Pedro Barros Silva

Nosso blog recebeu, por intermédio do seu amigo e leitor Alberto Murray Neto (neto do Major Sylvio de Magalhães Padilha), a infausta notícia do falecimento de Pedro Barros Silva, um grande esportista da “velha guarda”.

Nós não podemos deixar de avaliar o texto de Alberto como uma descrição completa da obra do grande dirigente que realmente foi Barrinhos.

Esta é a razão pela qual estamos cedendo o espaço da coluna deste fim de semana ao texto publicado no Blog do familiar de Padilha, para que um número maior de esportistas dele tomem conhecimento.

 

“Soube hoje, neste 24 de setembro, que no dia 29 de agosto morreu o professor Pedro Barros Silva. Atleta exemplar, foi jogador de basquete e graduou-se em Educação Física. Foi professor universitário e fez parte de uma geração de professores de educação física que fincaram as bases do esporte educacional no Estado de São Paulo.

Foi um dos mais importantes colaboradores do meu avô no Departamento de Esportes e Educação Física do Estado de São Paulo, o D.E.F.E. e no Comitê Olímpico Brasileiro. Um de seus amigos mais próximos.

Ajudou a criar e organizar as mais importantes competições de base em São Paulo, como Jogos Abertos do Interior, Jogos Regionais, Campeonatos Colegiais e tantos outros torneios cujo objetivo era massificar e democratizar a prática do esporte nas escolas públicas. Tinha a visão de que o esporte é, antes de tudo, elemento de educação e saúde. Ajudou a levar o esporte para a escola pública, quando isso sequer existia no Brasil.

No Comitê Olímpico Brasileiro – COB – também foi um colaborador muito próximo ao meu avô, com atuações marcantes. Foi Chefe e Sub-Chefe de várias missões brasileiras a certames olímpicos, panamericanos e sulamericanos e membro do Conselho Fiscal. Serviu ao Comitê Olímpico Brasileiro por muitos anos, sempre com competência e dedicação, sem qualquer interesse financeiro.

Integrou a Comissão Organizadora dos Jogos Panamericanos em São Paulo, em 1.963, tendo papel preponderante na realização daquela competição, considerada um sucesso e cujo legado para a Cidade se vê até hoje, um evento em que se gastou quase nada de dinheiro público.

Recentemente, a produção que fez o documentário sobre a vida do meu avô quis entrevistar o Professor Barros, para ter seu depoimento no filme, já que sempre trabalharam tão próximos. Mas àquela altura a família dele disse que já não reunia condições de dar entrevistas. Ficava muito emocionado. A última grande entrevista que me lembro do Professor Barros foi dada ao Jornalista Edgar Alves, à Folha de São Paulo, pouco antes dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, em 2007.

O Barros fez parte de uma geração de Professores de Educação Física que entrou para história do esporte de São Paulo e do Brasil. Foram os precurssores da organização da prática esportiva nas escolas e da regulamentação da atividade do professor de educação física.

O Comitê Olímpico do Brasil, que tem o dever de manter viva a memória do nosso esporte, deve render ao Professor Barros as maiores homenagens.

Barros fez parte de uma época em que o esporte era coisa de gentlemen.”

Alberto Murray Neto

 

Quem foi Chico Piscina

Foto: Arquivo

Foto: Arquivo

Um dos certames de maior tradição da aquática nacional é o “Chico Piscina”, realizado desde o ano de 1968, na cidade de Mococa.

Inicialmente era um torneio de características singelas, mas foi aos poucos se ampliando, até nos últimos anos ganhar foros internacionais e ser respeitado inclusive no exterior.

Mas, afinal, quem foi este “Chico Piscina”, tão reverenciado por todos?

Ele era mocoquense, passou algum tempo em São Paulo na década de 30 do último século, quando frequentava a Associação Athletica São Paulo e afeiçoou-se pelos esportes aquáticos.

Cessada a razão de sua permanência na Capital do Estado, ele retornou à sua cidade, levando o desejo de construir uma piscina numa época em que a cidade de São Paulo não tinha mais de meia dúzia delas.

Desta piscina nasceu a Associação Atlética Mocoquense, que já deu grandes nadadores ao esporte de São Paulo, como Maria de Lourdes Caixeta e a melhor equipe de natação infanto-juvenil do Estado. Graças a Chico Piscina, Mococa entrou para a história da natação.

