Gazeta Esportiva

Érica Ramalho/Divulgação

Érica Ramalho/Divulgação

Em vários artigos após a conquista da sede dos mega eventos pelo Brasil exaltamos a grande oportunidade que eles proporcionariam ao nosso país para a nossa inserção definitiva no primeiro mundo. Um bom trabalho dos responsáveis pela implementação representaria a fixação de uma imagem do Brasil como país civilizado, ampliaria a vantagem econômica positiva do turismo receptivo e uma tranqüilidade em nossas contas externas, o que seria desfrutado por toda a população.

Para que este sonho (com um toque de utopia) ocorresse, era preciso uma grande dose de patriotismo dos executivos de todos os níveis. A cultura nacional não favorecia a implementação idônea da Copa das Confederações, do Mundial de Futebol e dos Jogos Olímpicos. Ela é caracterizada por elevado índice de corrupção política, pela criminalidade, pelo tráfico, pelo contrabando e outras ilicitudes.

O sonho dos idealistas de um Esporte (com E maiúsculo) está ruindo com o noticiário posterior aos Jogos de Londres (que pretendíamos superar em qualidade). São fartas as notícias de negociatas na construção de estádios, superfaturamento e elevação do orçamento previsto. A avidez de políticos e de muitos dirigentes do alto escalão está diariamente nas manchetes dos meios de comunicação. Uma delas foi relatada em nosso artigo anterior, informando o absurdo de demolir dois verdadeiros templos do esporte que são o conjunto aquático Júlio Delamare e o estádio de atletismo Célio de Barros, somente para a ampliação do espaço do estacionamento, fato que ocorreria unicamente em duas ou três ocasiões.

Agora chega ao público mais uma falcatrua: a justiça suspendeu o processo de licitação para a exploração do Maracanã, concedida a uma empresa privada. Por decisões da juíza Roseli Nalin, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, foi acatado o pedido feito pelo Ministério Público.

O edital era carente de detalhes e informações e as circunstâncias mostravam um suposto favorecimento à empresa IMX de Eike Batista, que nas últimas semanas tem estado no centro do noticiário econômico dos jornais pelas elevadas perdas de suas empresas que não iniciaram a execução de nenhuma das iniciativas na área da exploração de petróleo.

Os problemas da corrupção seriam ainda maiores, não fosse a ação do Ministério Público e de parte do judiciário que pretendem ver um Brasil melhor. O autor destas linhas passou a ser um admirador desta juíza Roseli Nalin, e de outros magistrados que devem continuar “de olho” para que esta concessão do Maracanã por 35 anos não se concretize.

Além dos atos ilícitos no atacado, também no varejo se notam fatos que denegriram a imagem do Brasil. Os bandidos dos morros e da periferia do Rio de Janeiro elegeram os turistas como alvos preferenciais de seus delitos. Estupros, roubos a mão armada estão se repetindo com grande freqüência a cada dia. Cada ocorrência tem tido grande repercussão na imprensa do exterior, tornando-se um arauto de nossas mazelas e indo em direção oposta ao que se pretendia.

O governo do Rio de Janeiro tem lutado muito neste campo, mas uma parte dos próprios órgãos policiais está contaminada, o que dificulta a “limpeza” que se torna a cada minuto mais necessária.

Vamos torcer para que o Ministério Público, a magistratura das Roselis Nalin, e ministros como Joaquim Barbosa, do Supremo, com a fibra de uma Margareth Tatcher incrementem esta luta contra os bandidos do colarinho branco e os de camiseta e bermudas.

NOTA

Este comentário já estava redigido quando recebemos a informação de que, em plena madrugada, quatro horas depois da juíza Roseli Nalin proferir sua sentença, uma desembargadora cassou a decisão e o processo de licitação teve prosseguimento.

Achamos que, mesmo assim, ele ainda tem sentido. Serve de tema de meditação sobre as expectativas em torno dos mega eventos.

 

Divulgação

Divulgação

O governo do Estado do Rio de Janeiro comunicou a Coaracy Nunes, presidente da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) que essa entidade deverá parar tudo o que está fazendo e mudar-se imediatamente para outro local, desocupando sua sede instalada nas dependências do Parque Aquático Júlio Delamare, que será derrubado, hecatombe que também pulverizará o Estádio de Atletismo Célio de Barros, que integra o Complexo do Maracanã.

