Um não à privatização!

A inauguração do Itaquerão vai levantar a questão do destino a ser dado ao Estádio Municipal do Pacaembu, tombado como patrimônio público de nossa cidade e objeto de grande estima da população paulista. O problema amadureceu com a mudança de endereço do clube alvinegro e a programação das próximas partidas no novo endereço.

Vários destinos estão sendo cogitados para o estádio da Prefeitura, que em setenta e quatro anos já abrigou eventos do mais alto nível esportivo, como jogos do Campeonato Mundial de 1950, abertura, encerramento e as principais disputas dos IV Jogos Pan-americanos de 1963, foi a sede da Semana da Pátria e de tudo o que de significativo ocorreu na história esportiva em mais de sete décadas.

O que peremptoriamente não se pode admitir é a privatização do estádio. Ele é muito querido pelos paulistanos para ir parar nas mãos e na administração de estranhos, ávidos por dinheiro. O objetivo principal deste tipo de dirigentes distancia-se do que se poderia chamar de Esporte.

Não devemos esquecer que o Pacaembu não é um estádio só de futebol, mas é também frequentado por milhares de cidadãos que utilizam sua piscina, as quadras de tênis, o ginásio de esportes, o Museu do Futebol, em uma inequívoca demonstração de sua diversidade de utilizações em favor do nosso povo.

O autor destas linhas tem sobejas razões para amar o Pacaembu. Participamos, aos 14 anos, como integrantes da equipe de natação do Clube de Regatas Tietê, do desfile inaugural realizado em 1940. Devemos ser um dos últimos remanescentes daquela solenidade. Foi lá também que cursamos a Escola Superior de Educação Física até minha licenciatura. Também lá competimos nos certames que a Federação Paulista de Natação realizava na década de 40 do século findo.

Ver aquelas simbólicas instalações, construídas com dinheiro público, servindo à avidez pecuniária de empresários é uma situação que nem nós nem os paulistas amantes da ética nos esportes poderemos aceitar. O Pacaembu é do povo!

 

NO PÉ

Nosso blog, que defende a base do esporte, apresenta os seus aplausos à TV Brasil (Canal 4) que transmitiu no último domingo o jogo entre São Caetano e Guarani, pela Série C.

Trata-se de uma boa resposta às demais emissoras que dedicam a maior parte do seu espaço a partidas de equipes do exterior, em detrimento de encontros da nossa divisão principal do “Brasileirão”.

Disputas importantes do futebol nacional estão sendo preteridas por jogos de segunda divisão da Argentina.

O público brasileiro precisa protestar contra esta marginalização.

 

O absurdo da importação

Li no “Estadão” do último domingo, dia 20, uma reportagem que nos causou grande preocupação: cresce a cada ano o número de jogadores estrangeiros, principalmente sul-americanos, nas equipes que disputam os campeonatos brasileiros de futebol. Esta quantidade está tão grande que, pelo terceiro ano consecutivo, o Brasil é o maior importador de futebolistas do mundo. Nosso país contratou 742 jogadores de clubes do exterior contra 650 que saíram daqui para defender agremiações de outros continentes.

O poder aquisitivo nacional, apesar de não ser aquela maravilha, é maior do que o das demais nações da América Latina. E isto nos torna uma atração para os atletas que conseguem algum destaque em suas plagas, embora o maior intercâmbio seja feito com Portugal. É muito comum nas agremiações latino-americanas, além de baixos salários, o atraso dos pagamentos e o não cumprimento de direitos trabalhistas, fato que estimula o fluxo para outras bandas.

Se considerarmos o futebol como uma mercadoria entre todas as existentes no comércio internacional, concluiremos que temos um item a mais em déficit em nossa balança de pagamentos, o que está ajudando a incrementar os problemas econômicos atuais do Brasil.

Com uma população de mais de 200 milhões de habitantes, com uma quantidade de clubes que supera a dos demais países, é descabido apresentarmos este déficit. É a mesma situação de estarmos comprando produtos “made in China”, quando a nossa indústria parou de produzi-los em casa.

A receita é estimular a formação de jogadores com grande empenho nas divisões de base de nossos clubes (nesse aspecto o Santos é um bom exemplo). É desenvolver campeonatos estudantis e juvenis e ainda estimular as divisões amadoras e a própria várzea para que a substituição dos jogadores da divisão principal venha da base.

Mais de uma vez aplica-se aqui a frase utilizada por nós em “trocentos” artigos e em diversas circunstâncias: “na pirâmide do esporte, a altura do vértice técnico depende da largura da base quantitativa”.