Eu vim a conhecê-lo no dia 1º de setembro de 1978 (puxa, quantos fatos importantes são comemorados em 1º de setembro, inclusive o Dia da Educação Física). Fui àquela cidade para presidir a fundação do Panathlon Club Mococa, o 5º clube do Brasil e o de nº 164 na comunidade internacional. Chico Piscina tornou-se panathleta atuante até que, anos mais tarde, contristado, soube do seu falecimento.

Naturalmente tive de ir a Mococa para as suas exéquias. Fiquei emocionado quando no velório vi na lapela do paletó de um dos maiores benfeitores da história do esporte o distintivo do Panathlon. Nessa viagem de São Paulo a Mococa também dei carona para Coaracy Gentil Nunes, desde então presidente da Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos.

Trinta e três anos depois continuo me lembrando de um grande homem na história da natação nacional.

 

O vértice começa na base

blog_nicoliniTeve início nesta terça-feira a fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa, importantíssimo evento de futebol mundial.

Tanto a Folha quanto o Estadão, dando destaque a este acontecimento, fizeram um levantamento do amplo interesse sobre a elevada presença de brasileiros e sul-americanos nas equipes classificadas para disputar o mega torneio.

A Folha deu uma página completa dos 32 times que estão competindo em um torneio cujo campeão receberá 37,4 milhões de euros. Este levantamento continha o nome do time, o país a que ele pertence, títulos que já conseguiu, o nome e a nacionalidade do técnico e o principal destaque americano que defende o clube.

Analisando as informações dos 32 disputantes, nós verificamos que apenas 4 times não possuem estrangeiros. O destaque é o Brasil, cujos jogadores estão escalados por 26 dos 32 clubes. Dos que sobram, 4 são da Argentina, 2 do Chile e 2 da Colômbia.

O Estadão abordou o assunto pelo ponto exclusivamente quantitativo, pois em muitas equipes participando deste prestigioso certame europeu pode haver mais de um brasileiro.  Dessa forma, verifica-se que existem 75 jogadores do Brasil participando do torneio máximo da Liga dos Campeões Europeus.

  • Shakhtar Donetsk (Ucrania) – 13 brasileiros
  • Benfica (Portugal) – 8 brasileiros
  • Paris Saint-Germain (França) e Porto (Portugal) – 5 brasileiros cada
  • Barcelona (Espanha), Apoel (Chipre), Chelsea (Gra-Bretanha), Lodogorets (Bulgária) – 4 jogadores cada
  • Sporting (Portugal) – 3 jogadores
  • Real Madrid (Espanha), Bayern de Munique (Alemanha), Liverpool (Grã-Bretanha), Roma (Itália), Manchester City (Grã-Bretanha), CSKA (Russia), Monaco (Principado de Monaco), Galatasaray (Turquia) – 2 jogadores cada
  • Atlético de Madrid (Espanha), Juventus (Itália), Maribor (Eslovenia), Malmo (Suécia), Zenit (Rússia), Shalke 04 (Alemanha), Olympiacos (Grécia), Bayer Leverkusen (Alemanha), Anderlecht (Bélgica) – 1 jogador cada

Os números que a Liga dos Campeões da Europa apresentam mostram que até o 7 a 1 da Copa do Mundo não arrasou o prestígio do futebol brasileiro no exterior. Se somarmos os jogadores brasileiros dos clubes europeus que não estão neste grande torneio da Liga Europeia e se contarmos também os brasileiros que estão em times de outros continentes, chegamos à conclusão que ultrapassam vários milhares os jogadores que recebem em moedas de outros países.

Seria plausível o torcedor brasileiro lamentar a falta de tantos grandes craques nos campeonatos locais. O nosso futebol poderia melhorar extraordinariamente se esta exportação incrementasse as várias divisões do futebol local, decuplicando o número de “pratas da casa”, que assim proporcionariam partidas de alto teor. Repetimos mais uma vez a batida frase deste nosso Blog: “Na pirâmide do esporte a altura do vértice técnico, do pódio, depende diretamente da base quantitativa”.

Temos em nosso país 5570 municípios, grande parte com condições de ter uma liga própria de futebol. A esta pesquisa de valores esportivos podemos acrescentar talentos até o futebol feminino que possui um currículo internacional invejável.

Esta capilaridade esportiva nacional não precisa ser exclusiva do futebol. Considerando-se que estamos a dois anos da abertura dos Jogos Olímpicos no Brasil, o mesmo princípio se aplica a mais de trinta modalidades olímpicas e a outras não olímpicas. Este conceito pode ser avaliado pelo número de medalhas ou boas classificações olímpicas, destaques do Brasil em certames sul-americanos, pan-americanos, campeonatos mundiais de várias categorias e faixas etárias.