Estas instalações estão ainda em plenas condições de utilização e já foram centros de memoráveis e históricas competições atléticas e aquáticas. Construídas com dinheiro do povo, deveriam estar sendo utilizadas para a prática da natação e o atletismo, pela infância e juventude das regiões carentes e favelas não muito distantes do Maracanã.

Desmanchar-se o que está feito é um crime. Estas praças de esportes são verdadeiros templos que não poderiam ser destruídos justamente por um governo que tem demonstrado interesse na diminuição dos índices de criminalidade que têm aumentado no Rio de Janeiro. Para os esportistas mais conscientes da significação daqueles estádios, a decisão seria comparável ao governo querer demolir a Igreja da Candelária, o Cristo Redentor ou o Teatro Municipal. O que mais impressiona é que, entre os protagonistas desta decisão esdrúxula, juntamente com o governo estadual, está o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, Carlos Arthur Nuzman (que saudades de José Ferreira Santos e Sylvio de Magalhães Padilha!). Coaracy, quando recebeu a notícia, até chorou.

Entretanto, não é de suas lágrimas que estamos necessitando, mas de uma manifestação veemente de protesto envolvendo os esportistas conscientes do enorme erro que está por acontecer. Da notícia que recebemos consta um subtítulo que diz que “não há nada a fazer”. Enquanto não entrar o primeiro trator demolidor sempre haverá esperança de reverter a situação. Não se pode nem acreditar nas promessas de que as instalações atualmente em construção para os mega eventos estarão prontas nas datas da realização. Estão todas com seus cronogramas atrasados. Diante deste quadro, imaginem quando serão cumpridas as promessas feitas para a reposição dos estádios Célio de Barros e Júlio Delamare? (as almas destes homenageados devem estar agora no Paraíso horrorizadas com o que estão fazendo com as suas memórias). Mesmo no estado em que estão, os dois estádios condenados à morte também seriam úteis nos Jogos Olímpicos para o treinamento do imenso contingente de mais de 200 países que virão ao Rio participar das modalidades mais concorridas da maior competição poliesportiva do mundo.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Nos dias seguintes ao encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, ainda tomados pela euforia despertada pelo brilho das cerimônias de abertura e encerramento, imaginamos a realização de um evento no Brasil com um padrão igual ou superior ao produzido pelos britânicos.

Este fato elevaria o prestígio e a imagem do nosso país num contexto internacional, com conseqüências de natureza social, cultural e, principalmente, econômica. Seria o documento definitivo do ingresso no primeiro mundo.

Para que este êxito acontecesse, todavia, seria necessária a concretização do sonho utópico de uma tomada de consciência coletiva de nossa população e a adoção de um patriotismo que superasse a vexatória cultura local propensa à corrupção, à criminalidade, ao tráfico e à política pouco altiva de nossos parlamentares e membros do governo e de entidades esportivas.

Passado um ano do sonho olímpico e o de outros mega projetos programados para o Rio de Janeiro, estamos verificando que nada mudou. A mídia quase que diariamente está noticiando superfaturamentos na construção de estádios, reajustes de orçamentos de obras (que chegam até ao dobro e ao triplo daqueles dos projetos iniciais), atraso de praticamente todas as iniciativas programadas.

Panorama idêntico ocorre com os serviços públicos programados, que misturam incompetência com corrupção ativa e passiva. Estão na mesma situação os transportes aéreos e terrestres, reformas de vias públicas e toda estrutura que os eventos mundiais e Jogos Olímpicos exigem para a sua realização e que provavelmente ficarão somente nos planos.

A FIFA, o COB e outras entidades internacionais estão de olho no cronograma e já concluíram que a pontualidade londrina não se repetirá nestas paragens tropicais.

O pior neste período que precede os grandes certames é representado por assaltos aos turistas precursores que chegam à nossa terra para desfrutar de uma “avant première” dos mega eventos que irão até 2016. Agora, com a interdição do Estádio João Havelange no Rio de Janeiro, vem a dúvida da credibilidade profissional das empreiteiras brasileiras responsáveis pelas construções. Uma obra executada para os Jogos Pan-americanos de 2007 já está com riscos de desabamento.