Parte deste déficit origina-se da atitude dos veículos de comunicação que dão pouca importância à divulgação das divisões de base, não prestigiando clubes regionais, fato que é danoso ao nosso progresso. Somente a Copa do Brasil dá oportunidade a equipes como o Luverdense de aparecer. Enquanto isso, quase todos os jogos do campeonato europeu são transmitidos pela nossa TV. Partidas correspondentes do campeonato nacional só podem ser vistas no “pay per view”. Até encontros do campeonato turco têm prioridade sobre nossos jogos de segunda divisão, muitas vezes verdadeiros “jogões”.

O Brasil tem de dar oportunidade para que sua infraestrutura apareça. Comprar um produto que temos “de sobra” e até para exportar é uma falta de visão dos nossos dirigentes, que têm alta responsabilidade não só para com o esporte, mas também para com a economia do país.

 

NO PÉ

 

Não tão radical

O artigo acima não precisa ser interpretado de forma absolutamente radical. Em uma porcentagem mínima pode-se admitir a “importação” de jogadores fora de série, provenientes do exterior, como foram no passado Antônio Sastre, Pedro Rocha, Forlan e alguns outros. Mas contratar jogadores para disputar posições com os brasileiros menos brilhantes, ou ainda para ficar na reserva não faz o mínimo sentido, nem econômico, nem técnico.

 

O jornalismo perde Luciano do Valle

O 1º Mundial de Futebol de Salão é até hoje recorde de público em evento esportivo do Ibirapuera.

O 1º Mundial de Futebol de Salão é até hoje recorde de público em evento esportivo do Ibirapuera.

A inesperada notícia do falecimento de Luciano do Valle chocou todo o público que acompanha o esporte. Sua morte aconteceu sábado passado, quando ele estava em plena atividade, na cidade de Uberlândia, com a missão de cobrir uma partida do Corinthians.

Luciano tinha 66 anos e era um dos mais antigos cronistas esportivos ainda em atividade. No ano passado, juntamente com Lucas Neto e o autor destas linhas, fomos homenageados pela Aceesp, como jornalistas com mais de 50 anos de carreira em uma bela festa no Esporte Clube Sírio.

O meu contato com Luciano data de muitos anos. Na primeira vez que estivemos juntos ele ainda trabalhava na TV Globo. Foi quando uma empresa de comunicações que eu presidia (Comunicações Nicolini) organizou a primeira Copa do Mundo de Futebol de Salão, no ano de 1982. Aquela emissora adquiriu os direitos de transmissão exclusiva daquele evento e Luciano juntou ao seu currículo o fato de ter transmitido com exclusividade o primeiro Mundial daquela modalidade que naquela ocasião se internacionalizava.

Meu apreço a Luciano era tão grande que, entre as alternativas para assistir aos principais jogos da rodada, eu preferia desprezar outras emissoras e ligar na Bandeirantes para ouvir as considerações daquele colega que eu considerava um amigo.

Indubitavelmente a crônica esportiva perdeu um grande vulto. Fica aqui a minha sugestão para que a Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo institua uma iniciativa, um troféu que leve o nome do amigo correto Luciano do Valle.

A Quinta Divisão

Além de ações discretas, o Bom Senso F.C. ganha respeito por ideias e planos apresentados ao grande público.

Outro dia deparamos com uma declaração de Rogério Ceni que o Bom Senso defende “a criação de uma quinta divisão para uma maior capilaridade do futebol“. Seria possível assim levá-lo a regiões mais afastadas dos grandes centros, aumentando sensivelmente a base da atividade futebolística.

Será mais gente jogando, arbitrando e dirigindo o esporte mais popular de nosso país.

Em nossos artigos deste Blog temos repetido com alguma frequência a ideia de que, na pirâmide do esporte, a altura do vértice técnico da qualidade de bons jogadores depende da base quantitativa, do número de pessoas que praticam sistematicamente o futebol.

Este incremento será bastante profundo, pois trata-se de uma divisão que beira uma centena de clubes, caras novas no cenário futebolístico.

A grande preocupação de que esta ideia excelente não vingue origina-se do fato de que os dirigentes do alto escalão estão ocupados com discordâncias, rivalidades e outras atividades pouco construtivas. Faltam-lhes idealismo e visão para defender uma grandiosa ampliação do futebol brasileiro, conforme sugere o Bom Senso FC. Lamentavelmente, estão olhando somente para as estrelas do céu e não se importando com o chão em que estão pisando.