Os que não nasceram para a “performance” poderão praticar o esporte para o lazer, para a saúde e para o cultivo da amizade. São eles também os que encherão os estádios como expectadores.

Uma política como esta em favor do esporte vai tirar da população o álcool, as drogas e sanear a idoneidade preconizada pelo esporte. Já estamos no momento de educar o nosso povo com a atividade na escola, nos centros municipais e, naturalmente, incentivando e aperfeiçoando a população em todos os graus de ensino.

Na Europa o trabalho já está rumando na direção da difusão. Esta também é a receita para o nosso país.

O esporte tornou-se exemplo

Foto: AFP

Foto: AFP

Diversas vezes contei neste Blog o desânimo que me causa a leitura dos jornais pela manhã. É uma sequência tão grande de más notícias. Não há uma boa qualquer que seja, tanto na área da regência da nossa economia, como na pouca idoneidade dos políticos no controle dos recursos públicos e no aumento da enorme criminalidade.
O ânimo para continuar vivendo o resto do dia esvai-se e é substituído pelo pessimismo. Isto, sem dúvida, também desanima a autoestima coletiva.

A página de esportes de hoje, porém, trouxe um sentimento completamente oposto ao que era normal há uma década. Acreditamos que dificilmente na história da nossa atividade esportiva tivemos num único dia tantas e tão significativas vitórias:

1) Na sequência do Campeonato Mundial de Basquetebol, em jogo efetuado em Madri, vencemos a Argentina, nossa algoz dos dois últimos confrontos, por uma diferença de 20 pontos (85 a 65). Nosso time teve uma atuação maravilhosa, com destaque especial para Raulzinho, Anderson e Varejão.

2) Após alguns anos o nosso piloto Felipe Massa liberou-se da má sorte e subiu ao pódio no grande prêmio da Itália. Nossa bandeira galgou a haste do triunfo e ele entrou na guerra do champanhe, molhando os principais adversários, sobrando um fundinho da garrafa para um gole que nunca esteve tão delicioso.

3) O Futsal cresceu em prestígio, lotando o Estádio Mané Garrincha (sim, o da Copa do Mundo de Futebol), com um público de 55 mil espectadores. Além do recorde de público, houve a glória do retorno do craque Falcão, maior jogador de futebol de salão de todos os tempos. Com o resultado da partida (4 a 1) surramos mais uma vez os argentinos.

4) No Campeonato Mundial de Voleibol Masculino, que está sendo realizado na Polônia, o time do Brasil, jogando na cidade de Katowice, venceu Cuba, tradicional adversário, no último jogo da primeira fase.
O Brasil perdeu o 1º set por 25 a 23, mas venceu os três seguintes (25 a 23, 25 a 18, 25 a 17).
Agora, com adversários mais fortes, nosso país será protagonista de um evento sensacional.

5) Também há 15 dias a equipe brasileira feminina de voleibol venceu pela 10º vez o Grand Prix realizado no Japão, com 13 vitórias e apenas uma derrota.

Esperamos que a mudança de rumo do nosso esporte e a sequência de triunfos brasileiros irão apagar a derrota dos 7 a 1 do Mundial contra a Alemanha e sejam um estímulo para que possamos superar a fase vergonhosa e desanimadora exposta no início deste artigo. Se o esporte consegue, por que a administração, economistas e governo não conseguem também?

O esporte é o exemplo!

O exemplo de um jovem

Foi uma sugestão de meu amigo Georgios Hatzidakis, presidente do Panathlon Club São Paulo, que me fez tomar conhecimento de um fato que me emocionou pelo seu conteúdo humano e que foi divulgado através das redes sociais.

O acontecimento teve por protagonista um jovem que, ao assumir uma atitude de tamanha grandeza, levou um descrente do futuro a acreditar no porvir de nossa pátria.

O jovem esgrimista Guilherme Murray, graças ao seu talento técnico, foi escalado para defender o Brasil nas provas de florete e espada, no Campeonato Pan-americano de Esgrima realizado na última semana de agosto. Ele, com apenas 12 anos, nas disputas de que participou estava 2 anos abaixo da idade dos demais concorrentes exigida pelo regulamento.

No último dia 21 de agosto, Guilherme poderia estar entre os oito melhores da América em sua categoria. Durante a partida, o árbitro havia dado um “toque” a seu favor. Ele, porém, avisou o árbitro que o mesmo estava enganado e que o adversário havia tocado antes. Com isso perdeu a disputa por 10 a 9 pontos e não continuou no Pan-americano.