Salvo uma mudança significativa na CBF, não houve até agora nenhuma alteração para melhor nos quadros dos seus dirigentes, herdeiros de uma tradição pouco honorífica na administração esportiva. Salvam-se neste quadro as ações dos órgãos de comunicação. A maioria recusa aceitar os desmandos que até hoje têm ocorrido e os denunciam para os cidadãos mais conscientes deste país. Está na hora da opinião pública mostrar a força de seu peso.

Se um magistrado com a formação de um Joaquim Barbosa do STF conseguiu uma vitória histórica contra os corruptos do “Mensalão”, por que o Ministério Público também não entra, no limite de suas possibilidades, nesta campanha de moralização dos mundiais e da Olimpíada de que tanto necessitamos?

NO PÉ

Lanterna no ranking

Foi realizada, na última semana, uma reunião dos chefes de Estado do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para o fortalecimento deste grupo emergente em relação aos Estados Unidos e à União Européia. Foi apresentado na ocasião um ranking do índice de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), no qual o Brasil ficou com a lanterna, com o último lugar.

Os motivos mostrados, no contexto esportivo do artigo que antecede a este, indicam que eles influenciam também a macroeconomia. Com idoneidade e competência estaríamos com um índice de crescimento bem acima do que está sendo apresentado.

*************************

Os outros não são santos

A FIFA, o COB e outras entidades internacionais também não são santas. Estão de “olho gordo” em participar de quase todas as fontes de arrecadação. Além dos esforços da sociedade civil e dos órgãos governamentais para o pagamento dos enormes custos dos mega eventos, nosso país conta com aquelas entidades como “sócias em todas as fontes de lucro”, mas não das despesas.

Causou preocupação a muitos esportistas que acompanham a história do esporte paulista a interrupção da série de cerimônias que se realizavam sempre na primeira semana de dezembro.

O evento “Bosque da Fama”, fruto de uma parceria entre a SEME e o Panathlon Club São Paulo, tem por escopo preservar a memória do esporte bandeirante homenageando de forma original atletas paulistas de todas as gerações que, além de grandes conquistas nas arenas de esportes, se destacaram pelo comportamento ético e pelo fair play.

A homenagem, diferentemente da Calçada da Fama, em Los Angeles, consiste no plantio de uma árvore pelo próprio esportista.

Em 2012, a solenidade, após 4 anos de realização contínua, deixou de ser efetivada por questões político-eleitorais. O restabelecimento aconteceu hoje, em uma reunião realizada no gabinete do Secretário Municipal de Esportes, com o autor desta coluna (e membro do Panathlon), o secretário Celso Jatene e prestigiada pela vice-prefeita Nádia Campeão.

A conclusão foi voltarmos a ter uma festa em que uma dezena de ícones do nosso esporte estarão plantando “suas” árvores (especificadas por uma plaqueta). Essa festa será prestigiada por autoridades administrativas, dirigentes de clubes e federações, panathletas e esportistas em geral, e por bandas de música.

A atmosfera propícia do encontro fez com que o projeto fosse ampliado. Ficou a idéia de aproveitar aquele espaço, localizado atrás da pista de atletismo do Centro Olímpico, com a inclusão de uma biblioteca para a divulgação da cultura do esporte e um espaço onde alunos de centenas de Faculdades de Educação Física do nosso Estado possam elaborar seus trabalhos e suas teses. Também estão previstas visitas monitoradas por guias para estudantes e turistas, além da elaboração de um impresso com o currículo dos atletas homenageados. Teremos, portanto, se as circunstâncias permitirem, um verdadeiro centro cultural dos esportes.

Muita coisa deverá acontecer neste 2013.

