Despacho pouco feliz!

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

O judiciário brasileiro conquistou uma excelente imagem junto à população consciente de nosso país, principalmente após a pendência do “Mensalão”, amplamente divulgada pelos veículos de comunicação.

Em caso ocorrido recentemente, também com grande repercussão no âmbito do futebol, o índice de aprovação daquele poder da República não foi o mesmo. A decisão de um juiz que concedeu liminar a quatro torcedores do Corinthians para assistir ao jogo do seu clube contra o Milionários, da Bolívia, não condiz, na minha opinião, com o prestígio que a magistratura havia obtido após a decisão do STF.

O clube do Parque São Jorge fora punido pela Conmebol com a pena de jogar sem apoio dos seus torcedores naquela importante pelega classificatória da Copa Libertadores da América. Foi uma rigorosa medida punitiva, com a qual concordou a opinião pública e muitos torcedores do próprio Corinthians. A morte de um jovem boliviano, provocada por um sinalizador lançado de má fé por um membro de um grupo de torcedores, é um crime que deve ser punido de maneira coletiva.

É mais que conhecida a agressividade das torcidas uniformizadas de todos os clubes em diversos países do mundo, entre as quais destaca-se a corinthiana.

Como sucede no ambiente político, nenhum órgão brasileiro teve até hoje coragem de enfrentar de forma tão radical a ilicitude de um destes grupos, demonstrando que a impunidade é escudo para os crimes que se verificam nos estádios ou ao redor deles, e mesmo em todo o país.

Um juiz de direito, ao aprovar a exceção da punição a quatro torcedores, estava votando contra um ato efetivo para conter a voracidade agressiva e criminosa de algumas turbas que transformam os estádios em local perigoso.

Este assunto é muito polêmico, mas o autor destas linhas, com seis décadas de militância na crônica esportiva, afeiçoado ao Esporte com E maiúsculo, que tem o Fair Play em sua essência, não poderia deixar de se manifestar contra um despacho que não ajuda a disciplina, a ética e a propagação de um esporte decente.

O ontem avaliando o hoje

Recentemente, em companhia de Luciano do Vale e de Lucas Neto, fomos homenageados pela ACEESP por sermos os mais antigos cronistas esportivos da atualidade. Creio que pessoalmente sou o que conta com maior tempo atuando na profissão, pois minha primeira matéria como jornalista sindicalizado foi em 15 de março de 1946, duas semanas antes de eu completar 20 anos de idade.

Este tempo de militância não pode deixar de constituir um diferencial na avaliação de como os veículos de comunicação abordam os fatos da atualidade.

Em alguns casos, como, por exemplo, o episódio do “Mensalão” e na brilhante conduta do Supremo Tribunal Federal, a imprensa e os órgãos eletrônicos encheram de orgulho todos os brasileiros que viram nos nossos principais veículos de comunicação um baluarte na defesa da moral pública.

Em outras circunstâncias, porém, estes fatos edificantes não ocorrem e temos a lamentar interpretações que fogem à ética ou tendem a consolidar um pessimismo endêmico, que preferem interpretações negativas de fatos que poderiam ser considerados positivos. Parece até que alguns colegas têm acanhamento em elogiar ou aplaudir, temendo serem alcunhados de “chapa branca”.

Dois casos divulgados no final da semana passada são exemplos práticos do que queremos afirmar.

Caso 1 – A “esperteza de Ronaldinho Gaúcho”

Muitos jornalistas chegaram a elogiar e até a louvar a “esperteza” de Ronaldinho Gaúcho, ao pedir a Rogério Ceni água para beber e ficar em posição privilegiada, que resultou no gol decisivo do Atlético Mineiro, no confronto pela Libertadores da América.

O capitão do São Paulo, como cavalheiro que é, jamais negaria água a quem tem sede, demonstrando fidalguia no seu gesto.

Aproveitar-se da nobre atitude é uma demonstração de baixeza, que não condiz com as normas éticas de um Esporte com E maiúsculo e caracterizado por gestos de “Fair Play”.