Este gesto de alta estirpe ética deve ser herança de seu pai, o esportista Alberto Murray, que sempre que pode, por todas as vias de comunicação, continua escrevendo contra as mazelas do nosso esporte, acusando as inidoneidades frequentes das confederações, a corrupção dos dirigentes de entidades particulares e governamentais.

Esta valorização da correção não vem somente de seu pai. Vem de sua avó Sonia e de seu bisavô, o grande Sylvio de Magalhães Padilha. Enquanto viveu o Major também foi impoluto moralmente nas funções de dirigente e campeão nas pistas.

Padilha deixou uma obra que resiste até a atualidade. Estimulou o esporte no Interior do Estado e foi dirigente das delegações do Brasil em competições realizadas no nosso país e no exterior. Foi um grande amigo pessoal do autor destas linhas. O comportamento decente e o êxito dos atletas do Brasil (ainda mais no clima de Jogos Olímpicos em que vive hoje o nosso país) era o seu ideal.

Se a conduta do bisneto de Padilha fosse acolhida por toda a juventude e a nossa população, haveria mais medalhas para contar a nossa história olímpica.

Este nosso blog lança um apelo:

“Que cada um veja em Guilherme um herói”.

 

Blatter com a razão

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Nos dois meses que se seguiram às derrotas desmoralizantes do Brasil, os jornais saíram plenos de notícias que procuraram explicar os resultados de 7 a 1 contra a Alemanha e 4 a 0 frente a Holanda.

Assuntos como nossa tática em campo, ou a competência e a liderança do técnico Luiz Felipe Scolari dominaram a mídia quase toda, direcionada para comparações entre o futebol do Brasil e o da Europa. Todos os textos eram escritos em busca de uma justificativa pouco lógica.

Na Europa, o tema também ainda não morreu – o pós Copa perdura até hoje, embora no Brasil a divulgação dos Jogos Olímpicos comece a ganhar espaço que justamente merece.

Numa coletiva dada em sua cidade natal – Ulrichen, interior da Suíça – na última semana, Blatter aproveitou para criticar Havelange, deixando para seu antecessor na presidência da FIFA a responsabilidade do fracasso nacional em 2014, afirmando que ele não havia praticado ações necessárias para estimular a base do futebol brasileiro enquanto era presidente da CBF.

Pelo visto Blatter concorda pessoalmente com uma frase, repetida à fartura nesta coluna, dizendo que “o vértice qualitativo só pode ser atingido se houver uma base quantitativa correspondente”.

Este conceito faz com que a maioria dos talentos do esporte de um país sejam correspondentes ao trato e ao número de praticantes de uma modalidade esportiva.

Dentro deste princípio que defender quantidade e trabalho, é fundamental também o preparo dos valores descobertos por técnicos de alto gabarito, uma estrutura que varia de acordo com o nível cultural da nação.

Neste 2014, o número da população total dos 32 países que disputaram a Copa do Mundo é de 1.841.530. Só o Brasil possui 200 milhões, isto é, 20% do total do número acima.

Até países com população muito baixa conseguiram classificação para o Mundial, como o Uruguai com 3,39 milhões, Portugal com 10,5 milhões, Honduras com 7,9 milhões, Costa Rica com 4,8 milhões, Grécia com 11,2 milhões etc.

Isto mostra que os jogadores de cada uma das nações participantes foram testados com grande critério e muito bem treinados antes de integrar a seleção de seus países.

 

Vejam o número de habitantes dos países que integraram a Copa de 2014:

em   milhões

EUA

313

BRASIL

200

NIGÉRIA

168,8

RÚSSIA

143,5

JAPÃO

127,6

MÉXICO

120,8

ALEMANHA

81,89

IRÃ

76,42

FRANÇA

65,7

ITÁLIA

60,92

INGLATERRA

53,01

CORÉIA DO SUL

50

COLÔMBIA

47,7

ESPANHA

47,27

ARGENTINA

41,09

ARGÉLIA

38,48

GANA

25,37

AUSTRÁLIA

22,68

CAMARÕES

21,7

COSTA DO MARFIM

19,84

CHILE

17,46

HOLANDA

16,77

EQUADOR

15,49

GRÉCIA

11,28

BÉLGICA

11,14

PORTUGAL

10,53

SUIÇA

8

HONDURAS

7,93

COSTA RICA

4,8

CROÁCIA

4,26

BÓSNIA

3,83

URUGUAI

3,39

 

A CONSULTA DE SANTINI

Giacomo Santini, presidente do Panathlon International, um amigo residente na Itália, mandou-nos 10 perguntas querendo saber detalhes da realidade brasileira. Em uma delas, ele perguntou se todos os jovens brasileiros tinham oportunidade de se afirmar no futebol, ou somente os filhos dos ricos podem frequentar os grandes clubes para tornar-se campeões.