OS JÁ HOMENAGEADOS

São os seguintes os atletas que já foram homenageados e já possuem uma árvore com uma plaqueta em seu nome:

- Maria Esther Bueno – tênis

- Hortência Marcari – basquete

- Manoel dos Santos Jr. – natação

- Ricardo Prado – natação

- Maria Paula Gonçalves da Silva – basquete

- Janeth Arcain – basquete

- Gustavo Borges – natação

- Nelson Prudêncio – atletismo

- Alberto Marson – basquete

- Amauri Ribeiro – voleibol

- Carlos Domingos Massoni – basquete

- Éder Jofre – pugilismo

- Fernando Meligeni – tênis

- José Macia (Pepe) – futebol

- José Ely de Miranda (Zito) – futebol

- Ana Beatriz Moser – voleibol

- Ana Margarida Vieira Álvares (Ida) – voleibol

- Antônio Wilson Honório (Coutinho) – futebol

- Douglas Vieira – judô

- Jair Picerni – técnico de futebol

- Maurren Higa Maggi – atletismo

- Antônio Salvador Succar – basquete

- José Montanaro Junior – voleibol

- Emerson Fittipaldi – automobilismo

- Fabiana Murer – atletismo

- Henrique Guimarães – judô

- Marcelo Negrão – voleibol

- Wiliam Carvalho da Silva – voleibol

- Walter Carmona – judô

In memoriam

Representados por seus familiares, foram homenageados:

- Adhemar Ferreira da Silva – atletismo

- Ayrton Senna da Silva – automobilismo

- Carmo de Souza – basquete

- Edson Bispo dos Santos – basquete

- João Carlos de Oliveira – atletismo

- Moacyr Brondi Daiuto – basquete

- Sylvio de Magalhães Padilha – dirigente

- Tetsuo Okamoto – natação

- Ubiratan Maciel – basquete

Em 18 de fevereiro, publicamos um artigo criticando o poder judiciário paulista por conceder “habeas corpus” a um grupo de torcedores para assistir ao jogo do Corinthians contra o Milonários na Libertadores.

A nossa discordância estava na leniência da magistratura em favor de um ato disciplinador originário da Conmebol, entidade gestora da Libertadores. Não havia nenhuma crítica endereçada especificamente à torcida alvinegra, composta em sua grande maioria por afeiçoados pacíficos ao clube. Em uma massa de espectadores, existe uma grande diversidade de comportamentos que incluem alguns mais agressivos e que, frequentemente, comprometem uma maioria pacífica.

Se sairmos do âmbito do futebol e entrarmos no da administração do nosso país, vemos diariamente nos veículos de informação uma enorme quantidade de ilicitudes em nosso território, que vão desde abusos de políticos com o dinheiro público, a seqüestros, tráfico de drogas, assaltos, contrabando e outros desmandos que apavoram nossa população. A leniência do judiciário frequentemente acaba livrando os infratores de qualquer punição, ou reduzindo penas, concedendo regalias que estimulam a reincidência.

O Brasil poderia estar há muitas décadas fazendo parte do primeiro mundo se não fosse esta tendência de facilitar as coisas para os réus.

Voltando a me referir ao artigo, cujo título era “Despacho pouco feliz!”, recebi um número maior de correspondência que o habitual. Mais de 50 por cento dos leitores eram contrários ao meu tema. Afinal, um cronista não pode esperar sempre uma atitude favorável à sua tese. Um universo sempre unânime seria até monótono.

O fato que me desapontou, porém, foi a acusação de duas missivas de “parcialidade de minha parte”, originada de uma preferência por outros clubes.

Devo renovar nesta oportunidade a afirmação feita com freqüência nesta coluna que a imprensa, nos meus primeiros anos de jornalismo, tinha a obrigação de ser absolutamente neutra. Um profissional da comunicação esportiva nunca poderia ser torcedor de um clube, pois, nesse caso seus comentários seriam “parciais” e tendenciosos.

Apesar desta minha convicção, um leitor me caracterizou como anti-corintiano. Eu relevei sua injustiça e voltei-me para uma parede de minha sala de trabalho, e contemplei um quadro emoldurado, um diploma recebido em julho de 1979, no qual a principal torcida uniformizada do Corinthians e do país agradecia um apoio dado durante uma década de sua existência (quadro que ilustra esta matéria). Ele responde aos dois leitores que foram injustos para com o titular desta coluna.

Com este esclarecimento, avisamos que não voltaremos ao assunto.

A HISTÓRIA DAS UNIFORMIZADAS

As torcidas uniformizadas apareceram no futebol paulista no final da década de 30 e no início dos anos 40.

A pioneira foi a do São Paulo FC, quando após o encerramento das atividades do clube na Chácara Floresta, o Tricolor foi re-fundado.