Por mais dinheiro que corra colateralmente ao futebol, uma competição desta modalidade esportiva (e também em outras) deve ser sempre vista pelo lado da decência, do cavalheirismo e do Fair Play, desde que este jogo passou a ser disputado na Inglaterra no início do século XIX.

Caracterizar Ronaldinho como um ”gênio da esperteza” foi um erro de muitos colegas. Na realidade, ele foi um infrator do código moral inerente ao Esporte. Não poderia ter sido elogiado nunca!

Caso 2 – Um hino ao pessimismo

Lemos no principal veículo do país o título: “Libertadores deve esvaziar os clássicos”, um hino ao pessimismo, achando que o certame das Américas iria tirar o interesse do Paulistão. Estava naquela manchete o prenúncio de um campeonato negro, sem sucesso.

Se o objetivo dos jornalistas fosse enfatizar a importância da Libertadores, bastaria louvar o êxito dos brasileiros no evento da América Latina, estimulando-os a chegar às finais. Era completamente desnecessária a tentativa de menosprezar o Paulistão.

Ao que parece, o castigo veio a cavalo: dois dias após o vaticínio infeliz, os clássicos da rodada, longe de esvaziados, davam um exemplo de soberba vitalidade: o Pacaembu, com o encontro entre Corinthians e Palmeiras, e o Estádio Moisés Lucarelli, com a partida da Ponte Preta contra o Santos, estavam abarrotados. O prestígio do Campeonato Paulista, iniciado em 1902, continuava de pé.

Se a volúpia é denegrir, que se aproveite esta valorização ao negativo endereçando a crítica para as áreas que estão merecendo a delação dos meios de comunicação, como o atraso e o superfaturamento das obras da Copa, a imoralidade das “caixinhas” a dirigentes esportivos. Acompanhem a conduta da ética e da economia do COB e da CBF.

A imprensa esportiva poderia seguir o exemplo de muitos veículos no caso do “Mensalão”, levando grande parte da sociedade a reavaliar seus valores e conceitos sobre nossas instituições esportivas.

De clube a time

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Lemos há dias em um órgão de comunicação que a nova direção do Palmeiras, premida pela má fase que o clube atravessa, teria ordenado ao atual responsável pela administração alviverde o encaminhamento para a equipe profissional de futebol dos recursos destinados a outros departamentos e atividades daquela agremiação.

Isto chocou muito a mim, que há seis décadas luto a favor da expansão do esporte (com E maiúsculo) na escala de valores de todos os brasileiros. Deve ter chocado  também o próprio executor do plano – Brunoro – que já teve uma carreira brilhante no voleibol e ainda hoje é referência naquela modalidade esportiva.

A ordem da atual diretoria é lamentável. É transformar um CLUBE em TIME.

Um clube é uma instituição de caráter permanente que atende uma coletividade. Proporciona atividade esportiva diversificada a milhares de associados, atividade esta que pode ser de caráter competitivo, ou apenas visando à saúde e à recreação de quem pratica.

Fora do futebol o Palmeiras tem uma bela história. Pode-se dizer que foi um verdadeiro símbolo do basquetebol paulista; seus atletas já brilharam na São Silvestre do passado e nas competições da FPA.

Nos grandiosos jogos Panamericanos, realizados em São Paulo em 1963, a Sociedade Esportiva Palmeiras chegou a sediar em sua piscina as competições de Pólo-Aquático e de Saltos Ornamentais. O ícone desta modalidade, Sammy Lee, já saltou nos trampolins e plataformas alviverdes quando já era campeão olímpico e mundial.

Os destaques que citamos são apenas um pingo d´água dentro de todas as glórias palmeirenses fora dos campos de futebol.

O time é efêmero. Ele desperta paixões muitas vezes irracionais no calor de uma partida, mas tempo depois os triunfos apenas alimentam estatísticas. O time é apenas um grupo de jogadores.

É verdade que, neste momento, circunstâncias negativas chegam a pressionar a diretoria. Torcedores fanáticos não dão trégua.

Esperamos que o temor ao fanatismo não venha causar o desmantelamento do que existe de mais bonito, concreto e histórico na estrutura do alviverde.