Em outra consulta demandou se os habitantes das favelas “também” jogavam futebol.

É interessante que este desconhecimento sobre a procedência dos nossos jogadores e seu “comportamento” em campo seja o oposto de sua expectativa.

No período pré Copa, o noticiário preocupou-se justamente em apresentar os nomes dos escolhidos para a nossa seleção, mostrando que a maioria provinha de pequenos clubes, de locais quase anônimos, com escolaridade deficiente e vivendo com baixo estipêndio enquanto eles não desenvolviam plenamente suas aptidões.

O grande plano para o esporte do Brasil é desenvolver ao limite a prática de todas as modalidades esportivas, inclusive as não olímpicas, cuidando concomitantemente da escolaridade de cada participante.

Esta “peneirada” aproveitaria a população escolar de todos os graus, os frequentadores dos centros de Educação Física, do esporte varzeano e da periferia, e não só o das capitais e grandes centros urbanos.

 

KANICHI SATO

Esta teoria foi preconizada antes da metade do século passado por Kanichi Sato, um agrônomo imigrante do Japão, que foi convidado nos anos 30 para ser técnico de natação no Clube Esperia. O presidente do Esperia da época era João De Lorenzo.

Na ampla visão desses pioneiros, o objetivo não era o pódio olímpico ou a vitória em torneios importantes, como os campeonatos brasileiros, sul-americanos, mundiais e Jogos Olímpicos.

Os praticantes envolvidos que não demonstrassem condições técnicas de se tornar campeões se beneficiariam nas questões de saúde. O plano de Sato previa também as atuais ações contra a obesidade, um comportamento ético e a prática do fair play da população esportiva, isso tudo em competições de alta participação.

Até núcleos para a especialização de docentes em medicina deveriam ser formados para suprir esta deficiência de profissionais.

O esporte deve figurar na escala de valores da população, ultrapassando a busca do campeão. O direito de não ser campeão deve ser respeitado em favor de outros objetivos.

Estas ideias já foram expressadas no varejo e estão sendo compiladas para o meu próximo livro sobre o assunto. A frase do pouco amado presidente da FIFA está nessa direção para o progresso. Como diz o título desta matéria: “Blatter com a razão”.

 

Valeu a pena sediar a Copa

Foto: Wagner Carmo/Gazeta Press

Foto: Wagner Carmo/Gazeta Press

As derrotas do Brasil para a Alemanha, por uma dilatada diferença (7 a 1), e para a Holanda (3 a 0) lançam a questão da conveniência de termos aceitado a organização deste evento em 2014.

Foram tantas as críticas danosas em todos os momentos, começando no período da pré-implementação, quanto à capacidade de organização das nossas autoridades, que o país teve de se entrincheirar diante dos ataques vindos das mais diversas direções.

Inicialmente apareceram as manifestações com plaquetas “Fora a Copa” e rotuladas de “democráticas”. Surgiram depois expressões populares que foram recebidas como uma demonstração de civismo, mas logo distorcidas pela incorporação entre os manifestantes de entidades pouco confiáveis, defendendo o aproveitamento de vantagens pessoais na área da habitação e da transformação do espaço público em favor dos bens particulares.

A estas iniciativas bem vistas inicialmente como democráticas por uma minoria, reuniram-se os black blocs, vândalos, destruidores da propriedade privada, levando para o exterior uma péssima expectativa quanto à Copa e a atuação dos brasileiros.

A estes fatores juntou-se a intolerância da FIFA que, por motivos eleitorais ou pela busca de mais recursos financeiros, aproveitava-se para demolir a imagem do nosso país com entrevistas que corriam por todos os continentes.

É verdade que algumas obras estavam em atraso, mas nada justificava a frase que o Brasil estava recebendo: “um pontapé nos fundilhos”. Foi criada a imagem “padrão FIFA” para tornar primário o trabalho brasileiro.

Os dirigentes nacionais resolveram então acelerar as obras, incentivando os investimentos. O resultado foi idêntico ao de um atleta que, correndo no final do pelotão, dá um arranco e, aos poucos, assume uma dianteira.

O resultado foi receber com fidalguia a presença de 31 países que participavam da Copa. As delegações, os turistas e os próprios habitantes das nações concorrentes foram numerosos. O Brasil teve oportunidade de mostrar que é um país bonito e as distâncias entre os 12 estádios demonstraram que nosso país é um continente.

