Santa Maria e o esporte

O leitor que acompanha nossa coluna é testemunha de meu otimismo sobre o impulso de desenvolvimento que o Brasil poderia ter em decorrência de uma série de mega eventos que o país sediará nesta década, entre os quais a Copa das Confederações, o Mundial de Futebol, os Jogos Olímpicos e vários certames internacionais de diversas modalidades, além do Encontro Mundial da Juventude de fundamentação religiosa, com a presença do Papa Bento XVI.

O conjunto destas realizações vai expor o nosso país ao mundo. Se esses eventos obtiverem êxito, criarão a imagem do Brasil como uma nação madura e responsável. Isto corresponderia à nossa porta de entrada no primeiro mundo.

Este “up grade” nos propiciaria um resultado econômico muito grande, resultante da projeção do turismo e de outras atividades que levantariam a auto-estima do país, criando um desejável reconhecimento internacional. Chegamos até a admitir como possível a ocorrência da consolidação do sentimento de um patriotismo coletivo nacional, principalmente pela adesão da parte mais consciente da população. Se esse sentimento fosse também partilhado pela maioria das pessoas que detêm postos de comando governamental esportivo, estaríamos repelindo a corrupção e a negligência que são os fatores mais preocupantes. Seriam aproveitados em obras e serviços todos os recursos e da iniciativa privada. Não seria desperdiçado nenhum tostão. Os orçamentos municipal, estadual e federal seriam preservados para a saúde, os transportes, a segurança e a infra-estrutura condizente com um país de primeiro mundo.

Entretanto, a renúncia aos males endêmicos da corrupção e da negligência não aconteceu e os otimistas foram chamados à triste realidade. A grande maioria dos estádios para a Copa das Confederações está entre atrasada ou atrasadíssima.  Os orçamentos de muitas arenas, como ocorreu com os Jogos Pan-americanos, já dobraram suas estimativas e caminham, no mínimo, para custar quatro, cinco ou seis vezes mais do que a previsão inicial. As negligências ocorridas em 2012 foram tantas que o secretário geral da FIFA, em cada entrevista, dava um puxão de orelhas em nossos dirigentes. Ele chegou a dizer que “o Brasil precisa de um pontapé no traseiro”, declaração fartamente repetida na mídia mundial.

Apesar dos esforços do Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, os jornais andam repletos de notícias de estarrecer, sobre assaltos, agressões e até homicídios contra turistas, naturalmente repetidas pelos jornais dos cinco continentes.

A negligência do servidor estatal e autárquico também nos leva a terríveis conseqüências. Há uma convicção generalizada entre os servidores públicos de que devolver com trabalho honesto e com dedicação o estipêndio recebido do erário é ser tolo. O objetivo é sempre trabalhar menos horas e estar permanentemente lutando por maiores salários e outras vantagens em forma de benesses. Desta atitude resulta o déficit do tesouro público e a falta de recursos para ações mais importantes. A safra de grãos a ser vendida no exterior recebe um acréscimo no custo de 33%, somente pelas condições das estradas situadas entre as fontes produtoras de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás e os portos de exportação.

O recorde desta desmoralização internacional resultante da negligência nacional veio com a terrível catástrofe ocorrida em Santa Maria. As referências dos órgãos de comunicação dos países de todo o planeta Terra levaram-nos a lembrar da “Geni”, da conhecida música de Chico Buarque de Holanda. “Joga m… na Geni” era o refrão. Para os que não estiverem convictos do que estamos dizendo, confiram algumas opiniões emitidas pelos mais famosos veículos de informação do mundo.

O Estadão de ontem noticiou que os meios de comunicação estrangeiros afirmam que a tragédia da cidade gaúcha é incompatível com os anseios de um país que quer ter um novo status mundial. O “Financial Times” chegou a ironizar até o lema da nossa bandeira, chamando-a de “Idiotia e Progresso”, e afirmou que a nova crise chega a ameaçar até a estabilidade do governo da presidente Dilma.

Outros jornais dizem que o Brasil precisa de menos samba e mais sobriedade. O “Financial Times” voltou a dizer: “Para um país que cresce em termos econômicos e está se preparando para mostrar seus progressos com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a lista de erros e fracassos que levou ao incêndio de sábado promove a pior publicidade”, confirmando a nossa tese. A Revista Time comentou que o incêndio matou principalmente os jovens que se preparavam para ajudar o Brasil a se transformar em um país desenvolvido.

A BBC, por sua vez, diz que o incêndio “mancha” a imagem do Brasil, justamente a 500 dias da inauguração do Mundial e o suíço Le Matin levantou o apavorante tema da segurança no Brasil durante a realização dos mega eventos.

O Brasil, como se viu, encontrou em Santa Maria o efeito exatamente oposto ao de sua meta de elevação do reconhecimento internacional.

O desastre pode se transformar numa vitória contra a negligência e a corrupção se obtiver um grande triunfo sobre a impunidade. Na hora que os donos da boate Kiss e os funcionários públicos que permitiram seu funcionamento irregular forem para a cadeia, todos os outros estabelecimentos em situação análoga pensarão duas vezes antes de quererem dar um “jeitinho” para funcionar fora da lei.

O mesmo podemos dizer do mensalão. Na hora em que os indiciados pelo STF forem efetivamente para a cadeia e nenhum político ou advogado vier a quebrar o galho, os bandidos da política perderão a sua chance de corromper o país e o Brasil poderá progredir como deveria e competir com as potências européias e, porque não dizer, os Estados Unidos!

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