai, a Holanda, Colômbia, Tchecoslováquia, Japão, Costa Rica. Com o Brasil foram 10participantes. (Israel participou unicamente do congresso técnico).

Conseguimos alojamento no Ibirapuera e a cessão (naquele tempo, gratuita) do Ginásio do Ibirapuera. No congresso técnico, harmonizaram-se as diferenças das várias regulamentações dos países concorrentes, chegando-se a uma norma mundial única. Havia países que ainda usavam a bola “que pulava”.

O ineditismo levou a uma grande divulgação mundial pela mídia. A Globo transmitiu a maioria das partidas por intermédio de Luciano do Vale, que na época atuava naquela emissora. À medida que os jogos eram realizados, o público aumentava. Como suprema demonstração de prestígio de uma entidade alem do Futebol de Campo, havia até cambistas vendendo ingressos para os retardatários.

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Na peleja decisiva, a final entre o Brasil e o Paraguai, com a presença até dos Gaviões da Fiel, o Ibirapuera reuniu o maior público de sua história em um evento esportivo. Um recorde que não foi ainda superado: o público que se comprimia até nas escadas era calculado em 17 mil pessoas.

As solenidades de abertura e encerramento tiveram alto nível, seguiram padrão olímpico, com pira, bandeiras e hinos. O Brasil saiu robustecido do evento. O prestígio foi tão grande que a FIFA, enciumada, resolveu chamar a modalidade para a sua égide. Januário D’Alessio, presidente da Fifusa, passou a ser o diretor de Futebol de Salão da FIFA.

Algumas Federações importantes não concordaram com a submissão à FIFA e fundaram a Federação Internacional de Futsal, título que não utiliza a palavra Futebol.

Recentemente, para meu grande desaponto pessoal, no último campeonato de Futebol de Salão, a FIFA mandou retirar duas das seis estrelas do uniforme do Brasil, não reconhecendo os dois grandes eventos que vencemos na época da Fifusa, antes da modalidade passar para a sua égide.

Em compensação, foi muito gratificante para nós ver a Globo mostrando e documentando a grandiosidade daquele evento realizado no início dos anos 80, ao incluí-lo entre um dos principais momentos do esporte brasileiro.

2 comentários em “Um dia de glória para o futebol de salão

  1. Adoro as postagens do jornalista Henrique Nicolini sobre esportes, principalmente ‘futebol de salão’. Faço o seguinte comentário sobre a parte final do seu texto, onde expõe seu desapontamento com o não reconhecimento da FIFA para os dois mundiais conquistado pelo Brasil em 82 e 85, na minha opinião não é a Fédération Internationale de Football Association que deve reconhecer e sim a Federação Internacional da modalidade, e isto já acontece…

  2. Hoje quem responde pelo futebol de salão original ou se preferir o futsal…E a Confederação Nacional de Futebol de Salão.Filiada a Associação Mundial de Futsal e não joga este futebol de cinco da FIFA.

    Abraços!

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