Nossa população, cordial por natureza, logo acolheu de braços abertos os visitantes, expondo aos milhares de jornalistas a nossa competência e alegria que foram amplamente correspondidas.

Quem duvidava de nossa capacidade administrativa viu que o transporte interno e o acesso dos expectadores às “arenas” funcionaram perfeitamente: uma infraestrutura digna de organizar um evento a ser chamado de “A Copa das Copas”. Nenhum jogo em todas as fases deixou de estar repleto.

Nosso país tornou-se um campeão na categoria “anfitrião” e não tinha a obrigação de ser o Campeão Mundial. É verdade que sofreu uma derrota humilhante da Alemanha, mas na parte técnica está entre os quatro primeiros entre todos os mais de 200 países praticantes da modalidade mais popular do planeta. O “padrão FIFA” desmoronou-se com a descoberta pela polícia brasileira de uma quadrilha de contrabando de ingressos oficiais.

Se formos fazer um balanço dos itens em que o Brasil ganhou ao realizar a Copa do Mundo em 2014 e aqueles em que perdeu, inclusive levando em conta as amargurantes derrotas, achamos que as vantagens se destacam.

Nosso prestígio internacional como país tornou-se muito maior depois da Copa. O fluxo turístico cresceu significativamente, dando possibilidade a que muitos homens e mulheres do mundo financeiro conhecessem a nossa realidade, naturalmente abrindo portas para o intercâmbio comercial.

Até imagens do subdesenvolvimento nacional foram amainadas após a visita feita por delegações ao Complexo da Rocinha. Os nossos dirigentes ganharam a respeitabilidade como organizadores e, como consequência, o beneplácito da imprensa mundial.

Continuamos de cabeça em pé, mesmo após o acidente que abalou o mundo futebolístico, mas que provocou a maior onda de solidariedade que já aconteceu no esporte de massa.

 

NO PÉ

TEM MAIS

Este artigo não esgotou os argumentos em favor do tema defendido hoje. Um deles é a experiência que nossa infraestrutura adquiriu com o evento. Em 2016, teremos duzentas e dez nações competindo em uma diversidade de meia centena de modalidades. Vamos para esta luta com maior autoconfiança.

Em outros artigos falarei sobre como poderemos melhorar o nível técnico do Brasil, fazendo uma correlação entre a base quantitativa e o vértice qualitativo do futebol e demais modalidades praticadas no Brasil.

Ainda podemos integrar a este contexto a propaganda que a Copa fez do esporte não profissional, um esporte voltado para a saúde e para a recreação. Um esporte que deixa a juventude longe da droga, do vício e do alcoolismo.

 

 

E POR FALAR EM BRASIL X CHILE

Foto: Jose Duran/AFP

Foto: Jose Duran/AFP

Aproveito o meu blog para inserir um texto de Lauret Godoy, uma das maiores estudiosas da história do esporte. Catedrática em Olimpismo, na vida de Santos Dumont e outros temas, ela é uma grande historiadora, razão da cessão deste espaço.
Eis o e-mail que ela nos mandou:

“ Olá, querido Professor Nicolini
Aconteceu há 25 anos….

Decidi registrar, para que os jovens saibam o que aconteceu no Maracanã em 1989, durante o jogo entre Brasil e Chile.

Como amanhã é dia de novo confronto, é bom espalhar, o senhor não acha?”

Um abraço,

Laurete Godoy

ROSEMARY E O ROJÃO

Laurete Godoy*

A cada quatro anos a mesma história: Copa do Mundo de Futebol e a esperança de um novo título para o Brasil. Vem à lembrança a bonita figura dos capitães do passado, com a taça brilhante levantada lá no alto e depois, o desfile dos jogadores, em carro aberto, pelas capitais do país.

Era um futebol de lindos passes, dribles miraculosos, pernas que corriam o campo inteiro, pé bem treinado, batendo forte na bola ensinada a encontrar o caminho do gol. Bons tempos aqueles! Cada jogador com sua mágica, procurando vencer, mas respeitando o adversário. Vez ou outra o tempo esquentava contra argentinos e uruguaios, nossos eternos rivais sul-americanos. Mas os chilenos eram amigos. Até vencemos uma Copa do Mundo em solo chileno! E foi aquela bruta festa! Mas faz tanto tempo… Isso aconteceu em 1962.