A sugestão da quinta divisão é um grande bom senso do Bom Senso FC, corresponde em ampliar os primeiros degraus da escada que leva ao pódio de campeão mundial e olímpico.

O Esporte precisa voltar para as escolas

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

O esportista Walter da Silva, assessor de Esporte e Cultura da Assembleia Legislativa de São Paulo e membro do Conselho Diretivo do Panathlon Club de nossa cidade, está lançando uma campanha para incrementar a prática da Educação Física e dos Esportes nas escolas.

Segundo ele, há uma corrente nos órgãos governamentais (e mesmo privados) preconizando uma tendência de reduzir ou mesmo suprimir as sessões de Educação Física do currículo escolar nos dois níveis de ensino que antecedem a chegada até a universidade.

Para piorar a situação, existe atualmente uma verdadeira onda de “pedagogismo” que repele o esporte estudantil, que vilipendia qualquer atividade fora dos muros da escola, atitude que está acabando com disputas inter-escolares.

Para tratar desta questão e o empenho de Walter da Silva, vai ser realizado, de 7 a 10 de abril, no Plenário e em um dos salões nobres da Assembléia, um seminário em defesa do esporte e da educação física nas escolas.

Eu estou plenamente de acordo com esta campanha (trabalhei nesta área entre 1948 e 1962) e tenho as vivências suficientes para aprovar aquela iniciativa da retomada do valor do esporte.

Naqueles anos, o Major Sylvio de Magalhães Padilha, diretor do então Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo, em plena sintonia com a Secretaria da Educação, realizava campeonatos de várias modalidades de âmbito estadual, com um sucesso em todos os sentidos. Este certame promovia um saudável intercâmbio entre os estudantes do Interior e os da Capital.

O auge desta ação ocorria no dia 7 de Setembro, com as disputas finais dos colegiais e uma magnífica demonstração de ginástica, com a participação de 1.500 jovens de São Paulo inteiro e a presença do Governador do Estado no palanque.

Já escrevi dois comentários neste Blog sobre meu trabalho em Educação Física, os quais ressaltam a importância desta matéria do currículo escolar. Os alunos, além das sessões de ginástica, competiam em campeonatos internos de basquete e vôlei. A participação era de todos e desenvolvia o gosto pelo esporte.

O grupo de basquete do meu colégio, o Prof. Macedo Soares, na Barra Funda, no final dos anos 50, saiu-se campeão da nossa cidade. A S.E. Palmeiras aproveitou os meninos do time que sagraram-se campeões paulistas. Parte desses jogadores veio a integrar a seleção paulista que, por sua vez, venceu o torneio nacional.

Mas não foram somente os campeões que se uniram. Até hoje, mais de meio século depois, um grupo de aproximadamente 50 ex-alunos ainda se reúne anualmente para um churrasco no meu sítio.

Um jovem que praticou esporte na infância e na adolescência continua sempre ligado à essa atividade. Ocupa seu tempo de lazer em jogos, em corridas, mantendo suas amizades que professam os mesmos valores.

Este lazer, se não for ocupado pelos esportes, desvia o adolescente para outros hábitos, como as baladas, os bailes funk, onde a moral não encontra espaço e é até desprezada. O tempo livre mal preenchido é a base do uso de tóxicos que vão desde a maconha até o crack.

O verdadeiro craque, o jovem exímio na prática de uma modalidade esportiva e até os participantes do alto rendimento em regra são aqueles que foram beneficiados pela valorização do esporte na escola. Kanichi Sato, filósofo e técnico de natação, dizia que, na pirâmide do esporte, a altura do vértice técnico é consequência de uma base quantitativa.

Estamos com os Jogos Olímpicos à vista e uma boa atuação do Brasil poderia ser muito melhor se a educação física não tivesse sido abandonada nas escolas.

É por isto que o movimento que terá sua sede na Assembléia Legislativa em favor da Educação Física e dos Esportes nas Escolas é um marco que necessita crescer para mudar a situação preocupante de boa parte da nossa juventude. Meus parabéns aos seus organizadores.

 

Pacaembu ainda útil aos 74 anos

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Lemos com prazer que o Santos F.C. pretende mandar a maioria de seus jogos no Pacaembu. O clube reconheceu que o número de seus adeptos na capital é maior do que os do litoral. A Vila Belmiro servirá para os encontros que mobilizarão menor público.