Faziam parte do grupo, que torcia com uniformes das cores do clube, figuras como Porfírio da Paz (alta patente do Exército Brasileiro e mais tarde governador do Estado), Manoel Raimundo Paes de Almeida, que também veio a presidir o clube, e outras importantes personalidades da sociedade e do mundo dos negócios.

Esta torcida instituiu o seu grito de guerra que começava assim:

“Uaique paique

Cheque uaique”

A torcida do Corinthians começou com os “Gaviões da Fiel”. A sua fundação é lastreada em uma história muito bonita.

O clube do Parque São Jorge, após grandes glórias do passado, passou 23 anos sem conquistar nenhum título.

Apesar de todo este insucesso, a torcida sempre aplaudiu o clube, prestigiando sem críticas o time e seus jogadores. Os adeptos de outras agremiações chamavam os torcedores corintianos de “sofredores”. Esta solidariedade fora do comum ao alvinegro valeu-lhe o nome de “Fiel”. Ela estava sempre ao lado do clube, sem agredir a diretoria ou os adversários.

Este núcleo mais devotado fundou, em 1969, a torcida “Gaviões da Fiel” que, com o decorrer dos anos, conseguiu sede própria e até desfilar no grupo principal do Carnaval de São Paulo.

Com o passar do tempo outros clubes criaram também suas torcidas uniformizadas, algumas tranqüilas, outras lastimavelmente caracterizadas pela agressividade. Muitas delas criando problemas e dificuldades para a diretoria do próprio clube.

Se fôssemos fazer um estudo pormenorizado das razões desta agressividade obteríamos conteúdo para um longo compêndio de psicologia ou sociologia.

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

O judiciário brasileiro conquistou uma excelente imagem junto à população consciente de nosso país, principalmente após a pendência do “Mensalão”, amplamente divulgada pelos veículos de comunicação.

Em caso ocorrido recentemente, também com grande repercussão no âmbito do futebol, o índice de aprovação daquele poder da República não foi o mesmo. A decisão de um juiz que concedeu liminar a quatro torcedores do Corinthians para assistir ao jogo do seu clube contra o Milionários, da Bolívia, não condiz, na minha opinião, com o prestígio que a magistratura havia obtido após a decisão do STF.

O clube do Parque São Jorge fora punido pela Conmebol com a pena de jogar sem apoio dos seus torcedores naquela importante pelega classificatória da Copa Libertadores da América. Foi uma rigorosa medida punitiva, com a qual concordou a opinião pública e muitos torcedores do próprio Corinthians. A morte de um jovem boliviano, provocada por um sinalizador lançado de má fé por um membro de um grupo de torcedores, é um crime que deve ser punido de maneira coletiva.

É mais que conhecida a agressividade das torcidas uniformizadas de todos os clubes em diversos países do mundo, entre as quais destaca-se a corinthiana.

Como sucede no ambiente político, nenhum órgão brasileiro teve até hoje coragem de enfrentar de forma tão radical a ilicitude de um destes grupos, demonstrando que a impunidade é escudo para os crimes que se verificam nos estádios ou ao redor deles, e mesmo em todo o país.

Um juiz de direito, ao aprovar a exceção da punição a quatro torcedores, estava votando contra um ato efetivo para conter a voracidade agressiva e criminosa de algumas turbas que transformam os estádios em local perigoso.

Este assunto é muito polêmico, mas o autor destas linhas, com seis décadas de militância na crônica esportiva, afeiçoado ao Esporte com E maiúsculo, que tem o Fair Play em sua essência, não poderia deixar de se manifestar contra um despacho que não ajuda a disciplina, a ética e a propagação de um esporte decente.

Recentemente, em companhia de Luciano do Vale e de Lucas Neto, fomos homenageados pela ACEESP por sermos os mais antigos cronistas esportivos da atualidade. Creio que pessoalmente sou o que conta com maior tempo atuando na profissão, pois minha primeira matéria como jornalista sindicalizado foi em 15 de março de 1946, duas semanas antes de eu completar 20 anos de idade.

Este tempo de militância não pode deixar de constituir um diferencial na avaliação de como os veículos de comunicação abordam os fatos da atualidade.

