O ontem avaliando o hoje

Recentemente, em companhia de Luciano do Vale e de Lucas Neto, fomos homenageados pela ACEESP por sermos os mais antigos cronistas esportivos da atualidade. Creio que pessoalmente sou o que conta com maior tempo atuando na profissão, pois minha primeira matéria como jornalista sindicalizado foi em 15 de março de 1946, duas semanas antes de eu completar 20 anos de idade.

Este tempo de militância não pode deixar de constituir um diferencial na avaliação de como os veículos de comunicação abordam os fatos da atualidade.

Em alguns casos, como, por exemplo, o episódio do “Mensalão” e na brilhante conduta do Supremo Tribunal Federal, a imprensa e os órgãos eletrônicos encheram de orgulho todos os brasileiros que viram nos nossos principais veículos de comunicação um baluarte na defesa da moral pública.

Em outras circunstâncias, porém, estes fatos edificantes não ocorrem e temos a lamentar interpretações que fogem à ética ou tendem a consolidar um pessimismo endêmico, que preferem interpretações negativas de fatos que poderiam ser considerados positivos. Parece até que alguns colegas têm acanhamento em elogiar ou aplaudir, temendo serem alcunhados de “chapa branca”.

Dois casos divulgados no final da semana passada são exemplos práticos do que queremos afirmar.

Caso 1 – A “esperteza de Ronaldinho Gaúcho”

Muitos jornalistas chegaram a elogiar e até a louvar a “esperteza” de Ronaldinho Gaúcho, ao pedir a Rogério Ceni água para beber e ficar em posição privilegiada, que resultou no gol decisivo do Atlético Mineiro, no confronto pela Libertadores da América.

O capitão do São Paulo, como cavalheiro que é, jamais negaria água a quem tem sede, demonstrando fidalguia no seu gesto.

Aproveitar-se da nobre atitude é uma demonstração de baixeza, que não condiz com as normas éticas de um Esporte com E maiúsculo e caracterizado por gestos de “Fair Play”.

Por mais dinheiro que corra colateralmente ao futebol, uma competição desta modalidade esportiva (e também em outras) deve ser sempre vista pelo lado da decência, do cavalheirismo e do Fair Play, desde que este jogo passou a ser disputado na Inglaterra no início do século XIX.

Caracterizar Ronaldinho como um ”gênio da esperteza” foi um erro de muitos colegas. Na realidade, ele foi um infrator do código moral inerente ao Esporte. Não poderia ter sido elogiado nunca!

Caso 2 – Um hino ao pessimismo

Lemos no principal veículo do país o título: “Libertadores deve esvaziar os clássicos”, um hino ao pessimismo, achando que o certame das Américas iria tirar o interesse do Paulistão. Estava naquela manchete o prenúncio de um campeonato negro, sem sucesso.

Se o objetivo dos jornalistas fosse enfatizar a importância da Libertadores, bastaria louvar o êxito dos brasileiros no evento da América Latina, estimulando-os a chegar às finais. Era completamente desnecessária a tentativa de menosprezar o Paulistão.

Ao que parece, o castigo veio a cavalo: dois dias após o vaticínio infeliz, os clássicos da rodada, longe de esvaziados, davam um exemplo de soberba vitalidade: o Pacaembu, com o encontro entre Corinthians e Palmeiras, e o Estádio Moisés Lucarelli, com a partida da Ponte Preta contra o Santos, estavam abarrotados. O prestígio do Campeonato Paulista, iniciado em 1902, continuava de pé.

Se a volúpia é denegrir, que se aproveite esta valorização ao negativo endereçando a crítica para as áreas que estão merecendo a delação dos meios de comunicação, como o atraso e o superfaturamento das obras da Copa, a imoralidade das “caixinhas” a dirigentes esportivos. Acompanhem a conduta da ética e da economia do COB e da CBF.

A imprensa esportiva poderia seguir o exemplo de muitos veículos no caso do “Mensalão”, levando grande parte da sociedade a reavaliar seus valores e conceitos sobre nossas instituições esportivas.

Um comentário em “O ontem avaliando o hoje

  1. Caro Nicolini: concordo com suas ideias, pois o Paulistão é um campeonato na medida para os grandes clubes (muito diferente, por exemplo, do que é o Nacional). Claro que precisa, sim, de evolução, mas não há como comparar os R$ 10 milhões pagos a cada clube grande por sua simples disputa, além dos mais de R$ 3 mi de prêmiação ao campeão (que bate, de longe, a da Libertadores: pouco mais de R$ 6 mi ao… campeão!!!). Poderia melhorar mais, se disputado por apenas 16 clubes, reduzindo a fase de classificação de 19 p/ 15 rodadas e o nº de jogos de 190 p/ 120, dando condições de disputar os mata-mata em ida-e-volta. Daí a reduzir mais ainda o Paulistão seria aceitar premiação muito menor. E, então, que disputa iria substituir o Paulistão? Quem iria cobrir estes R$ 10 mi? (Para mim, o que tem de ser reduzido é o Nacional: 20 clubes, 38 rodadas em ida e volta, num país com o tamanho do Brasil? Loucura total!) E, para melhorar mais ainda, os estaduais deveriam ser classificatórios para o Nacional. Só iria para o brasileirão o clube que fizesse bom papel no estadual, ou seja, um complementa o outro, assim como só disputam a Libertadores os melhores do Nacional. Pergunto ainda: para que a Copa do Brasil, se temos o Nacional? E a Sulamericana, se temos a Libertadores?

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