Esta informação é muito importante, pois caso contrário o Estádio Municipal ficaria inútil, sem destino, após uma gloriosa história de 74 anos.

O Corinthians construiu o Itaquerão, o Palmeiras está se atualizando para ser o anfitrião de grandes eventos.

A condição de pouco útil não se coaduna com o Pacaembu que foi o centro de espetáculos inesquecíveis, como a abertura dos IV Jogos Pan-americanos, grandiosas demonstrações de ginástica de 7 de Setembro, jogos decisivos de campeonatos futebolísticos estaduais, nacionais e internacionais.

Eu tenho uma estima muito especial pela praça de esportes da municipalidade. Aos 14 anos, como membro da equipe de natação do CR Tietê, integrei a delegação deste clube no desfile de inauguração do Pacaembu, ocorrida em 1940. Mais tarde, ainda nos anos quarenta, cursei naquele local a Faculdade Superior de Educação Física do Governo Estadual, a primeira de caráter civil do nosso país.

Minha maior intimidade com o Estádio não foi com o campo de futebol, mas com a piscina. Como presidente da Federação Paulista de Natação, vimos a colônia japonesa chorando nas tribunas, quando após uma década o hino nacional nipônico voltou a ser executado em nosso país. O evento aconteceu durante a visita ao Brasil dos “Peixes Voadores”.

Tivemos também o prazer de dar o nome de Kanichi Sato àquele natatório, grande técnico e educador na natação brasileira.

Em abril de 1963, na qualidade de presidente da Federação Paulista de Natação, tive a oportunidade de hastear a bandeira brasileira na abertura dos esportes aquáticos do Pan-americano.

O Pacaembu é um patrimônio de nossa cidade e gerador de grande afetividade do seu povo. São poucos os paulistas que não têm uma recordação de alguma passagem de sua vida ocorrida naquele local. É por isso que qualquer tentativa de privatização, como já se cogitou há algum tempo, deve ser repelida veementemente.

Salve o Pacaembu!

Proposta para se esconder

ALEXANDER NEMENOV / AFP

ALEXANDER NEMENOV / AFP

Quando vimos a maravilha que foi o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno, realizada na cidade russa de Sochi, achamos que o nosso artigo publicado ontem merecia ter uma continuação e um complemento.

A Rússia, num espetáculo inesquecível, teve oportunidade de exibir toda a sua riqueza cultural, todos os seus balés, encabeçados pelo Bolshoi, todos seus compositores, com músicas de Stravinsky, Rachmaninoff e outros, a arquitetura de suas principais cidades e tudo o que era susceptível de ser mostrado.

Os espectadores não eram apenas os 40 mil que cabiam no estádio olímpico, mas metade da população mundial que ligou seus receptores de TV, de manhã, a tarde ou a noite, de acordo com o fuso horário em que cada nação se encontrava.

Muita gente presenciando aquele espetáculo mudou sua opinião sobre a Rússia, tão difamada pelas revoluções e pela guerra fria.

Como a Grã-Bretanha, a Rússia e a China, que tiveram a possibilidade de mostrar nos últimos anos a cultura e a beleza de seus países, agora surge a oportunidade do Brasil, portador de um cenário exótico, para ser comparado aos anteriores. Aqui teremos uma música que vai sacudir o povo de mais de 200 países que estarão com a televisão ligada. Vamos mostrar as lindas praias de 8 mil quilômetros de extensão. Uma mais bela que a outra. Vamos exibir a grandiosidade do Rio Amazonas, a modernidade de Brasília, a criatividade arquitetônica de Oscar Niemeyer, o Corcovado e o Cristo Redentor, Copacabana, a confecção de um churrasco gaúcho, tudo o que a Bahia tem a oferecer e muitas outras coisas que o próprio leitor deve estar lembrando neste instante.

Poderemos conquistar com o roteiro do final dos Jogos Olímpicos e da própria Copa a admiração de todas as nações do mundo e ser invejados por outros países para com os quais Deus não foi tão generoso.

Encarando a questão, também por este ângulo, vemos o contra senso das faixas das manifestações pregando o cancelamento dos mega eventos em nossa terra, privando da alegria brasileira, do abraço afetuoso que caracteriza nosso povo toda a população mundial que nunca saberia o quanto somos hospitaleiros. A autoestima dos brasileiros iria por água abaixo.

Autoestima de um povo

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

É com grande desalento que eu vejo os cartazes e faixas contra a Copa do Mundo (e até contra os Jogos Olímpicos) nas manifestações de rua que se tornam cada vez mais frequentes em nosso país.