Em alguns casos, como, por exemplo, o episódio do “Mensalão” e na brilhante conduta do Supremo Tribunal Federal, a imprensa e os órgãos eletrônicos encheram de orgulho todos os brasileiros que viram nos nossos principais veículos de comunicação um baluarte na defesa da moral pública.

Em outras circunstâncias, porém, estes fatos edificantes não ocorrem e temos a lamentar interpretações que fogem à ética ou tendem a consolidar um pessimismo endêmico, que preferem interpretações negativas de fatos que poderiam ser considerados positivos. Parece até que alguns colegas têm acanhamento em elogiar ou aplaudir, temendo serem alcunhados de “chapa branca”.

Dois casos divulgados no final da semana passada são exemplos práticos do que queremos afirmar.

Caso 1 – A “esperteza de Ronaldinho Gaúcho”

Muitos jornalistas chegaram a elogiar e até a louvar a “esperteza” de Ronaldinho Gaúcho, ao pedir a Rogério Ceni água para beber e ficar em posição privilegiada, que resultou no gol decisivo do Atlético Mineiro, no confronto pela Libertadores da América.

O capitão do São Paulo, como cavalheiro que é, jamais negaria água a quem tem sede, demonstrando fidalguia no seu gesto.

Aproveitar-se da nobre atitude é uma demonstração de baixeza, que não condiz com as normas éticas de um Esporte com E maiúsculo e caracterizado por gestos de “Fair Play”.

Por mais dinheiro que corra colateralmente ao futebol, uma competição desta modalidade esportiva (e também em outras) deve ser sempre vista pelo lado da decência, do cavalheirismo e do Fair Play, desde que este jogo passou a ser disputado na Inglaterra no início do século XIX.

Caracterizar Ronaldinho como um ”gênio da esperteza” foi um erro de muitos colegas. Na realidade, ele foi um infrator do código moral inerente ao Esporte. Não poderia ter sido elogiado nunca!

Caso 2 – Um hino ao pessimismo

Lemos no principal veículo do país o título: “Libertadores deve esvaziar os clássicos”, um hino ao pessimismo, achando que o certame das Américas iria tirar o interesse do Paulistão. Estava naquela manchete o prenúncio de um campeonato negro, sem sucesso.

Se o objetivo dos jornalistas fosse enfatizar a importância da Libertadores, bastaria louvar o êxito dos brasileiros no evento da América Latina, estimulando-os a chegar às finais. Era completamente desnecessária a tentativa de menosprezar o Paulistão.

Ao que parece, o castigo veio a cavalo: dois dias após o vaticínio infeliz, os clássicos da rodada, longe de esvaziados, davam um exemplo de soberba vitalidade: o Pacaembu, com o encontro entre Corinthians e Palmeiras, e o Estádio Moisés Lucarelli, com a partida da Ponte Preta contra o Santos, estavam abarrotados. O prestígio do Campeonato Paulista, iniciado em 1902, continuava de pé.

Se a volúpia é denegrir, que se aproveite esta valorização ao negativo endereçando a crítica para as áreas que estão merecendo a delação dos meios de comunicação, como o atraso e o superfaturamento das obras da Copa, a imoralidade das “caixinhas” a dirigentes esportivos. Acompanhem a conduta da ética e da economia do COB e da CBF.

A imprensa esportiva poderia seguir o exemplo de muitos veículos no caso do “Mensalão”, levando grande parte da sociedade a reavaliar seus valores e conceitos sobre nossas instituições esportivas.

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Lemos há dias em um órgão de comunicação que a nova direção do Palmeiras, premida pela má fase que o clube atravessa, teria ordenado ao atual responsável pela administração alviverde o encaminhamento para a equipe profissional de futebol dos recursos destinados a outros departamentos e atividades daquela agremiação.

Isto chocou muito a mim, que há seis décadas luto a favor da expansão do esporte (com E maiúsculo) na escala de valores de todos os brasileiros. Deve ter chocado  também o próprio executor do plano – Brunoro – que já teve uma carreira brilhante no voleibol e ainda hoje é referência naquela modalidade esportiva.

A ordem da atual diretoria é lamentável. É transformar um CLUBE em TIME.

Um clube é uma instituição de caráter permanente que atende uma coletividade. Proporciona atividade esportiva diversificada a milhares de associados, atividade esta que pode ser de caráter competitivo, ou apenas visando à saúde e à recreação de quem pratica.