Com o passar dos anos as coisas mudaram. Em 1989 explodiu uma guerra envolvendo, justamente, Brasil e Chile. O mais forte de nervos venceria, porque chute e cabeçada não eram apenas na bola, mas, de preferência, no adversário.

Em um Maracanã lotado, no dia 3 de setembro o Brasil disputou uma vaga para a Copa de 1990. O time da casa jogando pelo empate, mas o desejo era mesmo de vencer os chilenos, de goleada, para comemorar na Avenida Atlântica e na Paulista. Até o “bicho” dos jogadores ficou sofisticado. Americanizou-se. Em vez de ser pago em cruzados novos, moeda nacional vigente na época, seria em dólares.

No segundo tempo, o Brasil vencia por 1 x 0. Os chilenos estavam nervosos, à espera de uma oportunidade que, de repente, aconteceu. Foi apenas um gesto. Com o puxar do cordão de um sinalizador da Marinha, o céu iluminou-se no Maracanã. O clarão, a fumaça no gramado e Rojas, o goleiro chileno, foi ao chão, mãos segurando a cabeça e contorcendo-se. O jogo foi interrompido e a confusão generalizou-se. Os chilenos abandonaram o campo e a partida não terminou.

Indagada, Rosemary, a autora, disse que não sabia de nada, que foi sem querer. Com relação ao Chile, mais tarde a verdade veio à tona. Rojas confessou que estava com um plano preparado para anular a partida. Descoberta a fraude, ele foi banido do Futebol. E tudo isso por quê? Por causa do rojão de Rosemary, que a levou para as páginas da revista Playboy, transformando a fogueteira em estrela temporária e apagando, por longo tempo, a estrela de Rojas.

Coisas do esporte… Que podem ser relembradas neste ano de 2014, em que o mundo vive as emoções de mais uma Copa do Mundo de Futebol.

E de outro confronto entre Brasil e Chile…

* Laurete Godoy é pesquisadora e escritora

NO PÉ

Após o artigo publicado ontem, a autora nos escreveu acrescentando um anexo importante àquele texto.

Informou-nos ela:

Rosemary, a que disparou o petardo, faleceu em 2011, vítima de um aneurisma quando tinha 47 anos. O Rojas, após ter sido perdoado, virou treinador de goleiros do S.Paulo F.C. e nestes dias está na fila de espera para um transplante de fígado por causa de uma grave hepatite.

 

Plano para sermos ainda maiores

AFP

AFP

Os meios de divulgação que estão cobrindo a Copa do Mundo de Futebol, com diversidade e profundidade de temas, revelam aspectos históricos e sociológicos da vida de jogadores que chegaram à seleção. Esta vasta série de reportagens, a meu ver, vai contribuir para a projeção da nossa eficiência em âmbito mundial.

Mostrando o meio ambiente de onde surgiram os jogadores do nosso país, compreendemos melhor o nascedouro e os caminhos que levam à glória. A elite da seleção e dos clubes da 1ª Divisão vem de cidades localizadas em quase todos os Estados brasileiros. São garotos que se destacaram nos jogos de várzea, em “peladas” ou em campinhos que muitas vezes nem têm dimensões oficiais.

Como o Brasil é muito populoso, esta prospecção de valores esportivos, de promessas para o futuro, aqui é maior do que em outras nações que possuem times que estão se destacando nesta Copa do Mundo. Somos uma nação de duzentos milhões de habitantes enfrentando às vezes países que não possuem cinco milhões.

Esta alta produção transformou o Brasil em exportador de craques, o que nos leva a possuir o maior número de atletas atuando no exterior.

Em várias outras reportagens, os meios de divulgação estão mostrando o amplo espaço que o futebol está ocupando na economia internacional.

Dizemos frequentemente neste nosso Blog que na pirâmide do esporte o vértice técnico (qualitativo) depende da base quantitativa. Dessa maneira, se desenvolvermos um plano de amparo ao futebol mirim e de várzea nos mais de 800 municípios brasileiros, continuaremos sendo cada vez mais o maior do mundo nesta modalidade. Para isso, os municípios devem transformar pequenos locais em centros educacionais e colocar neles toda a nossa juventude aos cuidados de técnicos especialistas.

Este plano não é somente uma mega busca de talentos. Tem um profundo sentido social e educacional. Todos os jovens, mesmo os que não se destacarem como craques, continuando a praticar esportes não seguirão os maus caminhos que o mundo atual oferece, isto é, não serão consumidores de “crack” e outras drogas e continuarão a usar o esporte como fator de recreação e saúde, principalmente nesta época em que a medicina está preocupada com a obesidade de nossa juventude.