Eu não me conformo que haja pessoas que sejam contra os mega eventos que tiram o Brasil de um obscurantismo e de um anonimato que não ajudam em nada a nossa nação em um contexto internacional.

Para mim este tema, assumido por diversos grupos políticos em um ano de eleições e da Copa do Mundo, procura dar a essas manifestações um cunho de uma ação pacífica, mas elas abrem um oceano de oportunidades para mascarados destruírem instituições particulares e até oficiais. A desmoralização das polícias civil e militar é outro objetivo para quem quer terminar com a autoridade, com a segurança pública.

Shakespeare dizia em uma de suas falas: “Existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor a sua vã filosofia”.

Aceitamos que as despesas com os mega eventos venham reduzir os recursos destinados a outras finalidades, como educação, saúde e segurança, mas as futuras vantagens (como o incremento do turismo e os resultados econômicos desta exposição mundial) compensarão um aperto no nosso orçamento governamental durante meia década.

As manifestações contrárias às duas maiores competições esportivas do mundo se justificariam se elas estivessem voltadas contra a locupletação de muitos dirigentes esportivos e governamentais, já evidenciada nas obras e serviços necessários à implantação dos dois grandes eventos que teremos pela frente. Marcha contra a desonestidade, comissões ilícitas, sobrepreços justificariam as passeatas. Elas seriam a favor da moralidade e delas até eu, com 88 anos, participaria com prazer. Entretanto, já está na hora de deixarmos de ser caudatários, uma nação secundária num âmbito mundial e passarmos da plateia para o palco.

Fiquei aturdido quando tomamos conhecimento de pesquisas feitas pelo Ibope/Estadão, publicadas no último sábado, afirmando que 38 por cento da população brasileira é contra a realização da Copa do Mundo em nossa terra. A turma da passeata minou um entusiasmo que deveria ser autêntico, unânime e coletivo.

Esta crônica é a expressão do coração de quem, em 65 anos de carreira, somente cobriu ou acompanhou grandes competições sempre fora de nossas fronteiras. Chegou a hora de realizá-las aqui, contrariamente ao que pregam as faixas das passeatas.

Se houver idoneidade na implementação do evento, o custo-benefício será altamente vantajoso, principalmente para a autoestima de um povo e a educação, a segurança ou a saúde, pouco ou nada sofrerão.

 

Patriotismo – A nova bandeira

Foto: Nelson Almeida/AFP

Foto: Nelson Almeida/AFP

A realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi elevou a imagem da Rússia.

São frequentes as referências elogiosas da mídia, não só àquela iniciativa, mas ao próprio país anfitrião, elevando uma imagem desgastada que já durava algum tempo. A organização do evento e o aplauso causaram grande benefício ao país e justificaram despesas que foram classificadas entre as maiores já despendidas por ocasião das realizações olímpicas.

Esta atitude é contrastante com alguns grupos de brasileiros, de diversas facções, que agora, quatro meses antes do Campeonato Mundial de Futebol, estão anunciando a realização de movimentos contra aquele certame. Estas manifestações, obviamente, não serão pacíficas e, naturalmente, centralizarão a atenção dos veículos de comunicação de duas centenas de países que estarão cobrindo a Copa do Mundo.

Nada mais vergonhoso para o nosso país. Se isto realmente ocorrer, a nossa imagem estará indo para a lata do lixo e as consequências serão drásticas. Os brasileiros perderão a autoestima. A honra e a alegria de ser filho deste país irão por água abaixo. A perda do prestígio influirá na nossa economia e a falta de segurança afastará o turismo receptivo. Até no câmbio e no valor da nossa moeda perderemos confiabilidade.

A luta partidária da política interna, que tem sido a causa desta super frequência de movimentos populares, quando se desvia para a violência, transforma-se em antipatriotismo. O Brasil, mesmo enfrentando todas as suas crises, poderia estar entre as maiores nações do mundo. Vamos descer uma infinidade de degraus na escada do prestígio por causa de um pequeno grupo de inconsequentes. Aos interessados em transformar manifestações em violência será creditada esta humilhante queda.

Esperamos que um bafejo de patriotismo surja no âmago de uma maioria consciente de nossa população e nenhum ato vergonhoso venha nos humilhar nas semanas da Copa, num momento em que todo o mundo está olhando para a gente.

Patriotismo deve ser a nova bandeira.

 

O C.R. Tietê ainda é notícia!