Fora do futebol o Palmeiras tem uma bela história. Pode-se dizer que foi um verdadeiro símbolo do basquetebol paulista; seus atletas já brilharam na São Silvestre do passado e nas competições da FPA.

Nos grandiosos jogos Panamericanos, realizados em São Paulo em 1963, a Sociedade Esportiva Palmeiras chegou a sediar em sua piscina as competições de Pólo-Aquático e de Saltos Ornamentais. O ícone desta modalidade, Sammy Lee, já saltou nos trampolins e plataformas alviverdes quando já era campeão olímpico e mundial.

Os destaques que citamos são apenas um pingo d´água dentro de todas as glórias palmeirenses fora dos campos de futebol.

O time é efêmero. Ele desperta paixões muitas vezes irracionais no calor de uma partida, mas tempo depois os triunfos apenas alimentam estatísticas. O time é apenas um grupo de jogadores.

É verdade que, neste momento, circunstâncias negativas chegam a pressionar a diretoria. Torcedores fanáticos não dão trégua.

Esperamos que o temor ao fanatismo não venha causar o desmantelamento do que existe de mais bonito, concreto e histórico na estrutura do alviverde.

O leitor que acompanha nossa coluna é testemunha de meu otimismo sobre o impulso de desenvolvimento que o Brasil poderia ter em decorrência de uma série de mega eventos que o país sediará nesta década, entre os quais a Copa das Confederações, o Mundial de Futebol, os Jogos Olímpicos e vários certames internacionais de diversas modalidades, além do Encontro Mundial da Juventude de fundamentação religiosa, com a presença do Papa Bento XVI.

O conjunto destas realizações vai expor o nosso país ao mundo. Se esses eventos obtiverem êxito, criarão a imagem do Brasil como uma nação madura e responsável. Isto corresponderia à nossa porta de entrada no primeiro mundo.

Este “up grade” nos propiciaria um resultado econômico muito grande, resultante da projeção do turismo e de outras atividades que levantariam a auto-estima do país, criando um desejável reconhecimento internacional. Chegamos até a admitir como possível a ocorrência da consolidação do sentimento de um patriotismo coletivo nacional, principalmente pela adesão da parte mais consciente da população. Se esse sentimento fosse também partilhado pela maioria das pessoas que detêm postos de comando governamental esportivo, estaríamos repelindo a corrupção e a negligência que são os fatores mais preocupantes. Seriam aproveitados em obras e serviços todos os recursos e da iniciativa privada. Não seria desperdiçado nenhum tostão. Os orçamentos municipal, estadual e federal seriam preservados para a saúde, os transportes, a segurança e a infra-estrutura condizente com um país de primeiro mundo.

Entretanto, a renúncia aos males endêmicos da corrupção e da negligência não aconteceu e os otimistas foram chamados à triste realidade. A grande maioria dos estádios para a Copa das Confederações está entre atrasada ou atrasadíssima.  Os orçamentos de muitas arenas, como ocorreu com os Jogos Pan-americanos, já dobraram suas estimativas e caminham, no mínimo, para custar quatro, cinco ou seis vezes mais do que a previsão inicial. As negligências ocorridas em 2012 foram tantas que o secretário geral da FIFA, em cada entrevista, dava um puxão de orelhas em nossos dirigentes. Ele chegou a dizer que “o Brasil precisa de um pontapé no traseiro”, declaração fartamente repetida na mídia mundial.

Apesar dos esforços do Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, os jornais andam repletos de notícias de estarrecer, sobre assaltos, agressões e até homicídios contra turistas, naturalmente repetidas pelos jornais dos cinco continentes.

A negligência do servidor estatal e autárquico também nos leva a terríveis conseqüências. Há uma convicção generalizada entre os servidores públicos de que devolver com trabalho honesto e com dedicação o estipêndio recebido do erário é ser tolo. O objetivo é sempre trabalhar menos horas e estar permanentemente lutando por maiores salários e outras vantagens em forma de benesses. Desta atitude resulta o déficit do tesouro público e a falta de recursos para ações mais importantes. A safra de grãos a ser vendida no exterior recebe um acréscimo no custo de 33%, somente pelas condições das estradas situadas entre as fontes produtoras de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás e os portos de exportação.

O recorde desta desmoralização internacional resultante da negligência nacional veio com a terrível catástrofe ocorrida em Santa Maria. As referências dos órgãos de comunicação dos países de todo o planeta Terra levaram-nos a lembrar da “Geni”, da conhecida música de Chico Buarque de Holanda. “Joga m… na Geni” era o refrão. Para os que não estiverem convictos do que estamos dizendo, confiram algumas opiniões emitidas pelos mais famosos veículos de informação do mundo.

O Estadão de ontem noticiou que os meios de comunicação estrangeiros afirmam que a tragédia da cidade gaúcha é incompatível com os anseios de um país que quer ter um novo status mundial. O “Financial Times” chegou a ironizar até o lema da nossa bandeira, chamando-a de “Idiotia e Progresso”, e afirmou que a nova crise chega a ameaçar até a estabilidade do governo da presidente Dilma.

Outros jornais dizem que o Brasil precisa de menos samba e mais sobriedade. O “Financial Times” voltou a dizer: “Para um país que cresce em termos econômicos e está se preparando para mostrar seus progressos com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a lista de erros e fracassos que levou ao incêndio de sábado promove a pior publicidade”, confirmando a nossa tese. A Revista Time comentou que o incêndio matou principalmente os jovens que se preparavam para ajudar o Brasil a se transformar em um país desenvolvido.

A BBC, por sua vez, diz que o incêndio “mancha” a imagem do Brasil, justamente a 500 dias da inauguração do Mundial e o suíço Le Matin levantou o apavorante tema da segurança no Brasil durante a realização dos mega eventos.

O Brasil, como se viu, encontrou em Santa Maria o efeito exatamente oposto ao de sua meta de elevação do reconhecimento internacional.

O desastre pode se transformar numa vitória contra a negligência e a corrupção se obtiver um grande triunfo sobre a impunidade. Na hora que os donos da boate Kiss e os funcionários públicos que permitiram seu funcionamento irregular forem para a cadeia, todos os outros estabelecimentos em situação análoga pensarão duas vezes antes de quererem dar um “jeitinho” para funcionar fora da lei.

O mesmo podemos dizer do mensalão. Na hora em que os indiciados pelo STF forem efetivamente para a cadeia e nenhum político ou advogado vier a quebrar o galho, os bandidos da política perderão a sua chance de corromper o país e o Brasil poderá progredir como deveria e competir com as potências européias e, porque não dizer, os Estados Unidos!

A Prefeitura de Peruíbe instalou um palanque no Balneário Oasis, bem em frente a uma casa que eu tenho naquela cidade. Essa instalação serve, em horas programadas, como palco para sessões de ginástica ministradas por professores competentes aos banhistas de uma das praias mais movimentadas daquela estância balneária.

É impressionante ver a receptividade deste programa e como os freqüentadores, em sua grande maioria, se dedicam aos exercícios acompanhando os guias ao ritmo de uma música muito animada.

Este palanque, para mim, é um símbolo de uma mudança radical da nova administração municipal. Uma atividade altamente salutar passou a ocupar um espaço que anteriormente se caracterizava por manifestações de uma camada jovem identificada com outros valores. Prevaleciam naquele local alto-falantes com música atordoante, sem melodia e somente ritmo, instalados em bagageiros de carros particulares. Aproveitando o som, jovens rebolavam de forma muito pouco comportada, exibindo alguns gestos que sugeriam uma relação sexual.

Fiquei feliz em contemplar esta salutar alteração de valores e gostaria que os dirigentes do município ampliassem o número destes palanques por outras praias de frequência mais densa. Muita gente vai se beneficiar deste instrumento saudável de caráter massivo. Até os que não entrarem na ginástica poderão assistir a um espetáculo bonito, ao visualizar a harmonia do conjunto daqueles que aderiram ao exercício.

Estão de parabéns a Prefeita Ana Preto, Nelson Gonçalves Pinto, o vice-prefeito, e Aline Gomes, Secretária Municipal de Esportes, por esta ação revolucionária (creio que inédita) em todo o litoral paulista. Como esportista praticante, militante do karatê, Aline tem consciência da alta importância do valor da atividade que começa a ser desenvolvida.