Estes argumentos esvaziam os motivos dos grupos que criaram manifestações contra o Mundial, com depredação de lojas e bancos. O êxito do certame está, até o momento, mostrando que o nosso país não é desorganizado.

Todos os olhos do mundo voltam-se para nós e acompanham nossa capacidade de organizar, além das belezas naturais do país. Elas serão divulgadas em todos os cantos do planeta, aumentando para o futuro a nossa arrecadação em várias áreas do comércio internacional, inclusive a do turismo receptivo.

O que o êxito deve ao espírito de autoridade

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

A semana que precedeu a Copa do Mundo foi terrível. Uma greve injustificada lançou na população, nas autoridades e na FIFA uma onda de negativismo em uma iniciativa que tinha tudo para mostrar o nosso país para mais de dois bilhões e trezentos mil espectadores em 203 nações deste planeta.

Uma paralisação revoltante e inoportuna do Sindicato dos Metroviários e outras entidades pouco confiáveis não iria permitir a chegada de 62 mil pessoas ao Estádio de Itaquera, onde seria realizado o encontro futebolístico, com a cobertura de mais de 3.000 jornalistas, numa das maiores divulgações já feitas pelos meios jornalísticos desde que se inventou a escrita.

Todos sentiram a organização excelente do que se prenuncia como a melhor Copa do Mundo até hoje realizada, a enorme adesão da população nacional e a repercussão favorável que deve ter ocorrido em todos os países do planeta. A única crítica foi a pobreza da festa de abertura de responsabilidade da FIFA, que estava encarregada deste item da programação.

O temor de termos um estádio vazio por impossibilidade de acesso, decorrente de um ato atrevido (uma verdadeira chantagem) de alguns membros do Sindicato dos Metroviários e outras entidades terroristas somente mudou de curso quando uma autoridade estadual teve a coragem de enfrentá-los e demitir quarenta metroviários e ameaçar também de demissão todos os que se atrevessem a faltar ao trabalho no dia 12 de junho, histórica data para a propaganda do Brasil.

Até então, a leniência governamental havia servido de estímulo a atos de bandidagem de arruaceiros, muitos deles mascarados, com especial preferência para depredar lojas e estabelecimentos bancários ao longo dos percursos escolhidos para as manifestações.

Neste filme de “mocinhos” e “bandidos”, estes últimos estavam levando a melhor, demolindo a imagem do nosso país no exterior e reduzindo o nosso índice de patriotismo, pois a proximidade das eleições levava à pusilanimidade das autoridades.

O pulso firme do nosso Governador Geraldo Alckmin foi um balde de água gelada nas lideranças do boicote à Copa do Mundo. Apoiamos profundamente o Governador, pois a chegada do público ao “Itaquerão” era imprescindível para os jogadores receberem os aplausos respeitosos de espectadores, da imprensa e da opinião pública.

Alguns grupelhos, em locais distantes dos caminhos que levam ao Itaquerão, tentaram no dia 12 fazer baderna, mas sem nenhum resultado prático, levando uma grande maioria de patriotas a aplaudir e apoiar tudo o que de positivo aconteceu.

De um momento para outro o descaso e o clima frio dos torcedores de São Paulo e do Brasil mudaram para demonstrações de entusiasmo, o que contribuiu para reduzir os propósitos dos baderneiros.

O patriotismo com que foi cantado o Hino Nacional no Itaquerão comoveu o Estado de São Paulo e o país todo. O hino pátrio já estava sendo entoado espontaneamente até nos vagões de trens e metrôs que demandavam para a Zona Leste.

Os que não conseguiram ingresso demonstraram seu patriotismo no Anhangabaú, onde 30 mil pessoas aplaudiram a nossa seleção, evento que terminou em um animado sambão bem mais tarde do que o jogo em si.

O mesmo aconteceu no Rio de Janeiro, com o fulcro em Copacabana e em Belo Horizonte. Nesta cidade, além das manifestações da Praça 7 de Setembro, argentinos confraternizaram-se com uma grande quantidade de brasileiros.

Até em Olinda, no Nordeste, houve uma repetição do tradicional desfile do pós-Carnaval, com os bonecos gigantes.

Entre as 32 equipes, a rivalidade feroz foi substituída pelo abraço e pela troca de souvernirs.

Enfim, tudo foi festa e vários locais populares, como o Parque do Ibirapuera, ficaram quase vazios nessa tarde.

As faixas contra a Copa que foram exibidas no período pré Mundial perderiam todo o sentido se fossem visualizadas hoje.