A reportagem escrita pelo colega Bruno Ceccon no exemplar do último dia 6/2 impressionou-nos muito. Saber que patos navegam na primeira piscina olímpica do país é um tema que exalta os meus sentimentos voltados ao clube vermelhinho, agora em poder da municipalidade, como consequência da pouca idoneidade de algumas das últimas diretorias, reduzindo ao nada uma das maiores glórias esportivas.

Eu acompanhei a construção deste natatório, dos seis aos oito anos de idade. Estive presente na sua inauguração e descrevi no meu livro “Tietê – O Rio do Esporte” o surto de progresso que o ano de 1934 causou no esporte aquático paulista.

Maria Lenk (que escreveu o prefácio do meu livro) foi a grande estrela das águas represadas pela empresa de engenharia Adolfo Lindenberg. Ela começou na adolescência no Clube Estrela, da colônia germânica que ficava atrás de onde se localiza hoje a Associação Atlética São Paulo.

Piscina_Olímpica_640Com a inauguração da piscina deste clube, em dezembro de 1929, Maria passou ai a treinar com o famoso técnico Carlos de Campos Sobrinho, que a acompanhou aos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles, fato cujas vicissitudes comportam um romance.

Em 1934 o Tietê, num momento de um amadorismo dogmático, quis tê-la no seu elenco de militantes. Este clube resolveu esta questão oferecendo um emprego a Paulo Lenk, genitor de Maria, como professor de natação e uma espécie de gerente da piscina, principalmente no tocante às suas águas.

Em 1936, Maria foi com Carlito aos Jogos Olímpicos de Berlim, onde conheceu o americano Davies, o criador do nado borboleta – “butterfly” na época. Esse nado passou a integrar a modalidade “nado peito” no clássico. Somente meia década mais tarde o borboleta tornou-se um estilo a parte.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

A excelente reportagem de Bruno Ceccon cita com veemência a corrupção das últimas diretorias, o que determinou o fim do clube. Corrupção esta que contrasta com a idoneidade e esforço das primeiras diretorias e que foi a causa da grande evolução tieteana.

Após a construção da nova piscina, o Clube Tietê teve tamanho surto progressista, o que permitiu pagar o custo da obra dois anos antes do previsto.

O Tietê assumiu os débitos do clube vizinho, a Associação Atlética das Palmeiras, e ficou assim de posse do terreno que este clube ocupava, incluindo neste particular uma quadra de tênis e um campo de futebol. Assumiu igualmente as dívidas do São Paulo FC da Floresta. No campo de futebol do Floresta foi construída uma pista que sediou o extraordinário Campeonato Sul-americano de Atletismo de 1937.

O autor destas linhas assistiu a este evento e se lembra até hoje dos atletas que aí competiram, entre eles, Bento de Assis, José Carlos Figueiredo Ferraz, Ícaro de Castro Mello, Bento de Camargo Barros, Assis Naban e outros.

Um ano antes (1936), pagando os débitos da AA São Bento, o Tietê também havia ficado de posse do estádio deste clube. Quando o Corinthians saiu do Bom Retiro, em 1917, foi para a Ponte Grande, onde permaneceu até 1926, ano em que se transferiu para o Parque São Jorge, deixando o estádio da Ponte Grande para a Associação Atlética São Bento (que fora fundada por estudantes do colégio homônimo).

No estádio em que o Corinthians tinha sido campeão do centenário, em 1922, o Tietê construiu quadras de tênis e vestiários classe A.

Foto: Reprodução

Henrique Nicolini ao lado do irmão Oswaldo na piscina do Tietê

Foi nestas quadras em que aprendeu a jogar tênis a maior jogadora de nossa história, Maria Esther Bueno, que chegou a merecer uma estátua então localizada em frente ao Tietê. Com o início da decadência, a bela estátua foi para o Pacaembu. Para manter a história tieteana, colocou-se no local uma placa de bronze em homenagem à nossa vencedora de Wembley.

Quando vemos tantos espaços tieteanos, que representaram parte da história esportiva de São Paulo, concluímos que é preciso reconstruir a parte degradada e, principalmente, transformar em um museu público os documentos, os troféus, as fotografias, os diplomas que representam a história do clube e da região, local onde os estudiosos do futuro teriam muito a aprender.

Se pertencêssemos à Secretaria Municipal de Esportes, nós abriríamos as instalações, depois de reformadas, para as escolas da região, tornando-as uma unidade para a participação do esporte de competição.

Reveja a reportagem de A Gazeta Esportiva.net: